Donald Trump já foi dono de time de futebol americano. E destruiu uma liga

Veja a história de como o novo presidente dos EUA tentou entrar na NFL

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Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos. O candidato republicano acabou conquistando uma boa parte do eleitorado com seu discurso cheio de frases fortes e a promessa de representar algo novo em um sistema falido, levando a maioria dos votos em estados importantes, o suficiente para atingir a maioria no colégio eleitoral. Na sua vida de empresário, seus principais negócios foram no setor imobiliário, mas ele já colocou seu dinheiro em diversas áreas. Até no futebol americano.

Contamos essa história em abril, quando Trump ainda disputava com Ted Cruz e John Kasich o direito de ser o candidato do Partido Republicano. Mas sua vitória nesta terça servem de bom motivo para relembrarmos desse caso. Veja:

Trump usa a mídia, vira protagonista e implode o sistema. Não é política, era o futebol americano

É mais fácil vencer jogando em casa, e Donald Trump sabia disso. Assim como Ted Cruz foi o vitorioso no Texas e John Kasich em Ohio, o milionário nova-iorquino tomou conta das primárias republicanas em Nova York, conquistando 60,4% dos votos e ficando ainda mais perto da indicação do partido para a eleição presidencial do fim do ano. Um cenário que causa angústia no comando da legenda, que não se vê no discurso do extravagante empresário. Os analistas mais exaltados até visualizam um racha no Partido Republicano.

Não é uma possibilidade inédita para Trump. Há 30 anos, o milionário usou seu discurso sempre exagerado para tomar conta da mídia, conquistar aliados e rachar um grupo. Não foi na política, nem em uma versão ancestral de “O Aprendiz”. Foi no futebol americano.

Nos Estados Unidos, ligas esportivas são negócios. A estrutura que coloca a federação como uma espécie de instituição guardiã e legitimadora de competições é fraca. Pessoas podem formar empresas cujo negócio é participar de eventos. Essas empresas podem se juntar para criar uma competição. E aí elas criam seus regulamentos internos para os membros (por isso são “franquias”. São partes de um negócio maior) e até adaptam os do jogo em si se acharem necessário.

Atualmente, NFL, MLB, NBA e NHL são as ligas dominantes de suas modalidades. Elas já têm tradição e dinheiro, e seus clubes conquistaram torcedores a ponto de permitir que todo o negócio gire, mantendo essas competições como as principais do país. Mas nada impede um grupo de empresários de criar novos certames e até ter aspiração a tomar o lugar da concorrente. E, de fato, isso já aconteceu algumas vezes. Uma das mais recentes foi a United States Football League, liga formada nos anos 80 para servir de alternativa à NFL.

Confronto entre New Jersey Generals (vermelho) e Houston Gamblers na temporada de 1985 da USFL (AP Photo/Bill Kostroun)

A maior parte das ligas alternativas busca cidades que não têm franquias nas grandes, conquistando torcedores sem enfrentar concorrência. A USFL fez diferente: a estratégia era preencher o vazio existencial dos torcedores durante o longo recesso da NFL e da NCAA, realizando seus jogos durante a primavera e o verão, quando a única concorrência por atenção de público e mídia seria a MLB (a NBA ainda era uma liga cambaleante e a NHL tinha alcance regional).

David Dixon, um empresário de Nova Orleans, era o cérebro da liga. Ele conseguiu acordos para formar times em 12 dos principais mercados de TV dos Estados Unidos. Nove dessas cidades tinham franquias na NFL, mas isso não era um problema. Com temporadas que não se cruzavam, uma pessoa podia torcer pelas duas equipes de sua região. ABC e ESPN compraram os direitos de transmissão.

Para chamar a atenção do público, a USFL tomou várias atitudes ousadas. Os clubes não tinham medo de fazer ofertas vultosas para os jogadores, convencendo vários a desistirem da NFL para ganhar mais na nova liga e as partidas tinham regras ligeiramente diferentes, como a implementação da conversão de dois pontos após o touchdown e o uso de replay para revisar decisões da arbitragem. Além disso, a direção incentivava um comportamento mais livre e descontraído dos jogadores, sobretudo nas celebrações de TD.

A primeira temporada foi apenas regular do ponto de vista econômico, com dificuldade para atrair público em algumas cidades. Uma das ideias da liga era ter empresários fortes no comando das franquias das regiões de Los Angeles e Nova York, as duas maiores dos EUA. Assim, Donald Trump comprou o New Jersey Generals.

Donald Trump na apresentação do quarterback Doug Flutie (AP Photo/Marty Lederhandler)

A chegada do milionário – então com 37 anos – teve impacto imediato para a USFL. Desbocado e conhecido do público, fez a mídia prestar atenção na concorrente da NFL. Os donos das outras franquias gostaram da ideia e se aproximaram de Trump, que rapidamente se tornou um dos líderes políticos na liga. Impulsivo, o empresário começou a impor sua opinião e sua agenda na liga.

Havia apenas uma força para competir com Trump: John Bassett. O dono do Tampa Bay Bandits comandava uma equipe de sucesso em campo e era um dos mentores da USFL. Sua postura era muito diferente da adotada pelo nova-iorquino, buscando projetos de longo prazo e entendendo a lógica particular de se fazer negócio no mundo dos esportes.

Em 1984, Trump liderou uma campanha dentro da liga para mudar a época de disputa da temporada. Ao invés de organizar as partidas durante as férias da NFL, a USFL entraria em choque direto, fazendo seu campeonato simultaneamente à irmã mais velha. Com toda a verborragia que lhe é peculiar, ele criou a frase “Se Deus quisesse futebol americano na primavera, não teria criado o beisebol”. Bassett era o principal opositor da proposta, mas seu câncer estava cada vez mais avançado e ele se viu obrigado a vender os Bandits, perdendo seu papel na liga.

