O legado da Copa 2018 deveria ser o combate ao racismo na Rússia, mas esse trabalho está atrasado

De que adianta os estádios estarem com obras adiantadas se as instituições ainda fazem vistas grossas à intolerância?

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“Uh uh uh uh uh uh uh”. O som é inconfundível e qualquer pessoa que conheça um pouco o padrão de comportamento de torcedores extremistas da Europa sabe do que se trata. É a suposta imitação do som de um macaco, tanto que ele só é emitido pelos ultras quando um jogador negro – normalmente do time visitante, ainda que até os do mandante já foram alvo – pega na bola ou está próximo da jogada. Foi assim com Emmanuel Frimpong durante a partida de seu time, o Ufa, contra o Spartak em Moscou pelo Campeonato Russo neste fim de semana.

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O ganense estava em uma jogada perto da bandeira de escanteio quando a torcida moscovita disparou os insultos. O jogador não se aguentou e fez um gesto obsceno, esguido de um xingamento. Frimpong foi expulso em uma atitude para lá de discutível. Árbitros são orientados a não deixarem jogadores atacarem torcedores, mas era bastante plausível interpretar o caso como fora do convencional.

Mas o problema maior, incrivelmente, não é o cartão vermelho a Frimpong. É como as instituições que organizam o futebol russo ajudam a alimentar o comportamento racista dos torcedores. O ganense foi suspenso por dois jogos pelo gesto, o que já é bem discutível, mas ficou pior.

Ficou pior porque ele foi o único. Frimpong até disse ter aceitado sua punição, mas o fato de ele ser o único não é aceitável. A Federação Russa abriu investigação sobre o caso, e os resultados foram anunciados nesta quinta. Segundo o chefe do comitê disciplinar da entidade, Artur Grigoryants, não houve nenhum problema na atitude da torcida do Spartak. “O delegado do jogo não notou nenhuma violação disciplinar pelos torcedores do Spartak em direção a Frimpong. Não houve racismo e não temos motivos para impor alguma sanção disciplinar contra o Spartak. Frimpong foi suspenso por dois jogos pelo gesto ofensivo que ele fez para as arquibancadas.”

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Se não encontraram evidência, foi por falta de procurar. Bastaria colocar “Frimpong Spartak” na busca do YouTube para encontrar o vídeo acima (e vários outros, diga-se) e ter toda a prova que precisa para entender o que aconteceu. Como definiu Frimpong, o resultado das “investigações” é “mais que uma piada”.

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O racismo é um problema antigo no futebol russo, mas o momento é particularmente delicado porque o país está a três anos de receber uma Copa do Mundo. E, se há um legado que o maior evento esportivo do planeta pode deixar no maior país do planeta, é criar uma cultura de integração racial nos estádios e na sociedade em geral. Por isso, as autoridades da Rússia deveriam mostrar-se enérgicas com essa questão, até como forma de expor a todos que tem tomado alguma atitude contra esse comportamento crônico. Mas preferiram fazer vista grossa, e até a Fifa teve de se manifestar, pedindo explicações à federação russa por que Frimpong foi suspenso.

Mas, aparentemente, combater o racismo é secundário para os mandachuvas do futebol russo. Uma pena, porque esse legado social seria muito mais enriquecedor e duradouro do que estar com várias obras de estádios adiantadas.

A única surpresa no pronunciamento de Blatter é ele não pegar o dinheiro

Suíço reiterou o que já estava anunciado, reforçando a ideia de que pretende continuar de alguma forma no comando da Fifa

Eram muitos sentimentos misturados. O susto com a aparição surpreende de um manifestante, a indignação com a falta de segurança, o medo de o tal manifestante estar armado, o constrangimento com a piada que virou a entidade que ele próprio comanda. O semblante de Joseph Blatter durante a aparição do comediante que atirou dinheiro para o alto durante um pronunciamento serviu de imagem perfeita do que tem sido os últimos meses do mandachuva da Fifa. Talvez só tenha faltado ele pular em direção às notas com cara de Gollum e falando “my precious”, mas não dá para pedir tudo.

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O importante é que o conteúdo de seu pronunciamento também foi um resumo do que se tornou a Fifa. Blatter reiterou que continuará na presidência da entidade até 26 de fevereiro de 2016, quando será realizada uma nova eleição. Em um momento mais ousado, o suíço também determinou que os presidentes de federações nacionais deverão ter limite de eleições e salários divulgados publicamente. A medida visa dar mais transparência ao comando das entidades que gerem o futebol mundial.

O que isso tudo significa? As exigências em cima dos presidentes de federações soam como uma satisfação para a opinião pública. A questão é que ela não é um regulamento que limpe a entidade, ele apenas promove um rodízio que, teoricamente, pode levar a uma melhoria nos quadros que comandam o esporte mais popular do planeta. A gestão interna da Fifa é que precisa mudar, e Blatter mostrou pouca vontade de promover isso.

Perguntado se levaria a público seu próprio salário, o suíço respondeu que sim. Mas só o faria quando outros o fizessem, como uma criança que só vai atender a ordem dos pais de comer o espinafre se o irmão fizer antes. Essa atitude quase birrenta de Blatter mostra o quanto ele não acredita realmente no que está dizendo e como ele ainda quer dar um jeito de manter as coisas como estão.

Uma sensação que fica ainda mais forte com a manutenção da data de eleição da Fifa, daqui sete meses. O prazo extremamente esticado (nem um país como a Índia demora tanto tempo para organizar uma eleição) dá ao atual presidente da Fifa mais tempo para articular sua sucessão. Dentro da própria entidade há figuras interessadas em assumir o comando (Jérôme Valcke é o exemplo mais óbvio) e é fundamental ter tempo para reorganizar a casa.

