O italiano que quer mudar o futebol das Américas, e acabar com a Libertadores que conhecemos

A MP & Silva tomou o lugar de Traffic e TyC como principal agência de mídia do futebol das Américas, e pretende unificar torneios de Concacaf e Conmebol

Nenhum sobrenome tem tanto a cara do Brasil quanto “Silva”. Mas o Silva dessa história não tem nada de brasileiro. Nasceu em Milão, filho da família dona da Italsilva, uma das maiores indústrias químicas da Itália. Mas os rumos profissionais levaram Riccardo Silva a chegar à América Latina. E, agora, ele tem um plano para mudar a cara do futebol de todo o continente, do Alasca à Terra do Fogo. O que poderia reformular a Copa Libertadores a ponto de ela se tornar algo que ninguém a reconheceria.

Essa história atravessa o mundo. O primeiro capítulo foi na Itália, onde Silva entrou na onda da primeira explosão de negócios da internet. Em 1998, criou a MP Web, empresa que provia conteúdo em vídeo de futebol. Vendeu a empresa, trabalhou como agente de celebridades italianas e assumiu o Milan Channel. O conhecimento desse mercado fez que, ao lado de Andrea Radrizzani, fundasse a MP & Silva. A empresa, com sede em Cingapura, trabalharia com a negociação de direitos de transmissão de eventos esportivos.

Durante anos, a MP & Silva ficou à margem do noticiário brasileiro. A empresa dos italianos tem um portfólio gigantesco, mas trabalhava mais no mercado asiático e europeu. Mas, aos poucos, Riccardo Silva foi atravessando o Oceano Atlântico para chegar às Américas. A ponte era natural, pois a maior parte dos torneios que vendia à Ásia eram latino-americanos (Copa América, Eliminatórias da Copa, Libertadores, Sul-Americana, amistosos do Brasil e da Argentina, Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil, entre outros).

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Ainda assim, o mercado de transmissão de direitos do futebol latino-americano era dominado pela brasileira Traffic e a argentina Torneos y Competencias. Até que o FBI quebrasse essa estrutura, investigando líderes das duas empresas, além de prender diversos cartolas da Concacaf e da Conmebol.

Pode ser coincidência, mas a MP & Silva começou a ganhar espaço. Em parceria com o ex-defensor Paolo Maldini, Riccardo Silva será dono do Miami novo time da NASL, segunda principal liga profissional dos Estados Unidos. Agora, a nova investida é mais ousada: aproveitar o embalo da Copa América Centenário, que unificará Concacaf e Conmebol, para criar a Americas Champions League.

A primeira notícia sobre a ideia de criar um torneio pan-americano de clubes é de julho, mas começa a parecer cada vez mais séria. Em entrevista ao site Sports Business Daily, Silva apresenta números sobre o que representaria o projeto. “As Américas têm uma população combinada 30% maior que a Europa. Um torneio dessa escala pode valer mais de US$ 500 milhões em direitos de TV e de marketing, enquanto que os torneios da Concacaf e da Conmebol, somados, valem hoje apenas US$ 100 milhões.

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O sistema de disputa seria simples, com 64 clubes divididos em uma fase de grupos, com chaves regionais nas etapas iniciais, jogos em meio de semana e início em fevereiro. Segundo Silva, cada time poderia receber um mínimo de US$ 5 milhões, com prêmios que cresceriam gradualmente de acordo com o avanço da equipe, chegando a US$ 30 milhões para o vencedor. No total, US$ 440 milhões seriam distribuídos para os clubes.

Mais que os números, são os nomes envolvidos que chamam a atenção. O empresário disse ter feito consulta com vários clubes brasileiros, mencionando Corinthians e Flamengo como exemplos, e teria recebido sinal verde. O próximo passo seria conversar com equipes de EUA e México, e contaria com Paul Tagliabue (ex-chefão da NL) como consultor.

Se o projeto der certo, a MP & Silva estaria dando o passo definitivo para ocupar o espaço que o FBI deixou vago de principal empresa de marketing esportivo das Américas. E o italiano que começou com uma empresa para vídeos na internet se tornaria o herdeiro de J. Hawilla.

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Grondona diz que botou as mãos em jogos de Santos e Corinthians na Libertadores. O que aconteceu neles?

As duas partidas mencionadas pelo cartola argentino tiveram arbitragem contestada na época

As Caixas de Pandora da Conmebol e da Concacaf já foram abertas. Talvez tenha acontecido o mesmo com a do futebol argentino. Neste domingo, o canal argentino América revelou o conteúdo de várias conversas de Julio Grondona, presidente da AFA entre 1979 e 2014 (ano em que faleceu), gravadas em 2013 pela Justiça local em uma investigação de lavagem de dinheiro em transações de jogadores. O programa teve o pomposo nome de “As escutas da máfia do futebol argentino” e mostrou várias negociações sobre tabela de jogos, manipulação na escolha de árbitros e um incentivo ao Colón para ajudar o Independiente a escapar do rebaixamento.

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No meio de tudo isso, dois clubes brasileiros são citados. Grondona comemora a atuação do árbitro paraguaio Carlos Amarilla no jogo de volta entre Corinthians e Boca Juniors na Libertadores de 2013. Segundo o dirigente, o juiz foi “o melhor reforço do Boca no último ano”.

A conversa visava definir os apitadores de Boca Juniors x Newell’s Old Boys nas quartas de final daquela mesma Libertadores. Após a escolha dos nomes, o cartola diz a seu interlocutor (Abel Gnecco, presidente da comissão de arbitragem da AFA) para prestar atenção nos bandeirinhas escolhidos, pois eles poderiam executar o plano que os árbitros atrapalhariam. “Em 64, quando jogamos com o Santos, eu ganhei de Leo Horn, que era holandês, com os dois bandeiras”, afirmou Grondona.

Mas como foram esses dois jogos?

O Corinthians 1×1 Boca Juniors de 2013 é recente e está na memória de muito torcedor brasileiro, sobretudo dos corintianos. O vídeo abaixo mostra vários dos lances polêmicos do empate que classificou o Boca Juniors.

O Santos x Independiente de 1964 é um pouco mais misterioso, mas há pistas de que realmente teve arbitragem ruim. As duas equipes se enfrentaram nas semifinais da Libertadores, com vitória argentina por 3 a 2 no Maracanã e por 2 a 1 em Avellaneda. Os santistas buscavam o tricampeonato continental e os rojos tinham como presidente da subcomissão de futebol um cartola ascendente chamado Julio Grondona, então com 33 anos. As duas partidas tiveram o mesmo árbitro. Não era nenhum holandês chamado Leo Horn, mas o inglês Arthur Holland. O sobrenome do juiz pode ter se confundido com a nacionalidade na memória de Grondona 49 anos depois.

