Saídas de Garnett, Kobe e Duncan serão sentidas, mas NBA nunca esteve tão preparada para isso

Há décadas liga não vivia uma fase tão prolífica em grandes estrelas

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Pessoas que acompanham o basquete, particularmente a NBA, há pelo menos duas décadas, devem estar insuportáveis. E não fique ofendido, eu estou nessa. Com o anúncio das aposentadorias de Kevin Garnett (imediata) e de Paul Pierce (que ainda atua mais uma temporada), a NBA perderá ao menos quatro referências que vêm desde o final dos anos 90: os dois, mais Kobe Bryant e Tim Duncan. Considerando que outras estrelas devem deixar as quadras em breve, como Dirk Nowitzki e, por questões de saúde, Chris Bosh, o cenário está pronto para vários trintões ou quarentões começarem a povoar as redes sociais com posts chorosos com o tema “estou ficando velho”.

O amigo Fábio Balassiano até falou em troca da guarda, comparando esse momento com o final dos anos 90, quando Michael Jordan, Hakeem Olajuwon, Karl Malone e Isiah Thomas deixaram a NBA. É uma boa comparação, mas o amante de basquete pode se contentar com uma coisa: a liga está muito mais preparada para perder esses ídolos hoje do que estava na época.

VEJA TAMBÉM: Tim Duncan nos fez lembrar o que é o talento puro, sem nada em torno dele

A transição de gerações da virada do século foi dura para a NBA. desde o final da década de 1970, a liga tinha como um de seus principais atrativos o show proporcionado pelas superestrelas. Isso explodiu na década de 1980, com o duelo do Los Angeles Lakers de Magic Johnson e Kareem Abdul-Jabbar com o Boston Celtics de Larry Bird redefinindo os rumos do basquete profissional em termos de popularidade e poderio econômico e midiático. Aquela geração teve Magic e Bird como referências, mas havia várias outras estrelas, algumas que começaram a surgir na segunda metade dos anos 80.

Isso se materializou em muitos dos marcos que temos da NBA até hoje. A reunião de talentos inigualável do Dream Team original. O All-Star Game de 1992 com Magic Johnson voltando às quadras e arrebentando. Os duelos envolvendo Lakers, Celtics, Detroit Pistons, Chicago Bulls, Portland Trail Blazers, Utah Jazz, Phoenix Suns, Indiana Pacers, New York Knicks… A internacionalização das marcas, a audiência da TV, a entrada definitiva da liga na cultura norte-americana.

O tempo passa e, uma a uma, as estrelas daquela turma foram pendurando o tênis: Magic Johnson, Larry Bird, Charles Barkley, Hakeem Olajuwon, Isiah Thomas, John Stockton, Karl Malone, Pat Ewing, Reggie Miller, David Robinson e Clide Drexler, entre outros. O problema é que a geração seguinte não conseguiu ter a mesma força.

Shaquille O’Neal ainda jogou junto com muitos dos craques acima e virou herdeiro como grande estrela e figura carismática. Kobe e Garnett também eram referências. Vince Carter surgiu como um furacão, mas não manteve o ritmo. Grant Hill teve vários problemas físicos. Tracy McGrady não atingiu o nível de estrelato que se esperava. Duncan sempre foi genial, mas sempre foi discreto. E, apesar de nunca faltar talento na liga, era nítida a queda de carisma geral.

O resultado se viu no bolso e na TV, ainda mais quando os Lakers entraram em uma fase de transição e as grandes forças do campeonato eram equipes com menos torcida. Quatro das cinco piores audiências da história das finais ocorreram entre 2003 e 07, quando as decisões tiveram San Antonio Spurs x New Jersey Nets, Detroit Pistons x Los Angeles Lakers (único duelo do período que não está na rabeira), Spurs x Pistons, Miami Heat x Dallas Mavericks e Spurs x Cleveland Cavaliers.

O crescimento da internet contribuiu para o aumento de ofertas de atrações e a queda de audiência, mas não dá para ignorar que faltava uma narrativa mais empolgante em muitas dessas finais, sobretudo considerando uma grande parcela do público uma partida importante (pessoas que não são tão fanáticas e só ligaram a TV porque ouviram falar que algo relevante vai acontecer). Outro sinal de que não é apenas uma mudança na mídia é que, a partir de 2008, a concorrência midiática pelo público se tornou ainda maior, mas a NBA cresceu. As duas últimas finais, alimentadas pela atração Curry x LeBron, tiveram as maiores audiências desde 1998.

