Barry Larkin: “Misturamos estilo japonês e americano. Isso é uma vantagem”

Técnico fala sobre chances do Brasil no WBC, e o que o levou a treinar a seleção do País

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Barry Larkin na ESPN (Foto: Reprodução/Facebook)
Barry Larkin trabalha como comentarista na ESPN americana (Foto: Reprodução/Facebook)

A novela “Avenida Brasil” teve uma das maiores audiências da Globo nos últimos anos, e se notabilizou entre o público do esporte pela existência de um núcleo futebolístico, com direito a jogador, ex-jogador e maria-chuteira. Pois, no mundo real, o esporte que teve influência, ainda que indireta, da novela foi o beisebol. A cantora adolescente CymcoLé Larkin teve uma música incluída na trilha sonora e estreitou seus laços com o Brasil, o que serviu de impulso final para que seu pai, Barry, membro do Hall da Fama do beisebol americano, se oferecesse para treinar o Brasil.

O próprio Barry contou a história em entrevista exclusiva ao ExtraTime, concedida durante a preparação da seleção brasileira para as Eliminatórias do World Baseball Classic (Mundial profissional da modalidade), que começam nesta quinta no Panamá. Ele já tinha boas relação com o Brasil, e o fato de poder participar desse momento da carreira da filha o ajudou a decidir treinar a seleção.

Larkin já aprendeu algumas palavras em português, mas só o suficiente para cumprimentar as pessoas e dar orientações muito pontuais. Para o resto, ainda precisa recorrer ao inglês ou a seu espanhol. Ele admite que é um fator de preocupação. “Quando houver uma mudança de arremessador, o treinador de arremessadores que irá ao montinho simplesmente porque talvez eu posso acabar não dizendo exatamente o que eu acho”, comentou.

Mas a mistura de culturas não é apenas um obstáculo. Pode ser a solução. Por ter um beisebol de raiz japonesa, o Brasil conta com vários jogadores de estilo muito diferente do praticado por Panamá, Colômbia e Nicarágua, os adversários do quadrangular eliminatório. Isso permite ao time usar estratégias próprias, que os oponentes talvez tenham dificuldade de anular.

Na conversa, além de falar sobre sua relação com o Brasil e as chances do time no WBC, ele também comentou o momento da MLB, do domínio dos arremessadores nas últimas temporadas ao novo formato de playoffs, passando pela passagem desastrada de Bobby Valentine, seu ex-colega da ESPN, pelo Boston Red Sox.

De onde veio a ideia de treinar o Brasil?

Nos últimos dois anos, eu estive aqui para uma clínica de beisebol ligada à MLB, para que eu pudesse passar minha experiência aos jogadores. Quando estive aqui, encontrei muito entusiasmo e interagi bastante não apenas com o pessoal do beisebol, mas também com as pessoas em geral. Achei o relacionamento bem legal, e ficou melhor já na segunda vez. Além disso, minha filha [Cymber “CymcoLé” Larkin, 15 anos] é a cantora da música “Bring on the Nite” [clique aqui para ver o vídeo], que fez muito sucesso por estar na trilha sonora da novela Avenida Brasil. Então, aumentou ainda mais a minha motivação para voltar aqui. Havia um relacionamento óbvio com a comunidade do beisebol e minha filha queria vir para se aproximar mais de seus fãs. Ela disse que já fez muitos amigos brasileiros e que até quer aprender a falar português. Então eu voltei.

NR.: o ExtraTime procurou Jorge Otsuka, presidente da Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol, para ouvir a versão sobre a entrada de Larkin na seleção. Segundo o dirigente, o ex-jogador teria se oferecido para treinar o Brasil no WBC durante uma reunião para definir detalhes da organização do torneio. Ele não receberia salário.

Como é a experiência de treinar um time pela primeira vez?

Tem sido bom, mas claro que há um grande desafio, porque eu não falo português. Falo espanhol e a maioria entende espanhol, mas é diferente. Então, há uma questão de comunicação. Muitas coisas que eu quero dizer aos arremessadores durante um jogo são difíceis, porque eu não tenho tempo para usar um tradutor e preciso dizer exatamente o que eu acho, o que eu sinto. Por isso, quando houver uma mudança de arremessador, o treinador de arremessadores que irá ao montinho  simplesmente porque talvez eu posso acabar não dizendo exatamente o que eu acho.

Mas isso acontece mesmo com os jogadores que atuam nos Estados Unidos?

Hoje de manhã, o Kesley Kondo [arremessador que atua no time da Universidade de Utah] foi meu tradutor, foi mais fácil. Porém, numa situação de jogo, eles não permitem outro jogador ir ao montinho junto com o técnico. Então, temos de nos adaptar a isso. Implementamos algumas idéias, os treinadores entenderam e passaram aos jogadores, que as estão executando bem. Eu realmente gosto do nosso time, acho boas as nossas chances, gosto do foco do grupo, a atitude tem sido ótima e temos uma comissão técnica com experiência e energia.

