Estádio da final da Champions tem pontos cegos na arquibancada, e não são poucos

Colunas da estrutura no meio dos assentos não impediu o Olímpico de Berlim de ser escolhido para receber final de Copa do Mundo e de Champions League

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A Uefa realiza uma dura concorrência para definir a sede de uma final de Champions League. Os candidatos precisam apresentar bons argumentos do ponto de vista comercial, técnico e logístico, e isso começa por um estádio impecável. Uma arena moderna, grande, confortável, que já recebeu eventos importantes e sem pontos cegos na arquibancada, certo? Bem, o Olímpico de Berlim, local da final da Liga dos Campeões 2014/15 neste sábado (15h45 horário de Brasília), mostra que não é tanto assim.

GUIA DA FINAL: A 90 minutos da glória tripla

A casa do Hertha Berlim foi construída na década de 1930 para receber os Jogos Olímpicos de 1936. A arquitetura tem elementos comuns na época (sobretudo na Alemanha nazista), com estilo monumental e tentativa de se aproximar das obras gregas e romanas. Por décadas, essa ligação com o pior momento da história alemã fez do estádio Olímpico um lugar polêmico, que causava rejeição por parte da população. Mas a decisão de preservá-lo até como modo de não apagar a história prevaleceu.

Com a escolha da Alemanha como sede da Copa de 2006, Berlim foi definida como local da final. Assim, o estádio Olímpico passou por profunda modernização. A opção foi de manter a arquitetura original intocada, o que levantou um desafio ao projeto: como instalar uma cobertura sem afetar a fachada?

Uma cobertura pesada exigiria uma estrutura robusta, que fatalmente afetaria o visual externo da arena. A opção por materiais leves foi óbvia, mas não podia haver apoios altos que a deixassem suspensa. A solução foi dura para os torcedores, com a colocação de 20 pilares de aço no meio do anel superior da arquibancada. Quem senta atrás dessas colunas tem a visão claramente obstruída, o que não impediu que o estádio recebesse eventos como a final da Champions League.

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Por que Juve e Barça estão com mosaicos em inglês nas semi da Champions? Temos um palpite

Pode ser apenas uma incrível coincidência, mas tem pinta de que é uma campanha da Nike

Um estádio italiano e um estádio espanhol, duas mensagens em inglês. Juventus e Barcelona anunciaram os mosaicos que suas torcidas apresentarão na entrada dos times antes das semifinais da Champions League desta semana, contra Real Madrid e Bayern de Munique. Nos dois casos, a frase é em um idioma estrangeiro, e a mesma para ambos: “We are ready” (“Estamos prontos” ou “Estamos preparados” em inglês).

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Muitas pessoas estranharam a escolha. Poderia ser algo em italiano para a Juve (“Siamo pronti”) e em catalão para o Barça (“Estem preparats”). Nem são frases tão longas assim, e caberiam perfeitamente nas arquibancadas do Juventus Stadium (o nome do estádio juventino é em inglês mesmo) e do Camp Nou. Então, por que o inglês?

Bem, temos um palpite, que explicaria por que o idioma e a frase são os mesmos. Juventus e Barcelona são patrocinados pela Nike. A empresa norte-americana está com a campanha “Risk Everything” (“Arrisque tudo” para o público brasileiro), que vende a ideia de que um time ou um atleta precisa se entregar totalmente em campo para ter sucesso. E algumas das peças ligadas a esse slogan usam o conceito de “estar pronto para arriscar tudo”, casos desse vídeo de Cristiano Ronaldo, outro semifinalista desta Champions League, e desse de Tim Howard.

Anúncio do Barcelona do mosaico que será apresentado antes da partida contra o Bayern de Munique (Divulgação)
Anúncio do Barcelona do mosaico que será apresentado antes da partida contra o Bayern de Munique (Divulgação)

É bastante possível imaginar que o “We are ready” de Juve e Barça estejam ligados a isso. Seria uma explicação mais lógica do que pensar que ambos escolheram mensagens em inglês para que os adversários e os torcedores em casa pudessem entendê-las e, por uma incrível coincidência, os dois clubes bolaram a mesma frase (o Barcelona até teria motivo mais claro para usar o “estamos prontos”, lema usado em manifestações pró-independência da Catalunha. A Juventus, não).