Trump não defendia a mudança da temporada da USFL por acreditar na capacidade da liga de se chocar com a NFL. Sua ideia era incomodar a NFL o suficiente para forçá-la a absorver ou se fundir com a USFL. Como uma das figuras mais conhecidas e endinheiradas da liga menor, a franquia de Trump provavelmente seria uma das preservadas.

Para acelerar o processo, o milionário convenceu a USFL a processar a NFL por práticas que impedissem a concorrência de mercado. O argumento principal é que a NFL incluía em seus acordos com as emissoras de TV uma cláusula proibindo o canal de transmitir outra liga profissional de futebol americano na mesma época do ano. Além disso, a ação antitruste acusava a NFL de impedir que algumas franquias da USFL utilizassem os mesmos estádios da liga maior. Trump e seus colegas pediam indenização de US$ 567 milhões, um valor que saltaria para US$ 1,7 bilhões pela lei antitruste.

Donald Trump (à direita) e Harry Usher, comissário da USFL, no anúncio da fusão entre os Generals e os Gamblers (AP Photo/Marty Lederhandler)

A Justiça deu ganho de causa à USFL, mas foi uma das vitórias mais inócuas do esporte. A Corte concordou que a NFL adotava práticas ilegais de monopólio para manter sua condição hegemônica no futebol americano. No entanto, as intenções da USFL para o processo não foram ignoradas. O júri considerou que a liga menor alterou sua estratégia de mercado apenas para forçar a fusão com a NFL, uma decisão que causou prejuízos a suas próprias franquias, e citou Trump como responsável por liderar essa campanha sabendo que muitas das equipes entrariam em falência. Ou seja, ainda que as táticas predatórias da NFL tenham prejudicado a USFL, sua situação financeira desesperadora se devia exclusivamente a suas próprias escolhas.

Com isso, a Justiça determinou uma indenização de US$ 1, que triplicou como previa a lei antitruste. O cheque de três dólares nunca foi descontado e a USFL fechou as portas antes mesmo de iniciar sua primeira temporada simultânea com a NFL. Tudo porque deixou de lado seus princípios e foi para o confronto, o choque.

Isso foi em 1986. Trinta anos depois, Trump adota uma postura parecida na sua corrida à Casa Branca. Dificilmente ele rachará o Partido Republicano, uma instituição muito mais tradicional e sólida que a USFL. Mas a forma como o empresário falastrão sequestrou o debate das primárias lembra o que ocorreu com a liga. E seu discurso sempre imprevisível causa desconfiança em muitos, ainda que soe sedutor para tantos outros.

A história do beisebol nos Jogos Olímpicos

O beisebol estará de volta em Tóquio-2020. Boa oportunidade para recordar um especial sobre a história da modalidade nos Jogos Olímpicos

O beisebol está de volta aos Jogos Olímpicos. Nesta quarta, o Comitê Olímpico Internacional confirmou o retorno da modalidade para Tóquio-2020. É a retomada de uma trajetória cheia de interrupções, com disputas como demonstração e uma vida curta como modalidade fixa, entre 1992 e 2008.

Em 2012, publicamos um especial sobre a história do beisebol olímpico. Hoje é um bom dia para relembrá-lo. Confira abaixo:

O beisebol e sua história nos Jogos Olímpicos

Badminton é o esporte mais perseguido pelos brasileiros nas Olimpíadas. Deve ser o nome estranho. Pense você (ou pergunte a um amigo aleatório) qual o esporte mais bizarro dos Jogos. Badminton virá a cabeça. E é uma injustiça, pois o esporte da peteca tem muita popularidade em certas partes do mundo. Mais que o nado sincronizado, o pentatlo moderno ou o tiro com arco.

Mas é mais popular que o beisebol? Não, provavelmente não é. O beisebol é muito forte nos Estados Unidos, Cuba, República Dominicana, Porto Rico, Japão, Coreia do Sul, México, Taiwan e Venezuela, com nível razoável de penetração em Canadá, Colômbia, Nicarágua, Panamá, Austrália, China e Holanda.

Poderia ser olímpico? Claro, tanto que foi por 16 anos. Para entender tudo o que envolve a relação entre o beisebol e os Jogos Olímpicos, o ExtraTime preparou um especial, mostrando o passado e o presente, e projetando o futuro. Confira abaixo:

A história do beisebol nos Jogos

Sabia que R.A. Dickey, arremessador do New York Mets e um dos melhores na temporada, foi medalha de bronze nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996? E apesar da MLB “ficar” nos EUA, os EUA não teve uma supremacia no esporte, como aconteceu no basquete? Leia aqui!

Por que o beisebol saiu das Olimpíadas?

O COI permitiu que os principais nomes da MLB pudessem representar seus países, mas uma série de fatores contribuiu para a exclusão da modalidade. Escândalos de doping e a pressão de outros esportes são alguns deles. Leia aqui!

Os Jogos são importantes para o beisebol?

As Olimpíadas criam uma sensação de que é possível acompanhar esportes diferentes. Por meio dos Jogos, pessoas de países sem muita tradição na modalidade poderiam ver o quão popular ela é. Leia aqui!

Uma proposta para o beisebol olímpico

Como seria o beisebol olímpico com todas as estrelas da MLB? Com Derek Jeter, Ryan Braun, Prince Fielder e muitos outros, os EUA seriam os favoritos. Mas países como Japão, Coreia do Sul, Venezuela e República Dominicana brigariam muito pela medalha. Leia aqui!

