Enquanto autoridades fingirem que não veem o racismo, não adianta Elias prestar queixa contra González

As instituições têm os elementos para tomar as atitudes necessárias, mas preferem expor a vítima até ela se tornar vilã

Jogadores do Corinthians e do Danubio discutem. O assunto está quente, e pela reação de Elias no meio do bolo, dá para imaginar do que se trata. O empurra-empurra segue por um minuto sem que ninguém apareça para evitar uma confusão maior. Quando os ânimos esfriam, o volante do Corinthians se direciona ao árbitro e conta que foi chamado de “macaco”. O árbitro Diego Haro diz que não viu, e continua se preocupando mais com o jogador uruguaio que está sendo colocado na maca.

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A atitude do juiz diz muito sobre o porquê de casos de injúria racial serem tão recorrentes no futebol. O peruano foi mal durante toda a partida, muitas vezes por interpretar erradamente as jogadas ou não ter a coragem de tomar atitudes mais duras no aspecto disciplinar. Mas, no caso da ofensa de Cristián González a Elias, ele faz questão de não estar por perto da confusão, acabou não vendo o que ocorreu, não fez força para se inteirar após ser informado e já tem a desculpa perfeita para lavar as mãos em sua súmula.

Haro errou, mas não está sozinho. Ele é apenas o elemento final de um sistema covarde  que é feito para não se combater o racismo em campo. O delegado da Conmebol, por exemplo, tentou mostrar surpresa ao “descobrir” por meio de jornalistas brasileiros que “macaco” é um xingamento racista no Brasil (o atacante Guerrero, quando soube dessa reação do dirigente, afirmou que “macaco é xingamento em qualquer lugar”). Roberto de Andrade, presidente do Corinthians, disse que o clube deixou na mão de Elias a decisão de prestar queixa contra González e aceitava a ideia de que “o que acontece em campo fica no campo”.

É um círculo já comum. As autoridades civis podem fazer algum barulho se forem acionadas, mas no final acabarão liberando o jogador. Os clubes convenientemente largam a decisão sobre a ida à delegacia na mão do atleta ofendido, como se eles não tivessem responsabilidade em dar suporte se um funcionário foi ofendido. As federações fingem que não veem nada e usam a burocracia para justificar a falta de atitude quando há alguma pressão.

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Esse cenário ocorre em vários casos de racismo, sobretudo no futebol internacional. A Uefa costuma punir esse tipo de situação com multas, geralmente em valores perfeitamente acessíveis a quem cometeu o crime. A Conmebol não foi diferente. Por exemplo, o Real Garcilaso foi multado em apenas R$ 12 mil e uma bronca (“se fizer de novo, vou tirar mando de campo, entendeu?”) pelo xingamento generalizado ao cruzeirense Tinga no ano passado.

Nesse aspecto, algumas punições que ocorreram no Brasil foram surpreendentemente duras. O Grêmio foi eliminado na Copa do Brasil e o Esportivo de Bento Gonçalves foi rebaixado no Gauchão por perda de pontos decorrentes de xingamentos racistas de torcedores. E é esse tipo de medida que realmente pode ter efeito.

Dentro desse universo em que todos parecem se mobilizar para fazer vista grossa ao racismo, a vítima se torna a parte mais frágil. Ir à delegacia é a atitude correta, mas é sempre uma decisão colocada como individual. O atleta ofendido se vê obrigado a lutar sozinho por uma causa que todos deveriam defender. Isso o deixa exposto, e muitas vezes comprar a briga se volta contra ele. A torcida pode reforçar o discurso racista quando quiser atacá-lo (só lembrar como Aranha sofreu ataques racistas de alguns santistas quando foi ao Palmeiras). A imprensa pode usar o caso para criar uma imagem de mártir ou de líder de uma causa que talvez o jogador não queira para si. As entidades podem ficar incomodadas prejudicar o clube ou o próprio atleta no decorrer da competição.

