Rio-2016 quer promover o esporte inibindo as pessoas de praticá-lo

Para que servem os Jogos Olímpicos? Para promover o esporte? Não parece

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Para que servem os Jogos Olímpicos? Para que serve o esporte? É um entretenimento de alcance mundial e alimenta uma indústria bilionária. Mas, antes de tudo, o princípio fundamental de qualquer evento esportivo é promover – ainda que subliminarmente – a atividade física por parte das pessoas. As modalidades, quaisquer que sejam, existem pela necessidade do ser humano de acionar o corpo para mantê-lo, da mente ao dedão do pé, saudável.

Leia a matéria completa aqui.

A história de F, um rubro-negro de São Paulo, em um dia de Fla-Flu no Pacaembu

A capital paulista é a casa de milhões de migrantes de outras partes do Brasil. Gente que trouxe seu sotaque, sua cultura, sua força de trabalho e o Flamengo

Camisa infantil, R$ 35. Mas, se der uma choradinha, dá para fechar por R$ 30. Aceita cartão de débito. Não, não é produto oficial, mas achar um mau negócio gastar R$ 200 em uma camisa de futebol que vai caber no filho por um ano no máximo não faz de alguém menos torcedor. Por isso, comerciantes como F existem. Ele fica em torno de bilheterias para oferecer uniforme do time que vai jogar a preços camaradas. Não é algo dentro da lei, e todo mundo envolvido naquela transação sabe disso.

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No último sábado, F estava no Pacaembu, na rua Desembargador Paulo Passaláqua. Na mão direita, várias camisas piratas do Flamengo, prontas para vestir os rubro-negros que achassem uma boa ideia deixar o pimpolho (ou a pimpolha) a caráter para ver de perto o primeiro Fla-Flu em São Paulo em mais de 70 anos. Para F – que pediu à reportagem da Trivela para não ter o nome, nem a foto de seu rosto publicados – aquele também era um momento especial. Ele próprio teria a chance de ver um jogo que diz muito a ele.

O vendedor de camisas nasceu no interior de Minas Gerais e sempre foi rubro-negro. Mudou-se a São Paulo para trabalhar e, junto com seu sotaque e a cultura de sua terra, levou também o Flamengo. E se tornou um dos milhares de flamenguistas que vivem na maior cidade do país.

F conta que vender camisa de futebol lhe dá o que precisa. Consegue tirar um dinheiro para ajudar a filha, que vive com a mãe, e a sustentar seu amor ao futebol. Três dias antes de fazer plantão na bilheteria do estádio do Pacaembu, o vendedor estava em Aracaju, empurrando seu time na partida contra o Confiança pela Copa do Brasil.

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“Eu adoro viajar. Sempre que vejo que terá um jogo legal em uma cidade que não conheço, tento ver. Sou solteiro, não preciso de luxos. Só quero dar uma vida digna à minha filha e fazer o que eu gosto. E eu gosto de conhecer lugares e ver futebol, mesmo quando não é jogo do Flamengo. Tô até vendo se consigo ir lá para o Norte ver Remo x Vasco em Belém ou Santos-AP x Santos em Macapá no mês que vem. Já pensou que legal? Conhecer Macapá e ver o Santos jogar contra o Santos?”

Enquanto fala dos planos para abril, F pega seu celular e mostra as fotos de suas viagens futebolísticas. Paraguai, Espírito Santo, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro… “Ponho no meu Facebook, para poder lembrar para sempre. Um dia vou parar com isso, mas terei essas lembranças.”

Se o amor ao Flamengo o leva até Aracaju, era óbvio que ele não ficaria de fora do Fla-Flu na cidade que adotou para viver. Mas sempre com os pés no chão, e ciente de que era preciso trabalhar primeiro. “Ainda não comprei o ingresso. Vou ver na torcida do Fluminense, porque já acabaram os setores mais baratos para a torcida do Flamengo. Poderia comprar agora para garantir, mas só vou sair daqui [na calçada, em frente à fila] quando estiver para fechar a bilheteria. Preciso vender as camisas antes.”

A história de F diz muito sobre o ótimo público do Pacaembu no Fla-Flu. Havia paulistas curiosos, interessados em ver um dos clássicos mais tradicionais do Brasil sendo realizado no estádio mais tradicional de sua cidade. Havia tricolores radicados em São Paulo felizes pela oportunidade de rever um duelo tão querido de perto. Mas havia, mais que tudo, milhares de rubro-negros como F. Gente que veio de todas as partes do Brasil para ganhar a vida na cidade mais populosa do país. Pessoas que levaram sua disposição para trabalhar e o amor ao Flamengo. E que não puderam perder a oportunidade de transformar São Paulo em uma cidade rubro-negra por um dia.

Uma homenagem ao maior tradutor de emoção de todos: José Silvério

O narrador que marcou gerações de torcedores em São Paulo anunciou que se aposentará ao final do ano

Imagine o futebol sem narradores, ou sem narradores como você se acostumou a ouvir na TV e no rádio. Impossível. Impossível porque, sem os narradores, o futebol não seria o futebol que você conhece. Afinal, o papel do sujeito com microfone na mão não é descrever jogadas. Isso qualquer um faria, até o sistema do Fifa e do PES se tornou capaz disso quando o arquivo de frases pré-gravadas se tornou grande o suficiente. O papel social do narrador é trabalhar como um tradutor simultâneo da emoção, transformando ações em um gramado no sentimento que domina cada céula do torcedor. Muitos são ótimos nessa tarefa, alguns são mais que ótimos. Mas poucos atingem um patamar quase artístico. José Silvério é um deles.

Nesta segunda, enquanto os Estados Unidos – e os fãs de NFL do Brasil – repercutiram o anúncio de aposentadoria do quarterback Peyton Manning, um outro fim de carreira ficou ofuscado. O narrador que fez história na rádio Jovem Pan e estava desde 2000 na Rádio Bandeirantes anunciou que este será seu último ano nas cabines de futebol pelo mundo.

Para uma geração de amantes de futebol, nascidos entre o final dos anos 70 e o meio dos anos 80, Silvério era a referência. Tem a dose certa de emoção, um grito de gol potente e vibrante (perdeu um pouco disso nos últimos anos, compreensível a essa altura da carreira), mas sem exagerar no tom. Sempre descreveu as jogadas com precisão, sem o ritmo acelerado de narrador de turfe ou aviso de contra-indicações no final de propaganda de remédio. Para isso, varia o tom de voz como forma de acrescentar informação sem usar palavras. Não deu certo na TV, onde sempre pareceu deslocado, mas era magistral no rádio.

Em uma época sem pay-per-view e TV a cabo acessível a poucos, ouvir o radinho era a única forma de saber oq ue acontecia nos campos do mundo no fim de semana. Para mim, e para muitos de minha época, todo domingo havia um encontro marcado com Silvério e o resto da equipe da Pan (Milton Neves, Flávio Prado e Wanderley Nogueira). Não importa se seu time já havia jogado no sábado ou se o domingo seria irritante com uma goleada do seu rival sobre um time do interior inofensivo. Não ouvir um jogo com Silvério narrando era sinal de um domingo incompleto, como não encontrar a família para comer uma macarronada.

Nas últimas horas, falei com amigos torcedores de diversos clubes paulistas, e todos eles tinham alguma narração memorável do Silvério para citar. Aquela que valia ouvir infinitas vezes, aquela que até hoje é a descrição mais perfeita da explosão interna que ocorreu no gol decisivo.

Pedi para me indicarem alguns, e abaixo está a lista com alguns dos momentos citados (sim, o Corinthians foi muito mencionado).

Corinthians 2×0 Boca Juniors, 2012

“Ele leva o torcedor do Corinthians para o espaço, para o paraíso. O tão sonhado título está super perto. Ele já pode ser tocado. Já pode ser experimentado. E eu vou descer para te abraçar, Emerson. Em nome da torcida do Corinthians na hora do jogo: Aquele abraço.”

