Esse senhor é a prova de como a bomba atômica de Hiroshima foi também uma tragédia coreana

Isao Harimoto é um sobrevivente da bomba e o maior rebatedor do beisebol japonês, mas é coreano acima de tudo

Anúncios

“Eu nasci na cidade de Ozu, hoje parte do bairro de Minami, em Hiroshima. Foi perto da ponte Higashi Ohashi, ainda passando sobre o rio Enko, onde havia uma fila de casas onde os coreanos viviam. Nas minhas primeiras memórias, eu jogava às margens do rio. Um inverno, quando eu tinha quatro e estava assando batatas doces nas perto do rio, um caminhão de três rodas me acertou. Eu sofri queimaduras sérias na minha mão direita e meus dedos anular e mindinho ficaram colados. O motorista fugiu e meu tio, incapaz de reagir por conta própria, chamou a polícia. Meu eu ouvi quando o dispensaram, dizendo, ‘Vocês são coreanos’.

Quando a bomba explodiu, eu estava em uma casa em Danbara-shinmachi, cerca de 2,3 quilômetros do ponto da explosão. Houve um clarão e um enorme ruído. Em seguida, minha mãe estava se colocando de escudo para mim e minha irmã, três anos mais velha, com seu corpo, embora suas costas estivessem cobertas com sangue devido aos cacos de vidro que voavam. Ela nos disse para correr, em coreano, e fomos ao vinhedo. Mesmo hoje, 65 anos depois do bombardeio, eu ainda me lembro vivamente as pessoas lamentando e o cheiro estranho. Havia dezenas de pessoas no vinhedo. Quando eu tentei ver as pessoas que estavam gritando por água e pulando em um canal lá perto, minha mãe me impediu.

Minha irmã mais velha havia sido deslocada para um trabalho no monte Hijiyama ou proximidades. Meu irmão mais velho e outros foram procurá-la e a trouxeram de volta em uma maca. Ela tinha terríveis queimadoras, no seu rosto também. Eu estava em choque de ver um ser humano, a irmã que eu tanto admirava, transformada daquele jeito. Eu me lembro de dar uvas na sua boca. Eu não tenho ideia de quantos dias se passaram depois disso, mas um dia eu ouvi minha mãe chorando e sabia que minha irmã estava morta.”

Esse é o relato de Isao Harimoto (depoimento completo está aqui), nome japonês de Jang Hun, há cinco anos. Ele era um garoto de cinco anos que vivia em Hiroshima em 6 de agosto de 1945, dia da explosão da bomba atômica. Seu relato e seu trabalho como ativista serve para lembrar que a tragédia nuclear não atingiu apenas japoneses. Hiroshima tinha uma enorme comunidade coreana, entre pessoas que tentavam uma vida melhor fugido da pobreza e outras que haviam sido levadas ao Japão após terem seu país invadido. Dos mais de 400 mil atingidos direta ou indiretamente pelo ataque, cerca de 45 mil eram coreanos. Um grupo de vítimas que nem sempre teve o justo reconhecimento.

LEIA MAIS: Um velho estádio de beisebol, e a Hiroshima que procura um abrigo para os origamis

Após a guerra, cerca de 300 mil coreanos que viviam nas regiões de Hiroshima e Nagasaki voltaram para seu país. A família Harimoto ficou. Isao começou a jogar beisebol. Com os problemas na mão direita, ele aprendeu a fazer tudo com a mão esquerda. Mostrou-se incrivelmente talentoso em rebater a bola e, aos 19 anos, ganhou a oportunidade de se profissionalizar pelo Toei Flyers (atual Hokkaido Nippon-Ham Fighters), de Tóquio. Nenhum outro sobrevivente dos ataques a Hiroshima ou Nagasaki chegou à NPB, a principal liga do Japão.

Harimoto rapidamente se destacou. Foi eleito estreante do ano da Liga Pacífico (uma das duas que formam a NPB) em 1959. No ano seguinte, iniciou uma série de 11 temporadas seguidas sendo eleito para a seleção do campeonato. Em 1961, foi o campeão de aproveitamento no bastão, com 33,6%. Mais um ano e ele conquistou o prêmio de MVP da Liga Pacífico.

O início de carreira foi espetacular, mas o defensor externo não perdeu o embalo. Foi, ao lado de Sadaharu Oh, o grande nome do beisebol japonês nas décadas de 1960 e 70. Harimoto se aposentou em 1981, acumulando 3.085 rebatidas (recorde até hoje da NPB), 504 home runs (sétimo da história da liga) e um aproveitamento de 31,9%. Teve sete títulos de rebatidas e 18 idas ao All-Star Game. Foi eleito para o Hall da Fama em Tóquio em 1990 e, em 2000, ele foi eleito para a seleção de todos os tempos do beisebol japonês, formando um campo externo com Hideki Matsui e Ichiro Suzuki.

Isao Harimoto em ação pelo Yomiuri Giants
Isao Harimoto em ação pelo Yomiuri Giants

Apesar dessa carreira vitoriosa, Harimoto sofreu discriminação durante boa parte de sua carreira. Ele nunca escondeu o fato de se considerar um coreano e manteve sua cidadania sul-coreana até hoje, podendo entrar facilmente em qualquer debate sobre o maior jogador da história do beisebol da Coreia. Após encerrar a carreira, ele chegou a participar da cerimônia de abertura da primeira temporada da KBO.

Hoje, Harimoto é comentarista da TV japonesa e ativista em uma organização de hibakushas (nome em japonês dos sobreviventes dos ataques atômicos). Aos 75 anos, aproveita a fama que conquistou para alertar o mundo para a tragédia atômica. Uma tragédia ocorrida no Japão, mas que ele mesmo serve de prova que também vitimou muitos coreanos.