Ainda que perder figuras do nível de Garnett, Kobe e Duncan seja um golpe duro a qualquer modalidade, o basquete de hoje está mais forte do que na virada do século. Já há um grupo de estrelas estabelecidas e que ainda ficarão bons anos na ativa, como LeBron James, Stephen Curry, Kevin Durant, Dwyane Wade, Russell Westbrook, Carmelo Anthony, Chris Paul, Tony Parker, Paul George e Derrick Rose. E a geração que sucederá essa turma também já desponta, com nomes como Kawhi Leonard, Damien Lillard e Anthony Davis.

Não à toa, o mais novo contrato de TV da liga tem uma alta acentuada de valores. Sinal de confiança da mídia de que o produto seguirá dos melhores. Mesmo sem Kobe Bryant, Kevin Garnett e Tim Duncan.

Encalhe do Riocard reforça nosso pedido por bilhete olímpico unitário

Bilhete único para uso durante os Jogos Olímpicos vendeu apenas 20% do esperado até esta terça

A notícia veio com um tom de preocupação, mas não de surpresa. Apenas 100 mil Riocards – o bilhete único para uso durante os Jogos Olímpicos – foram vendidos até esta terça (2), um quinto do estimado pela prefeitura do Rio de Janeiro. A procura certamente crescerá com o início das competições, mas deixa a dúvida se a meta de 1,5 milhão será atingida. Uma possibilidade que dava para imaginar pelos pacotes disponíveis.

Veja o artigo completo no Outra Cidade

Podemos colocar o final de Bulls x Timberwolves na Summer League como um dos melhores do ano

Lá e cá, cestas espetaculares e definição nos segundos finais. E depois de novo, no mesmo jogo

A Liga de Verão da NBA não tem a importância, o glamour e a qualidade da liga principal, mas cada vez mais ganha espaço como uma opção bastante interessante para o amante de basquete. O nível técnico é bom, analisar as promessas é sempre interessante e há espaço para um jogo bastante divertido. E o melhor exemplo disso foram os minutos finais da final da edição de 2016 de Las Vegas, entre Chicago Bulls e Minnesota Timberwolves. Sem medo de errar, foi um dos finais mais emocionantes da temporada.

O placar estava empatado quando os Wolves acertaram uma cesta do meio da rua a segundos do final. No entanto, Denzel Valentine conseguiu empatar com um arremesso espetacular a décimos do do alarme soar. Na prorrogação, os Bulls venciam, mas o Minnesota igualou com mais uma cesta do perímetro. Mas Valentine apareceu e, com uma jogada individual (com direito a finta desconcertante), deu o título ao Chicago.

Espetacular.

Já que prêmio de ícone do Espys podia ser dividido, não custava darem também a Jeff Gordon

Um dos maiores pilotos da história dos Estados Unidos merecia uma homenagem no ano de sua aposentadoria

Um dos maiores jogadores da história da NFL, fechou sua carreira conquistando o Super Bowl 50. Uma das maiores jogadoras de futebol da história, conquistou a Copa do Mundo feminina em seu último ano. Um dos maiores jogadores da história do basquete, fechou a carreira com uma partida de 60 pontos. Não há a menor dúvida que Peyton Manning, Abby Wambach e Kobe Bryant foram três dos grandes nomes que deixaram o esporte em 2015/16. Por isso, não há como contestar o fato de eles serem merecedores de um prêmio pelo que fizeram, como a edição de 2016 do Espys.

Era difícil decidir entre eles. Cada um, dentro de sua modalidade, foi vencedor e deixou sua marca, como Derek jeter, vencedor único de 2015. Dessa forma, a organização decidiu dar o prêmio aos três. Uma decisão compreensível, já que se trata de uma premiação honorífica e estabelecer uma competição entre quem foi mais espetacular entre grandes nomes acabaria indiretamente desvalorizando a trajetória dos derrotados.

Até aí, tudo certo. Mas, se era possível premiar mais de um atleta nessa categoria, faltou um nome: Jeff Gordon. O piloto encerrou a carreira na Sprint Cup em 2015 com quatro títulos, 93 vitórias (terceiro no ranking histórico) e três vitórias nas 500 Milhas de Daytona. É recordista de vitórias em superspeedways e em mistos, o que mostra sua versatilidade. Também sempre foi muito respeitado por torcedores e adversários. É um dos melhores da história do automobilismo americano.