Por isso, discutir se Elias acerta ou não ao ir à delegacia é algo menor. Ele deveria prestar a queixa contra González e reforçar a luta contra o racismo, mas é difícil condenar alguém que está em posição tão fragilizada. Até porque não é preciso um boletim de ocorrência ou uma frase a mais na súmula do árbitro para que se saiba o que ocorreu. As imagens estão aí, e as instituições podem perfeitamente tomar as atitudes necessárias sem obrigar a vítima a se expor. Então, que tomem.

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Marquinhos foi o melhor do Cruzeiro, e é fácil entender o porquê

Atacante foi importante por dar um pouco de velocidade de mobilidade a um time que ainda tenta se encontrar

O Cruzeiro que conquistou o bicampeonato brasileiro em 2013 e 14 não era apenas um time de bons jogadores. Era uma equipe bem montada coletivamente, da proposta de jogo definida ao fato de ter um banco de reservas que desse bom suporte ao time titular. Por isso, era óbvio que o começo de 2015 seria de altos e baixos para os celestes. Um time que depende do entrosamento não decolaria rapidamente após perder muitos jogadores importanets.

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Isos ficou claro até quando o time consegue um bom resultado, como o 2 a 0 sobre o Mineros em Ciudad Guayana pela Libertadores. O Cruzeiro não jogou bem. Foi apático em alguns momentos e travado em outros. E, dentro desse universo, teve em Marquinhos seu principal jogador. Compreensivelmente.

Os melhores times que Marcelo Oliveira montou (o Coritiba bivice-campeão da Copa do Brasil e o Cruzeiro bicampeão brasileiro) tinham como característica principal a intensa movimentação ofensiva, com jogadores que trocavam de posição e usavam as laterais como forma de abrir espaço na defesa adversária. Tanto que o índice de gols de cabeça do Cruzeiro em 2014 era alto, ainda que o futebol apresentado não tivesse nenhuma relação com o pragmatismo de quem não sabe armar jogada e apela para chuveirinhos na área.

A Raposa de 2015 ainda não tem esse padrão de jogo, e precisará de tempo para chegar àquele nível. Leandro Damião se movimenta muito menos que Marcelo Moreno e De Arrascaeta não tem exatamente as mesmas características de Ricardo Goulart ou Éverton Ribeiro. De qualquer modo, os dois gols desta quinta na Venezuela saíram nos momentos em que se viu um esboço dessa movimentação.

Marquinhos, por ser o jogoador mais rápido e que corta da lateral para o centro com mais facilidade no setor ofensivo, foi fundamental nas duas jogadas. Talvez ele nem se firme na Toca da Raposa, talvez seja ofuscado por outros companheiros com o passar do tempo. Mas, nesse momento de equipe em formação, é ele quem pode trouxe um pouco daquele Cruzeiro de 2014 de volta.

Como o São Paulo venceu o São Paulo nesta quarta no Morumbi

O futebol em si esteve longe do ideal, mas o time soube ganhar. Às vezes, é o suficiente

Há momentos de vencer bonito, e há momentos de vencer, apenas vencer. A partida contra o San Lorenzo no Morumbi se encaixava na segunda categoria para o São Paulo. E, para conseguir esses três pontos, os são-paulinos tiveram de aprender a superar seus próprios fantasmas.

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Foi um jogo de pressão tricolor durante quase todo o tempo, mas foi um jogo em que o torcedor teve motivo para ficar inseguro. A equipe ainda não deslanchou. Com Paulo Henrique Ganso sem conseguir ser o homem que cria a jogada diferente, que quebra a defesa adversária, o ataque do São Paulo se torna previsível e, portanto, fácil de anular. Ainda assim, o Tricolor conseguiu mandar duas bolas na trave e fazer um gol que foi mal anulado.