Relatos da época e até esse compacto em vídeo dão conta que o placar da partida de volta foi justo, sem momentos de polêmica. A resposta poderia ser no jogo de ida, em que o Peixe abriu 2 a 0 e sofreu a virada. Não há vídeos na internet com lances desse duelo, mas jornais do dia seguinte concordam em dois pontos: o Santos se acomodou depois de abrir vantagem e a arbitragem não foi das melhores.

Segundo a Folha de São Paulo, Holland foi bem, mas os bandeirinhas paraguaios Cabrera e La Rosa foram fracos (clique aqui para ver a imagem ampliada).

Relato de Santos 2x3 Independiente na Folha de Sâo Paulo de 16 de julho de 1964
Relato de Santos 2×3 Independiente na Folha de Sâo Paulo de 16 de julho de 1964

O Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou que o árbitro deixou de assinalar várias faltas e houve muitos impedimentos não marcados em favor dos argentinos (clique aqui para ver a imagem ampliada).

Correio da Manhã de 16 de julho de 1964
Correio da Manhã de 16 de julho de 1964

Os dois textos não deixam claro o quanto a arbitragem, sobretudo os assistentes, teria influenciado o resultado da partida ou o comportamento das equipes, mas reforçam a tese de que os bandeiras teriam errado acima da média, ponto principal da menção de Grondona a esse jogo na conversa grampeada pela Justiça argentina.

Os comentários de Grondona são genéricos e não quantificam sua participação nas eliminações de Santos e Corinthians, mas evidencia uma proximidade suspeita com o dia a dia das arbitragens e dão motivos para os dois alvinegros paulistas reclamarem veementemente. E ainda abre a perspectiva de que poderia ter ocorrido coisas parecidas em vários outros jogos durante décadas.

Se você achou o Boca x River da Libertadores pegado, é porque não viu o feminino

O superclássico do Argentinão feminino da semana passada fez o da Libertadores parecer brincadeira de criança

Jogo muito renhido, com dois times atuando em intensidade máxima e tirando qualquer centímetro do adversário. O Boca Juniors x River Plate da rodada de volta das oitavas de final da Libertadores não foi para os fracos. A partida não se desenvolveu em um cenário de tanta tensão, e a suspensão do encontro no intervalo por ação da torcida boquense só reforçou o clima de batalha que se vivia na Bombonera.

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Muito torcedor deve ter achado que aquilo era um grande exemplo de como é grande a rivalidade entre os dois gigantes da Argentina. Mas esse jogo pareceu brincadeira de criança perto do último Superclássico do Campeonato Argentino feminino. Boca e River ficaram no 0 a 0 no último dia 11, e dá para entender o motivo vendo alguns lances.

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Cruzeiro venceu o River porque entendeu que ter a bola no pé não seria bom

Diante de um adversário compreensivelmente adiantado, era melhor se armar para atacar com velocidade

Algumas coisas eram esperadas pelo Cruzeiro quando enfrentasse o River Plate no Monumental de Núñez pelas quartas de final da Libertadores. Uma delas é que o time argentino tomaria a iniciativa. A outra é que tentaria usar a pressão da torcida para impor um ritmo intenso e criar volume de jogo. É o que times argentinos normalmente fazem nessas situações, e costuma funcionar. A Raposa entendeu isso, e venceu porque soube jogar dentro do contexto criado pelo adversário.

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O River Plate propunha seu jogo com um 4-3-3 bastante avançado. Todas as linhas jogavam avançadas para ter compactação e permitir a pressão em cima do Cruzeiro. O time mineiro poderia tentar quebrar esse jogo, tendo para si a posse de bola, cadenciando o jogo para criar um braço de ferro em quem conseguiria ter ainda mais volume. Seria uma atitude corajosa, mas burra. E Marcelo Oliveira sabia disso.

O Cruzeiro não tem um time de cadenciar, até porque essa não é as características das equipes montadas por seu técnico. Os celestes têm jogadores que sabem ser incisivos, partindo em velocidade e concluindo as jogadas sem perder tanto tempo. Por isso, a Raposa deixou o River acreditar que tinha sua pressão, mas não se intimidou e aproveitou que a defesa argentina jogava adiantada para esticar bolas nos contra-ataques, deixando Marquinhos, Leandro Damião e Willian no mano a mano com os zagueiros em diversos momentos. E aí ficava claro que o domínio riverplatense não era tão óbvio quanto parecia em uma observação apressada.

A postura celeste foi corajosa, pois muitas vezes deixou o jogo aberto e acelerado, o que também expunha sua defesa em alguns momentos. Mas funcionou. Com as saídas rápidas, o Cruzeiro impedia que o River fizesse um abafa eficiente, o que acabou ofuscando o contestável Téo Gutiérrez e, no segundo tempo, Cavenaghi. Enquanto isso, a limitada defesa argentina ficou mais vulnerável, e acabou falhando quando pressionada. Não conseguiu se livrar da bola após um lateral do ataque cruzeirense, se enrolou em um bate-rebate e a oportunidade surgiu para Marquinhos com o gol aberto.

A diferença de estratégia das duas equipes fica nítida pelos números. O River Plate teve superioridade marcante em posse de bola (61%), passes (413 a 192) e escanteios (5 a 1), todos dados que indicam volume de jogo ou presença no campo de ataque. Mas, na produção efetiva (finalizações), houve equilíbrio: 17 a 13 para os argentinos, e 7 a 5 em chutes certos. Ou seja, o River dava 24,3 passes a cada arremate, enquanto que os mineiros o faziam a cada 14,8. Objetividade.

O Cruzeiro poderá aproveitar a vantagem no placar para explorar ainda mais essa velocidade em Belo Horizonte. Ainda é um duelo perigoso, pois o River Plate é forte. Mas o cenário ficou bastante favorável aos celestes. E justamente porque soube usar a estratégia dos argentinos contra eles próprios em Buenos Aires.

Dificilmente as autoridades farão algo contra a torcida do Boca. Entenda por que

Gustavo Grabia, maior especialista de barras bravas da imprensa argentina, conta como funciona a relação de poder das barras bravas

A festa, o recibimiento, as músicas e a vibração do estádio são o lado bonito das torcidas argentinas. Mas, no superclássico Boca x River desta quinta, vimos o lado feio. Torcedores boquenses deram um jeito de abrir uma brecha no túnel inflável que supostamente protege os jogadores quando entram no gramado da Bombonera e atiraram alguma substância que queimou a pele de jogadores riverplatenses. O jogo foi suspenso, e a Conmebol ainda não decidiu se será reiniciado em outro dia e local ou se os millonarios serão declarados vencedores. Mas acontecerá algo com a torcida?