Um pleito de emergência ainda estaria influenciado pelo arrastão que o FBI realizou no segundo escalão da Fifa, o que favoreceria algum concorrente que já esteja dentro da cartolagem, mas sem envolvimento direto nos escândalos investigados pelos norte-americanos. O grupo mais provável viria da Uefa (provavelmente Michel Platini), que já tem articulação e passou relativamente ileso dessa primeira fase das denúncias de corrupção na Fifa.

Por isso, a única real surpresa de seu pronunciamento desta terça foi o manifestante atirando dinheiro. De conteúdo mesmo, Blatter não trouxe nada de novo.

Os mitos do França x Irlanda de 2009, e como a Fifa não precisava subornar irlandeses

A prática de subornos era tão banalizada na Fifa que a entidade dava propina mesmo onde não era necessário

A indignação é enorme, ainda mais se considerarmos todo o cenário. A Irlanda estava eliminando a França em St Denis na repescagem das Eliminatórias da Copa de 2010. Até que, no último minuto da prorrogação, Thierry Henry domina a bola com a mão de forma escancarada para dar o passe para o gol decisivo de Gallas. Não havia mais tempo para reação irlandesa. França classificada para o Mundial da forma mais suja possível, e algo precisava ser feito para restabelecer a justiça do campo.

ENTENDA: Mais sujeira: Fifa pagou para Irlanda desistir de processo após mão de Henry em 2009

A indignação é enorme, de fato, e ela engana a memória. Muita gente descreve o França x Irlanda de 2009 como no parágrafo acima. Alguns ainda são capazes de dizer que Henry fez com a mão o gol. Mas há pequenas distorções nessa narrativa, mudanças suficientes para criar um cenário bastante diferente do real.

A Irlanda não estava se classificando para a Copa. Os franceses haviam vencido o jogo de ida por 1 a 0 em Dublin e os irlandeses deram o troco em St-Denis. O segundo confronto estava na prorrogação, e o 0 a 0 do tempo extra levaria a decisão para os pênaltis. A França pressionava, até que, aos 14 minutos do primeiro tempo da prorrogação, Henry dominou a mão com a bola para oferecer a Gallas o gol de empate. Os alviverdes tiveram 16 minutos para tentar o segundo gol, mas não conseguiram.

Isso não diminui o tamanho do erro do árbitro sueco Martin Hansson, nem limpa a barra da França pelo gol irregular, mas deixa claro que, se a justiça tivesse de ser feita, não seria simplesmente dando a vaga à Irlanda. Por mais que se argumente que os franceses poderiam ter a punição agravada pela iniciativa de Henry de iludir o apitador, ela se basearia na presunção de que o domínio com a mão foi intencional e ainda teria de justificar de que modo esse erro foi juridicamente diferente de um jogador que se se atirou dentro da área e conseguiu um pênalti decisivo.

Na história do futebol, não há registro de inversão de placar de uma partida de grande importância internacional apenas pelo fato de o árbitro errar um lance grotesco (a não ser que se prove que tenha havido manipulação deliberada de resultado). Tampouco há casos de partidas refeitas em pedaços, como seria refazer apenas a prorrogação do França x Irlanda. No máximo, houve exemplos de partidas refeitas por completo, inclusive uma em Eliminatórias da Copa. Foi em 2005, com Uzbequistão x Bahrein.

Os uzbeques venciam por 1 a 0 e tiveram um pênalti a favor. Antes da cobrança, jogadores do Uzbequistão invadiram a área, e o árbitro marcou falta ao invés de mandar os jogadores recuarem para o chute. Houve reclamação da ex-república soviética, e o jogo foi refeito. A federação irlandesa chegou a mencionar esse caso em seu apelo contra a Fifa, mas ele não teve final feliz para o Uzbequistão. Ao invés de ficar com a vitória por 1 a 0, foram para um novo jogo, que terminou em 1 a 1, placar fundamental para colocar o Bahrein na repescagem contra Trinidad e Tobago.

O melhor cenário possível para a Irlanda era a Fifa ordenar a realização de um novo jogo contra a França. Ainda assim, o cenário seria muito favorável aos franceses, pois os irlandeses teriam de repetir a atuação heróica e vencer novamente em St.-Denis. Ainda assim, é melhor tentar isso do que simplesmente aceitar a eliminação.

O que isso significa? Significa que a Fifa poderia perfeitamente deixar a reclamação irlandesa rolar. A decisão mais provável seria confirmar o resultado (e a classificação francesa), mas a realização de um novo jogo também não criava um risco tão grande para a organização da Copa de 2010. As chances de a França confirmar a classificação seguiria enorme.

A revelação de que a Fifa pagou € 5 milhões à federação irlandesa por seu silêncio diz muito mais sobre a cultura de banalização de subornos da entidade internacional do que sobre a situação daquele confronto das Eliminatórias. Afinal, a turma de Joseph Blatter preferiu resolver com dinheiro a ter de lidar com um problema que, no final das contas, teria boas chances de se resolver naturalmente.

A Fifa precisa ser refundada para atuar como a corporação multinacional que ela sempre foi

A entidade só será viável e legítima se responder a padrões mínimos de transparência e controle externo

Joseph Blatter adora falar do tamanho da “indústria” que ele comanda. São bilhões de dólares circulando por causa da necessidade de bilhões de torcedores acompanharem o trabalho de milhões de jogadores e milhares de clubes, todos utilizando material esportivo produzido por milhões de trabalhadores em um universo exposto por milhões de profissionais de mídia. Ao espalhar essas cifras pelo mundo, ele não estava apenas fazendo propaganda do esporte, mas mostrando o tamanho do poder que ele, como presidente da Fifa, tinha em mãos.