Manning, Wambach e Bryant (no vídeo abaixo, o discurso deles em inglês) mereciam o prêmio de ícone. Mas, já que era possível entregar para três, podiam dar para quatro e incluir Gordon.

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Veja abaixo a lista completa de vencedores do Espys 2016:

Melhor desempenho de quebra de recorde: Stephen Curry (basquete/Golden State Warriors)
Melhor atleta revelação: Jake Arrieta (beisebol/Chicago Cubs)
Melhor jogada: Aaron Rodgers para Richard Rodgers (futebol americano/Green Bay Packers)
Melhor time: Cleveland Cavaliers (basquete)
Melhor atleta mulher: Breanna Stewart (basquete/UConn Huskies e Seattle Storm)
Melhor atleta homem: LeBron James (basquete/Cleveland Cavaliers)
Melhor desempenho de título: LeBron James (basquete/Cleveland Cavaliers)
Melhor jogo: Golden State Warriors x Cleveland Cavaliers, jogo 7 das finais da NBA (basquete)
Melhor jogador da NBA: LeBron James (Cleveland Cavaliers)
Melhor jogador da MLB: Bryce Harper (Washington Nationals)
Melhor atleta mulher de esporte de ação: Jamie Anderson (snowboard)
Melhor atleta homem de esporte de ação: Ryan Dungey (motocross)
Melhor jóquei: Mario Gutierrez
Melhor jogador de boliche: Jason Belmonte
Melhor atleta universitária: Breanna Stewart (basquete/UConn Huskies)
Melhor atleta mulher com deficiência: Tatyana McFadden (atletismo)
Melhor atleta homem com deficiência: Richard Browne (atletismo)
Maior zebra: Vitória de Holly Holm sobre Ronda Rousey (MMA)
Melhor técnico: Tyronn Lue (basquete/Cleveland Cavaliers)
Melhor atleta internacional: Cristiano Ronaldo (futebol/Real Madrid e Portugal)
Melhor lutador: Conor McGregor (MMA)
Melhor jogador da NFL: Cam Newton (Carolina Panthers)
Melhor jogador da NHL: Sidney Crosby (Pittsburgh Penguins)
Melhor jogadora da WNBA: Maya Moore (Minnesota Lynx)
Melhor atleta universitário: Buddy Hield (basquete/Oklahoma Sooners)
Melhor piloto: Kyle Busch (Nascar)
Melhor golfista homem: Jordan Spieth
Melhor golfista mulher: Lydia Ko
Melhor tenista homem: Novak Djokovic
Melhor tenista mulher: Serena Williams
Melhor jogador da MLS: Sebastian Giovinco (Toronto FC)
Prêmio Jimmy V de Perseverança: Craig Sager
Prêmio Arthur Ashe de Coragem: Zaevion Dobson
Prêmio Pat Tillman de Serviço militar: Sargento Elizabeth Marks
Melhor momento: Cleveland vence seu primeiro título em 52 anos
Melhor atleta que deu a volta por cima: Eric Berry (futebol americano/Kansas City Chiefs)
Prêmio de Ícone: Kobe Bryant (basquete/Los Angeles Lakers), Peyton Manning (futebol americano/Denver Broncos) e Abby Wambach (futebol/Estados Unidos)

Tim Duncan nos fez lembrar o que é o talento puro, sem nada em torno dele

Nada de recorrer a reinado, magia, animais perigosos ou patentes militares. O que fez do ala-ívô o maior jogador da história dos Spurs foi ser fundamental, fundamentalmente bom

“The King”. “Splash Brothers”. “Magic”. “Air”. “Black Mamba”. “Dr. J”. “O Almirante”. Todo ícone do basquete que se preze tem um apelido. Faz parte da cultura do jogo, da atitude que ele carrega, da imagem que ele passa ao público e aos adversários. Alcunhas que denotem força, imposição ou qualidade técnica são as preferidas, por razões óbvias. Mas Tim Duncan, possivelmente o melhor ala-pivô da história, era conhecido como “The Fundamental”. Convenhamos, ser chamado de “fundamental” não parece a coisa mais amedrontadora ou espetacular do mundo. Mas não podia ser mais perfeito para o craque do San Antonio Spurs que anunciou o fim de sua carreira nesta segunda.