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Há motivos para acreditar que não. Apesar de haver imagens de torcedores do Boca agindo de forma suspeita, o histórico não dá motivos de otimismo. Até porque a relação dos barras bravas (torcedores organizados argentinos) com as autoridades é mais do que suspeita. Quem fala muito bem disso é Gustavo Grabia, autor do livro La Doce, sobre a barra do Boca Juniors, e especialista de torcidas no jornal argeentino Olé.

Nós entrevistamos Grabia em junho de 2012, e ele explicou muito bem como a situação é realmente complicada no futebol argentino. Então, vale a pena republicar esse texto. Vejam com atenção para entender muito do que tem acontecido na Argentina e por que dificilmente haverá punições pesadas a boquenses pelos atos desta quinta.

Gustavo Grabia, do Olé, sobre violência de torcidas: “Futebol argentino virou um enorme funeral”
O jornalista Gustavo Grabia em programa de rádio (Divulgação)
O jornalista Gustavo Grabia em programa de rádio (Divulgação)

Por Ubiratan Leal

Onipotentes. As barras bravas argentinas já deixaram de ser apenas torcedores que se organizaram para torcer por seu clube. E fora muito além do que se conhece no Brasil, com brigas entre simpatizantes de equipes rivais. Lá, esses grupos ganharam ramificação criminal, usando a projeção que as arquibancadas de futebol lhes dão para criar toda uma estrutura de delitos que vão do tráfico de drogas ao combate de manifestações políticas contra o partido que os contratar como mercenários.

Quem conta essa história é Gustavo Grabia, repórter do Olé, maior jornal esportivo da Argentina, e autor do livro La Doce (lançado no Brasil pela Panda Books), que revela as atividades da barra brava do Boca Juniors. Segundo ele próprio, o poder dos torcedores se tornou tão grande que parece impossível mudar o cenário.

Na Argentina, as brigas de torcedores rivais diminuíram muito. Qual é a nova cara da violência de torcidas?

Não acontece, mesmo com times do mesmo bairro, como Racing e Independiente. O maior medo do torcedor organizado é perder seu negócio. E como ele perde o negócio? Se briga e morre alguém. Porque, se morre alguém, os políticos determinam que alguém tem de cair no comando da torcida. Tudo bem que colocam outro no lugar, mas alguém acaba caindo. Para manter o negócio, não se pode brigar com outro clube. Quando acontece algo como na morte mais recente, em uma briga dentro da torcida do River, as pessoas pensam “se mataram entre eles, que se matem todos”. Vêem como um problema interno da máfia, a pressão por atitudes oficiais é bem menor.

Até porque mexeria com o orgulho do torcedor cujo barra brava foi morto, mesmo que ele não seja um barra brava, e cobraria mais por atitudes.

Certamente, e é por essas coisas que não acontece mais. Os chefes de torcida se conhecem, fazem negócios juntos. Durante a semana estão juntos em uma ONG de torcedores criada e financiadas pelo governo para agir em favor dele. Os torcedores de Racing e Independiente supostamente se odeiam, mas trabalham juntos para o mesmo político. Como vão brigar no domingo se durante a semana estão juntos nos mesmos delitos? Em Rosário, os líderes das torcidas de Newell’s e Rosario Central são sócios no tráfico de drogas, dominam regiões da cidade. Depois, cada um vai ao estádio fazer seu próprio negócio. Então, eles não brigam para não prejudicar todo o negócio.

O que essa ONG de torcedores financiada pelo governo faz?

Recebe dinheiro para trabalhar pelo partido do governo reprimindo opositores, marchas sindicais. Usaram os torcedores organizados para terceirizar a violência. Por exemplo, na Copa de 2010, o governo recrutou as torcidas organizadas para trabalharem pelo partido dele nas ruas, fazendo atos políticos. Uma situação muito louca. Em troca disso, pagou 232 passagens e hospedagens à África do Sul. Isso foi um escândalo internacional. A polícia sul-africana deportou quase 30 integrantes desse grupo.

Então a chance de as autoridades fazerem algo contra os torcedores é pequena.

Para ter uma ideia, o advogado do chefe da torcida do Boca era o advogado do chefe da polícia. E essa pessoa, depois, foi indicada como chefe de segurança do Congresso. O advogado do chefe da torcida tem como cliente a polícia e os partidos políticos! Como as autoridades vão perseguir alguém se compartilham advogados? Essas relações de poder na Argentina nunca vi em lugar algum do mundo. O chefe de segurança da Eurocopa esteve na Argentina ano passado e, quando eu explicava, ele não acreditava. Foi aos estádios para comprovar, e ficou horrorizado. Acha que não dá para consertar. Afinal, se o torcedor organizado tira uma foto com a presidente Cristina Kirchner, por que não teria impunidade?

Foto com a presidente?

Em setembro do ano passado, o San Lorenzo estava lutando para não ser rebaixado. A barra brava foi cobrar os jogadores e o chefe dela agrediu o capitão do time. Não aconteceu nada. Fui investigar e achei fotos dele em um ato político abraçado com a Cristina Kirschner! Com a presidente da República! Então, esse sujeito tem acesso à presidente. Eu sou um jornalista reconhecido e não tenho acesso a ela. Um monte de gente importante e conhecida não tem acesso a ela. Mas esse delinquente tem e tira uma foto ao lado dela. Não significa que ele seja amigo dela, mas, no mínimo, conhece pessoas influentes que conseguem colocá-lo ao lado dela em um ato político. Se esse apoio político não acaba, não há como combater o problema.

Em que nível está esse problema hoje?

Em relação a mortes, foram dez vítimas até agora em 2012. Mas isso são apenas os registros ligados ao futebol. Não estão computados os crimes cometidos por eles em questões políticas ou sindicais. Todos os últimos crimes de violência política ou sindical na Argentina têm barras bravas como responsáveis. São contratados pelos políticos para fazer o trabalho sujo. Também fazem delinquência comum, como narcotráfico. São uma máfia mesmo, com interesses em seus negócios e não mais nos clubes para os quais supostamente torcem. Um dos líderes de La Doce, a torcida do Boca, é torcedor do River Plate. Por quê? Porque essa pessoa viu que na torcida do Boca gira mais dinheiro.

E a torcida do Boca o aceita por quê?

Ele é um delinquente muito perigoso. Esteve em prisões de segurança máxima. Mas tem contatos com o mundo criminal e com políticos. É conveniente para os negócios ter um homem como ele na organização.

As leis argentinas são frouxas nessa questão ou dariam suporte a quem quisesse combater as barras bravas?