LEIA MAIS: O que mudou nos últimos dias para o reeleito Blatter renunciar à presidência da Fifa?

O discurso do cartola também ajudava a desviar o foco de como era o modus operandi da entidade sob seu comando (e sob o de João Havelange, seu antecessor). Com tantos milhões e bilhões de dólares ou euros indo de um lado para o outro, é fácil ver a Fifa como uma entidade puramente privada e comercial, que está pensando apenas em dinheiro. Antes fosse.

“A Fifa tem característica de uma grande empresa, mas não joga por essas regras. Se fosse uma companhia multinacional, teria de seguir diferentes regras, mas isso não acontece porque querem passar a imagem de instituição sem fins lucrativos”, comentou o norte-americano Roger Pielke Jr, cientista político especializado em esportes e sociedade da Universidade do Colorado, em entrevista a Alex Sabino para a Folha de São Paulo. No fundo, o comando o futebol mundial está nas mãos de uma instituição política, e que trabalha com um nível de troca de interesses e de clientelismo que não tem como objetivo enriquecer a entidade ou o esporte que ela gere. E mudar isso deve ser o primeiro passo da reconstrução que a Fifa terá de passar nos próximos anos.

O sistema de federações foi adotado pelo esporte mundial na primeira metade do século 20 com a ideia de criar entidades que pudessem ter a neutralidade necessária para reger suas modalidades pensando apenas no bem delas. Para isso, era fundamental ter independência de governos e não terem fins lucrativos. Tudo bem, era um discurso bonito e até funcionou por um tempo, mas não resistiu às falhas humanas. No final, esse grupo de entusiastas do esporte que administrariam as competições em nome do amor acabou se desvirtuando, e interesses pessoais (dinheiro e vaidade se tornaram o caminho natural) viraram a prioridade.

O problema está na natureza das instituições esportivas. Ao criarem para si metas filosóficas como “pelo bem do esporte” (esse era o slogan da Fifa, mas caberia para qualquer federação), elas perdem qualquer nível de medição do trabalho que é feito. Uma troca de favores a uma federação é mascarada como “fomento ao esporte”, uma visita política é “promoção do esporte” e assim segue. O objetivo é se manter no poder, e se locupletar dele.

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A Fifa precisava se tratar de forma mais parecida como uma empresa. Corporações sabem ser corruptas quando querem, mas trabalham sob medidores muito mais concretos, como crescimento de mercado, imagem diante do público, atratividade para parceiros comerciais, interesse que seus produtos despertam e, claro, retorno para seus investidores. A fiscalização sobre o trabalho da direção é mais clara, assim como identificar o momento em que é necessário trocar o comando.

Um exemplo de como o foco da Fifa está distorcido foi na escolha da sede da Copa de 2022. Há fortes indícios para acreditar que a candidatura catariana “apostou pesado” na conversa com cada um dos membros do conselho executivo até conseguir os votos que precisava. Os eleitores que compraram a ideia tiveram algum tipo de retorno pessoal ou político, mas nenhum deles beneficia a Copa do Mundo como evento ou o futebol como esporte. Dentro de uma lógica empresarial, que visasse a valorização do produto, era óbvio que outros candidatos (Japão, Estados Unidos e Austrália também estavam na disputa) trariam mais exposição de mídia, mais apelo para os patrocinadores, melhor organização e mais atratividade para os turistas/torcedores.

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Isso não significa que a Fifa deva se transformar em uma empresa, porque ela traria para si alguns problemas conceituais grandes. Por exemplo, teria investidores/donos, que poderiam impor decisões de acordo com seus próprios interesses (se Rupert Murdoch se torna um dos sócios desse negócio, ele poderia fazer que suas empresas de comunicação tivessem os direitos de transmissão da Copa a preços camaradas). Mas a entidade que rege o futebol mundial precisava se reorganizar de forma a colocar um sistema de governança mais claro e que fosse de medição mais concreta.

Há exemplos no esporte. As ligas são, oficialmente, entidades sem fins lucrativos. Mas elas não são ONGs ou federações. São instituições pertencentes às franquias ou clubes que dela fazem parte e foram criadas para regular e organizar a competição entre elas. Dessa forma, a Premier League, a Bundesliga, a NBA ou a NFL têm como missão estabelecer um ambiente de competição saudável para o esporte enquanto respondem também pelos resultados econômicos desses torneios.

As ligas têm falhas, claro. As do futebol europeu muitas vezes não têm força para se impor diante dos interesses dos grandes clubes. NBA, MLB, NFL e NHL têm nível de independência muito mais acentuado e a direção muitas vezes toma decisões contrárias aos desejos dos clubes (como incentivar as competições de seleções, o que prejudica as franquias), mas também estão sujeitas às imperfeições ou incompetência de seus dirigentes máximos. Ainda assim, são ambientes em que a corrupção ocorre em nível mais controlado até pelo modo como estão mais suscetíveis a pressões externas.

FUTEBOL AMERICANO: O que as cidades precisam fazer para receber o Super Bowl

Não seria fácil para a Fifa adotar esse padrão de funcionamento. Primeiro, teria de se livrar dos dirigentes que ganharam espaço em troca de favores políticos e trazer para dentro de si figuras com méritos profissionais. Depois, criar um novo estatuto, que regule o funcionamento dessa corporação e crie limites para que a busca por sucesso comercial não passe por cima de padrões mínimos necessários para manter o apelo do esporte (por exemplo, mecanismos para evitar que as Copas do Mundo sejam organizadas apenas por países muito ricos).