A conversa que pode ter convencido Tom Brady a desistir da MLB para jogar futebol americano

Há exatos 21 anos, o Montréal Expos selecionou um tal Thomas Edward Patrick Brady Jr, catcher da Junipero Serra High School

Há exatos 21 anos, o Montréal Expos selecionou um tal Thomas Edward Patrick Brady Jr, catcher da Junipero Serra High School, na 18ª rodada do draft da MLB. O garoto não aceitou o convite, pois já tinha proposta para atuar como quarterback da Universidade de Michigan. Uma escolha aparentemente acertada, pois, polêmicas à parte, ele tornou-se um dos maiores vencedores de Super Bowl e um dos melhores jogadores de todos os tempos da NFL.

Em fevereiro do ano passado, contamos um pouco a história de Tom Brady como jogador de beisebol e a conversa que pode ter sido decisiva para sua escolha pelo futebol americano.

Como esses dois jogadores medianos da MLB ajudaram a mudar a história da NFL
FP Santangelo (na frente da fila) e Rondell White (camisa 22) comemoram vitória dos Expos (AP Photo/Lacy Atkins)
FP Santangelo (na frente da fila) e Rondell White (camisa 22) comemoram vitória dos Expos (AP Photo/Lacy Atkins)

FP Santangelo teve uma passagem efêmera na MLB. Foi quarto colocado na eleição de Estreante do Ano em 1996 pelo Montréal Expos, mas seu desempenho caiu rapidamente. Depois dessa temporada inaugural, jamais passou de 26% de aproveitamento, 5 home runs e 31 corridas impulsionadas. Em 2001, após defender o Oakland Athletics, encerrou a carreira. Durante seu período no Canadá, foi companheiro de Rondell White, que até teve mais sorte. Ficou 15 anos nas grandes ligas, ainda assim só foi uma vez ao All-Star Game.

LEIA MAIS: Tom Brady já está ao lado de Joe Montana entre os maiores da história, e não é pelos títulos

Esses dois jogadores não fizeram nada de espetacular ou particularmente especial no beisebol, mas podem ter ajudado a mudar a história da NFL. Tudo por causa de uma sessão de treinos do Montréal Expos em 1995. Um dia que pode ter definitivamente colocado um garoto de San Mateo, Califórnia, no caminho do futebol americano.

Tom Brady era uma estrela da Junipero Serra High School. O garoto era quarterback do time de futebol americano no inverno e catcher da equipe de beisebol no verão. E tinha talento similar nas duas modalidades, chamando a atenção de olheiros e de recrutadores dos dois esportes.

Os relatos entre o pessoal do beisebol é que se tratava de um catcher com potencial de chegar às grandes ligas devido à agilidade, arremessos fortes e precisos, porte atlético, maturidade (ele já cantava os arremessos, coisa pouco comum em beisebol escolar) e potência nas rebatidas. Seu grande problema era o fato de ter como sonho vencer no futebol americano e ter convites para integrar equipes competitivas da NCAA.

Tom Brady com uniforme do time de beisebol de San Mateo, Califórnia

As franquias da MLB estavam de olho em Brady, mas não se animavam com a possibilidade de draftá-lo. A chance de ele recusar o convite para ir a uma universidade era grande. O Montréal Expos (atual Washington Nationals) era uma exceção. O time canadense acreditava no talento do catcher, e valia a tentativa de selecioná-lo.

Como os jogadores não têm de se inscrever para o draft da MLB, qualquer aluno elegível dos Estados Unidos pode ser recrutado. Claro, o risco de desperdiçar a escolha é maior. No caso de jovens com talentos para outro esporte, o beisebol tem como trunfo o fato de dar a profissionalização imediata (algo importante para garotos que precisam de um emprego para ajudar no sustento da família).

VEJA MAIS: Uma escolha de sexta rodada no draft de 2000 mudou a história dos Patriots

Os Expos aproveitaram que enfrentariam o San Francisco Giants no Candlestick Park para conhecer Brady melhor. O garoto foi convidado para acompanhar os treinos do time antes do jogo e mostrar um pouco seu repertório. Antes das atividades, porém, Brady ficou conversando com jogadores do Montréal, sobretudo Santangelo e White. Os dois jogadores perguntaram ao garoto por que ele aceitaria um contrato da MLB e passaria anos fazendo longas, cansativas e desconfortáveis viagens pelo interior durante duas ou três temporadas de ligas menores ao invés de jogar no Michigan Wolverines, um dos principais times de futebol americano da NCAA.

Ao ver a cena, John Hughes, olheiro que acompanhava mais a fundo a carreira colegial de Brady, comentou com Kevin Malone, diretor esportivo dos Expos: “Eu não acho que esses caras estão nos ajudando muito”. De fato, não ajudaram. O Montréal draftou Brady só na 18ª rodada (quando o efeito de um desperdício de escolha é menos grave), mas o garoto preferiu seguir no futebol americano. Já era a preferência pessoal do catcher/quarterback, mas Santangelo e White podem ter dado o argumento definitivo para ele seguir com a bola oval.

O que a MLB pretende ao realizar um jogo em Cuba

Até Barack Obama estará no jogo que pode ser um marco nas relações cubano-americanas

É uma terça especial para o beisebol. A Major League Baseball volta a realizar uma partida em território cubano, um jogo de pré-temporada entre o Tampa Bay Rays e a seleção da ilha em Havana. Entre os milhares de torcedores estará Barack Obama, primeiro presidente dos EUA a visitar Cuba em 88 anos. É um marco na relação entre os dois países, mas também para o beisebol. Afinal, o que a MLB pretende ao dar passos tão claros em direção a Cuba?

Falei sobre isso no começo do mês, quando o amistoso foi anunciado. Para quem não leu, aí vai o texto.