E aí era o momento de os fantasmas aparecerem. O primeiro fantasma era a falta de conexão da torcida com seu time. Afinal, o futebol não vem agradando nesse começo de temporada e a diretoria em nada ajudou ao estabelecer ingressos caros e com sistema de compra online problemático. Apenas 26 mil torcedores estavam no Morumbi e não seria surpreendente se a imagem de muitos lugares vazios com as vaias dos lugares ocupados desestabilizassem o pessoal em campo. Mas isso não aconteceu. A torcida empurrou até o fim, e não se tornou mais um obstáculo aos jogadores.

A equipe ajudou. Os dois grandes jogos do São Paulo em 2015 foram problemáticos. Uma derrota contundente para o Corinthians em Itaquera e uma inexplicável (em casa, com um a mais o segundo tempo quase inteiro) para o mesmo adversário no Morumbi deixaram marcas. Na primeira, a impotência de uma equipe que não conseguiu criar espaços pelo meio. Na segunda, um time que lutou bastante, mas não conseguiu fazer nada além de dar chuveirinhos na área.

O San Lorenzo se encastelou em seu campo e não tinha velocidade para criar contra-ataques perigosos (houve apenas um, muito mal finalizado por Barrientos). Os são-paulinos teriam de propor o jogo, mas qual estratégia seguir: a que fracassou no primeiro jogo contra o Corinthians ou a que fracassou no segundo? O São Paulo transcendeu isso. Na verdade, fez a melhor escolhe: não importa a estratégia, o que importa é não se traumatizar com o primeiro revés que aparecesse. Bola na trave? Continua tentando. Outra bola na trave? Tenta mais um pouco. Gol mal anulado? Sinal de que dá para fazer gol.

Foi assim que o São Paulo achou o espaço. Aos 44 minutos do segundo tempo, Michel Bastos virou o jogo para acionar Carlinhos na esquerda. O lateral teve tempo para se ajeitar e fazer o cruzamento. Barrientos ficou parado e não acompanhou Michel Bastos, que se projetou atrás da marcação argentina e ficou livre para tocar de cabeça.

Não foi uma vitória bonita, não redimiu o São Paulo de seus problemas táticos e técnicos. Mas foi a vitória necessária de um time que soube superar os obstáculos que ele próprio vinha criando.

Um jogo duro, disputado e silencioso: o Corinthians teve uma grande vitória no xadrez

A falta de torcida tira o tom épico da vitória na casa do adversário, mas não desvaloriza a importância dela

Xadrez é um esporte fascinante. Os jogadores mexem as peças, tentando antecipar vários movimentos à frente do adversário para explorar um passo falso e dar o bote. Quem entende o que está acontecendo no tabuleiro sente a emoção a cada jogada. Quem não entende, pode simplesmente achar que é uma partida silenciosa, modorrenta e chata. Mais ou menos como o San Lorenzo 0x1 Corinthians desta quarta.

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O segundo duelo da morte do grupo da morte da Libertadores 2015 foi um encontro para quem gosta de analisar o futebol mais do que sentir. Duas equipes que se estudaram demais, alterando cada posicionamento, cada ação, em busca do passo falso do oponente. Não foi um jogo de emoção, foi um jogo de razão. Até o silêncio do estádio Nuevo Gasómetro de portões fechados parecia o de um jogo de xadrez. Só faltou o relógio limitando o tempo que os técnicos teriam para pensar em cada movimento.

Sem o tsunami sonoro que normalmente vem das arquibancadas, o San Lorenzo perdeu parte da aura do time campeão sul-americano de 2014. Não tinha aquele empurrão psicológico, mas acertou ao seguir o plano de Edgardo Bauza. Tentou isolar o atacante corintiano (no caso, Danilo) e Jadson de forma a asfixiar as jogadas corintianas. Funcionou, e Jadson se viu muitas vezes sem opção de passe, acabava segurando a bola mais tempo que o necessário e a perdia. O time também abusou de entradas maldosas, mas teve o mesmo sucesso que um peão que sai devorando todas as peças que vê pela frente no começo do jogo para irritar o adversário, mas depois percebe que não estava construindo nada a partir daquilo e some do tabuleiro.