De qualquer modo, não é motivo para ninguém se matar em casa. Um torcedor mais purista pode sonhar com mosaicos autênticos, feitos pela torcida, mas há tempos que esse tipo de ação é organizada pelos clubes, sobretudo na Europa.

Agradecimento ao amigo Thiago Arantes pela tradução em catalão.

Poucos perceberam na hora, mas o maior Juve x Monaco da história foi prévia da Copa de 1998

De um lado o craque do Mundial e o capitão que levantou a taça, do outro, o goleiro herói e a promissora dupla de ataque

A história pode estar passando diante de nossos olhos e não percebermos. Isso acontece a todo momento e muitas vezes é um dilema do jornalista dentro de seu papel de registrar os fatos e como eles serão lembrados. Juventus x Monaco se enfrentam nesta terça pelas quartas de final da Champions League, um jogo que nem de perto se compara ao confronto entre os dois clubes em 1º de abril de 1998. O duelo valia uma vaga para a final do torneio, mas o tamanho daquela partida só se viu alguns meses depois.

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A Juventus era uma das potências europeias da década de 1990. Havia conquistado a Champions League em 1996 e foi vice-campeã em 1997. Na temporada 1997/98, fazia uma campanha apenas cumpridora quando enfrentou o Dynamo de Kiev na quartas de final. A equipe ucraniana estava voando. Com Shevchenko e Rebrov no ataque, havia feito 3 a 0 (em Kiev) e 4 a 0 (no Camp Nou) no Barcelona na fase de grupos. O jogo de ida, em Turim, terminou em 1 a 1. Tudo pronto para o Dynamo chegar à semifinal. Mas os italianos impuseram sua experiência e venceram por incontestáveis 4 a 1.

O Monaco fazia uma campanha até mais convincente. Foi primeiro em um grupo com Bayer Leverkusen, Sporting e Lierse (BEL). Nas quartas de final, passou pelo Manchester United de Beckham, Schmeichel, Giggs e Scholes após dois empates.

O encontro nas semifinais tinha enorme favoritismo juventino. Era o time do momento, vinha em crescimento e a Itália era a grande liga do mundo na época. Os monegascos contavam com um elenco muito jovem, cheio de promessas sobre as quais não se sabia direito o que esperar. Comandada por Del Piero, a Juventus fez 4 a 1 e preparou o terreno para chegar a sua terceira decisão continental seguida. Uma derrota por 3 a 2 no principado não atrapalhou os planos piemonteses.

A importância do jogo era óbvia pelo fato de ser uma semifinal de Champions League (a outra tinha Real Madrid e Borussia Dortmund). Mas vendo as escalações que percebemos que, em campo, estava uma parte da história da Copa de 1998, que seria disputada apenas dois meses depois. O Monaco tinha Barthez e a jovem dupla de ataque Henry-Trezeguet. A Juventus também tinha sua cota de talento gaulês, com Deschamps e Zidane.

HISTÓRIA: O Monaco de Arsène Wenger

Dos 22 titulares dessa semifinal, dez voltariam ao mesmo gramado em três meses e dois dias depois. O cenário era o Stade de France. O quinteto francês encontraria os juventinos Del Piero, Inzaghi, Di Livio, Pessotto e Torricelli, todos defendendo a seleção italiana, pelas quartas de final. Os anfitriões se deram melhor, com vingança monegasca sobre Del Piero: vitória da França nos pênaltis, com uma defesa de Barthez e cobranças convertidas por Henry e Trezeguet.

Dias depois, a França conquistou o mundo, com o juventino Deschamps erguendo a taça como capitão e o também juventino Zidane se consagrando o melhor jogador do planeta. Barthez, Henry e Trezeguet se consolidariam como titulares da seleção francesa que dominaria o mundo entre 1998 e 2001.