São Paulo 2×1 Corinthians, 2011

“Festa em Barueri. Prêmio para Rogério Ceni. Prêmio para o torcedor. Prêmio para o futebol. Nove minutos, segundo tempo. No dia 27 de março de 2011, o centésimo gol na carreira de Rogério Ceni. São Paulo 2, Corinthians 0. Parabéns Rogério Ceni! Parabéns, torcedor do São Paulo!”

Palmeiras 4×0 Corinthians, 1993

Essa foi uma das narrações mais famosas de Silvério. Quando Evair faz o gol da vitória na prorrogação, que sacramentava na prática o fim da fila de 17 anos do Palmeiras, ele diz um “Eu vou soltar a minha voz” (alguém zoou o áudio nessa gravação, colocando o hino palmeirense por cima do grito de gol. Uma pena). Disseram que o narrador era palmeirense. Dois anos depois, ele repetiu a frase quando o Corinthians deu o troco, com o gol de Elivélton na prorrogação garantindo o título paulista. Também repetiu quando o Brasil foi penta em 2002, confira no último vídeo dessa página.

Santos 3×2 Corinthians, 2002

“É o gol do título. Pode comemorar, santista. Quem tem Robinho tem meio caminho andado pra vitória. Ele de novo desequilibrou. Ele foi lançado, penetrou na lateral de área, numa floresta de pernas corintianas. Ele viu o Elano chegando e rolou pra ele. Elano veio em velocidade ao encontro da bola, pegou firme e botou no fundo do gol.” Aí, para o deleite dos defensores de campeonatos com finais, uma ode ao mata-mata no último jogo desse formato na história do Brasileirão: “Elano, camisa 11, tira o sufoco do Santos. O Santos é campeão brasileiro de 2002, e só pode comemorar aos 44 do segundo tempo. Um gol difícil, um gol sofrido.”

Portuguesa 7×2 São Paulo, 1999

“Ricardo Lopes, camisa 5! Do meio-campo, do grande círculo. Ele dominou, o goleiro Roger estava adiantado. Alexandre deixou, Ricardo Lopes dominou e deu um bico. A bola passou por todo o campo do São Paulo pelo alto. Roger tentou voltar no desespero – foi cômico – e aí escorregou enquanto a bola pelo alto entrava no fundo do gol do São Paulo.”

Brasil 2×0 Alemanha, 2002

“Rivaldo dominou pela meia esquerda e encheu o pé. Oliver Kahn soltou nos pés de Ronaldo. E a bola, cheia de amor, pedindo ‘me chuta, me chuta, me chuta’. E ele respondeu com amor. Só tocou, rolando para o fundo do gol alemão. E as asas da felicidade baixaram sobre o estádio de Yokohama e trouxeram um grito de alegria pra torcida brasileira. Eu vou soltar a minha voz. Gooooooooooooooooooooooooool do Brasil!”

Sálvio Spínola: “A comissão de arbitragem não conhece o árbitro, não tem um diálogo olho no olho”

Ex-árbitro e atual comentarista da ESPN fala dos bastidores da arbitragem, sobre como os profissionais trabalham em situação vulnerável e o que poderia ser feito para melhorar

O árbitro é um elemento fundamental em qualquer jogo de futebol que tem um nível de seriedade acima da pelada entre amigos em que quem diz “é minha” fica com a cobrança de lateral. Ainda assim, todo o universo que envolve esse profissional é misterioso. Torcedores, dirigentes, jornalistas e até jogadores entendem pouco do que envolve o dia a dia desses profissionais, como ele treina, como ele se prepara, como é seu dia a dia. Uma rotina complicada e bem mal gerida, que ajuda a explicar vários dos problemas que ocorrem durante as partidas.

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Para contar um pouco dessa história, entrevistamos Sálvio Spínola, ex-árbitro Fifa e atual comentarista dos canais ESPN. Ele conta como a comissão de arbitragem da CBF conhece pouco sobre os problemas que envolvem os árbitros, criando situações que os deixam vulneráveis e mais propensos a cometer erros. Além disso, contesta a postura da confederação de isolar os profissionais do apito e mostra como conduzir uma partida é uma tarefa muito mais técnica do que pode parecer para quem vê um jogo da TV.

O árbitro, quando está trabalhando, ele se sente muito vulnerável por falta de proteção, excesso de pressão?

Não tenho dúvidas que sim. Há dois modelos que temos que pensar. O árbitro em formação e o maduro, já formado. Essa transição é muito interessante. As regras de futebol são as mesmas. Pode-se apitar um jogo de quarta divisão ou de primeira divisão, os erros e acertos são os mesmos. Mas tem muitos árbitros que se saem bem na segunda e terceira divisão e não na primeira. Tem mais pressão, mídia, torcida. Árbitro tem que subir degrau a degrau. Por isso que Copa São Paulo, Copa do Brasil Sub-20, Brasileiro Sub-20, são fundamentais. O árbitro apita um jogo como esse, sabe que está na televisão, e vai se acostumando com isso. Depois que ele formou sua identidade como árbitro, isso não pode mais interferir.

Acha que o público entende pouco de arbitragem? Não sobre as regras, mas todas as questões que a envolvem, a técnica, o ambiente.

O mundo da arbitragem, o bastidor, é muito desconhecido. Infelizmente é uma caixa-preta, um mundo fechado. Pouca divulgação das circulares para os árbitros, das reuniões. Os jogadores de futebol e os dirigentes não conhecem. Às vezes converso com eles e ficam abismados com o quanto os árbitros precisam se deslocar para fazer um curso, com as lesões do árbitro. Árbitro também tem contratura, tem lesão no joelho. Onde o árbitro vai se condicionar e se recuperar de uma lesão? Esse ambiente é pouco divulgado e pouco conhecido.

Como o árbitro faz quando ele se lesiona?

A recuperação é por conta dele. Muitas vezes, trabalha em uma empresa e usa o convênio médico da empresa, que não tem nada a ver com futebol. Não tem assistência de nenhuma entidade para dar segurança o árbitro.

O árbitro ganha por jogo que faz. Lesionado, ele apita menos e ganha menos. Acontece de árbitro esconder lesão ou menosprezar a gravidade dela para continuar trabalhando?

Árbitro esconde, sim, que está lesionado. Às vezes está com dor, não se recuperou completamente e não informa porque é uma oportunidade para trabalhar. Arbitro que não apita não ganha nada. Para ganhar a taxa, ele acaba não informando que ele está lesionado.

Quantos árbitros tem a arbitragem como principal fonte de renda?

Estima-se haver 10 ou 11 mil árbitros de futebol no Brasil. Por federação, cada federação tem sua quantidade de árbitros. A federação paulista tem uns 750 árbitros, que atuam apenas em jogos organizados por ela, é a que tem mais árbitros. A CBF tem 550 árbitros, entre eles, cada federação tem uma cota. De São Paulo e Rio de Janeiro, são 40, 45 árbitros. Eu te digo com segurança que desses 550 árbitros, pelo menos 80, 85% tem mais remuneração apitando jogo de futebol do que na sua atividade profissional secundária ou primária. É um grande problema do futebol brasileiro. Aqui, ele tem uma atividade profissional e depois vai se dedicar à arbitragem. Precisa inverter isso. Ele precisa se dedicar à arbitragem, ao futebol, e no tempo livre ter uma outra atividade.

Então essa história de que a arbitragem não é profissional é falácia. Ela não é profissional como vínculo, mas a importância econômica que tem na vida do árbitro é a de uma profissão.