O Brasil é um país latino-americano, mas não é um país de beisebol latino-americano. Nosso beisebol é basicamente japonês, com alguns elementos americanos. Você consegue definir qual seria o estilo brasileiro de jogar beisebol?

A beleza do beisebol é que não existe apenas um jeito de fazer as coisas, e eu disse isso aos rapazes. Qual é melhor, certo ou errado: o estilo japonês tradicional ou o americano? Tudo é certo, desde que façamos dentro do objetivo que temos. Há diferenças em estilos, mas ainda tempos de conseguir as 27 eliminações e temos 3 strikes e 4 bolas para cada uma delas. O básico não muda.

Barry Larkin - Cincinnati Reds (Foto: Reprodução/Facebook)
Larkin e o Cincinnati Reds, time que defendeu a carreira inteira (Foto: Reprodução/Facebook)

Como misturar essas duas culturas diferentes?

Temos de assegurar que todos se comuniquem e entendam como cada um se sente mais confortável. A comissão técnica tem de falar com o time e encontrar o jeito que os jogadores querem fazer as coisas, e não o jeito que a gente acha que deveria ser feito. Essa parte da comunicação tem sido muito boa e os atletas com influência japonesa não têm se sentido pressionados a mudar seu estilo. Seria interessante para você perguntar para alguns jogadores que atuam no Japão o que eles acham disso. Do meu ponto de vista, acho que a mistura foi muito boa pelo pouco tempo de treino.

NR.: a reportagem conversou com três arremessadores que atuam no Japão: Carlos Yoshimura, Oscar Nakaoshi e Hugo Kanabushi. Todos discordaram de Larkin de que a comunicação entre técnico e jogadores possa se tornar um problema. Segundo eles, as orientações têm sido claras e o treinador estaria sendo apenas supercauteloso. Mas concordam sobre a diferença entre estratégia de arremesso no Japão e nas Américas. Segundo o trio, Panamá, Colômbia e Nicarágua devem apresentar rebatedores de muita potência e não vale a pena tentar muitas bolas rápidas se elas não forem realmente rápidas. Os arremessadores que atuam no Japão devem usar mais bolas de efeito.

Como esses dois estilos diferentes podem ser usados como vantagens contra times bem latino-americanos?

O estilo de arremessar do Japão é diferente do americano e isso pode quebrar o ritmo dos rebatedores. Pode ser um fator a nosso favor. Eu lembro quando eu tinha de encarar um arremessador do Japão, da Coreia do Sul ou de algum outro país com influência japonesa. Eles colocam a bola em jogo de forma diferente, isso quebrava meu ritmo. Era um fator negativo para mim. Então, isso pode afetar os nossos adversários. Mas isso não pode afetar a nós e quebrar o nosso ritmo também.

Quais suas expectativas para o Brasil?

Para vencer qualquer partida, um time precisa jogar, minimizar seus erros e executar um plano de jogo. Minha esperança é que façamos isso, joguemos um beisebol simples e fluido e cometamos poucos erros físicos. Erros mentais são nosso maior foco agora. A parte mental é cerca de 50% de um jogo e precisamos jogar de forma consistente, executando bem nossa estratégia. E nós temos, definitivamente, uma estratégia. Se fizermos isso, estaremos bem no torneio.

NR: Larkin não se aprofundou para explicar qual seria a estratégia, mas Tiago Caldeira, técnico de arremessadores da seleção, deu pistas mais claras: “O estilo asiático é mais curto, com toques, com velocidade. É ruim para o adversário jogar contra uma equipe assim. Pelo menos motivo, muita gente não gosta de jogar contra o Japão porque eles têm bastante jogadores rápidos, sabem tocar a bola. Essa é uma característica boa da nossa equipe. Como é um campeonato curto, precisa ser jogado assim.”

O que você sabe de Colômbia, Nicarágua e Panamá?

Sei que são países mais tradicionais. Sei que têm jogadores da MLB no elenco. Também sei que são humanos, que podem cometer erros e podem ser derrotados. Então, respeito todos eles, mas nós vamos focar nas coisas que nós fazemos bem e, espero, estejamos na frente ao final das nove entradas.

Você apontaria algum destaque na seleção brasileira?

Eu realmente não gosto de apontar um jogador em particular porque todos os jogadores no elenco têm um papel e uma contribuição a dar. Temos jogadores com experiência, temos jovens, temos potência, temos rapazes que podem colocar a bola em jogo, temos velocidade. Uma bela mistura.

Uma grande diferença no beisebol brasileiro entre fevereiro, quando você esteve aqui para a clínica da MLB, e agora é que tivemos o primeiro jogador na Major League. Sentiu alguma diferença na motivação do pessoal?