Mas o grande problema seria reestruturar a pirâmide que sustenta as organizações do futebol. Não adianta a Fifa passar por um banho de loja e ficar com cara moderninha de empresa do Vale do Silício se abaixo dela ainda estão confederações continentais e federações nacionais viciadas e clientelistas. Seria preciso profissionalizar também essas entidades (improvável) ou mudar a forma de exercer o poder sobre o mundo do futebol. Aproximar-se das ligas nacionais, controladas por clubes, seria uma forma de legitimar o poder e ainda estar em um ambiente mais profissional. Outra possibilidade seria prever de forma muito clara como seria a relação com as federações e diminuir a chance de surgir uma situação em que um lado queira barganhar recursos para dar algo em troca.

De qualquer modo, a oportunidade está diante de todos. A Fifa está sem comando, o que abre as portas para pessoas com novas ideias surgirem e mudarem definitivamente o modo como o esporte é gerido no mundo. Porque a Fifa das últimas décadas morreu. A entidade só terá a força e o poder que teve um dia se for refundada, seguindo novos parâmetros de governança, que saiba gerenciar a indústria do futebol como uma corporação, mas sem perder a noção de que seu principal produto é a paixão que desperta nos torcedores do mundo.

A COBERTURA DO FIFAGATE:

EDITORIAL:
– Já podemos comemorar: Blatter entregou a presidência da Fifa

PRISÕES

– Jack Warner usa notícia de site de humor para se defender em um vídeo maravilhoso (de ruim)
– [Vídeo] Os Simpsons já tinham previsto o Fifagate desde o ano passado
– Entenda por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa
– Romário: “Muitos dos corruptos e ladrões que fazem mal ao futebol foram presos”
– Veja quem são os cartolas presos na Suíça. José Maria Marin está entre eles

INVESTIGAÇÃO

– A trilha do escândalo da Fifa chega em Valcke e nunca esteve tão próxima de Blatter
– Justificativa da África do Sul para pagamentos só aumenta suspeita de suborno
– Bancos ingleses vão investigar contas da Fifa, e o cerco vai se fechando
– A pedido do FBI, Polícia Federal visita empresa argentina que controla Libertadores
– Hawilla tem time em Portugal e investigações do Fifagate podem chegar lá
– Lei paraguaia impede polícia de investigar documentos e dinheiro na sede da Conmebol
– Patrocinadores deveriam se espelhar em dois casos nos EUA e ser mais enérgicos com a Fifa
– O Fifagate explodiu e contamos como aconteceu e quem são os envolvidos
– Como o escândalo da Fifa pode abrir a caixa preta da Libertadores na TV
– Quem são os “co-conspiradores” na investigação do FBI sobre corrupção na Fifa
– Putin quer transformar escândalo da Fifa em uma guerra fria
– De dono do futebol brasileiro a delator: a ascensão e queda de J. Hawilla

CONSEQUÊNCIAS

– Até Copa do Mundo clandestina está na pauta da Uefa para se distanciar da Fifa
– Com organização envolvida no Fifagate, a realização da Copa América Centenário está em dúvida
– Barcelona, está na hora de conversarmos sobre sua amizade com o Catar

REELEIÇÃO E QUEDA DE BLATTER

– Hora de se divertir com fotos dos melhores momentos de Joseph Blatter na Fifa
– O que mudou nos últimos dias para o reeleito Blatter renunciar à presidência da Fifa?
– A nota da CBF sobre a renúncia de Joseph Blatter é uma grande piada
– Já podemos comemorar: Blatter entregou a presidência da Fifa
– Em 1997, Blatter negava que concorreria à presidência da Fifa: “23 anos são o bastante”
– Blatter sobreviveu à eleição na Fifa, mas difícil mesmo será terminar o mandato
– CBF traiu a Conmebol, votou em Blatter na eleição da Fifa e ajudou a rachar a América do Sul

Barcelona, está na hora de conversarmos sobre sua amizade com o Catar

Clube catalão tem obrigação de se posicionar sobre violação de direitos humanos e corrupção

Escravos que trabalham sem segurança e condições ideais, com jornadas desumanas. Muitos acabam morrendo. Parecem relatos de como foi a construção de uma arena do Império Romano ou de um grande templo babilônio. Mas são reportagens sobre as obras no Catar para receber a Copa do Mundo de 2022. Informações estarrecedoras sobre o desrespeito aos direitos humanos no país, motivo de sobra para críticas da opinião pública e até de patrocinadores do torneio, causando constrangimento à Fifa. Mas nada disso respinga em um dos maiores clubes do mundo, e já passou da hora de se cobrar isso.

LEIA MAIS: Entenda por que o relatório da Fifa que inocentou a candidatura do Catar-2022 é cara de pau

O Barcelona tem uma relação bastante íntima com o Catar. O clube recebe € 33,5 milhões anuais para exibir a marca da Qatar Airways, companhia aérea estatal do país, em sua camisa. O acordo foi assinado em 2013, e tomou lugar de outro, de valor parecido, que o clube tinha com a Qatar Foundation, fundação mantida pela família real catariana. Até então, o clube preferia perder dinheiro a aceitar patrocinador na camisa e, depois, só liberou o uniforme para divulgar a Unicef (ainda que o “patrocínio” nobre – o Barça pagava à entidade – fosse apenas uma maneira de acostumar a torcida aos patrocínios efetivos que viriam em seguida).

É uma proximidade estranha. Os blaugranas fazem questão de se posicionar como uma entidade que representa uma causa e que esse envolvimento com a comunidade é parte fundamental de sua existência. Faz todo o sentido, e o clube merece muitos elogios por como tem sido um símbolo da cultura catalã. O que torna difícil entender o envolvimento com um governo cheio de polêmicas.

A questão é polêmica dentro do Barcelona. Conselheiros e torcedores contestam essa ligação, sobretudo pelo potencial de manchar a imagem do clube. Em dezembro de 2014, a imprensa israelense noticiou que o Barcelona estaria disposto a não renovar com a Qatar Airways após o final do contrato, em 2016, por causa das suspeitas de financiamento a grupos terroristas e a notícias sobre o tratamento a operários da construção de estádios da Copa de 2022.