Não dá para discutir que o árbitro não é profissional. Eu era profissional de arbitragem, sim. Eu acordava de madrugada, treinava antes do meu trabalho, tinha que assistir aos meus jogos, catalogava tudo, analisava os lances, ganhava para apitar, saía para apitar. Isso é um trabalho profissional. São coisas distintas. O árbitro tem vínculo de emprego? Não. É profissional? Sim. O que ocorre: não ter dedicação exclusiva e as condições de trabalho são desumanas para o árbitro de futebol, a forma como ele tem que se preparar. Não tem tempo de analisar os vídeos, se capacitar, repousar. Isso que tem que ser discutido. Ele tem que ter dedicação exclusiva ao futebol porque profissional ele é. É apenas um jogo de palavras. Não pode, por exemplo, como aconteceu já comigo. Fiquei o dia inteiro em uma reunião em uma empresa, tomando decisões intensas de demitir funcionários, sem almoçar, sem alimentação adequada, tomando café o tempo todo, e no final do dia pedi para sair da reunião para apitar um jogo de futebol e decidir o investimento de um time, a carreira de um jogador de futebol. Até eu poderia ser demitido naquele dia.

Antes de uma partida, o árbitro estuda o comportamento dos jogadores, a característica de jogo dos times que ele vai apitar?

Ele estuda, e a Fifa recomenda fazer isso. Em competições da Fifa, como Copa do Mundo, você vê o jogo que vai apitar, recebe um DVD com situações das duas seleções que você vai apitar: como a equipe se porta taticamente, como o jogador se posiciona no impedimento. Isso é importante, até para o árbitro saber no seu deslocamento no campo. O Cafu, por exemplo. Ele era um lateral que chegava na linha de fundo e sempre cruzava a bola. Por que o árbitro vai correr em direção ao Cafu? Tem que correr em direção à grande área, lá pode ter um pênalti. De cada dez lances do Cafu na linha de fundo, dez ele cruzava. Se é um lateral driblador, como o Daniel Alves, que chega na linha de fundo e dribla, se ele dribla próximo da grande área, tem que correr para ver se vai ser falta ou pênalti, dentro ou fora da área. Isso faz parte do posicionamento, deslocamento. Estudando a gente já sabe quem costuma ficar em posição de impedimento, se a equipe faz a linha de impedimento, se o jogador é violento. Não que o árbitro tenha que ir premeditado, mas ajuda a acertar nas decisões.

Se ele pega um time bom de contra-ataque, faz diferença para antecipar o posicionamento em uma bola esticada? Se toca a bola devagar, uma saída de bola mais lenta?

No meio da arbitragem, chama-se jogada futura. Nem sempre a decisão a ser tomada aparecerá na primeira jogada. A equipe vem no ataque, perde a bola, e haverá uma segunda jogada. E se o árbitro se posiciona errado na primeira jogada, aproximando-se muito da grande área, e o goleiro que fica com a bola costuma fazer lançamento rasante ao invés de dar chutão para o alto? Nessa hora, o árbitro ficou está perto do goleiro, mas a bola vai rápido para o campo de ataque, e pode ter uma falta lá na frente. O árbitro tem que se preocupar com a jogada futura. Se eu sei que uma equipe tem costume de sair rápido, não posso me aproximar muito do gol, pois posso ter que voltar para a outra jogada. Agora, se eu tiver que tomar uma decisão na primeira jogada, tenho que estar bem posicionado. Tudo isso ajuda o árbitro.

O quanto você acha que o trabalho da comissão de arbitragem ajuda a deixar o árbitro mais vulnerável?

Bastante. Existe um distanciamento muito grande. A comissão de arbitragem e os árbitros tem um hiato, não tem um diálogo olho no olho, não conhece o árbitro. A maioria dos árbitros não gosta de apitar jogos de equipes da sua federação, e a CBF quis tomar essa decisão levando o árbitro a uma situação desnecessária, de desgaste. Ele vai constrangido a esse jogo. A escala do árbitro nunca é pactuada com o próprio árbitro. Ele não tem que escolher o jogo, mas saber essas situações de stress. Quando eu apitava, me deparava com assistentes que diziam: detesto ser bandeira 1, quero ser bandeira 2. Tem isso. O bandeira 1, que não tá acostumado a trabalhar com imprensa e com banco de reservas ali atrás, se perde na hora de tomar decisão. A CBF não busca essa informação. Tem bandeira que trabalha tranquilo no outro lado, sem repórter, sem câmera, e acerta bastante. E como bandeira 1, comete muitos erros. Isso tem que identificar. Quem dirige tem que olhar e perguntar para o árbitro: o que traz dificuldade? Não é preferência, é habilidade do árbitro, daquele árbitro assistente ou central.

Como se ele estivesse jogando fora de posição?

É como se ele estivesse jogando fora de posição, e o técnico falando: quero você lá. Inclusive ambiente. Já me deparei com árbitro que disse que não se dá bem em um determinado estádio. Se não gosta disso, a comissão de arbitragem tem que procurar o árbitro, todos do quadro, e ver onde você tem dificuldade, qual é essa dificuldade, qual ambiente traz uma certa hostilidade, e trabalhar isso psicologicamente. Não é atender os favores e necessidades de todos, mas saber no que isso pode interferir na decisão dos árbitros. E isso acontece. Tem muita situação em que ele é exposto por causa da escala.

Esse ano, tivemos o caso do Bruno Boschilia bandeirando um jogo em que estava o Boschilia do São Paulo, com quem ele tinha uma relação familiar. O Jaílson Macedo Freitas foi quarto árbitro do Palmeiras x Grêmio sábado à noite no Pacaembu e apitou Avaí x São Paulo no domingo à tarde em Florianópolis. Teve o paulista Luis Flávio de Oliveira que apitou Corinthians x Sport, jogo com pênalti polêmico no final. Teve árbitro que apitou Gre-Nal e Atlético Mineiro x Grêmio na mesma semana. Quanto esse tipo de coisa deixa o árbitro vulnerável e é realmente muito difícil evitar essas situações claramente conflituosas?

Para evitar isso, tem que ter um bom sistema de gerenciamento dos árbitros, um software que faça o controle, fracionar, cada um cuidar de uma parte. Tem vários outros erros que poderia citar. Na Copa do Brasil, tem um árbitro mineiro, Igor Benevenuto, que apitou um jogo em Florianópolis na quarta-feira e na quinta tava em São José dos Campos apitando jogo do Santos. Tem um árbitro baiano que você citou, no sábado à noite em São Paulo de quarto árbitro e domingo em Florianópolis apitando jogo do Brasileiro. Essas situações causam desgaste também com o árbitro que fica em casa. Ele se sente desprestigiado, porque olha que outros árbitros estão sendo privilegiados, porque estão recebendo duas vezes, e ele está em casa. Isso é falta de gestão do quadro de arbitragem. Não significa que todos os árbitros têm que ter o mesmo número de jogos. Sou a favor da meritocracia nesse caso: quem está muito bem, tem que apitar. Mas o descanso é necessário, o tempo entre um jogo e outro. O árbitro gosta que repete a escala e esconde. Se ele pega o telefone e fala ‘eu tô em um jogo aqui e tô em outro ali’, a comissão faz uma correria e troca o árbitro. Aconteceu isso: um árbitro do Paraná que estava na Série B na terça e na quarta tava na Série A. Ele comunicou e substituíram. Disseram que por problemas logísticos ele não poderia cumprir a escala, porque realmente não tinha voo para o árbitro pegar. Ele mora no interior do Paraná, não teria como ir aos dois jogos. Se ele comunica, ele sai, mas o que está na escala faz um sacrifício, se sujeita a esse risco só por uma coisa: remuneração. E tem um pouco da vaidade, também.

O quanto o fato de o árbitro se sentir frágil com seu emprego, com a possibilidade de, um dia para o outro, ficar na geladeira por um erro, favorece isso?