Existem as leis, o problema é que não se aplicam a quem precisa. Se você vai a um estádio, tem cinco minutos de loucura e atira algo no árbitro, será levado a uma delegacia. Provavelmente você não será preso, mas deve receber uma pena de ficar longe de estádios por um longo período. Se você fosse de uma torcida organizada, poderia fazer o que quisesse que nunca iriam até você. Antes de vir ao Brasil, o último morto do futebol argentino foi há três semanas, em um jogo do River contra o Boca Unidos, o penúltimo antes da promoção. Assassinaram uma pessoa nas arquibancadas em uma briga nos Borrachos del Tablón [barra brava do River Plate]. Quando a Justiça foi buscar as gravações das câmeras de segurança para identificar os responsáveis, as imagens da briga em si tinham sido apagadas. O médico que fazia o atendimento naquele jogo contou que os líderes da torcida levaram o corpo do rapaz dizendo “olha, aqui tem um que parece que está morrendo” e foram embora. Tudo dentro da torcida do River.

Como uma briga de máfia, em que um irmão manda matar o outro para ser herdeiro nos negócios do pai.

Isso. Os últimos dez mortos no futebol argentino foram em disputas dentro das torcidas.

Que se pode fazer para que as leis sejam aplicadas se eles têm tanto poder com as autoridades?

Não se pode fazer nada se os políticos mais importantes os utilizam. A barra brava do Boca é a maior e mais violenta do país e o governo já a utilizou para a campanha eleitoral de outubro do ano passado. Pagava para que levassem bandeirões com mensagens políticas. Francisco de Narváez, candidato mais importante à província de Buenos Aires, paga a La Doce para exibir um bandeirão escrito “Narváez governador”. Depois disso, eles podem fazer o que quiserem.

Quando fazem isso, vendem espaço publicitário. Um espaço publicitário que seria indiretamente do clube. Ainda que o clube não possa vender publicidade exibida pelos torcedores, o evento é dele e as pessoas veem o jogo pela TV por causa do clube. Os times não têm interesse em  usarem seu poder de mídia para ganharem esse dinheiro, ao invés de deixar com a torcida?

Em princípio, os clubes são sócios das torcidas, que também trabalham para os interesses dos dirigentes.

Como o Mauricio Macri [prefeito de Buenos Aires, ex-presidente do Boca]?

O crescimento da barra brava do Boca foi tremendo quando Mauricio Macri estava na presidência. Ele emprestava o estádio para os barras bravas jogarem bola! Mas não foi só ele. É que o Macri é o personagem mais conhecido que saiu do esporte e ingressou na política.

Se os barras bravas vivem desses negócios extracampo, por que ainda precisam do futebol?

Porque o futebol dá cartaz a eles. Na Argentina, os torcedores organizados são muito populares, têm tratamento de estrelas. O chefe da torcida do Boca e dá tantos autógrafos quanto Riquelme ou Palermo. O futebol retroalimenta a relação deles com os políticos. Porque, se põem uma bandeirão no jogo do Boca, têm enorme visibilidade. Um jogo do Boca tem 30% de audiência, 9 milhões de pessoas. Então a eles é conveniente falar com o chefe da torcida.

Então o futebol ainda representa uma ao parte da receita desse negócio, mesmo com as atividades extracampo?

Representa muito. Sem o futebol, todos os outros negócios ilegais não existiriam. Eles conseguem todos os outros negócios por serem os chefes de torcidas. Eles vendem ingressos, até 5 mil em uma partida. Se um ingresso médio está US$ 12, são US$ 60 mil em um jogo. Eles controlam o trabalho de guardador de carro, de flanelinha. Não sei como é aqui.

Aqui são “profissionais autônomos”.

Então, lá são controlados pelos barras bravas. Em março, houve um tiroteio muito grande por causa disso. Uma parte da torcida queria essa fatia do negócio e outra parte não queria abrir mão. Trocaram tiros, a poucas quadras de La Bombonera. Isso dá muito dinheiro. Há também as festas com os jogadores. Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde as equipes de fora de Rio e São Paulo têm muita força, as equipes provinciais não são tão fortes na Argentina. Mesmo em Rosário, é provável que o Boca tenha mais torcida que o Central ou o Newell’s. Aí, a barra brava leva jogadores do time a filiais no interior. Digamos, levam Riquelme a Luján, a 200 km de Buenos Aires. Montam um evento para mil pessoas, cobrando ingresso para quem quiser ver, tirar foto e pegar o autógrafo com o ídolo.

Era algo que o clube poderia explorar.

Sim, mas deixa para os barras bravas fazerem. É uma coisa muito grande. Para cada evento desses, faturam US$ 20 mil.

E quanto se pode ganhar com isso?

Mauro Martín, presidente de La Doce, não tem trabalho reconhecido. Já vi suas declarações de imposto de renda e ele alega que é instrutor de boxe em um clube. Ele nunca vai lá. E basta ver o nível de vida que ele tem para perceber que tem algo errado. Ele possui uma picape Honda nova, que custa uns US$ 150 mil na Argentina, um Mini Cooper e uma casa de dois andares, com campo oficial de futebol. Imagina o tamanho do terreno. E diz que é instrutor de boxe ou que trabalha no escritório de seu advogado, que é um dos mais famosos da Argentina.

Ele teria de ser instrutor de boxe do Manny Pacquiao.

Pois é. E ele faz tudo isso e não é pego. Por quê? Bem, ele é casado com a secretária particular do governador de Buenos Aires. O chefe da barra brava do Boca Juniors é casado com a secretária da segunda pessoa mais importante da Argentina. Então, ele pode fazer qualquer coisa que ninguém vai incomodar.

Nas equipes provinciais, acontece a mesma coisa?

Tudo o que eu conto com La Doce ocorre igual em todas as equipes da Argentina. Pelo menos, coisas da mesma natureza. A única diferença é o peso de cada torcida pelo volume que mexe de acordo com o tamanho do clube. Eu sou torcedor do Ferro Carril, um time pequeno que está na segunda divisão. Lá acontece a mesma coisa, mas em menor quantidade porque é uma equipe pequena. O chefe da torcida do Ferro também não tem trabalho, mas, ao invés de uma picape Honda e um Mini Cooper, tem um carro normal. Ao invés de uma casa com dois andares, tem um apartamento de 150 m². Mas a forma de organização é a mesma nos clubes.

Economicamente, a diferença entre o futebol brasileiro e o argentino está aumentando. Quanto o futebol argentino perde por não explorar tudo o que pode por repartir com as barras bravas?

É muito dinheiro que perdem. Mas os dirigentes não têm interesse em mudar. Os clubes são associações civis sem fins lucrativos. Se o clube abre falência, o dirigente vai embora e não é responsabilizado. Fora que eles também ganham uma parcela. É algo conjunto.

