[Legado] O Brasil virou um país turisticamente maior, mas ainda precisa criar uma política nacional na área

Visitantes conheceram a complexidade do Brasil e gostaram do que viram, e esse momento não pode ser desperdiçado

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Flashes, uma colagem de imagens aleatórias que não se juntam para formar um quadro completo. Assim era o Brasil para o mundo. Uma junção de praia, desfile de escola de samba, bundas, futebol, bossa nova e Floresta Amazônica. O que há entre uma e outra coisa fica a cargo da imaginação de cada um. O que o brasileiro come? O que é a arte brasileira? Como é a arquitetura de uma cidade brasileira? Como os brasileiros curtem um bar com os amigos? Que coisas diferentes dá para comprar no Brasil? E como é a balada? E os museus? E a religiosidade? E as diferenças regionais para tudo isso?

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Os ícones brasileiros são tão fortes que ofuscaram todo o resto durante décadas. E o próprio Brasil não se ajudava, usando e abusando de seus clichês para vender sua imagem. O resultado disso é um país desconhecido no geral, que tem um espaço na indústria mundial de turismo muito menor do que poderia. Em 2013, o Brasil recebeu pouco mais de 6 milhões de turistas estrangeiros. É o quarto país das Américas no ranking, mas muito distante dos 16,6 milhões do Canadá, o terceiro colocado (os dois primeiros são Estados Unidos e México). No global, o Brasil está atrás até do Vietnã.

Um fator claro para isso é a distância da América do Sul em relação aos países de onde partem a maioria dos turistas, Europa, América do Norte e Extremo Oriente. Outros fatores são a falta de infraestrutura adequada, sobretudo pela necessidade de voos até para trechos internos. No entanto, isso não explica como a África do Sul, que tem problemas parecidos, recebe 50% a mais de visitantes internacionais. O Brasil simplesmente não está na lista de prioridades nas férias de muitas pessoas.

Nisso a Copa do Mundo teve um papel importante. Estudos mostram que grandes eventos esportivos não têm um incremento tão alto no número de visitantes, pois muitos turistas torcedores chegam, mas muitos turistas convencionais deixam de vir. Mas isso vale para destinos já tradicionais, como Londres (Olimpíadas 2012), Alemanha (Copa 2006) ou Canadá (Olimpíadas de Inverno de 2010). Para o Brasil, um atrativo como o Mundial muda o cenário.

Segundo a Polícia Federal, o País recebeu 298 mil turistas estrangeiros em junho de 2013. Em junho de 2014, o número subiu para 691,9 mil, aumento de 132%. Com as chegadas de julho, o número de turistas estrangeiros da Copa 2014 passou de 1 milhão, segundo o ministério do Turismo. Segundo pesquisa do Datafolha realizada em seis cidades-sede da Copa, 61% dos 2,2 mil estrangeiros entrevistados estavam no Brasil pela primeira vez. Essas pessoas comeram comida brasileira, interagiram com brasileiros, viram a arquitetura das cidades brasileiras, visitaram igrejas e museus brasileiros, foram a baladas e bares brasileiros. Ou seja, juntaram os pedaços do quebra cabeça, preencheram o retrato do país que era composto apenas por recortes isolados.

Torcedores da Inglaterra cantam e dançam em barco em Manaus (Leandro Beguoci/Trivela)
Torcedores da Inglaterra cantam e dançam em barco em Manaus (Leandro Beguoci/Trivela)

O cenário completo foi positivo. Ainda segundo pesquisa do Datafolha, 95% dos visitantes consultados gostaram da hospitalidade, 84% gostaram das atrações turísticas, 82% da segurança, 76% do transporte aéreo e 69% do transporte urbano. Só o preço dos hotéis (32% aprovaram, 27% reprovaram, 26% acharam regular e 16% não sabiam dizer) e o custo de vida (29% aprovaram, 29% reprovaram, 32% acharam regular e 10% não sabiam responder) que precisam de recuperação ou conselho de classe para passar de ano. O brasileiro ficou bem na fita: simpático para 98%, receptivo para 95% e honesto para 84%. No final, 69% dos entrevistados disseram que gostariam de morar no Brasil.

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Isso é muito mais importante do que discutir se eram turistas holandeses cheios da grana ou mochileiros argentinos que ficaram dormindo em seus trailers. Entrou muito dinheiro, mas a maior parte do dinheiro do turismo da Copa não vem apenas nos gastos diretos, mas na propaganda. São quase 1 milhão de turistas voltando para seus países falando bem do Brasil, contando histórias positivas sobre o que fizeram por aqui. Isso cria mais interesse de seu círculo de relacionamento. Quem tem uma lojinha de bairro conhece bem esse conceito, o da “propaganda boca a boca”.

Por isso, são extremamente nocivas declarações como as de George Irmes, presidente da seção fluminense da Associação Brasileira de Agência de Viagens. “O que aconteceu no Terreirão é a coisa mais degradante. Aquelas barracas de R$ 10 das Lojas Americanas, e aqueles argentinos sentados nas cadeirinhas de R$ 5 da Magal… É chocante. Vou ser sincero com vocês. Sou agente de viagens há 50 anos e não quero turista assim. A Espanha proibiu a entrada desse tipo de turista, porque esses caras não gastam dinheiro. Fico triste por estarmos cercados de primos pobres”, comentou, referindo-se aos argentinos que vieram acampar no Rio de Janeiro para estar na cidade da final da Copa.