Enquanto não mudar a estrutura do futebol, essa fragilidade existe. Cheguei à arbitragem em 1990, estamos em 2015, e não mudou nada. A estrutura é a mesma. Nenhuma mudança a favor desse cenário. Ninguém vai para campo para errar e cometer um erro. O que acaba acontecendo: ele se sente nessa pressão e fica com medo de cometer um erro e ficar sem escala. Vai chegando novembro, e a tensão para o árbitro é muito pior, porque os campeonatos vão acabar. Dezembro e janeiro não há jogos. Imagina um árbitro na geladeira em novembro? Fica sem jogo em novembro e sem remuneração em dezembro e janeiro. Um erro acaba sendo crucial. Traz muito mais tensão.

Ele muda o jeito de arbitrar?

O árbitro corre menos riscos. Apita com mais segurança. O que é isso? Na hora de dar vantagem, tempo de bola rolando, não quer correr tantos riscos nas suas decisões. De forma bem honesta, como funciona a cabeça do árbitro: se eu vir que o zagueiro sofreu um pequeno encostão, vou marcar uma falta a favor da equipe defensora, mas, se o zagueiro comete o mesmo encostão contra o atacante, dificilmente ele vai marcar. Retranca mais o jogo.

Ele sabe quando cometeu um erro?

Sabe. Instantâneo. Na hora. Pelo comportamento da torcida, dos jogadores, da imprensa, da comissão técnica. Quando o árbitro acerta, o ambiente fica menos hostil, porque todo mundo se acalma. Quando erra, o ambiente fica mais hostil, porque todo mundo vem falar. Ele sabe dessa reação, desse comportamento. Não precisa do intervalo. A torcida recebe a informação no celular. O torcedor para quando acertou, não fica hostilizando tanto a arbitragem. Mas quando continua, o árbitro sabe que errou, principalmente em gol anulado, impedimento, pênalti, lances capitais. A primeira coisa que a comissão de um time faz quando acontece um lance polêmico é gritar para trás e perguntar para o repórter. Se o repórter falar que o árbitro acertou, o técnico para de reclamar, não vai se desgastar à toa. Se o repórter fala que a imagem mostrou que o árbitro errou, a reclamação persiste. O árbitro sabe disso porque, quando vai dar uma advertência verbal à comissão técnica, já falam que a televisão disse que ele errou.

Você lembra de algum lance assim com você?

Posso trazer vários lances. Lembro-me de um lance no Pacaembu, Corinthians x São Paulo, em que fiquei na dúvida de um pisão do Ronaldo no André Dias. Eu estava no meio-campo e foi na lateral. Mostrei amarelo para o Ronaldo, mas, pela forma como a comissão técnica e os jogadores do São Paulo continuaram reclamando, tinha a convicção de que a imprensa falou que o Ronaldo tinha pisado no André Dias. E depois olhando a imagem, era claro que era falta para vermelho. Lembro-me da final Santos x Santo André no Pacaembu. Apesar de a torcida do Santo André ser menor, quando anulamos um gol do Santo André, a reação da comissão técnica era a reação de que tínhamos cometido um erro. Depois, vendo a imagem, o gol do Santo André foi legal. Isso dá para perceber dentro do campo de jogo. O árbitro tem que se controlar, manter o equilíbrio, para não querer compensar e aí vai cometer o segundo erro.

Tem muito árbitro que compensa, mesmo involuntariamente?

Não vou usar o termo involuntariamente, vou usar outro: tem que separar o nível do árbitro. Eu talvez tenha cometido isso no início da carreira, quando você está verde, instintivamente, pode cometer esse segundo erro, mas um árbitro que chega a um nível de maturidade e personalidade já formada tem que falar ‘errei, bola para frente’.

Quando começa a aparecer uma sequência de erros em jogos importantes, e começa o burburinho de esquema de arbitragem, campeonato comprado, o quanto afeta o árbitro que vai trabalhar com as equipes que supostamente estão ligadas aos erros, beneficiadas ou prejudicadas?

Tensão. O árbitro entra muito mais tenso para esse tipo de jogo. No diálogo da equipe de arbitragem, no hotel, na viagem, a conversa é: tem que passar zerado, tem que se concentrar ao máximo para evitar qualquer tipo de erro. Mas tem árbitro que se sente seguro. Ele pensa: com toda essa conversa, se a comissão de arbitragem me colocou nesse jogo, é porque eu estou aqui para resolver o problema.

Ele sente que é um cara que tá num bom momento, e a comissão o escala para abaixar a poeira?

Tanto com as equipes quanto com a comissão de arbitragem. Ele vai abaixar a poeira, sem correr riscos, e resolver o problema. O árbitro de nome que apita grandes jogos, normalmente vai preocupado quando apita um jogo da Série B ou da Série C. Se ele levar o jogo sem problema, nunca vou ser elogiado porque não fez mais que a obrigação. Se tiver um problema, é vergonhoso.

Como naquele jogo da série A2 que você fez em um sábado e seu erro foi tão grave que apareceu até no Jornal Nacional?

Sim. Foi um jogo de zona de conforto. A ESPN até transmitiu. Eu tinha feito um bom Paulista da primeira divisão, e apitei aquele Corinthians x Santos do gol do Ricardinho no final e o Corinthians foi pra final contra o Botafogo. No primeiro jogo da final eu não fui escalado, mas tinha a expectativa de apitar a grande final, no Morumbi. O árbitro quer estar nos grandes jogos, é uma coisa interessante, ele vai em busca disso. Eu fui avisado que tinha a oportunidade de apitar a finalíssima, no outro final de semana, e fui apitar um jogo da Série A2 não muito aguerrido na tabela, Paulista de Jundiaí e América de Rio Preto. Teve um lance que um jogador do América deu uma cortada na bola, à Marcelo Negrão, e todo mundo no estádio viu o lance, menos eu. Na época, até criei um certo conflito de posicionamento, achei que tinha que me posicionar de outro lado, mas aquilo foi puramente falta de concentração. Talvez tenha dado pouca importância para o jogo. Isso a gente aprende. Sempre tem que dar importância aos jogos. No mínimo, 30 famílias estão envolvidas no jogo. Para eles, é importante, para o árbitro também tem que ser importante, sempre.

Existe o conceito de o árbitro estar em má fase, com ou sem ritmo de jogo?

Existe. A carreira não pode ser nunca julgada por um jogo. A carreira do árbitro tem que ser uma sequência de bons campeonatos. Isso é um problema. Em um jogo tira nota 10, no outro nota 0. Tem que ter uma regularidade de nota 7, 8. O árbitro tem que estar em um momento constante. Depende de muitos fatores. Se é equipe do seu estado, se você fica fora da escala. Às vezes o Campeonato Brasileiro se destaca por árbitros de outros estados por conta disso. Como equipes de São Paulo estão sempre disputando com equipes gaúchas, mineiras, cariocas, os árbitros acabam impedidos de atuar nesses jogos, e outros árbitros acabam atuando.

Qual você acha que o desconhecimento das pessoas sobre a arbitragem se deve a uma falha dos árbitros e da comissão da arbitragem de mostrar isso? Nunca dão entrevista, ninguém fala.

Falta um mecanismo de humanizar o árbitro de futebol, torná-lo mais sociável, integrado aos eventos, à sociedade. A CBF tem eventos entre os dirigentes, entre comissões técnicas, e não convida os árbitros. Essa integração tem que ser feita. Em competição Fifa, em toda festa de dirigente, os árbitros estão presentes. Aí todos sabem quem são, o jogador conhece, sabe quem é. Dá para falar olho no olho, dialogar, saber o que ele pensa. Isso não acontece no Brasil. Todo mundo só conhece o árbitro naquelas quatro linhas. Essa sociabilização é necessária.

Comissão de arbitragem liga para árbitro com recomendação especial quando vai apitar time que tem reclamado?