O que significa a partida que o Tampa Bay Rays fará em Cuba
Jogo de exibição entre Baltimore Orioles e seleção de Cuba, em 1999, foi a primeira e última vez que um time da MLB atuou na ilha (AP)
Jogo de exibição entre Baltimore Orioles e seleção de Cuba, em 1999, foi a primeira e última vez que um time da MLB atuou na ilha (AP)

O Tampa Bay Rays foi o vencedor. Desde que Barack Obama anunciou a retomada de relações entre Estados Unidos e Cuba, várias franquias da Major League Baseball demonstraram interesse em fazer um jogo na ilha. Nesta terça, a liga confirmou que o time da Flórida era o escolhido para enfrentar a seleção cubana, em amistoso marcado para 22 de março no estádio Latinoamericano, em Havana. Será o primeiro jogo de uma equipe da MLB no país desde uma vista do Baltimore Orioles, em 1999.

Obs.: Em 1999, os O’s venceram Cuba por 3 a 2 em Havana (foto acima). A seleção cubana devolveu a visita e venceu por 12 a 6 em Baltimore semanas depois.

Tudo bem, fica claro que o beisebol norte-americano está a fim de pegar uma carona na reabertura do comércio entre os dois países e a presença possível de Obama nas arquibancadas ajudará a dar repercussão mundial ao fato. Mas é evidente que a MLB tem planos muito mais profundos para Cuba em longo prazo.

A economia cubana deve ter um crescimento acentuado com a reaproximação com os Estados Unidos, mas dificilmente será muito relevante para a liga como fonte de renda. Cuba tem, de acordo com a ONU, a 64ª economia do mundo. Entre os países que adoram beisebol na América Latina, é maior que a da República Dominicana, menor que a de Porto Rico e significativamente menor que a da Venezuela. A audiência na Cubavisión e a venda de bonés em Havana pode até ser interessante, mas não são essas ações que justificarão o investimento na ilha.

A MLB quer é se aproximar do talento dos jogadores cubanos. A ilha tem potencial para fornecer mais jogadores até que a República Dominicana, pois tem população maior e com mais acesso a educação e estrutura esportiva. A questão é: como fazer essa busca por jovens promessas?

Porto Rico e México não são bons exemplos. A ilha é um estado associado aos EUA e, por isso, está sujeita às regras de draft de norte-americanos e canadenses. Os mexicanos têm lima estrutura de beisebol mais consolidada e muitos jogadores surgem por meio dela. Assim, Venezuela e República Dominicana têm condições mais semelhantes às de Cuba.

Nesses dois países, as franquias da MLB têm uma rede de olheiros (buscones) e centros de treinamento para categorias de base. Os observadores identificam talentos e os levam para testes. Quem passa é contratado e incorporado à academia, onde são preparados para fazer a transição à América do Norte. No inverno do hemisfério norte, durante o recesso das grandes ligas, eles podem integrar equipes nas ligas latino-americanas.

Os arremessadores cubanos José Fernández e Aroldis Chapman conversam antes de partida (AP Photo/Lynne Sladky)

No entanto, a MLB dá pinta de quem não tentará um modelo tão invasivo com os cubanos, criando suas próprias academias e de alguma forma pautando quem pode ou não participar dos campeonatos nacionais desses países. A maneira como a liga tem tratado a questão de Cuba aparenta uma aproximação mais cordial e cuidadosa, sem soar muito agressivo com a estrutura já existente.

Obs.: Atualmente, não há sistema oficial para um jogador cubano ir à MLB. Ele precisa desertar (fugir de Cuba) e oficializar residência em algum país. A partir daí, as franquias norte-americanas podem contratá-lo como um atleta estrangeiro qualquer.

A Série Nacional (liga cubana) é composta por 16 equipes, cada uma representando uma província do país. Elas funcionam como seleções regionais, absorvendo os principais talentos descobertos nas competições escolares. A quantidade de times prejudica um pouco o nível técnico, pois há muitas vagas disponíveis e jogadores sem tanto talento acabam ganhando espaço. Ainda assim, o maior problema é a dificuldade de oferecer intercâmbio e treinamento de alto nível para tanta gente, ainda mais em um país politicamente isolado que tem dificuldade em importar mão de obra.

A MLB não parece apostar em uma quebra dessa estrutura, sobretudo porque não dá para saber até quando o atual regime seguirá no poder em Cuba. Se o governo de Raúl Castro se mantiver por alguns anos, simplesmente não haverá espaço para negociar a entrada de academias americanas no país (por mais que a ilha se torne mais liberal como parte da reaproximação com Washington). Se a economia se abrir, até haveria a possibilidade teórica, mas poderia soar agressivo para os cubanos e enfrentar resistência.

É mais provável que a MLB se associe ao que já existe em Cuba, firmando parcerias para ajudar no desenvolvimento de jovens nas escolas e criar um modelo de transferência de jogadores da Série Nacional. Para isso, gestos de boa vontade são importantes, o que encaixa com as atitudes que a liga tomou até agora: sobretudo bancar a reforma do estádio Latinoamericano e realizar um amistoso com a presença do presidente norte-americano.

Essas negociações ainda vão levar um tempo, sobretudo porque dependem de como avançarão as conversas entre Washington e Havana (que podem mudar de tom se os republicanos ganharem as eleições presidenciais dos EUA no fim do ano). Mas o caminho leva a uma integração de Cuba com a estrutura do beisebol das grandes ligas. E a visita dos Rays pode ser um marco nesse processo.

Você sabia que a Black Friday surgiu do trânsito da Filadélfia?