Não à toa, a Juventus foi se reforçar justamente naquele Monaco que havia enfrentado. Em 1999, os italianos contrataram Henry. Não deu muito certo, mas os piemonteses não desistiram e, um ano depois, levaram Trezeguet. O ótimo grupo monegasco semifinalista da Champions League estava desfeito e a Juventus construía o time que voltaria à final da Europa em 2003. Um fato que só reforça quanto aquele duelo de 1º de abril de 1998 teve uma importância histórica muito maior do que ter sido “apenas” a semifinal do maior torneio de clubes do planeta.

Se quiser ver a ficha completa da partida, clique aqui.

Aqui está nosso roteiro para você acompanhar a Champions League 2014/15

Grupo a grupo, o que há de mais importante para você ficar ligado na Liga dos Campeões

“A melhor Champions League dos últimos tempos.” Provavelmente, todo torneio que está para começar é vendido como um dos melhores dos últimos tempos. Mas temos, dessa vez, elementos para acreditar que a Liga dos Campeões pode realmente ser melhor que as últimas temporadas. E isso deixa a gente animado (e você também, supomos). Por que tamanho otimismo? Vejamos:

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TV: O jogo mais disputado da Champions é em outubro: quem transmitirá o torneio em 2015?

– Os supertimes recentes perderam um pouco de sua aura. O Real Madrid se mexeu e já perdeu duas vezes para o Atlético de Madrid nesta temporada. O Barcelona está em reformulação depois de uma temporada decepcionante. O Bayern de Munique teve a confiança abalada depois do modo como foi eliminado pelo Real na temporada passada;

– A Inglaterra parece ter voltado ao topo depois de dois anos um degrau abaixo. O Chelsea e o Manchester City pintam como candidatos a título, e Liverpool e Arsenal dão bons sinais;

– O Atlético de Madrid talvez não seja apenas um acidente de um ano bom. O time já ganhou duas vezes do Real Madrid em reedições da última final europeia;

– O Paris Saint-Germain teve dois anos de duras derrotas na Champions para amadurecer, e talvez tenha aprendido o que falta para chegar entre os quatro primeiros.

Poderia ser melhor se a Itália não vivesse um momento tão ruim (ou, no mínimo, se Antonio Conte tivesse seguido na Juventus). Mas já temos uma lista de candidatos a título e de equipes que correm por fora maior do que nos últimos anos. O que só engrandece o torneio, o que só aumenta a expectativa dos torcedores.

Para você navegar um pouco nessas águas agitadas, preparamos um roteiro especial. Grupo a grupo, o que deve ser observado de perto e onde estão as armadilhas para os favoritos. Aproveitem. Ah, e não ache que ficaremos só nisso. Ao longo desta semana, faremos mais matérias especiais sobre a Champions League, que entrarão no ar daqui até quarta-feira.

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GRUPO A

Atlético de Madrid
Atlético de Madrid 

Juventus
Juventus

Olympiacos
Olympiacos

Malmö
Malmö
GRUPO B

Real Madrid
Real Madrid

Liverpool
Liverpool

Basel
Basel

Ludogorets
Ludogorets
GRUPO C

Benfica
Benfica

Bayer Leverkusen
Bayer Leverkusen

Zenit
Zenit

Monaco
Monaco

 

GRUPO D

Arsenal
Arsenal

Borussia Dortmund

Galatasaray

Anderlecht

 

GRUPO E

Bayern de Munique
Bayern de Munique

Manchester City
Manchester City

Roma
Roma

CSKA Moscou
CSKA Moscou
GRUPO F

Barcelona
Barcelona

Paris Saint-Germain
Paris Saint-Germain

Ajax
Ajax

Apoel
Apoel
GRUPO G

Chelsea
Chelsea

Schalke 04
Schalke 04

Sporting
Sporting

Maribor
Maribor
GRUPO H

Porto
Porto

Athletic Bilbao
Athletic Bilbao

Shakhtar Donetsk
Shakhtar Donetsk

Bate Borisov
Bate Borisov

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Materazzi é Materazzi, até na hora de cumprir desafio do balde de gelo