Duncan era talento, e tudo o que podemos ver dele é esse talento. Para o bem ou para o mal, sua imagem não é acrescida de nenhum fator de marketing ou acontecimento extraquadra. Ele não anima a torcida com gestos ou danças durante o jogo, não é protagonista de campanha publicitária, não é símbolo de comportamento errático na vida pessoal. O que Duncan faz é jogar basquete e cuidar de trabalhos sociais fora dela. Sempre da forma mais direta e simples possível, da forma mais… fundamental.

Isso certamente lhe custou alguns milhões em contratos publicitários ao longo da carreira, bem como contribuiu para que alguns demorassem a reconhecer completamente o valor do ala-pivô dos Spurs. Mas, após 19 temporadas fantásticas, é impossível não perceber o que Duncan construiu.

O virginense de Saint Croix ficou quieto e discreto, mas foi colecionando marcas. Ele é o jogador com mais duplos-duplos, segundo em jogos e vitórias em playoffs, terceiro em rebotes, quinto em tocos e sexto em pontos na história da liga. Conquistou cinco títulos – o segundo a vencer em três décadas diferentes – e 1.001 vitórias em temporada regular (o terceiro da história, mas com aproveitamento de 71,9%, superior à de Kareem Abdul-Jabbar e Robert Parish). Com ele em quadra, o San Antonio teve 60% de aproveitamento em todas as temporadas, a maior sequência na NBA.

Ninguém precisou dizer ao público que Duncan era um craque, ninguém criou uma campanha em torno de seu nome para isso. Ele fez isso em quadra, jogando. Só talento, um talento que fará uma falta enorme na NBA.

 

 

 

 

Ida de Durant para os Warriors indica que a NBA segue por um caminho perigoso

Jogadores têm o direito de atuar onde quiser, mas isso pode criar um desnível muito grande dentro da liga

A traição de um jogador que troca sua ex-equipe pela que o derrotou em uma dura e longa batalha na última temporada. A construção de um supertime que deve bater alguns dos recordes que ele próprio já havia estabelecido. Essas são as duas histórias mais imediatas em torno da contratação de Kevin Durant pelo Golden State Warriors. Mas uma narrativa surge no longo prazo, uma nada boa para a NBA: a perspectiva de se tornar tecnicamente cada vez mais desigual.

O esporte profissional norte-americano tem vários mecanismos para promover a paridade técnica dos times, como a distribuição do dinheiro, a criação de teto salarial (não se aplica à MLB) e o draft que oferece os principais talentos jovens às equipes de pior desempenho na temporada. A NBA faz tudo isso, mas ela é claramente a liga que tem mais dificuldade em ter equilíbrio, ainda que classificar mais de 50% dos times aos playoffs mascare um pouco isso. A diferença de aproveitamento na temporada entre os primeiros e os últimos é gigantesca e, salvo contusões, a franquia que tiver um supercraque fatalmente chegará à pós-temporada, com grandes chances de ficar no mínimo entre os semifinalistas de conferência.

Ainda que o basquete seja um esporte coletivo de alto grau de complexidade tática e que jogadores fora-de-série possam se estranhar e não “encaixar”, um talento fenomenal faz a diferença. Ou tornando competitiva uma equipe fraca no geral, ou desequilibrando um duelo contra um adversário que tem como sua maior virtude o conjunto. Se alguma franquia consegue juntar dois ou três craques, ela se torna automaticamente candidata ao título.

Esse é o problema atual. O teto salarial e o draft trataram de distribuir os talentos por toda a liga, mas, nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais comum os jogadores se unirem para formarem os supertimes. LeBron James e Chris Bosh se juntaram a Dwyane Wade para levar o Miami heat ao topo. Quatro anos depois, LeBron foi fundamental para o Cleveland Cavaliers ter Kevin Love e buscar seu primeiro título. Nas últimas semanas, surgiu a especulação que Wade poderia ir ao New York Knicks e se encontrar com Derrick Rose e Carmelo Anthony. E, nesta semana, se confirmou a ida de Kevin Durant para os Warriors de Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green.