O que realmente funcionou foi a estratégia ofensiva. Os Cuervos aproveitaram que a linha defensiva alvinegra fica adiantada para se aproximar do meio-campo, uma medida boa para compactar o time e dificultar o toque de bola do adversário, mas que pode oferecer espaço nas costas dos zagueiros e laterais. O San Lorenzo abusou de lançamentos ou cruzamentos para jogadores que se projetavam para receber livres. Assim surgiram várias oportunidades claras, como planejado. Mas uma diferença do xadrez para o futebol é que, no tabuleiro, não há como a torre tropeçar no caminho até o rei e errar o xeque-mate. Nos gramados, o plano pode ser seguido à risca, com movimentos precisos, e o atacante simplesmente erra o chute.

E o San Lorenzo exerceu bastante esse direito de errar. Com Matos, com Blanco, com Cauteruccio. Quando não errou, Cássio apareceu para fazer uma grande defesa.

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O Corinthians também fez seus movimentos. À parte ter protegido mal as costas de sua linha defensiva (e passado muitos sustos por isso, a ponto de Tite dizer, corretamente, que o empate seria mais justo), soube como cadenciar a partida para impedir que o San Lorenzo criasse um volume de jogo insuportável. Para isso, foi esperto ao usar as lesões em Renato Augusto e Mendoza para reforçar o meio-campo com Cristian e Petros, permitindo que Elias avançasse e desse mais alternativas para o pouco inspirado Jadson tabelar.

Essa mudança foi importante para pautar o ritmo do jogo, ainda que tivesse pouco efeito na criação de jogadas. De qualquer modo, em um momento em que a chance se apresentou, um Elias com liberdade pôde fazer uma jogada individual após chute de Cássio e fazer o único gol do jogo.

No final, a partida foi muito detalhada e fascinante pelo ponto de vista tático, mas sem aquele toque especial que uma torcida apaixonada oferece. Uma onda que talvez fizesse a bola de Matos ir alguns centímetros a mais para a esquerda e entrasse, ou que daria um tom mais épico à vitória corintiana. Mas foi uma vitória gigantesca. Pareceu mais uma vitória de xadrez que de futebol, mas xadrez também é fascinante. E extremamente duro e competitivo.

O são-paulino achava que tudo estava dando errado, até que esse gol fez tudo dar certo

E pensar que algumas cornetas tricolores já temiam um tropeço contra o Danubio

O torcedor do São Paulo tem fama de ser blasé, variando entre a arrogância nos bons momentos e a desconexão nos maus. Mas o são-paulino sabe também ser corneteiro, e teve corneta soando para todo lado na capital paulista nos últimos sete dias. Parecia que a conjunção astral era negativa ao time do Morumbi.

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Veja só o que aconteceu nos últimos dias:

1) Time perde de forma contundente para o maior rival;
2) Derrota por 2 a 0 é tratada como a pior da história do futebol desde o 7 a 1, revelando tudo o que há de errado no clube;
3) O Danubio vencia o San Lorenzo, resultado ótimo para o São Paulo, até tomar a virada com dois gols nos minutos finais;
4) Surgem notícias de atrito entre Muricy Ramalho e Carlos Miguel Aidar;
5) Clube coloca preços caros para os ingressos da partida contra o Danubio;
6) O sistema pifa, e o São Paulo tem problema para fazer a venda online dos ingressos:
7) Torcida tem de ir às bilheterias do Morumbi para comprar os ingressos, mas lá também há problemas no sistema;
8) Cai uma chuva de encher o Cantareira (OK, nem tanto), deixando o trânsito um horror para quem ia ao Morumbi, e encharcando quem lá estava para a compra na bilheteria.

