Escolha de técnico é teste para a autoridade de Marin e Del Nero

Futuro presidente da CBF tem de tomar uma decisão, e não há nenhuma saída fácil na mão

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Vinte e dois anos. José Maria Marin não foi o sucessor de Ricardo Teixeira pelo sucesso político, pela preferência de clubes, federações ou Rede Globo. Também não foi por consenso dentro da política do futebol brasileiro. Foi por causa de 22 anos, a diferença de idade entre ele, 79 anos de idade em 2012, e Fernando Sarney. Pelo estatuto da CBF, o vice-presidente mais idoso assume em caso de renúncia do presidente.

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A forma como Marin – e, por consequência, Marco Polo Del Nero – assumiu o comando do futebol brasileiro diz muito sobre seu método de gestão. Ele não administra com base em um poder conquistado e respeitado pelos seus opositores, até porque nunca teve isso. O ex-governador biônico de São Paulo recorreu aos métodos mais arcaicos de política, com clientelismo e troca de favores que, no fundo, não valem nada. Foi o suficiente para evitar um golpe que o tirasse da presidência, mas em nenhum momento isso faz de sua liderança algo legitimado pela cartolagem nacional.

Essa realidade, conhecida de Marin e de Marco Polo Del Nero, presidente já eleito da CBF (assume em 2015), torna tão delicada para ambos a definição do técnico da seleção brasileira. Eles serão obrigados a fazer algo inédito: tomar uma decisão por conta própria, correndo o risco de sofrer ataques de todos os lados se ela for criticada.

O grande problema do momento é a falta de uma unanimidade ou de um consenso. Quando Vanderlei Luxemburgo foi chamado para a Seleção em 1998, ele era unanimidade. O mesmo vale para Carlos Alberto Parreira em 2002. Muricy era esse nome em 2006, mas não aceitou o convite e Mano Menezes foi o plano B. Ricardo Teixeira recebeu críticas, mas ele tinha liderança dentro da cartolagem para impor sua escolha. Como já havia ocorrido em outras escolhas polêmicas, como Sebastião Lazaroni, Falcão, Leão e Dunga.

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A demissão de Mano foi um sintoma da falta de autoridade de Marin e Del Nero. Tiraram força de Andrés Sanchez, naquele momento uma força de oposição em crescimento, e ainda ficaram com a imagem de “fizemos o que todos pediam há tempos”. Isso foi possível porque havia à disposição um nome de consenso. Felipão não era unanimidade, mas todos aceitariam seu nome devido ao currículo e à fama de fazer uma equipe se tornar competitiva em pouco tempo.

Não há esse nome hoje. A imagem de técnico infalível de Muricy perdeu força desde a conquista da Libertadores de 2011 pelo Santos. Tite ainda desperta desconfiança de muita gente, até porque seu último semestre de Corinthians foi melancólico. Luxemburgo e Abel se desgastaram. Cuca, Cristóvão e Marcelo Oliveira seriam vistos como inexperientes para uma responsabilidade tão grande. Um técnico estrangeiro seria criticado pelos tradicionalistas, e, se não for um nome consagrado como Guardiola, ainda teria a acusação fácil de “não conhecer o futebol brasileiro” imediatamente após a primeira derrota. Buscar alguém fora do radar, como Leonardo, ou criar um técnico, como Juninho Pernambucano, também abriria margem para críticas pela falta de currículo para justificar a escolha.

Marin e Del Nero não podem se esconder atrás de um técnico de grife que a opinião pública aceite. Precisarão apostar em um nome, sabendo que ficarão expostos e terão sua autoridade contestada se os resultados não vierem. Por isso a dupla relutava tanto em confirmar a demissão de Felipão e Parreira, mesmo depois de um resultado irremediável como os 7 a 1 contra a Alemanha.

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Cogitar a permanência no cargo é ter mais vaidade e apego ao poder do que respeito ao torcedor

David Luiz foi uma tragédia no Brasil x Alemanha. A braçadeira de capitão parece ter pesado demais, e o zagueiro se colocou como responsável por desfazer tudo o que estava dando errado no jogo. Acabou piorando a situação. Mas foi poupado de críticas pesadas. Foi carisma, foi crédito acumulado nos jogos anteriores e foi… a entrevista.