Como assim?

Um bom exemplo foi a venda do Higuaín ao Real Madrid. Foi uma operação fraudulenta. O que apareceu no balanço do River Plate foi muito menor do que o pago pelo Real. O Real disse que pagou € 14 milhões, mas o River registrou a entrada de € 9 milhões. O balanço só foi aprovado porque os dirigentes de oposição foram ameaçados de morte pela barra brava. Eles entraram no recinto onde era a votação e ameaçaram de morte se não votassem a favor. Era algo contra o caixa do clube. Os € 5 milhões de diferença entre os valores foram repartidos entre todos, com 10% para os Borrachos del Tablón.

Há barras bravas menores nos clubes, que brigam por “mercado” com as maiores?

Não. Não há concorrência de barras de um mesmo clube. Não é que existe La Doce e “La Fiel de Boca” brigando por espaço como barras bravas do Boca. Há uma só por clube, e os confrontos são por poder e negócios dentro de cada uma.

A polícia também tem participação no esquema das organizadas?

De várias formas. Na temporada passada, naquele jogo em que o River caiu contra o Belgrano, o placar estava empatado. Se terminasse assim, o River caía. No intervalo, os dirigentes e os policiais liberaram o acesso para 12 torcedores conhecidos da organizada do River descessem das arquibancadas, andassem internamente pelos corredores do Monumental de Núñez e chegassem aos vestiários do árbitro, onde o ameaçaram de morte. Se ele não marcasse um pênalti, seria morto. Bem, o pênalti foi marcado, mas o River o desperdiçou e acabou caindo mesmo. Insólito! O incrível é que esses torcedores tiveram apoio dos dirigentes e da chefia da polícia. Tive acesso ao vídeo e se vê claramente como os policiais orientam os torcedores por onde ir para chegar aos vestiários. E não acontece nada quando isso chega à Justiça. Isso aconteceu há um ano e ainda estão discutindo se o tal vídeo é uma prova válida ou não para o caso. E, claro, nada aconteceu com os responsáveis até agora. É conveniente para a polícia que a violência siga.

Conveniente como?

Ela tira vantagem da violência. Há dois anos, houve uma investigação grande que envolveu até a cúpula da divisão de esportes da polícia. Consegui provas de como eles combinavam com os torcedores para criar violência. Porque, se há violência, eles têm argumentos para pedir mais efetivo para a segurança nas partidas, um serviço cobrado dos clubes e da AFA. Cada policial recebe US$ 40 por partida trabalhada. Então, no jogo que teria 300 agentes eles pedem mil, alegando que a partida anterior teve diversos problemas. Mas ficou comprovado que não levam mil policiais. Levam 500 e embolsam o resto. O Congresso tomou a denúncia e demitiu diretores a polícia.

Há grupos políticos ou algum setor da sociedade que se coloquem contra os barras bravas?

Há uma ONG, que se chama “Salvemos al Fútbol”, que trabalha contra a violência no futebol. Mas não tem muito poder. Até organizam mobilizações, mas não são muito populares. Eles levam à Justiça as questões que eu apresento no jornal, mas é um grupo pequeno. Eu já falei que o único jeito de mudar o cenário atual é uma greve de torcedores, ninguém mais ir ao estádio. Se a TV mostrar um Boca x River com estádio vazio, só com mil torcedores organizados de cada lado, os políticos perceberão que está acontecendo algo muito grave. Mas os torcedores dizem que se pode fazer tudo, menos deixar de ir ao estádio. Na Argentina há movimentos de indignação quando morre alguém, mas depois passa.

O presidente do Independiente entrou em conflito com a barra brava do clube. Foi o único dirigente a tentar fazer isso?

Foi. O Independiente era completamente dominado pela barra brava. Ela tinha o passe dos jogadores, o campo de treino. O chefe da torcida era o diretor da ONG de torcedores que o governo armou. Então, começaram a ganhar muito dinheiro e muito poder. E o Independiente era um desastre sob o controle da organizada. Ninguém queria ir mais lá, era muita violência. Então, o Javier Cantero fez uma campanha dizendo que tiraria a barra se votassem nele e ganhou.

Ele está tendo sucesso?

Mais ou menos. Ele assumiu em dezembro de 2011 e tentou acertar as coisas com a torcida. Em março eu descobri que ele ainda dava alguns benefícios. Até entendo que não dá para cortar tudo pela raiz, mas aí tem de explicar isso a todos. Ele dava muito menos que antes, mas ainda dava algo para mantê-los tranquilos. Quando publiquei a reportagem, ele admitiu publicamente seu erro, disse que acreditava que era uma forma de manter a barra brava controlada e que passaria a combater seriamente a partir dali. E, quando começou a fazer isso, as coisas ficaram piores.

De que forma?

São suspeitas, porque os jogadores negam. Mas, desde que o Cantero cortou todos os benefícios dos barras bravas, a equipe estranhamente começou a perder uma partida atrás da outra. Perguntam aos jogadores se estão sendo ameaçados pela torcida, exigindo que entreguem o jogo para derrubar o presidente. Eles dizem que não, mas não dá para saber se é verdade. Hoje, o time está brigando para não cair. Quando começar a próxima temporada, o Independiente estará em posição de rebaixamento direto pela média de pontos das últimas temporadas. E é o único clube, ao lado do Boca, que nunca caiu para a segunda divisão.

Se os torcedores do Ferro concordassem em fazer uma greve contra a barra brava do clube, você participaria?

Claro! Porque é o que tem de ser feito para que isso fique explicitado. Quando eu escrevi umas matérias sobre a torcida do Ferro, o líder da torcida me perguntou porque eu o atacava: “Eu faço com que não roubem dentro do nosso bairro. Mandamos roubar fora”. Bem, não tem de roubar em lugar nenhum! São padrinhos da máfia, cada um em seu setor. É uma situação cada vez pior, porque a política, ao invés de combatê-los, os incluiu. A pessoa que gerencia o futebol do Ferro é uma figura muito importante do Partido Justicialista [peronista, partido do governo].

Como foi fazer a investigação de tudo isso, para ter acesso?

Tenho uma vantagem, que é trabalhar há 16 anos com esse tema. Conheço todas as partes envolvidas. Eu colaboro muito com a Justiça ou os advogados que trabalham nesse meio. No caso dos barras bravas que invadiram o vestiário do árbitro no River x Belgrano, a polícia só conhecia dois dos 12. Me chamaram para ver as imagens e identificar os demais. Com isso, acabei tendo acesso ao vídeo e tendo os nomes dos envolvidos. Muitas vezes, acabo tendo mais informações das leis supostamente violadas em um processo que os próprios advogados dos torcedores. Quando precisam de uma informação sobre o que está acontecendo, acabam me passando muita coisa também.