Como um jargão policial virou sinônimo de compras, muitas compras

Black Friday para cá, Black Friday para lá. Difícil entrar na internet e não topar com alguma menção ao dia de promoções no comércio americano, que tem se tornado também um dia de supostas promoções no comércio brasileiro. As lojas colocam produtos à venda com descontam e os anúncios pipocam em sites e redes sociais. Pode ser interessante para tirar o atraso e comprar aquela camisa do seu time americano, mesmo com o dólar alto.

De qualquer forma, você sabe qual a origem dessa história de Black Friday? Nós contamos no ano passado, e esse é um momento propício para relembrar.

Um dia duro de trabalho, muito trabalho. A sexta-feira após o Dia de Ação de Graças era sinônimo de problemas para os policiais da Filadélfia na década de 1960. A população aproveitava as comemorações da quarta quinta-feira de novembro para emendar um feriadão. Como sexta e sábado eram dias úteis no comércio, todos iam às lojas para começar as compras de Natal. Resultado: uma multidão nas ruas, e o trânsito ficava um caos e os policiais tinha de trabalhar loucamente para organizar a bagunça. Assim, apelidaram esses dias de Black Friday e Black Saturday.

Trânsito em uma Black Friday da década de 1960
Trânsito em uma Black Friday da década de 1960

Até aquele momento “Black Friday” era uma expressão usada para simbolizar algumas sextas em que coisas graves ocorreram, como “Bloody Sunday” representa um domingo de conflitos religiosos na Irlanda. Mas o primeiro registro de “Black Friday” como o dia seguinte ao de Ação de Graças é de 1961, justamente entre policiais da Filadélfia. Não era uma expressão das mais positivas, era uma reclamação pelo excesso de trabalho. Os comerciantes reclamaram, pois era um dia de grande faturamento para eles. Houve reuniões com a prefeitura para dar uma nova cara para esses dias de tráfego intenso.

Veja o relato de uma edição de 1961 da revista Public Relations News.

“Um desestímulo para os negócios, o problema [o nome Black Friday e Black Saturday] foi discutido entre os comerciantes com o representante municipal Abe S. Rosen, um dos executivos com mais experiência em relações públicas. Ele recomendou uma abordagem mais positiva, que converteria a Black Friday [Sexta-Feira Negra] e o Big Saturday [Sábado Negro] em Big Friday [Grande Sexta] e Big Saturday [Grande Sábado]. A mídia cooperou espalhando as notícias das belas decorações de Natal no centro da Filadélfia, da popularidade do “dia de sair com a família”, das lojas de departamentos no fim de semana de Ação de Graças melhorarem a estrutura de estacionamento e do aumento de policiamento para garantir o melhor fluxo do tráfego. Rosen relatou que os negócios durante o fim de semana foram tão bons que os comerciantes da Filadélfia estavam com ‘os olhos brilhando’.”

Os nomes Big Friday e Big Saturday não pegaram, mas as ações comerciais tiveram resultados. Na década de 1970, outras cidades norte-americanas adotaram a mesma medida, e espalhou-se a ideia de que o nome “Black Friday” tinha a ver com os lucros das vendas (nos Estados Unidos, a cor preta é usada como no Brasil se usa o “azul” para simbolizar balanço financeiro positivo).

Com o tempo, as ações de marketing dos comerciantes se transformaram em grandes descontos e promoções, ajudando a marcar ainda mais a Black Friday como dia de se comprar muito e preparar o fôlego para as compras de Natal.

Como o futebol americano virou um símbolo do Dia de Ação de Graças

Reunião familiar para se empanturrar de peru também tem muita NFL no cardápio

São três jogos nesta quinta, um após o outro. Tudo para que o norte-americano possa ficar em casa mais de 12 horas seguidas só olhando para a TV, aproveitando algumas paradas para trocar algumas palavras com aquele tio irritante, tentar acalmar o sobrinho endiabrado enquanto abocanha uma fatia de peru ou de torta de abóbora. Afinal, ver a NFL já virou uma das tradições do Dia de Ação de Graças.

Mas como isso aconteceu? Bem, nós contamos essa história no ano passado, e este é um bom momento para trazê-la à tona.

Conheça a origem e o significado do Dia de Ação de Graças e a sua relação com o futebol americano
Jogadores dos Ravens participam de "banquete" após vitória no Thanksgiving (AP Photo/Nick Wass)
Jogadores dos Ravens participam de “banquete” após vitória no Thanksgiving (AP Photo/Nick Wass)

por Matheus Rocha

A quarta quinta-feira do mês de novembro é um dia importante para os norte-americanos, o Dia de Ação de Graças. Um feriado que é comparado ao Natal e ao Ano Novo nos Estados Unidos, mas que não é tão conhecido para as pessoas de outros países. Então vamos contar um pouco mais sobre esta data e a sua relação com o futebol americano profissional.

LEIA MAIS: Cinco histórias inesquecíveis da NFL no Dia de Ação de Graças

Neste 27 de novembro, as famílias se juntarão para agradecer pelo que aconteceu no último, ter um banquete com peru sendo o principal alimento da mesa e também para aproveitar uma das mais recentes tradições do Dia de Ação de Graças: três jogos de futebol americano seguidos.

Mas quando a comemoração surgiu pela primeira vez? Muitos historiadores norte-americanos dão este crédito a uma celebração em 1621, quando donos de plantações em Plymouth, no estado de Massachusetts, ofereceram um banquete para comemorar uma safra de sucesso. Foram três dias de festa com cerca de 150 pessoas, entre peregrinos e nativos americanos. Com o passar do tempo, os colonos da região da Nova Inglaterra se acostumaram a fazer o mesmo tipo de celebração para agradecer Deus por vitórias em batalhas militares ou o final de secas que atacavam o local na época.