Todo corneteiro interpreta essa sequência de eventos como o sinal definitivo que uma derrota trágica contra um time mais fraco está à espera. Ou, no mínimo, como o acúmulo de azares justificava o temor por mais um tropeço. Uma sensação que, no caso são-paulino, demorou apenas quatro minutos. Foi o tempo necessário para Reinaldo fazer boa jogada pela esquerda e cruzar para Alexandre Pato fazer esse golaço.

Esse voleio definiu os rumos da partida, tirando um elefante das costas do São Paulo. Assim, o time venceu com naturalidade um jogo que acabou sendo até chato pela facilidade com que saiu o 4 a 0. Não serviu para expiar todos os problemas enfrentados pelo clube nos últimos dias (a derrota para o Corinthians ainda é sentida, e os erros na venda de ingressos precisam ser corrigidos), mas talvez tenha mostrado aos torcedores que o desespero era um pouco precoce.

Como o trabalho de Elias explica a vitória do Corinthians sobre o São Paulo

O volante era o termômetro do meio-campo, ditava a hora de voltar e de avançar, dava o bote e finalizava

O São Paulo estava assustado. O Corinthians já vencia por 2 a 0 na primeira rodada da fase de grupos da Libertadores e criava oportunidades para ampliar. Rogério Ceni tinha a bola nas mãos para sair jogando após quase se enrolar em um chute sem ângulo e aparentemente despretensioso de Renato Augusto. Ele vê Michel Bastos livre na entrada da área e rola a bola. O que era uma saída de bola tranquila vira mais problema: Elias aparece do nada, rouba a bola e quase Danilo amplia a vantagem alvinegra. Eram 40 minutos do segundo tempo.

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O lance está aos 4:00 desse vídeo. Veja como Elias aparece do nada para dar o bote

Essa jogada retrata bem um elemento fundamental da merecida vitória corintiana na abertura do Grupo 2 da Libertadores. Elias divide com Jádson o protagonismo do jogo, mas é inegável o quanto seus movimentos ditam o ritmo de sua equipe e em torno disso se desenhou a estratégia de Tite para o clássico.

O Corinthians desse início de 2015 tem uma diferença fundamental em relação às equipes de 2013 (do próprio Tite) e 2014 (comandada por Mano Menezes): é um time que desenha sua troca de passes em triangulações. Um jogador recebe a bola, outros dois se apresentam de alguma forma. As tabelas saem com naturalidade e o jogo se torna mais profundo do que o toque de bola muitas vezes preguiçoso e arrastado que marcou o time nas temporadas anteriores.

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Muricy Ramalho percebeu essa mudança, e desenhou o São Paulo pensando nisso. Deixou o meio-campo com três jogadores mais recuados, congestionando o setor de armação alvinegro e quebrando as triangulações. Isso funcionou em certa medida, tanto que o Corinthians criou uma oportunidade com Fábio Santos com 30 segundos e depois foram dez minutos de nada de interessante acontecendo em campo.

Elias quebrou isso. Em uma bola mais esticada, a defesa tricolor ainda não estava posicionada e foi possível criar espaços. Tabelou com Danilo e se projetou, já imaginando que Jádson estava lá para completar a triangulação. O lançamento veio preciso, e o toque de primeira abriu o marcador.

Depois disso, o Corinthians murchou, de forma até preocupante. Recuou e não conseguia sair. Defendia-se muito bem, com linhas bem compactadas que tiravam todo o espaço de criação são-paulino. No entanto, o que sobrava de inoperância no ataque do São Paulo sobrava em marcação. Os corintianos não conseguiam sair jogando, abusavam dos chutões da defesa e a partida ficou muito feia.

Nesse momento, a melhor opção do Corinthians era forçar o erro do adversário. Os tricolores trocavam passes inoperantes na defesa, mas, de tempos em tempos, Elias aparecia feito um raio para dar o bote na saída de bola. Não teve sucesso no primeiro tempo, mas deu o tom da estratégia que se tornou dominante no segundo.