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Na saída do campo, o zagueiro chorava. Chorava e pedia desculpas, disse que queria apenas dar uma alegria ao povo brasileiro. Assumiu a culpa, mostrou que entendia a dor que o torcedor sentia naquele momento. Deu a cara a tapa. E isso é fundamental. Assumir a vergonha da derrota é mais importante para ter honra e dignidade do que vencer. Uma lição que os comandantes da Seleção não aprenderam.

Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira são dos dois técnicos mais vitoriosos da história do futebol brasileiro. Ambos conquistaram Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro e, raios, ganharam a Copa do Mundo com a Seleção! Grandes conquistas, que colocaram eles em qualquer livro de história do futebol nacional. E é em nome dessa biografia que ambos deveriam assumir sua parte na vergonha e, tal qual um primeiro ministro sem sustentação do parlamento, fazer um harakiri profissional e pedir as contas.

Pedir demissão colocaria os técnicos ao lado dos torcedores entre as pessoas que sofrem com o peso daqueles 7 a 1. Um peso tão grande que o autossacrifício é uma saída viável se for pelo bem comum.

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Foi a atitude de Cesare Prandelli na Itália, mesmo com o técnico tendo um vice-campeonato da Eurocopa de 2012 para justificar uma eventual insistência. Foi a atitude de Alberto Zaccheroni no Japão. Foi a atitude de Hong Myung-Bo da Coreia do Sul. Os três assumiram seus papéis no fracasso de suas seleções e deram o cargo como forma de mostrar ao público que se sentiam envergonhados do que ajudaram a fazer.

No Brasil, isso é quase utopia. Ter um cargo dá poder, dá relevância, afaga o ego. E é difícil largar isso. Zagallo brigou com jornalista que o tratou como demitido do cargo de supervisor da Seleção após a derrota para a Holanda na Copa de 2010. Felipão e Parreira dizem que são culpados com a mesma naturalidade que um jogador diz “respeitamos o adversário, é um time muito bom” antes de pegar em casa um time do interior que é lanterna do estadual. Declarações para cumprir tabela, mas sem um significado íntimo, tanto que os dois comandantes do Brasil tentaram provar que o trabalho foi feito corretamente.

Felipão e Parreira agem como se não entendessem nada de futebol, pois negam o inegável. Não foi com essa atitude alheia à realidade que ambos se tornaram figuras relevantes. E, em consideração à torcida e ao que eles próprios foram, ambos deveriam pedir demissão. É a atitude mais digna e honrada neste momento.

PS.: após o jogo contra a Holanda, Felipão disse que toda a comissão técnica entregava o cargo para a direção da CBF decidir se continuava ou não o trabalho. Isso não é pedir demissão, é a condição natural quando um contrato se encerra. Pedir demissão é não dar margem para permanecer, e isso ainda não ocorreu.

Parreira não descarta volta à CBF

Técnico da seleção brasileira nas Copas de 1994 e 2006 tem sido especulado para o cargo de coordenador técnico após a saída de Mano Menezes

Consultor exclusivo da Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo de Minas Gerais (Secopa), Carlos Alberto Parreira encerrou na última quarta-feira uma série de visitas pela América Central e os Estados Unidos. Entre outros compromissos, ele encontrou com o técnico da seleção norte-americana, o alemão Jürgen Klinsmann, no dia anterior.

“Ontem, tivemos uma reunião com o Klinsmann. Não estamos oferecendo, mas colocando as instalações de Minas à disposição desses países para a Copa do Mundo de 2014. Se alguém se classificar, podemos recebê-los”, contou o ex-treinador ao blogueiro ainda direto de Los Angeles, nos Estados Unidos.

Ele voltou ao Brasil na quinta-feira. Antes obviamente do anúncio da saída de Mano Menezes do comando da Seleção. Nos corredores da CBF, além da busca de um novo treinador, defende-se também a contratação de um coordenador técnico. Dois nomes são comentados: Américo Faria, ex-supervisor da própria entidade e atualmente no modesto Boavista-RJ, e o próprio Parreira. O tetracampeão mundial não descarta um retorno à CBF, ainda acredita que pode contribuir, mas prefere aguardar um contato.

“Isso não depende de mim. Não sou candidato. Nunca pleitiei nada. Se um dia quiserem usar minha experiência, acho que posso ser útil”, disse o atual dirigente da Secopa na quarta-feira.