Ex-zagueiro e fanfarrão de plantão desafiou Zidane, e ainda trocou o balde pela taça da Champions

Atleta publicando vídeo do desafio do balde de gelo já virou luguar comum. Dezenas já fizeram, mas Marco Materazzi conseguiu ser tão Marco Materazzi quando chegou a sua vez que não resistimos e falamos do assunto. O ex-zagueiro italiano aparece usando a camisa de Zidane, depois mostra a sua, desafia o craque francês e termina virando uma réplica da taça da Liga dos Campeões cheia de água gelada.

É muita fanfarronice em menos de 30 segundos.

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A Juve pretendia cozinhar o final do jogo contra o Verona, e a torcida quase ajudou

Nos acréscimos, pouco antes do empate veronês, torcedores atiraram uma panela (!!!) no campo

O jogo parecia fácil, mas ficou surpreendentemente apertado no final. A Juventus fez 2 a 0 no Verona no primeiro tempo e controlava a partida. Até que Toni fez o gol para os veroneses logo após a volta do intervalo e a partida esquentou. O time da casa passou a pressionar, e os bianconeri se defendiam como dava.

Nos acréscimos, em mais um dos tantos chuveirinhos do Verona na área juventina, a bola bate no braço de Lichtsteiner. O juiz manda o jogo seguir. A torcida fica furiosa e atira um objeto no gramado. Chinelo? TênisPedra? Lata de cerveja? Garrafa? Nada disso. Atiraram uma panela. Tudo bem que a Itália é um país de grande cultura gastronômica e que muita coisa por lá é resolvida em uma mesa cheia de massa, mas o que um torcedor foi fazer com uma panela no estádio?

Bem, a Juventus tentava cozinhar o jogo, mas não deu certo. Minutos depois da panela voadora, Rômulo cruzou na área e Gómez Taleb empatou a partida.

[Especial Itália 80/90] Os maiores esquadrões do período de ouro do Campeonato Italiano

Milan de Sacchi e Capello, Juventus de Platini e Zidane, Napoli de Maradona… Foram tantos grandes times que ficou difícil parar em dez

Foi uma semana cheia de histórias, da crise que gerou o crescimento que gerou a explosão que gerou a nova crise no futebol italiano. Agora é hora de falar dos times que fizeram aquelas duas décadas em que a Serie A se tornou a maior liga nacional da história do futebol.

Vamos ao nosso ranking, em ordem decrescente, dos dez principais times daquele período. Confira e cornete:

Obs.: a lista considera resultados entre a temporada 1980/81 e 1999/2000. As equipes não se referem a uma temporada apenas, mas a um período. Dentro desse espaço, as equipes mudaram de elenco. Por isso, o item “time-base” prioriza os jogadores que foram titulares por mais temporadas dentro desse momento. Entre parênteses, outros jogadores que atuaram por um período menor. Não são necessariamente reservas.

10) Verona 1982-87

Time-base: Garella; Ferroni, Luciano Marangon (De Agostini), Tricella e Fontolan; Briegel, Volpati, Fanna e Di Gennaro; Elkjaer e Galderisi
Técnico: Osvaldo Bagnoli
Conquistas: 1 Campeonato Italiano
Grande jogo: Verona 2×0 Juventus, Campeonato Italiano 1984/85

Em um universo com tantos craques, o Hellas Verona apareceu no começo da década de 1980 com uma proposta bem diferente. Não tinha um futebol que encantava, mas era muito competitivo. Vindo da segunda divisão, o time perdeu o título simbólico do primeiro turno por um ponto para a Roma em 1982/83. Acabou com a quarta posição e o vice da Copa da Itália. Na temporada seguinte, novo vice da Copa da Itália (estava com o título na mão a 9 minutos do fim, quando tomou um gol de Paolo Rossi na decisão contra a Juventus, forçando a prorrogação. Aí, Platini levou o troféu para Turim com um gol aos 14 minutos do segundo tempo).