Como as pessoas viram seu livro?

Há três públicos diferentes. Um público é o torcedor normal que admira a barra brava. Na Argentina, um dos problemas é que o torcedor que vai ao estádio admira a torcida organizada e só repudia quando há violência forte. Aí, diz “não, não quero mais”. Depois, passa um tempo, eles voltam a dizer que a torcida é necessária, porque organizam a festa, as bandeiras. Esse público é muito importante e há muitos boquenses que dizem que “hoje, somos os únicos com um livro sobre sua torcida organizada”.

Viram seu livro como prova da grandeza do Boca?

Isso. Cada vez que o Boca é campeão, sai uma revista. E, agora, sai um livro sobre a torcida. Eles encaram La Doce como um livro sobre a história deles próprios, e não é. É sobre o grupo mafioso.

E quais os outros dois públicos do livro?

Outro tipo é o torcedor comum que repudia a torcida organizada. E dizem que o livro comprova o que eles sempre disseram: são máfias e é preciso eliminá-las. Até porque as relações das torcidas organizadas mostram como são as relações corruptas na Argentina como um todo. E há o grupo de barras bravas. No início, foi um pouco complicada a relação. Quando saiu o livro, reclamaram que haviam me dito coisas, contado os crimes que cometem, sem saber que sairia um livro sobre isso. Mas, depois, ficam orgulhosos porque saíram um livro sobre eles, com fotos deles. Então, sentem como reconhecimento.

Os barras bravas chegaram a ameaçá-lo?

Sim, mas eu trabalho no Grupo Clarín, o maior da Argentina. Ele tem muito poder. Quando há um problema sério, isso ajuda. E nunca tive um problema grave com os barras bravas. Se eles reclamam, eu digo que vou processá-los pelas ameaças e passa. O problema é quando houve investigações que esbarraram na polícia, no caso da fraude nos efetivos utilizados para fazer segurança nas partidas. E eu tenho mais medo da polícia do que dos barras bravas. Aí tive ameaças sérias.

O que fizeram?

Invadiram minha conta de e-mail, me telefonaram dizendo que horas eu deixava meus filhos na escola. No segundo dia em que isso aconteceu, fui falar com o presidente do Clarín. Ele ligou para o diretor geral da polícia e contou o que acontecia comigo. Disse que, se acontecesse algo comigo no dia seguinte, essa história seria a capa do jornal, com ataques diretos à cúpula da polícia. Não aconteceu mais nada. Mas isso só aconteceu porque trabalho no Clarín. Se trabalhasse em um veículo menor, não teria esse suporte.

Os barras bravas o conhecem. Por que contam os crimes que cometem?

Porque gostam de aparecer no jornal. Gostam de se mostrar. Outro dia, houve um julgamento contra várias figuras importantes de La Doce. Quando terminou o julgamento, 500 barras bravas fecharam a rua, no centro de Buenos Aires, para comemorar. Rafael Di Zeo, chefe de La Doce e barra brava mais popular da Argentina, se mostrava para fotos. Depois, me deu uma entrevista exclusiva porque eu cubro esse assunto sempre. Ele ainda ficou me perguntando se ia aparecer na capa do jornal! Não queria página interna.

Aqui no Brasil, muita gente acredita que a festa na arquibancada faz o torcedor comum ter alguma simpatia pelas organizadas, mas a violência é importante para atrair novos membros, sobretudo os mais jovens que querem alguma adrenalina e poder. Na Argentina, ser reconhecido como um criminoso que está acima do bem e do mal ajuda também a ter seguidores?

Sim, claro. Há muita gente que vêem nesses barras bravas exemplos de pessoas que começaram de baixo e estão ali no topo. Aí, imaginam que podem conseguir o mesmo. De qualquer modo, a festa no estádio também é importante porque transforma a questão da torcida em “folclore do futebol”, como se diz lá na Argentina. Mas eu acho que nenhum folclore pode ser admitido se uma pessoa morre por violência. E já foram 268 mortos. Não é festa nenhuma, é um funeral enorme.

O Corinthians subestimou seus próprios problemas, e não se faz isso na Libertadores

Time estava forte, mas essa força dependia de um equilíbrio frágil que se quebrou nas últimas semanas

A mitologia e a história adoram realçar a figura do gigante poderoso, amedrontador, aparentemente invencível e secretamente vulnerável. A Bíblia menciona Golias, campeão dos filisteus derrubado por uma pedra de funda. A Ilíada conta as façanhas de Aquiles, herói dos gregos que era invulnerável, exceto pelo seu calcanhar. A história registra a Invencível Armada espanhola, que deveria destruir a frota inglesa, mas soçobrou em uma tempestade. Os mais chegados a uma ficção científica podem ter pensado na Estrela da Morte, arma do Império que se destruiu com apenas um disparo rebelde no ponto certo em Guerra nas Estrelas. É o Corinthians na Libertadores 2015.

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Seria muito fácil (e oportunista) aproveitar a eliminação alvinegra com duas derrotas para o Guaraní do Paraguai e derrubar o time, falar que o futebol tão elogiado no começo do ano não existia de fato e que agora se viu a verdadeira força dessa equipe. Não é bem assim. Ao mesmo tempo que houve exageros na exaltação ao time, ignorar as boas apresentações dos primeiros meses do ano não reflete a realidade. No fundo, o Corinthians apenas era mais um gigante que se impunha pelo seu poderio evidente, mas tinha muitos pontos de fragilidade.

A força da equipe de Tite era a solidez coletiva, com alguns jogadores decisivos (sobretudo Guerrero) e um jogo moderno, de muita movimentação e ultrapassagem, para os padrões brasileiros. Isso funcionou por um tempo, e levou o time a algumas boas atuações. Mas o tempo foi criando novos cenários, e aí os problemas foram se expondo até resultar na eliminação precoce na Libertadores.

Dentro de campo, o Corinthians abusou de sua capacidade de absorver desfalques. A dengue de Guerrero e a fratura de Fábio Santos estavam além do controle do clube, mas é de se esperar que jogadores se lesionem ao longo da temporada. O problema é que o elenco ficou ainda mais sacrificado por excesso de expulsões em momentos importantes, casos de Guerrero, Fábio Santos, Emerson Sheik e Mendoza (todos na Libertadores, e isso sem contar o jogo de volta contra o Guaraní).

Isso minou a força do clube, que perdeu o ritmo tão necessário para uma equipe que vive do jogo coletivo. Danilo, que foi um bom substituto de Guerrero no início da Libertadores, não teve condições físicas de manter o mesmo nível por tanto tempo. Luciano, Mendoza e Malcom não tinham a experiência que Sheik dava ao time.