Poderia ser uma esperança de um posicionamento mais firme, mas a notícia não se confirmou com o tempo. Em fevereiro deste ano, o primeiro vice-presidente do clube, Javier Faus, reforçou a relação com o Catar e até cogitou prolongar o patrocínio: “Posso assegurar que há zero, zero, zero problemas com a Qatar Airways, zero com o Catar e que definitivamente esperamos que nossa relação de patrocínio continue muitos mais anos”. A declaração foi dada na mesma época em que surgiram relatos de que os catarianos estariam dispostos a dobrar o valor do patrocínio a partir de 2017 e até comprar os direitos de colocar seu nome no Camp Nou.

Desde então, o clube tem sido muito discreto ao lidar com as polêmicas do Catar, fingindo que não tem nada a ver com o assunto. Enquanto que ativistas pressionam os patrocinadores oficiais da Fifa a divulgarem comunicados constrangidos sobre a situação da Copa do Mundo, o Barcelona se cala. Os dirigentes, contrariando até a posição da torcida, ignoram a história do clube para se deslumbrar com as fortunas oferecidas pelos patrocinadores.
O pior é que se vendem por pouco. Se a Qatar Airways realmente dobrar o valor ao renovar o patrocínio, pagará cerca de € 67 milhões de euros, exatamente o que a Chevrolet dá ao Manchester United. Não é um montante fora da realidade do mercado e o Barcelona teria condições de achar uma empresa disposta a desembolsar essa quantia para exibir sua marca na barriga de Messi e Neymar.

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Para reforçar o incômodo dessa relação Barcelona-Catar, dois ícones recentes do clube também se aproximaram do país asiático. Pep Guardiola foi um dos embaixadores da candidatura catariana à Copa de 2022. O técnico até tem a desculpa de que viveu no país como jogador e acabou criando algum laço afetivo, mas o mesmo não se pode dizer de Xavi. O meia está acertado com o Al-Sadd por um contrato que, segundo a imprensa catalã, considera duas temporadas como jogador e seis como embaixador do Mundial.

O Barcelona não está sozinho na relação com o Catar. O Paris Saint-Germain, por exemplo, pertence a um catariano. Mas o clube catalão sempre se projetou como algo mais nobre do que apenas uma empresa que tem como atividade o futebol. E até por isso ele tem se tornado tão atraente para quem quer usar essa imagem. Se os blaugranas querem preservá-la, precisam se posicionar de forma mais enérgica. E o primeiro passo seria aproveitar a ação do FBI em cima da Fifa e as informações sobre irregularidades na eleição para sede da Copa de 2022 para divulgar um comunicado duro contra o Catar, já abrindo caminho para um eventual rompimento ou não-renovação do contrato de patrocínio.

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Veja quem são os cartolas presos na Suíça. José Maria Marin está entre eles

Dirigentes detidos a mando da Justiça americana são ligados a Concacaf e Conmebol

A quarta amanheceu quente em Zurique. Logo nas primeiras horas do dia, a polícia suíça entrou no congresso da Fifa para prender diversos dirigentes – entre os quais José Maria Marin, ex-presidente da CBF, e Nicolás Leoz, ex-presidente da Conmebol – a pedido da Justiça dos Estados Unidos. As acusações são diversos esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro da entidade nos últimos 20 anos, o que inclui o processo de escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022.

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Os cartolas detidos são ligados à Conmebol e à Concacaf. Joseph Blatter não foi indiciado, mas a previsão é de que as prisões tenham um impacto grande nas eleições presidenciais da entidade, programadas para esta sexta. O suíço é favorito a sua quarta reeleição diante da concorrência de Ali bin Al-Hussein, príncipe da Jordânia.

As autoridades não haviam divulgado a lista de dirigentes detidos, mas o jornal New York Times divulgou uma relação com base em informações que seus repórteres teriam apurado dentro das autoridades suíças.

José Maria Marin – brasileiro, ex-governador de São Paulo 1982-83), ex-presidente da CBF (2012-15) e ex-presidente do Comitê Organizador da Copa 2014;

Nicolás Leoz – paraguaio, ex-presidente da federação paraguaia (1971-73 e 1979-85), ex-presidente da Conmebol (1986-2013) e membro do Comitê Executivo da Fifa de 1998 a 2013;

Eugenio Figueredo – uruguaio, ex-presidente da federação uruguaia (1997-2006) e ex-presidente da Conmebol (2013-14);

Jack Warner – trinitário, ex-presidente da Concacaf (1990-2011)

Jeffrey Webb – caimanês, presidente da federação das Ilhas Cayman (desde 1991) e presidente da Concacaf (desde 2012)

Eduardo Li – costarriquenho, presidente da federação costarriquenha (desde 2007) e representante da Concacaf na Fifa

Julio Rocha – nicaraguense, ex-presidente da federação nicaraguense (1988-2012)

Costas Takkas – caimanês, secretário-geral da federação caimanesa

Rafael Esquivel – espanhol, presidente da federação venezuelana (desde 1988)

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Fifa, já pode colocar esse gol do Gauchão na lista do Prêmio Puskas de 2015

Jô… No espetacular Internacional 4×4 São José… Que golaço!

Nós somos compreensivos, Fifa. São tantos golaços que acontecem pelo mundo todo ano que é normal algum ser esquecido ou ficar de lado diante de tantas pinturas. Nós mesmos, da Trivela, sofremos com isso na elaboração dos candidatos ao Prêmio Trivela de 2014. Então, uma dica: já pega esse gol de Jô, no espetacular 4 a 4 de Internacional x São José de Porto Alegre pela segunda rodada do Gauchão e coloca na agenda, preferencialmente no dia em que vocês estiverem fechando os candidatos ao Prêmio Puskas de 2015.