Os ônibus e caminhões precisam recarregar as energias, e são muitos cabos pelo chão (Foto: Felipe Lobo/Trivela)
Argentinos acampados em São Paulo. Os ônibus e caminhões precisam recarregar as energias, e são muitos cabos pelo chão (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Além de preconceituosa e elitista, a declaração é contraproducente para sua indústria. Os grandes destinos turísticos vivem de atrair visitantes das mais diversas classes sociais, pensamentos políticos, orientação sexual, faixas etárias e religião. O Brasil precisa se preparar em infraestrutura – e, pela declaração de Irmes, em mentalidade – para receber turistas de todos esses tipos.

Aí começa o grande desafio do turismo brasileiro. O boom do setor com a Copa vem por inércia, é algo que vem no pacote quando se organiza o torneio. A questão é manter a boa imagem deixada e fazer que as boas impressões de quem veio ao Brasil seja mantida e disseminada no futuro. Porque viajar é desejo. Todos têm uma lista de países que deseja conhecer (eu tenho a minha, você tem a sua) e poucos conseguem riscar todos os itens dessa relação até o fim da vida. O desafio é estar presente nessas listas, estar na cabeça das pessoas, fazer parte do imaginário delas. Nem todo mundo consegue realizar o sonho de ir a Paris, mas a capital francesa está na lista de desejos de tanta gente que algumas pessoas colocam esse plano em prática, o que é suficiente para torná-la a cidade mais visitada do mundo.

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A promoção turística brasileira precisa mudar. Já houve melhoras nos últimos anos, quando aumentaram as campanhas contra o turismo sexual. Mas não é esse o único problema. O Brasil ainda não sabe completamente o que é fazer turismo, nem sabe o que tem em suas mãos.

Visitei duas vezes Belo Horizonte no último ano. Em ambas, ouvi de vários mineiros o mesmíssimo comentário: “O que você veio fazer? Não tem nada para fazer em ‘Belzonte’”. A resposta foi sempre a mesma: “Tem mais do que você imagina. O problema é que vocês mineiros que não sabem vender o que têm”. A capital mineira tem culinária de primeira, vida noturna, cidades históricas e Gruta da Lapinha a um bate-volta de distância, obras de Oscar Niemeyer em torno da Pampulha, Inhotim e Parque Estadual Serra do Rola Moça. É atração suficiente para ocupar um turista de cinco dias a uma semana com tranquilidade. Mas é preciso mostrar isso, valorizar isso e, principalmente, facilitar o acesso a isso.

A mesma lógica vale para outras cidades. A vida cultural e cosmopolita de São Paulo, o urbanismo de Curitiba, as particularidades regionais de Porto Alegre, a música das capitais nordestinas (cada uma tem a sua), a gastronomia amazônica de Manaus. Em diversos momentos, a indústria do turismo no Brasil age como se um visitante se interessasse apenas por beleza natural, praia e, com boa vontade, um centro histórico com construções coloniais. O País tem muito mais a oferecer, e os estrangeiros só terão fascínio por essas coisas quando o próprio brasileiro tiver.

Entrar na cabeça das pessoas é difícil, e o Brasil conseguiu com a boa repercussão da Copa entre os turistas. Agora, é preciso manter esse embalo, para crescer ainda mais. Porque não adianta nada um mês de bonança se a indústria turística brasileira voltar ao patamar em que estava antes.

4 comentários em “[Legado] O Brasil virou um país turisticamente maior, mas ainda precisa criar uma política nacional na área”

  1. Muito bom, mesmo. Temos que receber todos bem. Dos caras que saem dirigindo um trailer do Chile ao Bilionário russo que vem curtir a região de Búzios.

  2. Mineiro não chama Belo Horizonte de ‘belzonte’ que preconceitozinho bem ‘inho’ mesmo e idiota. E a maioria das obras são para os q ficam e não para os q visitam q são residuais.O país ficou quase 14 de seculo sem crescer e sem investir em infraestrutura. Não fosse isso, tivesse o país tido uma vida econômica pelo menos perto do normal não precisaríamos nessa altura construir quase nada q é básico mas apenas fazer algumas reformas e melhorias. Quem escreve sobre esse tema se esquece desse ‘pequeno detalhe’ q foi o nosso passado economico tenebroso. Estávamos e estamos fazendo obras para a Copa mas tb ao mesmo tempo recuperando o tempo perdido de mais de 20 anos. O país cresceu 7,5% em 2010 e não retrocedeu O q era 100 passou a ser 107,5. Dezenas de milhões de pessoas hoje podem viajar de avião, antes era talvez só 20%. Hoje os aeroportos estão cheios e por uma boa razão mas no passado o de Confins ficou abandonado por decadas. Se tivessemos feito uma Copa na decada de 80 aquele aeroporto seria exclusivo dos turistas q viessem e a imprensa não teria nada para falar. Da mesma forma, cedo ou tarde vamos acabar por alcançar um equilibrio entre a demanda e a nossa capacidade de fazer infraestruturas.Alguns aeroportos do top 10 como o de Brasília, o de Natal (e em breve o de BH) entre outros já estão adaptados à nova quantidade de clientela

  3. Mineiro chama “Belo Horizonte” de “Belo Horizonte”, mas o sotaque mineiro faz soar como “belzonte” para um ouvido de quem não é paulista, apenas isso. Como dizer que curitibano fala “leitE quentE”, paulista fala “um chopps” e carioca fala “Vaxco”. É só uma reprodução do sotaque. Bom humor ajuda a tornar a vida melhor.

    Sobre toda a sua dissertação sobre nossa história econômica, releia o texto e veja comparações com ÁFRICA DO SUL e MÉXICO. Eles têm mais investimentos que a gente? Eles têm uma economia mais forte que a nossa? O México até tem a vantagem de estar no hemisfério norte, mas… e a África do Sul????

    Cada uma…

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