Outro ponto frágil que se descobriu com o tempo era o mental. O Corinthians começou o ano no embalo e encorpou com tamanha confiança. Quando houve uma queda natural nos resultados (soma de desgaste do elenco e adversários que passaram a entender como anular o Alvinegro), a confiança caiu e o bom futebol foi junto com ela.

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Os norte-americanos criaram a expressão “in the zone”. Ela é usada para jogadores ou times que estão em um tipo de transe em que o corpo e mente funcionam em sintonia total e tudo sai com naturalidade. Houve momentos em que o Corinthians de 2015 parecia estar nesse estado, como nos 4 a 0 sobre Once Caldas e Danubio e nos 2 a 0 sobre o São Paulo. Quando os resultados ruins começaram a aparecer e o time teve motivos para se questionar, isso ficou para trás. Nas últimas partidas, o jogo não tinha a mesma fluidez. Tudo parecia menos natural, mais lento e, consequentemente, mais anulável.

Houve a ideia de que uma parada seria benéfica à equipe, algo que as duas semanas após a fase de grupo da Libertadores proporcionaram. Mas a confiança não retornou de verdade. O que se viu no jogo contra o Guaraní em Assunção (a partida que realmente eliminou o Corinthians) foi um time artificialmente confiante. Era muito mais arrogância do que confiança. Foi fatal, pois acreditar excessivamente em si próprio e de que o grande futebol voltaria facilmente fez o time entrar em campo sem a intensidade necessária e sem aproveitar a pausa para realizar ajustes técnicos e táticos (como melhorar a saída de bola). A atuação assoberbada ajudou a fortalecer o time paraguaio.

Nesse caldeirão de problemas que a boa fase escondia está o atraso de salários. É leviano afirmar que os jogadores ativamente fizeram corpo mole em alguma partida para pressionar a diretoria, mas é evidente que estar meses sem receber os vencimentos completos tira a concentração do elenco. Até porque, a cada tropeço, há mais margem para um jogador começar a questionar o outro. Tanto que o clube se apressou a pagar parte dos atrasados antes do jogo de volta contra o Guaraní.

Tudo isso culminou com a derrota em casa para o aurinegro paraguaio. O Corinthians fez um primeiro tempo decente, com o nível de pressão que deveria. Faltou mais precisão nas finalizações, mas não era um desempenho descartável. Após o intervalo, toda a fragilidade se manifestou, como Golias ao tomar a pancada na cabeça, Aquiles ao levar a flechada no calcanhar ou a Estrela da Morte ao ser atingida por Luke Skywalker.

O lado psicológico falhou nas expulsões de Fabio Santos e Jádson. O tático falhou na dificuldade do time de buscar uma alternativa ofensiva quando ficou claro que não havia espaço para entrar tocando a bola. O técnico falhou quando Guerrero acusou a falta de ritmo de jogo e Sheik para chamar o jogo, cavar falta e enervar o adversário.

A eliminação não nega o fato de que o Corinthians foi muito forte no início do ano. Só mostra que essa força dependia de um equilíbrio frágil, e essa fragilidade cobrou seu preço antes da hora programada.

River x Boca é como correr a maratona contra o vento, e ganha quem não tropeça

Um Superclásico que se preza não é para ser bonito, é para ser áspero

A tensão é real, e solidifica o ar. Qualquer movimento é mais difícil, como andar na água. Com tanta matéria no caminho, o ambiente é áspero e os choques são particularmente duros, chegam a causar faísca. É como um motor de um superesportivo em pleno funcionamento, mas sem nenhum lubrificante para preservar as peças. Assim é um River Plate x Boca Juniors, uma maratona contra o vento em que vence quem não tropeçar. Foi o que aconteceu nesta quinta, no jogo de ida das oitavas de final da Libertadores.

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Não foi uma boa partida do ponto de vista técnico. Sobrava intensidade, mas faltava capacidade de cadenciar o jogo, impor uma estratégia racional para buscar o gol. Seria esperar muito cérebro para um duelo que sempre é vencido com o coração. E nesse aspecto, foi um ótimo clássico argentino.

Cada dividida era encarada como se a trombada fosse inevitável. Não era um jogo violento, mas ninguém dava margem a nada em cada dividida. Alguns cutucões a mais eram a regra, aparentemente aceita pelos dois lados como algo natural para um confronto desse tamanho.

O River Plate tomava a iniciativa como quem sabia que precisava vencer em casa para aumentar as chances de classificação. Algumas boas oportunidades foram criadas, mas o excesso de vontade muitas vezes prejudicava a finalização (e, se isso já havia sido um problema dos millonarios contra o Juan Aurich, imagina contra o Boca).

O Boca preferiu especular, deixar o adversário se expor para explorar alguma falha. Mas ela não veio. Com Ponzio e Kranevitter bem postados na marcação, o meio-campo riverplatense ficou mais sólido e criou o volume de jogo necessário para empurrar sua equipe. Aí, um deslize foi fatal. Martínez recebeu uma bola na área, Marín falhou de forma infantil e acabou cometendo um pênalti esquisito. Sánchez aproveitou e fez o gol da vitória do River Plate, acabando ainda com os 100% de aproveitamento do rival na Libertadores 2015.

O resultado foi justo porque premiou quem fez mais força para encarar o vento nessa maratona. Mas os jogadores e torcedores sabem que, daqui sete dias, há mais uma corrida pela frente. Na Bombonera, valendo vaga, o vento contrário pode virar um furacão. E o objetivo nesse cenário não é ganhar, mas ficar em pé e sobreviver.

O São Paulo mostrou que acredita em si, e deu motivos para a torcida fazer o mesmo

A crença em si próprio fez São Paulo superar seus próprios problemas e ter a melhor atuação na temporada

Poderíamos começar esse texto com considerações táticas sobre como o São Paulo se organizou sem Michel Bastos e Luis Fabiano para ganhar do Cruzeiro. Poderíamos falar dos mais de 66 mil torcedores que foram ao Morumbi e protagonizaram o maior público do Brasil no ano. Poderíamos até falar de Centurión, e como ele já deveria ter mais espaço nesse time. Mas tudo isso é secundário diante de algo maior: a crença.

O maior motivo para a vitória do São Paulo não foi tático ou técnico, foi psicológico. O time continua tendo alguns problemas, como a falta de contundência de Alexandre Pato na hora de finalizar ou a dificuldade de Ganso deslanchar em 2015. A defesa vez ou outra deixa buracos que dão a impressão que o adversário pode chegar ao gol assim que acertar o contra-ataque. Seriam motivos para tirar confiança da equipe, deixá-la mais conservadora, buscando apenas o suficiente para um resultado magro. Não foi o que ocorreu.