Não precisa agradecer pela dica. Fazemos de coração.

LEIA MAIS: É chegada a hora: conheça os vencedores do Prêmio Trivela 2014!

Cinco ideias malucas para tornar o futebol de seleções mais legal

Por que tem hora que é preciso reformular, reformular, mudar, ou mudar de vez

Torcedor se preocupando mais com os jogadores que seu clube perdeu do que em incentivar sua seleção, audiências baixas para partidas que ninguém sabe o que valem e equipes desfiguradas em campo por excesso de substituições sem sentido. Os jogos de seleções perderam muito de seu apelo, e as data Fifa viraram mais um incômodo no calendário do que um momento para se empolgar com outro modelo de competição.

TEMA DA SEMANA: O futebol de seleções está murchando, mas nós temos umas sugestões para dar

Durante esta semana, nós apontamos os diversos problemas que o futebol de seleções têm enfrentado. Agora é o momento de propor soluções. Elas são bastante radicais, até malucas. Mas entendemos que é realmente preciso mudar bastante o modelo atual, e só com criatividade e ousadia é possível restabelecer uma relação saudável entre seleções, clubes e torcida.

Saem datas Fifa, entram duas janelas anuais

Esqueça as datas Fifa. São blocos de duas semanas espalhados pelo ano que tomam muito tempo. São três potenciais datas de jogos (dois meios de semana e um fim de semana), mas só duas são usadas (normalmente sexta e terça). Ou seja, a cada data Fifa, uma potencial data de jogo é desperdiçada para que as seleções possam se encontrar e dar uma treinada.

A cada ano, são cinco datas Fifa, que permitem dez jogos em dez semanas. Isso sem contar o período em que as seleções estão reunidas para seus torneios continentais (Eurocopa, Copa Africana, Copa América…). É muito desperdício de datas.

LEIA MAIS: Excesso de datas, desnível técnico e os jogos de seleções ficam menos atraentes

A ideia

Concentrar todos os jogos de seleções em dois momentos do calendário: janeiro (pode ser algo como de 10 de janeiro a 10 de fevereiro) e junho. Nesses períodos do ano, as competições de clubes seriam interrompidas para que as seleções ficassem várias semanas juntas. Pegando quatro semanas em janeiro e quatro em maio/junho, é possível agrupar várias rodadas de eliminatórias e diminuir o desperdício de datas. Por exemplo, a cada quatro semanas seria possível dar uma semana para as equipes se encontrarem, treinarem e ainda realizar seis ou sete jogos a cada janela. Em duas janelas (um ano) seria possível realizar todas as Eliminatórias europeias, por exemplo.

O sistema também ajuda para competições que não se encaixam no calendário europeu. A Copa Africana e o Sul-Americano Sub-20, por exemplo, seriam disputados dentro da janela de janeiro, o que não prejudicaria os clubes da Europa (pois estariam parados e para que as seleções de seus países joguem as eliminatórias). Os Mundiais sub-17 e sub-20 poderiam entrar na janela de junho nos anos ímpares.

A vantagem para as seleções é que elas ficariam um mês inteiro juntas, tendo mais possibilidade de se entrosar e desenvolver seu estilo. Além disso, elas dominariam o noticiário esportivo durante dois meses do ano, aumentando a exposição a seus patrocinadores, monopolizando a atenção do torcedor e ganhando importância como evento para a TV.

Para os clubes também seria vantajoso. Alguns países, como Inglaterra, França e Alemanha já têm menos jogos de liga em janeiro. Um dos motivos é o frio, mas jogos de seleções são mais fáceis de contornar. Afinal, a federação pode marcar as partidas do começo do ano em cidades menos frias (como Sochi no caso da Rússia, Marselha na França) ou com estádios climatizados (Gelsenkirchen no caso da Alemanha). Um clube de região fria não tem como fazer isso em seu campeonato nacional. A janela de maio/junho não teria alteração com o calendário atual, pois já é um período do ano reservado a torneios de seleções.

Haveria vantagem também no caso de contusão. Se um jogador se lesionar na primeira semana da janela de seleções, ele teria três semanas para se recuperar antes de seu clube voltar a campo. E, no caso da janela de janeiro, os jogadores que não fossem convocados ficariam em seus clubes em uma intertemporada, se recondicionando fisicamente para a reta final dos torneios.

Além disso, todo o resto do ano seria de competições contínuas de clubes. Assim, as equipes não precisam parar duas semanas periodicamente, quebrando alguma linha de trabalho ou interrompendo uma boa fase.

Mudar a regra para troca de nacionalidade de jogadores
Diego Costa em amistoso da seleção brasileira
Diego Costa em amistoso da seleção brasileira

A Fifa flexibilizou as regras de mudança de nacionalidade, permitindo que um jogador troque de país se nunca tiver feito um jogo oficial por sua primeira seleção. A regulamentação permitiu que Diego Costa se tornasse espanhol depois de defender o Brasil em dois amistosos.

A medida é compreensível, pois não prende um jogador a um país só porque ele fez um ou dois jogos insignificantes por outro quando tinha 20 anos. O problema é que alguns países começaram a “reservar” garotos com dupla nacionalidade para garantir eternamente a nacionalidade dele. Assim, convocam garotos promissores de origem africana, mesmo que ele não tenha mostrado serviço suficiente para estar na seleção principal (Munir é o exemplo mais claro). O objetivo é apenas colocá-lo em um jogo de Eliminatórias (ou seja, partida oficial) contra uma Andorra ou Malta e assegurar que ele nunca mais poderá defender outra nação.