Em 1984/85, ano em que todos os times da Serie A se armaram de grandes jogadores, o Verona conquistou o título só com duas derrotas. Ainda venceu a Juventus por 2 a 0 com um gol descalço de Elkjaer. O impacto daquela equipe foi tão grande que Elkjaer foi terceiro em 1984 e segundo em 1985 na eleição da Bola de Ouro. Briegel, na temporada do “milagre”, foi o primeiro jogador a atuar no exterior a ganhar o prêmio de melhor da Alemanha da revista Kicker.

O time foi se desfazendo aos poucos. Na Copa dos Campeões, eliminou o Estrela Vermelha, mas caiu para a Juventus em um jogo de arbitragem bastante contestada até hoje em Verona. O time foi quarto na Serie A em 1986/87, mas foi perdendo fôlego à medida que os investimentos subiam em toda a liga. Na virada da década de 1980 para 90, o time foi rebaixado e chegou a falir. De qualquer modo, ficou como grande marca de como até uma equipe pequena e sem um grande mecenas conseguia ser competitiva naquele período do Campeonato Italiano.

9) Internazionale 1988-91
Internazionale campeã da Copa da Uefa de 1990/91
Internazionale campeã da Copa da Uefa de 1990/91

Time-base: Zenga; Bergomi, Ferri, Mandorlini e Brehme; Berti, Matthäus, Bianchi e Matteoli; Klinsmann (Ramón Díaz) e Serena
Técnico: Giovanni Trapattoni
Conquistas: 1 Copa da Uefa, 1 Campeonato Italiano
Grande jogo: Internazionale 2×1 Napoli, Campeonato Italiano 1988/89

Uma equipe muito forte, mas que poderia ter conquistado mais. Ótimos jogadores italianos e um excelente trio alemão. Era um elenco capaz de brigar por Copa dos Campeões e brigar por vários títulos italianos, mesmo sofrendo a pesada concorrência do Napoli de Maradona e do Milan do trio holandês. Bem, ficar abaixo das expectativas é algo já normal na vida do torcedor interista.

De qualquer modo, o ano em que esse grupo explodiu foi espetacular. Apenas duas derrotas e nove pontos de vantagem sobre o vice-campeão (Napoli) em uma época em que a vitória dava apenas dois. No regulamento atual, teriam sido 19 pontos de vantagem, e abrir 19 pontos para o Napoli de Maradona e o Milan de Sacchi era uma façanha espetacular.

O símbolo dessa campanha foi a vitória por 2 a 1 sobre o Napoli em Milão, que acabou com as últimas esperanças napolitanas de brigar pelo título.

8) Lazio 1997-2000

Time-base: Marchegiani; Negro, Nesta, Mihajlovic e Pancaro (Favalli); Sensini (Simeone), Verón, Sergio Conceição (Stankovic) e Nedved; Mancini e Salas (Ravanelli)
Técnico: Sven-Goran Eriksson
Conquistas: 1 Recopa, 1 Campeonato Italiano, 1 Copa da Itália (1 vice da Copa da Uefa)
Grande jogo: Juventus 0x1 Lazio, Campeonato Italiano 1999/2000

A Lazio foi um protagonista tardio nesse período encantado da Serie A. Os romanos tinham equipes medianas na década de 1980, o suficiente para se manter na primeira divisão sem sustos, mas não criavam problemas lá no topo. Até que Sergio Cragnoti comprou o clube no início dos anos 90. Os investimentos cresceram, culminando com uma equipe muito forte pouco antes da virada do século.

Pelo time-base acima é possível ver como a Lazio tinha várias opções para cada setor do campo nas temporadas 1997/98, 1998/99 e 1999/2000. Além dos jogadores citados acima, Sven-Goran Erikson ainda teve como opção, em algum momento dessas temporadas, Boksic, Fernando Couto, Lombardo, Almeyda, Vieri, Jugovic e Casiraghi.

