Os Jogos de Inverno de 2022 vão para Pequim, e o pesadelo do COI não acaba

Pior do que colocar a Olimpíada em um lugar em que não neva é saber que era a melhor opção

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O Comitê Olímpico Internacional deve estar ansioso para 2023 chegar logo. Porque os Jogos de Inverno de 2022 parecem um pesadelo do qual não se consegue acordar. Nesta sexta, foi realizada a eleição para a sede do evento. Venceu Pequim, o que é uma boa notícia. Mas, olhando as coisas com uma dose de pessimismo, o resultado da votação e o fato de a vitória da capital chinesa ser encarada com alívio também é ruim por si só.

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Os chineses têm condições de receber adequadamente os Jogos Olímpicos de Inverno, como fizeram com sucesso na Olimpíada de Verão de 2008 (aliás, será a primeira cidada a receber as duas versões do evento). A questão não é a organização ou o financiamento (ainda está jorrando dinheiro na China e, bem, um país de governo tão centralizado e poderoso não tem muitos problemas para aprovar a liberação da verba necessária para as obras), mas o fato de que neva pouco em Pequim. Ou seja, depois de ter de implorar a São Pedro para cair neve em Sochi, um resort de veraneio, para a edição 2014, o COI terá de repetir a dose daqui sete anos.

Para contornar esse problema, a candidatura pequinesa colocou na capital apenas os eventos indoor, como hóquei no gelo, curling, patinação de velocidade e patinação artística. Os eventos que dependem realmente do clima serão realizados em Zhangjiakou, a quase 200 km de distância.

Haverá reclamações, mas esse é o menor problema. O COI também terá de lidar com protestos da opinião pública pela escolha de um país com retrospecto ruim de respeito aos direitos humanos e com reclamação das TVs do Ocidente – sobretudo Estados Unidos – por colocar três eventos seguidos no Extremo Oriente (os Jogos de Inverno de 2018 serão em Pyeongchang, Coreia do Sul, e os de Verão de 2020 estão marcados para Tóquio, Japão), com fuso horário muito ruim.

Mas ruim mesmo para o comitê é ver que, apesar dos problemas, Pequim era a melhor opção com alguma folga. Os Jogos Olímpicos de Verão têm sofrido para provar que são viáveis e sustentáveis, mas tem seus defensores. Para as Olimpíadas de Inverno, essa causa é praticamente perdida pela dificuldade de absorver a infraestrutura necessária para todo o evento.

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Para as edição de 2022, Oslo (Noruega), Cracóvia (Polônia) e Estocolmo (Suécia) apresentaram pré-candidaturas, mas desistiram diante da projeção de custos e pela aceitação ruim por parte da opinião pública. Lviv pulou fora por causa da crise política de seu país, dividido entre ucranianos de origem ucraniana e os de origem russa. Sobraram apenas duas candidatas, Pequim e Almaty (Cazaquistão), capitais de países governados por ditaduras. Dessas duas, a China, apesar de várias ressalvas, é a opção mais viável e segura.

Ainda assim, o COI tem motivos para preocupação. Apesar de Pequim ter vencido, a votação terminou em 44 a 40, um resultado muito mais apertado do que seria de se imaginar. Por isso, é viável supor que as negociações políticas por parte dos cazaques tenha sido bastante agressiva, o que pode deixar alguns traumas dentro do comitê (como deixou na Fifa a vitória do Catar para a Copa do Mundo, também de 2022).

Agora que o processo eleitoral acabou, o Comitê Olímpico Internacional precisa rever seriamente o modelo para os Jogos de Inverno, diminuindo a exigência de investimentos, avaliar muito bem que tipo de conversa ocorreu durante o processo eleitoral e, principalmente, rezar para nevar bastante no norte da China.