O problema disso é que o garoto tem 19 anos e não vai rejeitar a convocação. Mas a seleção pode não se interessar por ele no futuro, e o jogador fica privado de defender um país por se empolgar em uma convocação que teve o único objetivo de fazer reserva de mercado.

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Ideia

Criar um outro “corte” para a mudança de nacionalidade. Ao invés de delimitar por “fez jogos oficiais ou não”, permitir que um jogador mude de seleção aos 23 anos, desde que ele não tenha feito ao menos cinco partidas oficiais por seu primeiro país e que ele tenha nacionalidade do segundo.

Atenção ao detalhe: ele teria de anunciar essa decisão aos 23 anos. Não adianta ficar em silêncio sobre o tema, especulando sobre suas chances com a primeira seleção e pedir uma mudança aos 26, quando viu que não terá futuro.

Limitar quantidade de amistosos em campo neutro

Os clubes europeus reclamavam das longas viagens que seus jogadores sul-americanos e africanos (asiáticos em menor escala) tinham de fazer para defender suas seleções. Para contornar essa questão, a Fifa estabeleceu que jogadores que atuam fora de seus países só serviriam suas seleções em amistosos realizados no continente de seus clubes.

Com isso, criou-se uma epidemia de amistosos de seleções em campo neutro, com Inglaterra, Suécia e Suíça recebendo inúmeras partidas de equipe de outras nações. O Brasil é um dos exemplos mais claros. O problema é que já não há mais restrição de distância para amistosos (por exemplo, o Uruguai jogou em Montevidéu e Santiago e o Japão enfrentou Honduras e Austrália em casa na última data Fifa e ambos puderam usar seus europeus), mas ainda é comum amistosos em campo neutro.

Willian marcou o gol da Seleção Brasileira contra o Equador (AP Photo/Julio Cortez)
Brasil enfrentou o Equador em Nova Jersey em setembro (AP Photo/Julio Cortez)

Ideia

Um dos papéis dos jogos de seleções é dar um sentido de pertencimento a todos os países do mundo, fazer com que cada torcedor tenha uma equipe para chamar de sua (lembre-se que as ligas nacionais são pouco desenvolvidas em muitos lugares) ou que ele mantenha uma relação com os compatriotas que viraram estrelas internacionais. Como manter uma relação saudável de uma torcida com sua seleção se eles só se encontram nas Eliminatórias?

Com as regra das “janelas de seleções” (proposta 1 dessa matéria), a quantidade de amistosos seria reduzida. Mas a Fifa deveria determinar que no máximo 25% das partidas não oficiais de uma seleção fossem disputadas em campo neutro.

Despolitizar a organização

As competições de seleções são organizadas pelas confederações continentais ou pelas federações nacionais. Isso cria uma lista enorme de problemas, como politicagem na organização dos torneios e falta de padrão de qualidade nos diversos níveis de competição, como falta de segurança ou de condições mínimas de jogo em determinados lugares.

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Ideia

A Fifa pode seguir “dona” da Copa do Mundo, a Uefa da Eurocopa e a Conmebol da Copa América, mas o sucesso econômico e de público de cada competição depende muito de escolhas que precisam ser técnicas. Por exemplo: definir as sedes mais viáveis, exigir investimentos mínimos de promotores locais e garantir isonomia (sobretudo nas Eliminatórias).

Assim, as entidades poderiam definir diretrizes básicas para cada competição, mas deixá-la nas mãos de empresas especializadas em organização de grandes eventos. Assim, elas poderiam tomar medidas mais agressivas para aumentar a popularidade e o retorno financeiro dos torneios sem ter de lidar com certas barganhas políticas que atravancam o processo.

Claro que um nível de corrupção e politicagem sempre existiria, mas dificilmente seria pior do que o praticado pela Fifa e pelas confederações continentais.

Ter uma solução clara para os Jogos Olímpicos

A Fifa não morre de amores pelos Jogos Olímpicos e não faz questão que o futebol olímpico seja empolgante. No entanto, ele é muito importante para muitos países (sobretudo os ibero-americanos), que têm de confrontar suas pretensões de medalhas com a margem de manobra para liberar seus melhores jogadores. Afinal, a Fifa não é clara sobre até que ponto os clubes devem ceder atletas (teoricamente, é apenas dos sub-23, sem obrigatoriedade para os três acima dessa idade).

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Ideia

Para o torcedor (e para o COI), a melhor solução seria simplesmente considerar os Jogos Olímpicos como um torneio oficial e botar os melhores jogadores em campo. mas isso não vai acontecer, até porque clubes e Fifa não querem. Então, o ideal seria ter uma definição.

Um caminho viável seria manter a formulação atual, com equipes sub-23 reforçadas por até três jogadores acima desse limite. Os clubes seriam obrigados a ceder todos os jogadores sub-23, mas as seleções só poderiam chamar “veteranos” que atuassem em seu país.

O futebol de seleções está murchando, mas nós temos umas sugestões para dar

Diversos problemas fazem o torcedor se irritar mais do que se empolgar com a seleção de seu país, mas não precisa ser assim

A Copa do Mundo foi sensacional, e é difícil encontrar um torcedor brasileiro que não esteja com saudade dela (mesmo com o 7 a 1 da Alemanha). Mas, no dia a dia, na vida comum do amante de futebol, os jogos de seleções nacionais motivam mais bocejos e irritação do que empolgação e ansiedade. E, de certa forma, isso acontece em todo o mundo. Seria o começo do fim das competições entre equipes que representam países?