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O Corinthians variava a marcação recuada com rápida pressão em cima dos defensores são-paulinos. A partir daí, os alvinegros recuperaram o domínio da partida no intervalo e construíram a merecida vitória. O segundo gol surgiu de uma jogada assim. No caso, quem saiu para o bote foi Emerson, e Elias foi quem se projetou, atraindo a marcação no meio e abrindo espaço para Jadson na direita.

Foi uma jogada faltosa de Emerson, não há dúvidas, mas a dinâmica da partida indicava que o segundo gol poderia sair a qualquer momento em uma jogada naquelas características. O São Paulo não conseguia criar perigo para empatar, e depois do gol de Jadson continuou não criando perigo.

Essa variação corintiana entre dar o espaço e apertar rapidamente a marcação matou o time de Muricy. E Elias é quem comandava esse movimento, mesmo aos 40 minutos do segundo tempo, quando o jogo já parecia ganho.

A altitude ajuda, mas o The Strongest venceu porque soube o que fazer com a bola

Passes curtos, penetração pelo meio e estratégias adequadas para suas características: time boliviano é bem treinado

Um Internacional abaixo do tom. Começou a partida mal posicionado em campo, com meio-campo inoperante e defesa confusa. Além disso, não estava ambientado com a altitude de La Paz. Resultado: o The Strongest voou, abriu 2 a 0 em menos de 20 minutos e teve controle de quase toda a partida, um 3 a 1 mais que justo. Dá para concluir esse roteiro dizendo que os Andes foram a grande figura da equipe boliviana, mas isso é querer se enganar. Os atigrados sabiam muito bem o que estavam fazendo em campo.

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A receita tradicional das equipes de altitude é botar muita velocidade, sobretudo em lançamentos longos, e abusar dos arremates de longa distância, sempre imprevisíveis no ar rarefeito. Tudo o que não vimos na noite desta terça no estádio Hernando Siles.

O princípio do time comandado por Néstor Craviotto é o toque de bola. O time teve muita trocas de posições pelo meio, com passes curtos e penetração pelo meio. Até os volantes participavam da armação ou de conclusão, sobretudo Chumacero (o melhor jogador em campo). Os três gols bolivianos saíram dessa forma, bem como várias outras jogadas que não encontraram a rede.

Além disso, o The Strongest mostrou muita inteligência para lider com sua limitação no jogo aéreo. Sem jogadores altos, os bolivianos sempre posicionavam dois ou três jogadores fora da área quando havia um cruzamento no ataque. O objetivo não era necessariamente finalizar com a cabeça, mas criar condições para finalizar no rebote, de frente para o gol do Inter.

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Enquanto isso, o Colorado ainda sofria por ser uma equipe em formação. O jogo não fluía e, salvo nos 20 minutos iniciais do segundo tempo, quando Anderson saiu e o meio-campo ficou mais sólido, o Internacional não esteve à altura do adversário. O técnico Diego Aguirre será cornetado, D’Alessandro dará a cara a tapa como líder desse elenco que é e as chances de classificação continuam semelhantes às que eram.

Pois é,  por mais que o The Strongest tenha mostrado virtudes, um jogo não o torna favorito à chave. O elenco é limitado, e qualquer qualidade coletiva pode ruir se os jogadores não tiverem capacidade técnica de executar as jogadas que foram treinadas. Até porque a altitude não pautou o jogo do The Strongest, mas certamente ajudou o time boliviano a atuar com uma intensidade muito maior que o Internacional.

De qualquer modo, a equipe boliviana é bem montada, sabe o que faz em campo. Mais ou menos como o semifinalista Bolívar já havia sido na Libertadores de 2014. São bons sinais. Talvez a Bolívia tenha percebido que contar apenas com a altitude só seria suficiente para dar algumas vitórias na fase de grupos, mas o futebol local precisava de mais para realmente chegar a algum lugar.