Antigamente, eu diria que era mais comum um telefonema, pressão para recomendar boa arbitragem. No meu tempo de arbitragem, nunca teve nada direcionado. Hoje o modelo é um pouco diferente. Todo jogo tem um assessor de arbitragem, e é geralmente esse que tem o contato com o árbitro, analisa do jogo, as consequências e os cuidados que têm que ser tomados. Importante ressaltar que a escala da CBF é composta por uma equipe de arbitragem com quatro integrantes, eventualmente tem o quinto árbitro e o delegado do jogo, geralmente um integrante da comissão de arbitragem. Ele exerce esse papel, às vezes no hotel, no vestiário antes do jogo.

Acredita na possibilidade de se montar esquema de arbitragem para beneficiar determinado time?

Não acredito. A pressão para o árbitro não é no intuito de beneficiar determinada equipe, esquema de arbitragem. É um risco muito grande querer envolver árbitro nisso. O árbitro é cíclico, ele vai passar um tempo no futebol e sai. Como se comprometer com esse árbitro? Tem quem diz: você sabe em quem chegar, em quem pode pedir determinados favores. Mas esse tipo de esquema de arbitragem… Podemos falar dos dez anos da Máfia do Apito, jornalisticamente falando “Máfia do Apito” é um grande nome. Na época, eu apitava, fui investigado pela Polícia Federal, verificaram minhas movimentações bancárias. Fizeram isso com vários árbitros, mas só dois foram envolvidos. Foi denominada “Máfia do Apito” com dois árbitros envolvidos. Foi muito mais “máfia dos apostadores” do que “do apito”. Mas jornalisticamente, não daria a repercussão que deu. Árbitro tem prazo de validade, e depois desse prazo, como você troca favores? Depois vai que o cara escreve um livro e denuncia tudo. Como correr esse risco?

Ao que você credita certas incoerências da arbitragem brasileira em relação à arbitragem mundial, como a padronização de falta, de toque na mão, bola na mão x mão na bola?

Tem dois fatores fundamentais. Primeiro, a soberania. A CBF fica querendo ser muito escrava da Fifa e lavar as mãos. “Tudo a Fifa quem faz.” Anualmente, traz um instrutor da Fifa e fala que foi orientação da Fifa. As outras federações nacionais têm mais soberania, dão instrução. Não é não cumprir a regra da Fifa, é ter instrução própria. Outro ponto problemático é não ter o grupo na mão. Não se define quais são os árbitros que apitam o Campeonato Brasileiro. Tem árbitro estreando na Série A na 20ª rodada. Antes de começar o campeonato, a CBF deveria definir os árbitros da Série A, 25 árbitros e 40 bandeiras, e fazer um trabalho uniformização de critérios, analisar os lances e mostrar o que o sujeito interpretou certo ou errado. Isso tem que ser feito com regularidade. O Brasileiro é de abril a dezembro e nunca é feito isso. É importante que os demais árbitros entendam porque ele tomou essa decisão. Hoje tem de ser feito por conta própria. Assim que o árbitro trabalha: assistindo ao jogo, vendo o lance, analisando qual decisão eu tomaria naquele lance. Se a minha decisão era diferente da adotada pelo árbitro em campo e ele era um mais qualificado que eu, eu iria rever meus conceitos, discutir com um instrutor. Mesmo que não fosse um grande árbitro, eu questionaria por que ele tomou uma decisão diferente da que eu tomaria. Isso é necessário para uniformizar esse critério e não ter tanta discrepância nas interpretações.

O quanto o árbitro, às vezes, tem a carreira ou a atuação dele prejudicada pelos bandeiras ou pela falta de entrosamento entre eles?

Tem muito isso, realmente. As regras são universais, todos os árbitros conhecem, mas essa proximidade, saber como o bandeira atua, e vice-versa, em uma simples trocada de olhar já facilita, melhora o trabalho em equipe. É lógico que você tem que usar o árbitro experiente para formar um bandeira que está crescendo. E vice-versa. Se você quer lançar um arbitro novo, que tem potencial, é importante colocá-lo com um bandeira maduro, experiente, que vai dar sustentação a esse árbitro, mas depende do perfil de cada um. É comum no vestiário ter árbitro que não conversa com o bandeira, que não tem diálogo, não se encontram, não tem um diálogo sociável. Se é um árbitro didático, que sabe explicar, tem que usar esse rodízio.

Em certos países, como Inglaterra e Alemanha, as pessoas não são tão minuciosas em cima de erros de arbitragem. Aqui no Brasil, na Espanha, na Itália, trata-se cada lance como se fosse perícia criminal. Isso aumenta a pressão em cima do árbitro?

O papel do árbitro é legitimar o resultado, o papel do atacante não é fazer o gol. É lógico que às vezes usam esse argumento de que todos erram, principalmente na gestão atual da arbitragem brasileira, mas não concordo que o árbitro comete o mesmo erro do jogador. Acho que o ser humano árbitro chegou ao limite. Tem lances que é impossível o árbitro acertar. Quando acerta, acerta na sorte. Não dá para comparar o erro do árbitro com o erro de uma substituição do técnico, jogador que perde um gol, um pênalti. São situações completamente distintas.

Se você virasse presidente da comissão de arbitragem da CBF ou da Fifa, o que faria para melhorar a situação da arbitragem no mundo, e particularmente no Brasil?

Em nível mundial, são 209 países que praticam futebol com as mesmas regras. A International Board tem que usar o exemplo do spray e o exemplo da tecnologia na linha de gol. O spray é opcional. A tecnologia também tem que ser opcional. Sou contra colocar a tecnologia amanhã, mas é preciso começar a fazer experiência com as tecnologias. Tirar das costas do arbitro 100% das decisões e usar o que tem de mais moderno no mundo. Qual o modelo? Não sei, mas pode-se abrir as portas para os engenheiros apresentarem seus projetos. Sou contra parar o jogo a todo momento, mas temos que avaliar que uma, duas vezes no futebol, vai trazer bastante segurança e mais credibilidade. O maior problema não é a questão técnica, mas a legitimidade. É o que você me perguntou: tem esquema, favorecimento? Isso vai ser derrubado pela tecnologia, isso vai diminuir isso. Em solo brasileiro, tem que mudar a forma de direcionar os árbitros. Não vai zerar os erros da arbitragem. Eles existem em qualquer lugar do mundo, com dedicação exclusiva, em Copa do Mundo, que eles ficam concentrados. Temos que minimizar, ter critérios técnicos, e não políticos. Quem está no futebol tem que olhar e falar: “errou porque o lance é difícil”. Mata a questão da credibilidade, fica só na questão técnica. Futebol brasileiro precisa mudar pela questão da legitimidade.

Naquela matéria que a ESPN fez com o Edilson Pereira de Carvalho, que você até ajudou, ele apita um jogo amador e até fala: “que delícia isso”. No Corinthians x Criciúma da última rodada do Brasileiro do ano passado, o árbitro chama um auxiliar fazia o último jogo da carreira, e ele fica completamente emocionado ao pegar o apito e encerrar o jogo. Na boa, quem não arbitra acha que é o maior mico do mundo, mas qual a sensação de arbitrar?

Tem que ter aptidão, gostar, ter o prazer de estar no campo, decidir, ser o líder dentro de campo, tomar decisão. Tem que gostar desse tipo de coisa. Quem está há muito tempo e faz carreira sente realmente esse prazer. É um vírus. Quem é beliscado pela arbitragem não quer sair da arbitragem. Gosta demais de estudar, conhecer as regras, legitimar um resultado. Modéstia à parte, eu que fiz isso essa coisa de dar o apito ao assistente que encerra a carreira. Foi com o Nilson Monção, em um jogo na Bahia. Era o último jogo dele e eu quis fazer essa homenagem para ele. Ao invés de apitar o final do jogo, pedi que ele entrasse em campo, ele entrou em campo, e o último ato da carreira dele foi apitar. Acabou virando uma rotina. Ano passado, vários árbitros se despediram assim. Ali é muito mais uma imagem de um árbitro apitando o fim da carreira, com dedicação ao futebol, feliz por aquele ato. Quem entra na arbitragem não quer sair, gosta muito disso. Não é fácil o começo da carreira, é preciso superar as dificuldades. Mas estar no campo, ser elogiado, gostar de futebol. Isso é um prazer muito grande.