É matematicamente impossível todos os supertimes conquistarem o título, pois só há um troféu disponível no final das contas. Isso cria superconfrontos, duelos históricos como os que envolveram Los Angeles Lakers e Boston Celtics dos anos 60 e 80, ou Lakers x Bulls na era Magic Johnson x Michael Jordan. A repercussão desses encontros é extraordinária e a audiência da TV explode na reta final dos playoffs.

O problema é o resto da liga. Já é muito difícil distribuir craques pelas 30 equipes. Se alguns desses jogadores começarem a se unir dentro da mesma franquia, várias outras ficarão à margem da competição. Podem até ganhar algumas partidas dos gigantes na temporada regular, mas não terão condições de brigar em uma série de playoffs em melhor de sete. Se a reta final do mata-mata se torna espetacular, o surgimento dos supertimes é muito ruim para a temporada regular.

A NBA precisa ficar atenta a esse processo, ainda mais em um momento em que enriqueceu demais – e, portanto, teve aumento no teto salarial, permitindo que mais jogadores caros se acomodem dentro de um mesmo elenco. Não é algo fácil, pois os atletas têm o direito de trabalhar onde bem entenderem e podem, pelo motivo que seja (amizade, desejo de conquista ou mesmo afinidade com certa cidade), se juntarem. Do mesmo jeito que os clubes têm o direito de tentarem se reforçar o máximo possível, e muitos esquadrões surgiram de forma orgânica, como os Warriors de Curry-Thompson-Green, o Thunder de Durant-Westbrook e os Spurs de Duncan-Parker-Ginóbili que se transformou nos Spurs de Duncan-Parker-Leonard.

É aquele caso em que cada um buscar melhor para si próprio não tem como resultado o melhor para o conjunto como um todo.

Como deixar a cesta de Irving mais espetacular? Claro, com a narração islandesa

Obrigado por existir, internet

A internet muitas vezes é um local de propagação de agressividade, brigas e conteúdo desagradável, por vezes, ilegal. Mas também é um lugar em que estão pessoas caridosas, dispostas a levar boas coisas ao mundo e fazer nossa vida melhor. Como o sujeito do site da ESPN americana que fundiu os dois momentos mais espetaculares do esporte nesta semana: a cesta de Kyrie Irving que deu o título inédito ao Cleveland Cavaliers e a narração insana do gol que classificou a Islândia na Eurocopa.

VÍDEO: É impossível não vibrar junto com a narração islandesa do gol nos acréscimos

Afinal, como ficaria a cesta de Irving na voz do narrador islandês? Sim, ficou ainda melhor do que a original.

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Ida de LeBron a Miami ajudou os Cavaliers a construir o time campeão

Alguns anos de boas posições no draft e um astro que retornava mais maduro

Parecia o fim do Cleveland Cavaliers. Quando chamou a ESPN americana e fez um programa apenas para anunciar que defenderia o Miami Heat, LeBron James estava virtualmente pulverizando qualquer possibilidade de os Cavs, seu time anterior, ser minimamente relevante por uma ou duas gerações. Claro que não funciona assim, mas a reação dos torcedores de Ohio foi nesse nível, até porque já estão acostumados a ver as franquias profissionais do estado fracassarem. Mal sabiam que aquele momento talvez tenha ajudado muito a equipe a estar comemorando um título inédito da NBA nesta semana.

LeBron é daqueles jogadores que são capazes de levar um time quase sozinho nas costas. Ele não será campeão sozinho, mas, com ele no elenco, uma equipe mediana consegue vitórias suficientes para se classificar as playoffs e talvez até passar por uma ou duas fases no mata-mata. Na hora H, quando as outras potências da NBA aparecem pelo caminho, fica mais difícil resistir. Mas ele eleva o nível de competitividade da camisa que estiver defendendo.

Isso foi importante para dar esperança aos Cavs, que chegou aos playoffs por cinco anos seguidos a partir da terceira temporada de LeBron. E sua saída, que deu início a uma depressão que se traduziu em falta de confiança da torcida e dificuldade em convencer bons jogadores a defenderem o Cleveland, derrubou a franquia. Foram três temporada seguidas com menos de 25 vitórias e uma com 33. O time que era integrante fixo dos playoffs se tornou saco de pancadas.