A primeira celebração realmente nacional do feriado foi em 1789, quando o então presidente George Washington proclamou a data para aquele ano, dizendo que as pessoas deveriam se reunir para agradecer de forma calma e pacífica. Mas ainda demorou quase 100 anos para que a data se tornasse uma comemoração nacional. Em 1863, Abraham Lincoln estabeleceu que o Dia de Ação de Graças fosse celebrado anualmente para “agradecer e louvar ao Pai beneficente que habita nos céus”.

Desde então, familiares de todas as partes do país se reúnem para celebrar e o feriado se tornou um dos dias mais cheios para a aviação dos EUA, com pessoas deixando o local onde moram para poder se encontrar com a família. Para se ter uma ideia, a assessoria do Aeroporto Internacional de Los Angeles disse que espera que cerca de dois milhões de passageiros passem por seus terminais.

O futebol americano profissional passou a fazer parte das comemorações no primeiro ano em que há registro de atletas sendo pagos para atuar, em 1892. O Lehigh Mountain Hawks bateu o Pittsburgh Athletic Club por 21 a 0 e a Allegheny Athletic Association venceu o Cleveland Athletic Club por modestos 4 a 0.

A NFL que conhecemos hoje foi criada em 1920 e já em sua primeira temporada, a liga teve uma partida realizada no Thanksgiving. Uma lenda diz que Chicago Tigers e Decatur Staleys criaram um desafio com o perdedor do jogo sendo rebaixado. Curiosamente, os Staleys acabaram se mudando para Chicago no ano seguinte e trocaram de nome alguns anos depois, virando os Bears.

A grande tradição da liga na data começou de verdade em 1934, quando o Detroit Lions criou a mandar uma partida no feriado. Nos anos 60, o Dallas Cowboys também adotou a prática. E em 2006, a NFL adicionou um jogo para transmitir no horário nobre, sendo que não há um time mandante fixo, possibilitando que várias equipes também possam participar da tradição.

Neste ano, os Lions receberão os Bears às 15h30, seguidos pela partida entre Cowboys e Philadelphia Eagles. No horário nobre, o San Francisco 49ers receberá o Seattle Seahawks, na principal “nova rivalidade” da liga.

Então se você gosta de futebol americano, crie o seu próprio banquete, aproveite e agradeça pelo dia.

Quatro textos para entender a relação entre esportes americanos e a comunidade negra

Uma seleção especial para esse Dia da Consciência Negra

O Dia da Consciência Negra ainda não é feriado nacional, mas centenas de cidades e alguns estados inteiros pararam nesta sexta aqui no Brasil. Nada mais justo para reforçar a importância histórica e cultural que os negros tiveram na sociedade brasileira, além de permitir um momento de reflexão sobre como esse papel nem sempre (em alguns casos, quase nunca) é valorizado ou reconhecido.

Nos Estados Unidos há elementos em que a situação é melhor que a brasileira, e outros em que é pior, pelas características específicas de cada país. Ainda assim, dá para dizer que existem semelhanças que podem ser usadas pelos brasileiros como inspiração ou alerta.

As ligas esportivas dos EUA são um campo farto de temas ligados à relação racional, e o ExtraTime trata disso com constância. Para o Dia da Consciência Negra aqui no Brasil, separamos alguns textos que mostram como os afro-americanos tiveram papel fundamental na construção desses esportes que tanto crescem entre o público brasileiro.

A esquecida história da quebra da barreira racial na NFL

É impossível imaginar o futebol americano sem atletas negros, e muito disso se deve a quatro pioneiros, lá na década de 1940

Fala-se tanto de Jackie Robinson porque nem todos entenderam seu legado

Dois dias após se celebrar a figura que representa o fim da intolerência no esporte, houve quem reclamasse de homenagens a Boston

O vídeo da NBA para homenagear Martin Luther King é de arrepiar

Cenas de basquete misturadas com o discurso “Eu Tenho um Sonho”? Claro, oras

PK Subban e a história dos negros na NHL

Esporte majoritariamente branco, o hóquei no gelo também contabiliza pioneiros e heróis de origem africana

Clique aqui para ver todos os textos do ExtraTime que teve o racismo ou atritos raciais como tema

Como o 11 de Setembro impactou as principais ligas americanas

Como o esporte também foi atingido pelos acontecimentos da data que virou um capítulo triste da história mundial

É impossível passar por esta sexta e ficar impassível, ainda mais para um americano. Onze de setembro não é mais uma data, é um acontecimento histórico. Escrever ou falar “11 de Setembro” (sim, com “s” maiúsculo como nome próprio que se tornou) é mencionar uma série de fatos, uma série de sensações, uma série de discussões sobre o que a humanidade fez para chegar a situações como essa e outras que ocorrem até hoje.

Claro, o impacto dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono tiveram grande impacto na vida americana, incluindo nos Esportes. Há quatro anos, quando o 11 de Setembro completou 11 anos, fizemos um especial mostrando como aquele dia se misturou com o esporte. Relembre:

11 anos do 11 de setembro

Enquanto o World Trade Center, em Nova York, era atingido por dois aviões 11 anos atrás, o então comissário da NFL, Paul Tagliabue, estava em reunião. Sua assistente invadiu a sala e informou o que estava acontecendo a cerca de 5 quilômetros dos escritórios da liga.

Em conversa com o editor do ExtraTime, Ubiratan Leal, nesta semana, o ex-dirigente lembra que muitos funcionários da NFL tinham familiares trabalhando no WTC: “Todo mundo começou a tentar contatar seus conhecidos”.