Chegar no hotel depois de um jogo e ouvir que a atuação do árbitro, ou não ouvir ninguém reclamar, dá uma sensação que nem a de um jogador que fez três gols e decidiu o jogo?

A realização do árbitro é sair do jogo e falar: ninguém falou nada de arbitragem. Passei em branco, passei limpo. Isso é bom, é a sensação que pode desfrutar e comemorar a boa arbitragem.

Parece que a Copa América 2016 vai rolar mesmo. Já fizeram até o desenho da bola oficial

O modelo será basicamente o mesmo da próxima temporada da Premier League

A limpa que o FBI fez na cartolagem das Américas deixou a Copa América Centenário na berlinda. Claro, os dirigentes de Conmebol e Concacaf que (ainda) não foram presos ou indiciados estão claramente com medo de viajar aos Estados Unidos ou a países com acordo de extradição com os EUA. Assim, quem é que iria comandar o torneio realizado em solo norte-americano?

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Bem, uma reunião na semana passada ratificou a realização do torneio, e parece que vai acontecer mesmo. O ótimo Footy Headlines, fonte constante de vazamento de novos modelos de camisas, bolas e chuteiras, apresentou o desenho que a Nike preparou para a bola oficial do torneio.

O modelo da bola teria base na Nike Ordem IV, a mesma que será utilizada na temporada 2016/17 da Premier League. A imagem acima é só um esboço do desenho que a peça terá, pois a tecnologia e estrutura em si ainda está em desenvolvimento.

A saída de Ronaldinho é o melhor reforço que o Fluminense poderia ter neste momento

Jogar sem o peso do astro que pouco produz pode ser a diferença para o retorno à boa fase

A constatação era meio óbvia pela matemática, mas dura pelo que se imagina do Fluminense: Fred reconheceu que o Tricolor estava brigando para fugir do rebaixamento. Um cenário bizarro para um time com elenco para lutar por Libertadores, exatamente o que estava fazendo até algumas semanas atrás, quando tudo começou a dar errado nas Laranjeiras. Nesse momento, a melhor notícia possível (além dos três pontos que vieram com a vitória providencial sobre o Goiás, claro) é a saída de Ronaldinho.

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O ídolo de Barcelona e Atlético Mineiro anunciou seu rompimento de contrato com o clube carioca na noite desta segunda. Sem o jogador no elenco, o Fluminense não perde nada tecnicamente, mas tem um enorme alívio econômico e psicológico. Talvez o que vinha faltando para o time.

Equipes com a capacidade técnica do Flu raramente são rebaixadas. Elas têm recursos para, em algum momento, encontrar os pontos que precisam para escapar, por maior que seja o susto. A queda só ocorre em casos excepcionais, como dissociação enorme entre elenco e diretoria/comissão técnica ou se o grupo está todo quebrado e descompromissado. Ronaldinho, desde que chegou, pode ter criado essa instabilidade.

O Fluminense vinha mostrando grande competência em fazer a transição do modelo de co-gestão coma Unimed com a vida independente. Jogadores da base voltavam a ganhar destaque, enquanto que os nomes mais produtivos da época do patrocínio gordo, como Fred e Diego Cavalieri, se mantiveram nas Laranjeiras. Seria otimismo demais esperar uma disputa de título em 2015, mas  dava para brigar no topo da tabela.

Ronaldinho foi a recaída da diretoria. Seduzida pela possibilidade de ter um dos maiores jogadores do século 21, o clube contratou o meia em uma medida que tinha muito mais a cara de Celso Barros: o importante era o retorno de exposição da marca, não em campo. Desde então, o Flu degringolou. O time de Enderson Moreira, que estava ajeitado, ficou bagunçado e sem uma cara, perdendo 9 dos 16 jogos que fez desde a estreia do jogador.

A questão não é necessariamente algum problema que o meia tenha criado, mas o modo como sua chegada desestabilizou um ambiente que estava resolvido. Não precisa muito para isso. Basta a equipe ter de se adaptar para acomodar o jogador e alguns companheiros ficarem descontentes com alguém de salário tão alto produzindo tão pouco para o embalo se perder. Por isso, a permanência de Ronaldinho poderia dificultar muito a recuperação do Tricolor, agora comandado por Eduardo Baptista.

Nesse contexto, o anúncio da saída de Ronaldinho é um reforço para o time, até porque o processo parece ter sido pacífico e suve, com poucas chances de criar novos traumas.

Futebol mambembe: veja como era difícil comprar a camisa do seu time em 1988

As táticas incluíam telefonar para o roupeiro, comprar diretamente dos jogadores depois dos jogos ou até mandar um cheque pelo correio

Às vezes não parece, mas o mundo de hoje é melhor que o do passado em vários aspectos. Não é uma questão do futebol de raiz x futebol moderno, um debate que se desmembra também em arenas x estádios tradicionais, torcedores-clientes x torcedores-torcedores ou autenticidade x marketing. É uma questão que um pouco de profissionalismo e organização é bom, simples assim. E isso pode ser visto em um ato dos mais singelos, como comprar a camisa oficial de seu clube.

ESPECIAL: Por que a camisa do seu clube custa tão caro

O amigo Humberto Peron, editor da revista Monet, achou uma preciosidade e a publicou em pedaços em seu Twitter. Uma reportagem da revista Placar Mais (nome da Placar no finalzinho dos anos 80) de dezembro de 1988 mostrando o que era preciso fazer para comprar a camisa dos times da Copa União (Campeonato Brasileiro) daquele ano. Era um outro mundo, em que era preciso fazer muito esforço para não comprar uma peça pirata. Confira:

Obs.: clique aqui para ver a imagem com mais resolução

Placar 1988_venda de camisas

Veja um apanhado das melhores histórias:

– Corinthians: “A chave se chama Miranda, roupeiro do time. Ele vende até por telefone”;

– Cruzeiro: “Como no caso do rival Galo, uma boa pedida é falar com os jogadores do time. Eles têm seis camisas que podem distribuir à vontade”;

– Fluminense: “A Flu-Boutique é a principal revendedora do clube. Também atende aos pedidos por carta. Ou procurando o roupeiro Chimbica”; “Preço: com o roupeiro é mais barato: Cz$ 4 mil. Na loja, sai por Cz$ 10,9 mil a listrada e Cz$ 8,6 mil a branca”;

– Goiás: “Os jogadores mal têm camisas suficientes para utilizar nos jogos. Estão proibidos de trocá-las ou vendê-las no final das partidas”;

– Guarani: “O lateral-esquerdo Élcio é o encarregado das vendas depois dos jogos”;

– Portuguesa: “No Canindé, onde cada jogador tem uma cota de dez camisas para vender, ou escrevendo para o goleiro Waldir Peres, presidente da caixinha”;

– Santa Cruz: “O encarregado das vendas é o lateral-esquerdo Lóti. Ele atende tanto no clube como por carta”;

– Em vários clubes, como Santos, Sport e São Paulo, o melhor jeito era enviar um cheque pelo correio;

– Os números também chamam a atenção. O Corinthians vendia 350 camisas por mês. O Internacional comercializava apenas 90 e o Cruzeiro, só 80.

GALERIA: Como seriam essas camisas antigas bizarras nos dias de hoje?