Talvez fosse o que a franquia precisasse. LeBron elevava o nível da equipe, mas o resto do elenco não era capaz de dar suporte a ele no momento de buscar o título. Com as temporadas seguidas no fundo da tabela, os Cavaliers conseguiram boas escolhas no draft. Logo no primeiro recrutamento pós-LeBron, em 2011, uma negociação com o Los Angeles Clippers e uma campanha horrível colocaram o Cleveland com a primeira e a quarta escolha. Foram selecionados Kyrie Irving e Tristan Thompson, os dois jogadores mais importantes nas finais contra o Golden State Warriors depois do astro da equipe.

O draft continuou ajudando. Dion Waiters, quarta seleção de 2012, não teve tanto sucesso no Cleveland, mas foi usado nas negociações que levaram JR Smith e Iman Shumpert para os Cavaliers. A franquia ainda teve a primeira escolha em 2013 e 14, pegando Anthony Bennett e Andrew Wiggins, utilizados na troca que envolveu Kevin Love.

No geral, dá para discutível se todas as decisões da diretoria dos Cavs foram acertadas ou se era possível aproveitar melhor essa onda de boas posições no recrutamento, mas é inegável que os quatro anos de ruindade ajudaram a aumentar a quantidade de bons jogadores no elenco. Ainda mais quando se sabia que LeBron ia voltar (o que foi acertado antes da negociação de Love).

Não foram só os Cavs que melhoraram. A ida para o Miami foi positiva para o próprio LeBron. Ele encontrou uma equipe mais forte, com outros astros ao lado, e ganhou experiência de finais. Ganhou duas e perdeu duas, aprendeu a tirar o rótulo de “amarelão” que alguns críticos lhe davam e estava mais maduro para conduzir a equipe de sua cidade ao título. Ele não se tornou o jogador perfeito, mas tinha mais força mental para assumir a responsabilidade. Tanto que o Cleveland deu trabalho aos Warriors na final de 2015, mesmo com Love e Irving machucados, e venceu neste ano.

Assim, o que poderia ser o enterro dos Cavaliers por uma década pode ter sido a salvação. Ninguém podia adivinhar isso em 2010, mas dá para entender esse processo melhor hoje.

Mais que uma grande final, vimos um choque entre dois capítulos da história

LeBron James dominando todos os fundamentos contra o Golden State Warriors dos recordes. Era como se apenas um fosse capaz de parar o outro

Quando LeBron James saltou para tentar impedir uma cesta de Andre Iguodala, ele não estava apenas decidindo um jogo de basquete. Não estava apenas decidindo um título. Aquela jogada poderia deixar o Golden State Warriors com dois pontos de vantagem a pouco mais de um minuto do final, mas, com o toco, se transformou na posse de bola que deu a vitória e o campeonato ao Cleveland Cavaliers. Naquele lance uma narrativa estava em jogo, um episódio para ser contado por décadas. Um legado.

A decisão desta temporada da NBA teve um elemento raro nos esportes, e por isso ela foi tão especial. A história é escrita a cada momento, mas muitas vezes só descobrimos o que seria marcante depois de acontecer, quando se olha de longe, com uma visão panorâmica. Um cuidado dispensável para o encontro entre Warriors e Cavs. O time do Golden State se ensaia como um dos marcos de sua época, com um título já garantido, um recorde de vitórias em uma temporada regular e um estilo de jogo que pode influenciar o resto da liga. O Cleveland é um ótimo time, mas seu pé na história estava garantido pela presença de LeBron, possivelmente um dos maiores jogadores de todos os tempos.

São dois dos potenciais símbolos do basquete da década de 2010 se encontrando. Duas forças da natureza. Ainda que seja impossível afirmar isso, ficava aquela sensação de que apenas o talento de LeBron liderando a série em pontos, assistências, tocos, roubos e rebotes seria capaz de parar os Warriors. Apenas o jogo coletivo, rápido e envolvente dos Warriors seria capaz de impedir LeBron de levar o troféu para o estado de Ohio.

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Decisões que se desenham dessa forma são raras. Na NBA, os três duelos entre Los Angeles Lakers e New York Knicks entre 1970 e 73 tiveram essa cara. Os californianos tinham o talento incontestável de Wilt Chamberlain e Jerry West (ambos em final de carreira), mas os nova-iorquinos contavam com um jogo coletivo marcante (ainda que tivessem ótimos jogadores, como Willis Reed, Jerry Lucas, Phil Jackson e Pat Riley). Os Knicks venceram duas das decisões.