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Trivela ainda acha que esses torneios têm muita importância, e ocupam um espaço necessário dentro da “biodiversidade” de campeonatos do calendário. Mas é inegável que, no momento, há um grande choque entre o futebol de seleções e os de clubes, e isso acaba apenas depreciando o primeiro. É só ver como o torcedor está inquieto nessa semana de data Fifa, sem se preocupar com as eliminatórias da Eurocopa ou os amistosos que pipocam pelo mundo.

Para mostrar o tamanho desse problema, vamos tratar o futebol de seleções como o tema da semana. Serão quatro matérias mostrando os obstáculos do momento, e uma com nossas propostas para mudar os rumos dessa conversa.

Segunda: Calendário

Cada vez está mais difícil acomodar os jogos de seleções dentro de competições de clubes cada vez mais rentáveis e longas.

Terça: Remuneração aos clubes

Com um futebol cada vez mais intenso em campo, o risco de lesão fica sempre maior. E perder uma estrela pode custar uma eliminação – e milhões de euros – a um clubes. E conciliar as duas coisas não é fácil.

Quarta: Nacionalidade dos jogadores

O conceito de nacionalidade nunca foi tão volátil. É difícil criar uma regra que dê margem a indivíduos defenderem países diferentes se for algo justificável.

Quinta: Apelo com o público

A falta de relevância de muitos jogos, e a queda de apelo dos amistosos em geral, fez o torcedor se alienar dos jogos do dia a dia.

Sexta: Cinco sugestões da Trivela

Temos algumas ideias, muitas delas ousadas (leia-se malucas e talvez bobas) para melhorar um pouco a situação.

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A Copa que lavou a alma das Copas do Mundo

Nos campos e nas arquibancadas, o Mundial de 2014 deu uma nova cara ao torneio. Ainda bem

A Copa do Mundo de 2014 não acabou. Exatamente, ela não acabou. Você viu o Brasil dar vexame nas semifinais, a Alemanha vencer a Argentina na final, Lahm levantar o troféu, as placas na beira do Maracanã mostrarem um “nos vemos na Rússia”. Viu tudo o que pode caracterizar o encerramento do torneio. Mas o Mundial não acabou. E ainda demorará muito para acabar.

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Muita gente já está olhando para o que ocorreu no último mês e concluindo que estivemos diante de uma das melhores Copas de todos os tempos, talvez a melhor. O Brasil teve resultados surpreendentes na organização, ainda que jamais devamos esquecer os diversos erros cometidos. A população brasileira também ajudou, criando clima de hospitalidade e festa dificilmente igualáveis. Mas o que realmente marcou neste Mundial foi o que ocorreu dentro dos estádios.

A Copa do Mundo estava com dificuldade para se justificar tecnicamente falando. As três últimas edições, justamente as que coincidiram com a internacionalização completa do futebol, foram fracas. Em 2002, o excesso de zebras matou a possibilidade de jogos épicos entre grandes potências. Em 2006 e 2010, o defensivismo foi a tônica, e alguns jogos de alto nível técnico se misturavam com os ruins pelo denominador comum: a falta de gols.

Não foi raro, nesses momentos, pessoas defenderem o fim do futebol de seleções, dizerem que a Copa do Mundo estava morrendo com a globalização dos clubes, que o torcedor não tinha mais a mesma conexão com aquilo tudo, que era um modelo em decadência. Nem alguns bons sinais em Eurocopas, como a edição de 2008, serviam de consolo.

O Mundial de 2014 acabou com isso. Dentro de campo, as seleções apresentaram estilos ofensivos. A média de gols beirou os 3 ao final da primeira fase. O índice caiu no mata-mata, mas não por renúncia das equipes em buscar o placar a seu modo. Se Copas do Mundo mostram tendências – na verdade, o mais justo é dizer que elas reforçam as tendências já existentes nos clubes – para o futebol, a sensação é que o momento é dos ataques. Novas formações ofensivas, novas estratégias para propor o jogo ou para explorar os buracos do adversário. Já tem sido assim na Champions League. No final, a Copa terminou igualando o recorde de gols em números absolutos (171, empatado com 1998).

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A grande novidade, porém, veio das arquibancadas. Os Mundiais viraram uma ode à assepsia da Fifa. Tudo bonitinho, tudo organizadinho, tudo asséptico. Esse padrão foi repetido no Brasil, mas nem a entidade conseguiu impedir o furacão latino-americano. E isso deu um molho extra ao torneio.

Para mexicanos, costarriquenhos e sul-americanos, um Mundial no Brasil é uma oportunidade raríssima de ver o torneio in loco. E foram diversas marés. As amarelas de Equador e Colômbia, a verde do México, as azuis de Argentina e Uruguai, as vermelhas de Costa Rica e Chile. Os brasileiros, ainda que com comportamento errático em alguns momentos, entraram na brincadeira. Não se abstiveram de secar os grandes, tirar sarro, saudar os grandes craques. E, nos confrontos entre sul-americanos, pudemos ver grandes duelos de torcedores.

O som de fundo da Copa foi diferente. As arquibancadas jogavam. Os hinos viraram armas como a haka do rúgbi neozelandês. A torcida procurava desestabilizar. Tirar sarro era obrigação moral. E, enquanto o jogo rolava, as cidades paravam. O planeta viu a paixão brasileira pelo futebol, viu a paixão latino-americana pelo futebol. O mundo do futebol precisava disso.

Em 2014, o futebol retomou contato com o segundo continente mais vitorioso do esporte, com o continente que revelou algumas das melhores equipes da história. Retornou a uma de suas paradas preferidas, e se sentiu novamente em casa. A Copa do Mundo precisava disso. Ela ganhou um novo fôlego, um novo ar. E isso não será esquecido. Por isso, o Mundial do Brasil não acabou. Porque o que aconteceu no último mês servirá de referência para o que pode ser o futebol de seleções.

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