Nós amamos a Libertadores, e nos damos o direito de sonhar com mais

Não precisamos gourmetizar a Libertadores: apenas explorar as suas qualidades no melhor estilo latino-americano

Um bastião do futebol feito com o coração, com a emoção, com o instinto, muitas vezes atropelando a pasteurização idealizada em departamentos de marketing. A paixão pelo seu clube não é um produto, é um sentimento, e a Libertadores consegue dentro do possível manter seu caráter, sua alma. Isso a torna uma competição especial, mas também a transforma em alvo de acalorados debates, acalorados como tudo o que se discute nesses tempos.

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O mundo digital parece pedir opinião de todos sobre tudo. Opiniões fortes, contundentes, definitivas. É tudo extremo: disputa eleitoral, ideologias políticas, sistema de transporte público, comidas gourmets, BBB… No caso da Libertadores, alguns vêm a alma do torneio como se fosse tosqueira e símbolo de atraso, enquanto outros olham as propostas de profissionalização total como ameaça de um raio gourmetizador.

A Libertadores não pode, nem deve, se tornar uma versão das Américas da Champions League. Não é assim que os latino-americanos somos (o erro de concordância é proposital), não é assim que vivemos nossas paixões. Futebol é uma expressão cultural e precisa refletir nosso jeito de ser. Nós somos contraditórios e passionais. Valorizamos o improviso ao planejamento, gostamos de usar a criatividade para empregar todas as ferramentas possíveis para seguir em frente.

Tudo isso é exposto na Libertadores, como se fosse um grande curso sobre América Latina. Pressão de torcida, estádios acanhados, altitude, clima seco, clima úmido, calor, frio. Cada jogo como visitante traz um desafio novo, e levantar o troféu é mais um prêmio à capacidade de sobrevivência em ambientes diversos do que necessariamente de bom futebol.

Nós, da Trivela, amamos tudo isso. Mas nos damos o direito de sonhar com mais. E é possível. É possível uma Libertadores melhor – como é possível uma América Latina melhor – sem ter de abandonar sua cultura, sua história. O povo que a vive o torneio com mais intensidade não recebe o carinho que merece de seus dirigentes.

A maior competição das Américas precisa ser passional e essencialmente latino-americana, mas não precisa ser corrupta, violenta, mal organizada, bagunçada e sem lei. A riqueza cultural e econômica que ela gera precisa ser revertida para o público com melhores condições e melhores times, não desaparecer no meio do caminho. A intensidade precisa ser usada para enriquecer o espetáculo, com cantos, faixas e rolos de papel, não com pedras atiradas em quem vai cobrar escanteio. Estádio tem de ser acanhado e refletir toda a vontade do torcedor de entrar no campo, não pode ser armadilhas para intimidar fisicamente quem desagradar o mandante.

Não é gourmetizar a Libertadores, é explorar suas qualidades da melhor forma possível para levar a todos o que há de mais apaixonante no futebol latino-americano. Uma paixão que encantou os europeus durante a Copa do Mundo, com marés colombianas, mexicanas, argentinas, chilenas e uruguaias pelos estádios brasileiros, com uma cultura de estádio completamente diferente do que eles estavam acostumados. Queremos ver isso todo ano, queremos que o mundo todo veja isso todo ano. Queremos uma Libertadores melhor, mas sendo Libertadores. Queremos uma América Latina melhor, sendo América Latina.

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Libertadores entra chutando a porta e falando alto para acordar quem se achava de férias

Corinthians x Once Caldas teve toda a complexidade de um grande jogo, que o massacre do placar não pode apagar

Três belos gols (ainda que um aparentemente sem querer), tabelinha, passe de calcanhar, um placar dilatado e a eliminatória praticamente assegurada. Olhar de forma superficial ao Corinthians 4×0 Once Caldas passa aquela nítida sensação de um jogo que um radialista das antigas diria um “fora o baile” logo após de enunciar o placar. Mas o que se viu na Arena Corinthians não foi um “show de bola” ou um “vareio”. Foi um duelo de Libertadores como todos os duelos de Libertadores deveriam ser.