Foram um título em cada uma dessas temporadas, sempre crescendo de importância e nível de dificuldade: da Copa da Itália para a Recopa para o Campeonato Italiano. O scudetto de 2000 foi impressionante pelo modo como ele surgiu. Nas últimas oito rodadas, a Lazio fez 22 dos 24 pontos que disputou. Com isso, tirou a desvantagem de 9 para a Juventus e comemorou o título na última rodada. Venceu a Reggina por 3 a 0, mas teve de esperar uma hora ainda, pois Perugia x Juventus começou com uma hora de atraso devido à chuva. Os peruginos venceram e permitiram aos laziali assumirem a primeira posição.

7) Sampdoria 1988-92

Time-base: Pagliuca; Pellegrini, Vierchowod, Mannini e Lanna; Katanec (Dossena), Mikhajlichenko (Pari), Cerezo e Lombardo; Vialli e Mancini
Técnico: Vujadin Boskov
Conquistas: 1 Recopa, 1 Campeonato Italiano, 2 Copas da Itália (1 vice da Liga dos Campeões e 1 vice da Recopa)
Grande jogo: Estrela Vermelha 1×3 Sampdoria, Copa dos Campeões 1991/92

O torcedor da Sampdoria tem bons motivos para odiar o Barcelona. A grande Sampdoria de Vujadin Boskov poderia ter um currículo muito maior, o suficiente para jogar na cara dos nove scudetti do rival Genoa. Os blucerchiati caíram para os catalães na final da Recopa de 1988/89 em uma partida emocionante e de alto nível e na final da Copa dos Campeões de 1991/92, em um jogo muito amarrado e sem tanta graça.

De qualquer maneira, era uma equipe muito forte. O talento do meio-campo para frente era inegável. Vialli e Mancini formavam uma dupla de ataque muito afinada. Atrás, Lombardo e Cerezo construíam as jogadas. O título italiano de 1990/91 foi incontestável, com a impressionante marca de 15 pontos em 16 possíveis contra Milan, Internazionale, Juventus e Napoli. Aliás, o Napoli de Maradona vez ou outra tomava piabas do time de Gênova: foram dois 4 a 1 no Italianão de 1990/91 e um 4 a 0 na final da Copa da Itália de 1988/89.

A trajetória daquela Sampdoria só não foi mais brilhante por causa da derrota para o Barcelona na final da Copa dos Campeões. Na fase semifinal, o time genovês passou pelo Estrela Vermelha, então campeão europeu. É verdade que os iugoslavos não podiam jogar em seu país, mas ainda tinham Savicevic, Pancev, Belodedici e Mihajlovic e lideravam o grupo até enfrentar a Samp na penúltima rodada. Os italianos fizeram 3 a 1 com autoridade e praticamente garantiram um lugar na decisão.

Alguns negócios mal feitos e a morte de Paolo Mantovani, dono do clube, minaram a força da Samp, que gradualmente foi perdendo terreno.

6) Roma 1980-84
Duelo entre Roma e Juventus no início da década de 1980
Duelo entre Roma e Juventus no início da década de 1980

Time-base: Tancredi; Nela, Maldera, Vierchowod e Di Bartolomei; Falcão, Prohaska (Cerezo) e Ancelotti; Bruno Conti, Pruzzo e Iorio (Graziani)
Técnico: Nils Liedholm
Conquistas: 1 Campeonato Italiano, 2 Copas da Itália (1 vice da Copa dos Campeões)
Grande jogo: Roma 1×1 Liverpool (3×5 nos pênaltis), final da Copa dos Campeões 1983/84

Grande antagonista da Juventus de Platini. A Roma atuava de modo incomum para a Itália da época. Usava marcação 100% por zona na defesa, sem nenhum líbero ou defensor zagueiro responsável por seguir mano a mano algum atacante adversário. Além disso, havia muitos talentos no meio-campo. Falcão foi a grande contratação do futebol italiano na reabertura do mercado, em 1980. Prohaska não vingou na Internazionale e foi à capital a custo baixo. E Ancelotti já despontava como um meia de talento. Na frente, Bruno Conti dava fluidez ao jogo para Pruzzo definir.