Basicamente, não havia sistema de distribuição das camisas para as lojas. Os fabricantes (e, na época, os clubes já tinham fornecedores oficiais) enviavam remessas aos clubes e por lá elas ficavam. Algumas equipes montavam uma lojinha na sede e só. O resto era resolver com os próprios jogadores ou com o roupeiro.

Era um futebol quase mambembe, em um nível que o desconforto causado é muito maior que o ar romântico. Afinal, o estádio com arquibancada de concreto, torcida em pé e ninguém tirando selfie é legal, mas vender a camisa oficial em qualquer loja esportiva da cidade é o mínimo que se espera em 2015.

Atualização às 14h46

Um lado positivo desse universo mambembe. A maioria das camisas custavam cerca de Cz$ 7 mil. Considerando que a Placar Mais custava Cz$ 750, um uniforme oficial era menos de dez vezes o valor de uma revista (sendo que a Placar mais tinha papel de baixa qualidade pra ter um preço mais acessível que as revistas normais da época). Hoje, a Placar custa R$ 13. Ou seja, dá para projetar que as camisas oficiais custavam o equivalente a pouco mais de R$ 100.

Os jogos da Máfia do Apito que nunca foram refeitos

O STJD anulou os 11 jogos que Edílson Pereira de Carvalho apitou na Série A de 2005, mas outras 29 partidas por outros torneios passaram em branco

O domingo mal havia começado e a bomba havia caído. O STJD, representado pelo seu presidente Luiz Zveiter, anunciou que 11 jogos do Campeonato Brasileiro estavam anulados e teriam de ser disputados novamente. A decisão tomava por princípio que todas as partidas apitadas por Edílson Pereira de Carvalho estavam sob suspeita e era mais fácil apagar todas dos registros. A polêmica começou, e até hoje não terminou. O Corinthians foi campeão com três pontos de vantagem sobre o Internacional, sendo que os paulistas conquistaram quatro pontos em seus dois duelos que foram refeitos – o time havia perdido ambos da primeira vez. Essa questão pauta a maioria dos debates sobre o tema desde que ele surgiu, há exatos dez anos, e muitos esquecem que nem todas as partidas ligadas ao escândalo foram anuladas.

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A Máfia do Apito tem como personagem mais famoso Edilson Pereira de Carvalho, mas o esquema incluía outra figura da arbitragem. Nagib Fayad, o responsável por comprar resultados de jogos para vencer apostas, tinha como primeiro contato Paulo José Danelon, também um árbitro da Federação Paulista. As negociatas ocorriam havia meses quando o caso foi revelado à redação da revista Veja – que levou as informações ao Ministério Público, que deu início às investigações.

O fato de as autoridades só terem tomado conhecimento quando o esquema já estava em prática foi usado como um dos argumentos para se anular todos os jogos apitados por Edílson na Série A de 2005. Afinal, alguns jogos já haviam sido realizados e o STJD considerou arriscado anular só alguns simplesmente porque outros ocorreram no começo do campeonato. Por esse mesmo motivo, os encontros apitados por Danelon e Edílson em toda aquela temporada ficaram em xeque. E não foram poucos.

Edílson havia trabalhado em dois jogos da Libertadores, um da Copa Sul-Americana e 12 do Paulistão. Danelon esteve em dez do estadual e quatro da Série B nacional. Veja a lista:

Jogos apitados por Edílson Pereira de Carvalho

Libertadores
Banfield 3×2 Alianza
Santo André 2×1 Palmeiras

Copa Sul-Americana
Juventude 1×3 Cruzeiro

Campeonato Paulista
Marília 1×0 Corinthians
Mogi Mirim 2×4 Santos
Ituano 1×0 União Barbarense
Portuguesa Santista 1×0 Palmeiras
Santos 3×0 Corinthians
Palmeiras 3×1 Santos
São Caetano 2×2 Internacional-SP
Atlético Sorocaba 0x2 Portuguesa
América-SP 4×1 Palmeiras
Guarani 0x2 Corinthians
São Paulo 1×2 Ponte Preta
União São João 1×3 União Barbarense

Jogos apitados por Paulo José Danelon

Campeonato Paulista
Atlético Sorocaba 0x0 Portuguesa Santista
Paulista 4×1 São Caetano
Santos 0x0 Guarani
Marília 2×2 Ituano
Corinthians 3×0 Ponte Preta
Ituano 1×4 Palmeiras
Guarani 1×1 Atlético Sorocaba
Portuguesa Santista 1×0 Santo André
Portuguesa Santista 0x1 União São João
Marília 1×1 Santos

Série B
Paulista 4×0 Guarani
Portuguesa 0x4 Ituano
Guarani 2×1 Santo André
Ituano 2×1 Marília

Alguns desses 29 jogos foram importantes. Não no topo da tabela, mas embaixo. No Paulistão 2005, o São Paulo seria campeão do mesmo jeito. O problema ficaria embaixo. O único time que não teve uma partida sequer apitada por Edílson ou Danelon foi o Rio Branco de Americana. Todos os outros conquistaram e perderam pontos com um dos dois em campo, e o cenário na luta contra o rebaixamento mudaria significativamente. Nem tanto pela pontuação em si (a Portuguesa Santista assumiria o lugar do União Barbarense no Z-4), mas pelo fato de que vários clubes teriam partidas novas a realizar, com o potencial de conquistar mais pontos. Um exemplo é o América de Rio Preto, que goleou o Palmeiras com Edílson no apito e teria dificuldade de repetir o resultado. O União São João e o União Barbarense, com três jogos cada, poderiam reagir.

Tabela_Paulistão 2005

O mais traumatizado foi o União São João, que foi rebaixado por perder em Araras para o União Barbarense na última rodada daquele Paulistão, com Edílson no apito. Desde então, o clube nunca mais conseguiu se recuperar financeiramente e acabou se licenciando no começo de 2015, desistindo da quarta divisão paulista. A diretoria não teve dúvidas em apontar o árbitro como o responsável por essa fase.

Algo parecido ocorreu na Série B, ainda que apenas quatro jogos tenham influência da dupla de árbitros. Danelon apitou só duelos entre clubes paulistas, mas eles tiveram implicação direta na luta para fugir da queda e na fase semifinal. No topo da tabela, o Guarani precisaria pontuar no jogo que seria refeito para se classificar (tirando o Vila Nova) e a configuração dos dois quadrangulares da segunda fase poderia ser diferente. Na parte de baixo, o Paulista entraria na zona de rebaixamento, assumindo o lugar do Vitória. Caso o clube de Jundiaí pontuasse no joo refeito (contra o Guarani), quem cairia seria o Ituano, que venceu dois jogos com Danelon no apito e precisaria vencer um deles para passar o rubro-negro baiano.

Tabela_Série B 2005

O dois jogos da Libertadores apitados por Edílson foram os únicos inócuos. Ainda que o árbitro tenha admitido que o Banfield x Alianza estivesse no esquema de apostas de Gibão, o jogo não tinha implicações na classificação do grupo (o time argentino passou, o peruano caiu). O Santo André x Palmeiras também não traria alterações significativas. De qualquer forma, o torneio já havia terminado e qualquer decisão sobre ele era alçada da Conmebol, que lavou as mãos no caso da Máfia do Apito.

As partidas do Paulistão e da Série B também passaram em branco pelo momento da denúncia. O Campeonato Paulista já estava encerrado e os elencos de alguns clubes do interior estava desmobilizado. No caso da Segundona nacional, a segunda fase já estava em andamento e o STJD achou inviável anular os jogos, correndo o risco de também cancelar a segunda fase devido à alteração na tabela.

Desse modo, o tribunal decidiu apagar apenas os jogos da Série A, que ainda estava no meio do returno (faltavam 13 rodadas para o final do campeonato) e, por isso, teria mais condições de ter uma nova tabela, incluindo 11 jogos novos. Foi o que aconteceu, e muitos dos resultados não se repetiram. O Corinthians, que havia perdido em seus dois encontros com Edílson Pereira de Carvalho, e essa é a parte da história que todos se lembram. Mas houve uma outra, o que só mostra como o esquema da Máfia do Apito era grande, e como é difícil ter de lidar com casos como esse.