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Elias fez sua melhor partida desde que deixou o Flamengo, Felipe saiu sob aplausos depois de passar todo o primeiro tempo sob vaias, Jadson e Renato Augusto foram muito bem nas tais traingulações que Tite tanto fala que quer implementar no Corinthians. Mas um jogo como esse não seria decidido na tática ou na técnica. Seria vencido na manha. E quem teve essa manha foi Emerson Sheik.

É imensurável a importância do atacante na vitória desta quarta. Tudo bem, ele marcou o primeiro gol no que aparentemente deveria ser um cruzamento, e esse é um argumento bem concreto. Mas o gol aos 30 segundos foi a coisa menos importante que ele fez. Afinal, aquela jogada não mudou o rumo da partida.

O Corinthians saiu na frente, mas acabou cedendo a seu próprio nervosismo a partir dos 15 minutos, deixou o Once Caldas ficar perto do empate duas vezes e ainda viu seu melhor jogador ser expulso. Parecia mais uma daquelas noites de sofrimento alvinegro na Libertadores, com os corintianos perdendo a cabeça por algum momento e deixando o resultado escapar.

Aí Sheik apareceu. Ele pegou a bola, ciscou, driblou, provocou, reclamou, brigou, caiu, fez o relógio andar e a poeira baixar. Quando parecia que o jogo era dos colombianos, Emerson o tomou para si. Sua experiência foi a resposta que o Corinthians tinha para o momento ruim. Naquele momento, o atacante ganhou o jogo mental para os alvinegros.

Cada vez que Emerson pegava na bola parecia um golpe psicológico nos colombianos. Eles não sabiam como reagir ao que o atacante fazia. Uma bola perdida que o atacante ficou segurando na esquerda virou a oportunidade de cavar um escanteio, e daí saiu o segundo gol. De uma virada de jogo que Sheik fez uma embaixadinha para lá de provocadora (coisa de quem sabia que era o dono da partida) saiu um passe para Elias e, dali, a tabela que gerou o terceiro gol corintiano.

A goleada corintiana não foi no número de gols, mas na capacidade de se mostrar à altura dos obstáculos que um duelo de Libertadores que se preze sempre oferece. E isso quem trouxe foi o jogador que, em 2014, havia sido rejeitado por Corinthians e Botafogo. Um jogador que foi o dono da primeira grande partida da temporada 2015 na América do Sul.

Olha o gramado em que o Portland Timbers jogou na Guiana

E há quem ache que entrar na Libertadores seria um sacrifício grande demais para as equipes da MLS

Os Estados Unidos estão ficando tão enturmados com o mundo do futebol que começam a se dar ao luxo de estranhar jogar em lugares em que não há estrutura adequada. Nesta terça, o Portland Timbers foi a Georgetown para enfrentar o Alpha United pela Liga dos Campeões da Concacaf. E tiveram de encarar um estádio de críquete, esporte mais popular da Guiana, adaptado.

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O estádio Providence é moderno, recebeu jogos da Copa do Mundo de Críquete em 2007, mas sua versão futebolística ficou esquisita. Colocaram o campo quadrilátero dentro de um oval, deixando uma enorme área entre as linhas de jogo e as arquibancadas. Mas o pior foi o meio do campo. No críquete, a região onde se arremessa e rebate é formada por uma pequena pista retangular de terra no centro do campo. E essa área foi mantida, dando um ar bastante mambembe (e prejudicando consideravelmente a qualidade do piso).

Até o dono dos Timbers mostrou sua surpresa no Twitter:

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Considerando que o time norte-americano teve de emendar uma viagem direto de Boston (onde a equipe atuou no fim de semana) a Georgetown em avião fretado, encarou esse campo improvisado e ainda teve de pegar um longo voo de volta até o norte da costa Pacífico dos Estados Unidos, disputar a Libertadores não soa um sacrifício tão grande assim. E ainda seria tecnicamente mais desafiador.

Obs.: ah, o Portland Timbers venceu por 1 a 0.