Apesar da NFL e da MLB serem as únicas ligas com partidas em andamento na época dos ataques, todas as quatro entidades sofreram com a tragédia. O ExtraTime preparou um especial para os 11 anos do 11/09, com os testemunhos de quem estava em Nova York no dia dos ataques e dez anos depois, e histórias de como os atentados afetaram o basquete, o beisebol, o futebol americano e o hóquei no gelo.

Eu estava lá

Comissário da NFL entre 1989 e 2006, Paul Tagliabue era o chefão da NFL na época dos atentados. Em conversa com Ubiratan Leal, ele relembra o momento em que foi informado do que estava acontecendo e como a liga reagiu ao 11/09. Leia mais!

Jets x Cowboys, dez anos depois

Nosso repórter Brunno Kono relata a experiência de ter acompanhado New York Jets x Dallas Cowboys no aniversário de dez anos dos ataques, com direito a homenagens no intervalo, cara e coroa com George W. Bush e muitos gritos de “USA!”. Leia mais!

Histórias do 11 de Setembro

MLB: …E todo mundo teve simpatia pelos Yankees
NBA: Como os ataques ligaram um funcionário ao Warriors
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Conheça Ali bin al-Hussein, o homem que pode tirar Joseph Blatter do comando da Fifa

De onde surgiu e o que pretende fazer o príncipe da Jordânia se for eleito presidente da entidade

Joseph Blatter era barbada para a eleição da Fifa desta sexta. O atual mandatário tinha forte apoio político, e ainda viu alguns de seus concorrentes caírem durante as últimas semanas. Sobrou apenas Ali bin al-Hussein, príncipe da Jordânia que contava com o apoio dos europeus para assumir a presidência da entidade que rege o futebol mundial. Uma candidatura inglória, até que o FBI apareceu e, dois dias antes do pleito, prendeu dirigentes e revelou alguns dos esquemas da cartolagem mundial. Foi o suficiente para tornar factível uma virada do jordaniano.

Nesta quinta, os presidentes das federações de Estados Unidos e Canadá já anunciaram voto em Al-Hussein. Europeus pediram a cabeça de Blatter e, pela lógica, devem se alinhar com o príncipe. A Conmebol segue pró-Blatter, mas já há quem imagine uma divisão interna.

Mas quem é Al-Hussein? Fizemos uma matéria em 6 de janeiro contando um pouco sobre a trajetória do príncipe da Jordânia. Confira:

Príncipe da Jordânia pode ser grande adversário de Blatter pela presidência da Fifa
O príncipe Ali bin Al Hussein, da Jordânia (AP Photo/Lai Seng Sin)
O príncipe Ali bin Al Hussein, da Jordânia (AP Photo/Lai Seng Sin)

por Felipe Lobo

Desde que assumiu a presidência da Fifa em 1998, Joseph Blatter nunca teve concorrência na disputa pela reeleição. Na eleição de 2011, Mohamed Bin Hammam tentou concorrer, mas desistiu da candidatura depois de ser condenado por corrupção. Desta vez, a concorrência deve existir de fato. Depois do francês Jérôme Champagne anunciar a candidatura, é a vez do príncipe Ali bin al-Hussein declarar que também será candidato e, assim, disputará com o suíço pelo comando da entidade de dirige o futebol mundial. E o discurso é de mudança e críticas à falta de transparência da Fifa.

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“Eu quero a presidência da Fifa porque eu acredito que é hora de mudar o foco de controvérsia administrativa de volta para o esporte”, declarou o presidente da Federação de Futebol da Jordânia e um dos vice-presidentes da Fifa. “Não foi uma decisão fácil. Veio depois de uma consideração cuidadosa e muitas discussões a respeito da Fifa com colegas nos últimos meses. A mensagem que eu ouvi, repetidas vezes, foi que é hora de uma mudança. O jogo do mundo merece um órgão de gestão de classe mundial – uma Federação Internacional que é uma organização de serviço e um modelo de ética, transparência e boa governança”, declarou ainda o jordaniano.

Ali bin al-Hussein sabe que este talvez seja o momento mais fragilizado na história de Blatter desde que ele assumiu a presidência da entidade. Os escândalos pela escolha do Catar como sede da Copa de 2022 emergem a cada mês com novos problemas, denúncias e acusações de corrupção. O recente episódio do relatório de Michael Garcia, que poderia trazer uma sensação que a Fifa tem feito algo para mudar a sua imagem, fez justamente o contrário.  Com tantos questionamentos sobre a falta de lisura da Fifa, patrocinadores começaram a abandonar a entidade.

“As manchetes deveriam ser sobre futebol, não sobre a Fifa”, disse o príncipe Ali. “A Fifa existe para servir ao esporte que une bilhões de pessoas de todas as partes do mundo, pessoas de diferentes e divergentes associações políticas, religiosas e sociais, que se unem na apreciação do jogo do mundo”, declarou ainda o dirigente.

Presidente da Federação de Futebol da Jordânia desde 1999, Ali é o fundador da Federação de Futebol do Oeste Asiático, que tem 13 membros. Aliado de Michel Platini, o príncipe deverá procurar apoio da Europa e partes da Confederação Asiática de Futebol (AFC). No entanto, para concorrer ao cargo máximo da FIFA, seu nome deve ser indicado por cinco federações. Se conseguir mesmo o apoio de Platini, que claramente passou a se opor a Blatter, Ali terá acesso às 54 federações de futebol do Velho Continente, o que pode ser um diferencial político. Isso, claro, além do apoio que deve tentar conseguir no seu próprio continente.

A disputa deve ser dura. O próprio presidente da AFC, o xeique Salman Bin Ibrahim Al Khalifa, do Bahrein, apoia fortemente Blatter. Champagne, que tem boas ideias, precisará de apoio para se candidatar e isso parece algo que ele ainda não conseguiu e só tem até o dia 31 de janeiro para alcançar. É a data limite para a indicação de candidatos. A eleição será no dia 29 de maio, em Zurique, durante o congresso da Fifa.