O italiano que quer mudar o futebol das Américas, e acabar com a Libertadores que conhecemos

A MP & Silva tomou o lugar de Traffic e TyC como principal agência de mídia do futebol das Américas, e pretende unificar torneios de Concacaf e Conmebol

Nenhum sobrenome tem tanto a cara do Brasil quanto “Silva”. Mas o Silva dessa história não tem nada de brasileiro. Nasceu em Milão, filho da família dona da Italsilva, uma das maiores indústrias químicas da Itália. Mas os rumos profissionais levaram Riccardo Silva a chegar à América Latina. E, agora, ele tem um plano para mudar a cara do futebol de todo o continente, do Alasca à Terra do Fogo. O que poderia reformular a Copa Libertadores a ponto de ela se tornar algo que ninguém a reconheceria.

Essa história atravessa o mundo. O primeiro capítulo foi na Itália, onde Silva entrou na onda da primeira explosão de negócios da internet. Em 1998, criou a MP Web, empresa que provia conteúdo em vídeo de futebol. Vendeu a empresa, trabalhou como agente de celebridades italianas e assumiu o Milan Channel. O conhecimento desse mercado fez que, ao lado de Andrea Radrizzani, fundasse a MP & Silva. A empresa, com sede em Cingapura, trabalharia com a negociação de direitos de transmissão de eventos esportivos.

Durante anos, a MP & Silva ficou à margem do noticiário brasileiro. A empresa dos italianos tem um portfólio gigantesco, mas trabalhava mais no mercado asiático e europeu. Mas, aos poucos, Riccardo Silva foi atravessando o Oceano Atlântico para chegar às Américas. A ponte era natural, pois a maior parte dos torneios que vendia à Ásia eram latino-americanos (Copa América, Eliminatórias da Copa, Libertadores, Sul-Americana, amistosos do Brasil e da Argentina, Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil, entre outros).

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Ainda assim, o mercado de transmissão de direitos do futebol latino-americano era dominado pela brasileira Traffic e a argentina Torneos y Competencias. Até que o FBI quebrasse essa estrutura, investigando líderes das duas empresas, além de prender diversos cartolas da Concacaf e da Conmebol.

Pode ser coincidência, mas a MP & Silva começou a ganhar espaço. Em parceria com o ex-defensor Paolo Maldini, Riccardo Silva será dono do Miami novo time da NASL, segunda principal liga profissional dos Estados Unidos. Agora, a nova investida é mais ousada: aproveitar o embalo da Copa América Centenário, que unificará Concacaf e Conmebol, para criar a Americas Champions League.

A primeira notícia sobre a ideia de criar um torneio pan-americano de clubes é de julho, mas começa a parecer cada vez mais séria. Em entrevista ao site Sports Business Daily, Silva apresenta números sobre o que representaria o projeto. “As Américas têm uma população combinada 30% maior que a Europa. Um torneio dessa escala pode valer mais de US$ 500 milhões em direitos de TV e de marketing, enquanto que os torneios da Concacaf e da Conmebol, somados, valem hoje apenas US$ 100 milhões.

AMÉRICA UNIDA: A Copa América do centenário é um primeiro passo por uma Libertadores de todas as Américas

O sistema de disputa seria simples, com 64 clubes divididos em uma fase de grupos, com chaves regionais nas etapas iniciais, jogos em meio de semana e início em fevereiro. Segundo Silva, cada time poderia receber um mínimo de US$ 5 milhões, com prêmios que cresceriam gradualmente de acordo com o avanço da equipe, chegando a US$ 30 milhões para o vencedor. No total, US$ 440 milhões seriam distribuídos para os clubes.

Mais que os números, são os nomes envolvidos que chamam a atenção. O empresário disse ter feito consulta com vários clubes brasileiros, mencionando Corinthians e Flamengo como exemplos, e teria recebido sinal verde. O próximo passo seria conversar com equipes de EUA e México, e contaria com Paul Tagliabue (ex-chefão da NL) como consultor.

Se o projeto der certo, a MP & Silva estaria dando o passo definitivo para ocupar o espaço que o FBI deixou vago de principal empresa de marketing esportivo das Américas. E o italiano que começou com uma empresa para vídeos na internet se tornaria o herdeiro de J. Hawilla.

TRAFFIC: De dono do futebol brasileiro a delator: a ascensão e queda de J. Hawilla

Médico do Madureira pede ajuda no Facebook para achar irregularidades nos rivais da Série C

O Tricolor Suburbano foi rebaixado com uma rodada de antecedência, após perder do Guaratinguetá neste domingo

Uma derrota por 5 a 0 para o Guaratinguetá no último domingo, e o Madureira estava, com uma rodada de antecipação, rebaixado para a Série D do Brasileiro. Um final melancólico para uma campanha estável, estável até demais. O Tricolor Suburbano perdeu apenas 6 dos 17 jogos (mesma quantidade da Portuguesa, a terceira colocada), mas não sobreviveu ao fato de empatar dez e vencer apenas um. Com 10 pontos, não pode mais ultrapassar o adversário desse fim de semana, que foi a 13 e já tem 4 vitórias. Mas a esperança ainda não morreu, pelo menos fora de campo.

SÉRIE C: Esqueça a Série A: a Terceirona terá 10 decisões no domingo, em rodada final eletrizante

Nesta terça, o médico do clube, Felipe Espósito, foi a uma comunidade de futebol no Facebook fazer um apelo. O objetivo era descobrir se algum clube do Grupo B da terceira divisão, sobretudo Tombense e Guaratinguetá, tinham alguma irregularidade que poderia custar pontos na Justiça e salvar a equipe carioca.

Madureira_Post Futebol Alternativo

O caso é inusitado. Espósito está na comissão técnica do Madureira desde fevereiro deste ano, mas se diz torcedor do clube. E isso que teria motivado seu apelo. “A queda pode afetar a vida pessoal de muita gente, muitos funcionários que dependem daquele singelo salário pra botar comida na mesa da família, que com a queda podem ser demitidos”, comentou em entrevista à Trivela. “Ninguém da diretoria me pediu pra fazer nada, eu resolvi por mim mesmo, sou parte do time, e se eu puder ajudar, de qualquer forma lícita e moral, para o time permanecer de fato ajudarei.”

O médico faz questão de falar em licitude, pois considera que não há problemas éticos no pedido ajuda para encontrar irregularidades dos outros clubes. Por isso não teme repercussão negativa. “Não vejo nenhuma trapaça ou artimanha, nada ilícito ou anti-desportivo. Não quero achar uma brecha, mas fazer valer os direitos. Aceito a queda, mas seria burrice fechar os olhos à irregularidades que poderiam manter nosso time na série C.”

O Madureira era um dos participantes mais tradicionais da Série C no atual formado. O clube chegou à terceira divisão após chegar às semifinais da Série D de 2010, em um torneio pelo qual passou por Tupi, Botafogo de Ribeirão Preto (SP), Cene, Rio Branco-ES, Uberaba e Operário de Ponta Grossa (PR). Caiu apenas para o América de Manaus, que foi punido na Justiça, abrindo a quarta vaga da promoção ao Joinville.

Para Espósito, retornar a esse universo não seria o fim do clube, mas ele considera uma tarefa muito difícil. “Acredito na recuperação do time, os salários são sempre em dia, nosso presidente não comete nenhuma loucura financeira. Por isso acho que podemos retornar, mas pelo número de times que disputam uma série D e pela maneira pela qual o acesso é decidido (mata-mata), pode complicar um pouco nossa vida ano. Seria indiscutivelmente melhor, se estivéssemos permanecido na série C.”