Outro caso veio um ano depois, com Milwaukee Bucks de Kareem Abdul-Jabbar (já tricampeão do troféu de MVP) e Oscar Robertson em sua última temporada contra o Boston Celtics. Os bostonianos não tinham mais o time histórico da década de 1960, mas construíram uma base sólida com John Havlicek, Paul Silas, Jo Jo White e Dave Cowens. Os Celtics ficaram com o título.

Em outros esportes isso também não é tão comum. No beisebol e no futebol americano, as ações são muito diluídas entre os jogadores e não é fácil colocar um nome capaz de conduzir quase sozinho seu time à vitória. Na NHL, essa característica se viu nos duelos entre o Detroit Red Wings de Gordie Howe e o Montréal Canadiens em 1954, 55 e 56. O Detroit levou os dois primeiros, mas os canadenses ficaram com a Stanley Cup em 1956, dando início a uma série de cinco títulos seguidos. As finais de 1983 e 84, entre o New York Islanders e o Edmonton Oilers de Wayne Gretzky também foram nessa linha.

Ken Mornow (esquerda) e Wayne Gretzky em duelo entre Islanders e Oilers em 1983 (AP Photo/Richard Drew)
Ken Mornow (esquerda) e Wayne Gretzky em duelo entre Islanders e Oilers em 1983 (AP Photo/Richard Drew)

No futebol, os melhores exemplos são os encontros épicos entre o Napoli de Maradona e o Milan treinado por Arrigo Sacchi no final da década de 1980. A final da Copa do Mundo de 1990, entre a Argentina de Maradona e a Alemanha Ocidental de Lothar Matthäus foi outro caso. Pelé talvez entrasse nessa lista se ele estivesse no grupo do Brasil na Copa de 1974 e enfrentasse o jogo coletivo da Holanda de Johann Cruyff.

Todos esses duelos viraram marco de suas épocas em suas modalidades, pois eles colocam dois conceitos supostamente contraditórios para esportes coletivos: o time de ótimos jogadores e coletivo fantástico contra o time de um ou dois jogadores fantásticos e um coletivo apenas funcional. Não existe jeito melhor ou pior, existe apenas a história sendo feita nos detalhes. A velocidade e os arremessos incessantes poderiam dar o título aos Warriors, mas a definição ficou em uma jogada individual, o salto fantástico e o toco de LeBron James que serviu de preliminar para a cesta de três pontos de Kyrie Irving, o ótimo coadjuvante que todo craque sagrado precisa.

Não importa o que será de LeBron nos próximos anos, se ele ficará ou não nos Cavaliers, se ele tentará ou não a glória em um grande mercado como Los Angeles ou Nova York. Não importa também se os Warriors conquistarão mais títulos, ainda que a base ainda tenha alguns anos em Oakland e é bem capaz de esse time seguir vencedor. Daqui algumas décadas, olharemos para as finais de 2015 e 2016 da NBA achando que só um era capaz de parar o outro.

Veja a jogada em que LeBron diz a Curry quem é que manda no pedaço

O Golden State até pode se tornar – ainda é o favorito – campeão, mas LeBron James mostrou que ainda deve ser visto como o melhor do mundo

É impossível não se empolgar ao ver Stephen Curry jogar. Ele é rápido, ágil, habilidoso e acerta arremessos mesmo se estiver no estacionamento do ginásio, de costas para a cesta. Não há como contestar o fato de que ele foi o MVP das últimas duas temporadas da NBA e é compreensível que muitos já o considerem o melhor jogador do mundo. Mas aí tem LeBron James. E aí, quem é melhor?

O astro do Cleveland Cavaliers tem usado o confronto direto nas finais da NBA para reforçar sua causa. LeBron é o líder da série – somando as duas equipes – em pontos, rebotes, tocos (nesse caso, empatado com o companheiro Tristan Thompson), roubos e assistências. E botou os Cavs de volta à disputa ao fazer 41 pontos no jogo 5 e repetir a dose no sexto encontro.

Claro, Curry não parece jogar em sua melhor forma física, mas a postura de mandachuva do pedaço de LeBron é nítida. E nada simboliza tão bem esse duelo pelo posto de “quem é o maioral” do que esse toco no terceiro quarto, quando o Golden State Warriors fazia o último esforço pela vitória que daria o título já nesta quinta. O toco é contundente, e o olhar de LeBron para Curry tem um nível de desprezo que vai entrar para a história.