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A lição que Jackie Robinson deixou para todo o esporte (e a sociedade) dos EUA

Como todo 15 de abril, os jogadores da liga só usarão a camisa 42. Nada mais justo

Quinze de abril é sempre a mesma coisa. O número 42, aposentado de todas as equipes da MLB, tem um renascimento. E em grande estilo. Todos os jogadores da liga usam 42, como se todos fossem, por um dia, Jackie Robinson. Nada mais justo.

O shirtstop e segunda base do Brooklyn Dodgers ficou marcado como o primeiro jogador negro das grandes ligas. Ele abriu as portas para milhares de outros aparecerem, e não apenas no beisebol. Mas sua importância não se deve apenas ao fato de ele ter sido o primeiro. Ele foi um grande jogador, estreante do ano em 1946, MVP da Liga Nacional em 1949, seis vezes escolhido para o Jogo das Estrelas e campeão da World Series em 1955. Robinson não deixou margem alguma para qualquer racista que defendesse a superioridade de uma raça sobre outra.

Para marcar esse dia, vamos recapitular alguns textos que publicamos sobre esse ícone do esporte. Abaixo, alguns links rápidos. Em seguida, um texto sobre seu legado, e como ele foi atacado em outro acontecimento de um 15 de abril, o atentado da Maratona de Boston.

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Fala-se tanto de Jackie Robinson porque nem todos entenderam seu legado

por João Lima

“Não estou preocupado se você gosta ou não gosta de mim. Tudo que peço é que me respeite como um ser humano.” Sim, essa é mais uma coluna sobre Jackie Robinson. Por quê? Porque ele merece. E porque precisamos refletir algumas coisas que vão além do beisebol. A MLB dedica todo 15 de abril (é o “Jackie Robinson Day”, em que todos os jogadores usam o número que ele usava, o 42) ao primeiro negro a vestir uma camisa de um time profissional que não participasse da chamada “Negro League”. Robinson quebrou barreiras pelo que fez, pela luta que teve e, acima de tudo, pela coragem.

Talvez não se valorize o dia como ele deva. Talvez seja comum pensar que é só mais uma homenagem a mais um jogador. Deve ser essa era das redes sociais, que tornam tudo mais fácil e mais momentâneo. Mas não é bem assim. Ian Desmond, do Washington Nationals, nos ajuda a ter uma ideia melhor da importância da data: “É uma honra usar o número dele, mesmo que eu não mereça. Quando eu o coloco, significa algo para mim. Não é simplesmente usar porque colocaram no meu armário no vestiário. Quando eu uso, tem um significado muito grande para mim.”

Robinson, negro, filho de agricultores e pobre, tinha tudo para dar errado na vida. Pelo simples fato de ter nascido de uma cor “diferente” (da cor dos que estavam/estão no poder, pelo menos). Conseguiu cursar uma boa faculdade e jogou todos os esportes que você imaginar. Poderia ser o suficiente para ser considerado um vencedor na vida. Mas ele foi além.

Depois de servir no exército e jogar nas ligas para os negros, Robinson foi chamado para a MLB e aí começou sua fase iconoclasta. Sofreu preconceito dentro do próprio time e, ao redor da liga, nem se fala. Em atletas como Stan Musial encontrou defensores e pessoas de mentalidade justa e digna. Revolucionou a liga. Quanto a números, prêmios e jogos, foi estreante do ano, melhor jogador da Liga Nacional dois anos depois, ajudou a levar o Brooklyn Dodgers a seu primeiro título.

Mas, no fim das contas, o que aprendemos com Jackie? É ótimo homenagear uma figura importantíssima para qualquer esporte americano. Mas que tal por em prática um pouco do que ele fez enquanto vivo?

No mesmo dia que se comemorava o Jackie Robinson Day, a cidade de Boston sofria um atentado bizarro. Alguém querendo chamar atenção? Um novo grupo querendo crescer na bizarra “indústria do terror”? Ainda não se sabe. Mas nós vimos que a explosão de uma bomba levou a vida de uma criança de 8 anos. Oito anos.

Mas então me aparece o New York Yankees homenageando o maior rival: o Boston Red Sox. O time toca Sweet Caroline, música mais que representativa para os torcedores meias-vermelhas no Yankee Stadium (clique aqui e veja). Atitude nobre. Atitude de apoio e de se encher os olhos de orgulho. Mas nem todo mundo achou isso. Cansei de perceber torcedores Yankees achando absurdo e que isso nunca deveria acontecer (e tenho certeza que não é exclusividade de time aqui. Qualquer outra rivalidade teria os mesmos argumentos babacas por parte de alguns torcedores).

Como assim? Estamos comemorando o Jackie Robinson Day na mesma semana que o pessoal não consegue tolerar uma música em homenagem ao maior rival? Em que mundo estamos?

Nosso país passa por um momento em que qualquer notícia a respeito da diversidade vira tema de briga em redes sociais, cria novas inimizades e mais ódio. O respeito, que Jackie tanto pedia, parece não existir mais. Talvez estejamos fazendo muito pouco por ele. Ainda não vi nenhum atleta do beisebol assumir ser homossexual. Certamente são vários. Mas eles não têm coragem, claro o mundo respira intolerância e ódio.

Isso tudo mais de meio século depois de Jackie ter nos presenteado com sua capacidade incrível de lutar. E ele está, certamente, vendo tudo de algum lugar. E torcendo para que você mude. Porque ele mudou muita coisa, mas não pôde fazer tudo sozinho.