O São Paulo jogou com a intensidade e o desprendimento mental de quem via que seu futuro na Libertadores estava em jogo naqueles 90 minutos, como se não houvesse a partida do Mineirão. O time acreditou em suas forças, e essa confiança ajudou a minimizar os problemas que os são-paulinos ainda têm.

Bruno, um dos jogadores mais contestados do elenco, foi um dos destaques, com atuação merecidamente premiada com uma assistência. Centurión às vezes é estabanado, mas é essa impulsividade que faz o argentino um jogador interessante desse grupo, botando fogo no time e na torcida. Souza mostrou um futebol mais parecido com o de 2014, que lhe valeu convocações para a Seleção.

Do outro lado, o Cruzeiro era burocrático. Entrou em campo pensando mais nos 90 minutos do Mineirão do que nos do Morumbi. Em alguns momentos mostrou bom toque de bola e capacidade de articular boas jogadas, mas não sustentava essa postura e rapidamente se deixava acuar.

O resultado disso foi uma partida de pressão são-paulina, que provavelmente teria um placar mais elástico se Michel Bastos e Luís Fabiano estivessem em campo, ou se o goleiro cruzeirense Fábio não estivesse. O gol solitário a poucos minutos do final serviram para dar um ar épico e reforçar a insistência tricolor durante o jogo todo, ainda que mostrasse como uma boa atuação do São Paulo quase culminou em um empate que seria bastante preocupante.

De qualquer forma, ficou claro que o time acredita em si próprio, a despeito de seus problemas. Talvez a torcida tenha aprendido a acreditar um pouco também, e isso pode fazer a diferença para esse São Paulo caminhar uma fase a mais ou a menos na Libertadores 2015.

San Lorenzo proporcionou o jogo que o Corinthians tanto precisava

Em um jogo aguerrido, o Corinthians foi confrontado em algumas de suas fraquezas, mas não saiu do 0 a 0

Foi intenso, foi brigado, foi feio em alguns momentos, foi o que um jogo grande de Libertadores deveria ser. E, por isso, Corinthians 0x0 San Lorenzo foi uma partida muito boa dentro de sua proposta. O tipo de duelo que o time de Tite desse começo de 2015 tanto precisava.

É uma questão de parâmetro. O Alvinegro comçou o ano em ritmo acelerado, com boas apresentações e resultados proporcionais ao momento. Houve alguns episódios de destaque maior, como nos clássicos contra Palmeiras e São Paulo e nas goleadas sobre Once Caldas e Danubio. Aí, muitos (e talvez o próprio time) já tenham perdido a noção do nível dessa equipe. Foi isso o que os argentinos deram.

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O San Lorenzo entrou muito mais confiante e ousado que nos encontros contra o São Paulo, provavelmente por saber que uma derrota representava uma virtual eliminação. Lembrou o time campeão da Libertadores 2014, ainda que sem Correa e Piatti.

Foi uma partida dura e disputada, que não escondeu nada. Diante de uma equipe que se preparou bem para cortar o jogo de triangulações do Corinthians, prender Elias atrás para evitar o homem-surpresa e explorar o jogo aéreo que tantos sustos dá em Cássio, o time brasileiro teve de atuar perto do limite.

O resultado disso foi um Corinthians competitivo, que criou mais chances que o adversário e esteve ao nível do desafio. Ao mesmo tempo, o bom futebol do San Lorenzo também foi capaz de expor o tamanho de certos problemas alvinegros. Por exemplo, como a defesa sofre pelo alto, como a marcação adiantada deixa espaço nas costas da zaga para passes em profundidade e, principalmente, como o ataque se moldou para ter um jogador como Guerrero para funcionar.

Foram lições importantes para o Corinthians conhecer a si próprio, muito mais até que nas atuações medianas contra Santos e Ponte Preta. No mata-mata continental, será preciso responder adequadamente a desafios desse tamanho. Nesta quarta, o resultado foi apenas parcial. Daqui para frente, será preciso um pouco mais.

A celebração que dá esperança aos são-paulinos é a mesma que preocupa

Pode representar a virada psicológica do time, mas também mostra que atuação ruim não é falta de vontade

Todos gritavam. O som saía do fígado, da alma. Não era só alegria, era também alívio. Um alívio sincero. Torcedores no Uruguai pulavam nas arquibancadas do modesto estádio Luis Franzini, torcedores em casa acordavam seus familiares de susto com gritos, jogadores pulavam e choravam no gramado. O São Paulo conseguia vencer um time todo desmantelado do Danubio com um gol aos 45 minutos do segundo tempo e afastava um pouco uma eliminação que parecia bastante possível instantes antes.

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A torcida ficar em êxtase e ter dificuldade para dormir nesta quarta é normal. E ela ainda se sentiu satisfeita ao ver como os jogadores tinham sentimento parecido. Com o apito final, muitos caíram no chão comemorando. Eles se importavam com aquile resultado, sentiam o mesmo que o torcedor. Mas, nesse cozidão de sensações que virou os minutos da virada de 15 para 16 de abril, é difícil tirar uma conclusão racional do que os 2 a 1 do Tricolor sobre o Danubio significaram. É a boa e velha história do copo pela metade, cheio e vazio em doses iguais.

Quando ocorre uma vitória cardíaca em jogo importante, a reação imediata é de ver a metade cheia do copo. Afinal, é automático pensar que ver o vexame tão próximo e conseguir evitá-lo no último minuto cria um novo momento psicológico no elenco são-paulino. É um daqueles lances que podem remobilizar o elenco, dar confiança ao time para buscar a classificação e seguir firme no mata-mata.

No entanto, também não se pode esquecer o futebol paupérrimo apresentado em campo. As bolas que foram utilizadas devem ter sido retiradas de maca após a partida, de tanto que elas apanharam dos dois times. Um jogo feio, de equipes apáticas, sem imaginação, sem qualquer sentido coletivo. Um torcedor cínico ou desconfiado poderia perfeitamente acusar os jogadores tricolores de estarem fazendo corpo mole. Mas a comemoração efusiva e sincera no gramado mostram que não havia nada disso. O desempenho era ruim porque eles não estavam conseguindo fazer nada melhor.

Por isso, a comemoração redentora dos jogadores apontam um novo momento para esse São Paulo, mas também acendem o alerta para o modo como dificuldade técnica e tática muitas vezes supera a motivação dos atletas. Ainda não dá para cravar o que se pode tirar para os confrontos decisivos contra Santos e Corinthians. É momento só de o torcedor tricolor se juntar aos jogadores e curtir um pouco esse alívio.