Sempre que há um acontecimento como esse, deveria ter um grande interesse da mídia e do público. Como o futebol é um esporte enorme aqui, que ofusca todo o resto, acho que a estreia do Yan não teve a atenção que deveria. Mas eu entendo. Minha esperança é que isso se torne uma inspiração para os jovens terem o beisebol como opção real, e não apenas o futebol. Pretendo trazer para cá um programa de desenvolvimento, baseado em um jogo bastante divertido para crianças, barato e que se assemelha ao beisebol. Isso pode ser um caminho para a entrada de mais garotos e garotas nesse esporte por aqui.

NR.: A estreia de Yan foi um marco para o beisebol brasileiro, mas sua presença na seleção exigiu cuidados especiais. O jogador só se uniu ao grupo na semana final de treinos, no Panamá, e, como catcher titular, ele terá de se entrosar rapidamente com os arremessadores. E ainda definir estratégias para colegas de origem americana e japonesa. “É uma coisa que venho pensando há algum tempo. Já venho falando com o Yan por e-mail e ele quer fazer o que for possível para entrar bem. Vamos ter de conversar muito para que ele se entrose rápido”, comentou Caldeira.

Falando um pouco da temporada passada, o que você achou do novo formato dos playoffs?

Não gostei nesse ano. A vantagem do mando de campo não foi real. O time precisa começar e encerrar a série em casa para ser uma vantagem. Mas foi uma questão pontual, para acomodar no calendário. Já vai mudar ano que vem.

E o wildcard extra?

Foi excelente para o esporte. Ele deu a muito mais times a oportunidade de sonhar com a classificação e fez muito mais torcedores irem aos estádios até as últimas semanas da temporada. Se não houvesse essa vaga, cinco ou seis times que estava a três jogos do segundo wildcard em setembro teriam sido eliminados antes. Os jogadores estariam jogando diante de 17 mil pessoas, não 40 mil.

Ano que vem, teremos um confronto interligas todo dia, isso por causa de um time que estava na sua divisão da época de jogador. Não vai ser estranho?

Será interessante ver. Será diferente para os jogadores da Liga Americana terem de viajar para Houston. E, quando penso nos Astros, nunca visualizo a Liga Americana. Mas ter 15 times em cada liga equilibra mais o calendário de cada time e os jogadores receberão bem esse aspecto.

Houve domínio dos arremessadores nas últimas três temporadas. É uma tendência?

O beisebol é cíclico. As coisas acontecem, os jogadores se adaptam, adaptações são feitas a essas adaptações… Claro que o fato de não ter mais doping, não do jeito que havia, tem um papel nessa queda dos rebatedores. Mas acho que os arremessadores melhoraram. Eles estão melhores e mais fortes. Estão arremessando mais forte, aparecem com diferentes efeitos, arremessos com movimentos misturados, bolas que cortam, que somem na parte externa, os caras têm funções cada vez mais específicas, são mais especializados. Devo dizer que estou feliz por não ter de enfrentá-los. Fico feliz de não ter de encarar Justin Verlander, caras que saem do bullpen como o Sergio Romo. Embora ele não arremesse muito forte, aquele slider dele é absurdo. Absurdo! O movimento da bola é absurdo! E Aroldis Chapman…

O Chapman seria seu companheiro nos Reds.

[risos] É verdade. Mas, como um todo, eu apenas sinto que o esporte está melhor. Os arremessadores se adaptarão a esse domínio dos arremessadores, esse é o caminho natural para a evolução técnica do esporte.

Você foi colega do Bobby Valentine na ESPN. Como comentarista de beisebol e como ex-colega de trabalho, você imaginava que a passagem dele pelos Red Sox seria um fracasso tão grande? E o que é mais fácil para você: jogar, comentar ou treinar?

Bem, jogar não é fácil, mas você precisa se preocupar apenas com uma coisa. Você tem muito controle da situação quando é jogador. Como comentarista, tem de reagir ao que acontece. Como técnico, precisa implementar ideias na expectativa que os jogadores consigam executá-las. Bem, eu posso controlar a mim mesmo e, por isso, jogar acho que era a coisa mais fácil. Comentar é a segunda mais fácil, porque só reajo ao que acontece em campo, mas você precisa estar prestando atenção a várias coisas que ocorrem ao mesmo tempo no campo. Gosto de fazer todas essas coisas, mas ainda não estou preparado para treinar um time na MLB. São 162 jogos, viagens, pré-temporada, trabalho no mercado durante as férias…

E o Bobby Valentine?

Então, ele tem uma personalidade muito polarizadora. Alguns caras adoram ele, meu caso, outros odeiam. Acho que ele foi contratado pelo Boston porque queriam que alguém chacoalhasse as coisas por lá, e foi o que ele fez. A diretoria se desfez de jogadores de talento porque achou que precisava mudar. Para isso, precisavam de um técnico por um curto período de tempo para fazer o trabalho duro e sair. E essa pessoa foi o Bobby. Infelizmente, ele acabou levando a culpa por muita coisa que já estava errada por lá, mas é verdade que ele jogou lenha na fogueira em muitas coisas que ele fez.

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