A concorrência direta com a Juventus foi cruel com a Roma. O time da capital conquistou um scudetto, mas perdeu outros dois por ficar a dois pontos da equipe de Turim. Ainda bateu na trave na Copa dos Campeões. Jogando diante de sua torcida no estádio Olímpico, os romanos não conseguiram passar pelo Liverpool. O empate por 1 a 1 levou a decisão para os pênaltis, na qual brilhou o goleiro zimbabuano Bruce Grobbelaar.

Aquela equipe da Roma perdeu força de modo discreto. Falcão deixou o time em 1985. Conti teve problemas físicos na segunda metade da década de 1980 e encerrou a carreira. Os giallorossi continuaram fortes, até conseguiram um vice da Copa da Uefa (perdendo para a Internazionale), mas não eram mais protagonistas.

5) Napoli 1986-90

Time-base: Garella (Giuliani); Ferrara, Francini, Baroni e Renica (Corradini); De Napoli, Bagni (Crippa), Alemão e Maradona; Careca (Giordano) e Carnevale
Técnico: Ottavio Bianchi e Albertino Bigon
Conquistas: 1 Copa da Uefa, 2 Campeonatos Italianos, 1 Copa da Itália
Grande jogo: Juventus 3×5 Napoli, Campeonato Italiano 1988/89

Muita gente acha que o Napoli da segunda metade da década de 1990 era só Maradona, o que não é verdade. Careca era o melhor atacante do Brasil na época, vice-artilheiro da Copa de 1986. Carnevale e Ferrara eram jogadores da seleção italiana. Mas, claro, o craque argentino é que tornava aquela equipe especial.

Entre 1986/87 e 1989/90, o Napoli conquistou seus dois únicos títulos. Nos dois anos em que deixou o scudetto escapar, ficou com o vice. Ainda conquistou a Copa da Uefa em cima de um Stuttgart em que despontavam Klinsmann e Katanec.

Essa equipe mudou a vida de Nápoles. Foi um raro momento em que a cidade pôde olhar de cima para baixo para o resto da Itália, deixando para trás o preconceito e os problemas sociais que sempre afetaram mais o sul que o norte italiano. A adoração por Maradona ficou tão grande que os napolitanos se dividiram quando Itália e Argentina se encontraram no estádio San Paolo em uma semifinal da Copa de 1990.

Como Maradona tornava esse Napoli especial, não surpreende que sua saída tenha recolocado o time no meio do pelotão. A temporada 1990/91 já foi ruim. O argentino tinha problemas físicos constantes, e ainda estava na pior fase de seu vício de cocaína. Acabou pego em um exame antidoping em 1991 e nunca mais vestiu a camisa azul da equipe napolitana.

4) Juventus 1992-98

Time-base: Peruzzi; Carrera, Kohler, Ferrara e Fortunato (Torricelli); Deschamps, Conte (Di Livio), Del Piero e Roberto Baggio (Zidane); Ravanelli (Vieri) e Vialli
Técnico: Marcello Lippi
Conquistas: 1 Mundial, 1 Liga dos Campeões, 1 Copa da Uefa, 3 Campeonatos Italianos, 1 Copa da Itália (2 vices da Liga dos Campeões e 1 vice da Copa da Uefa)
Grande jogo: Milan 1×6 Juventus, Campeonato Italiano 1996/97

Foram seis temporadas muito vitoriosas para a Juventus, mas houve muitas mudanças no elenco nesse período e daria até para quebrar esse período em duas equipes diferentes. O time que respirava de acordo com Roberto Baggio até 1995 se transformou na equipe de Zidane em 1996. De qualquer modo, a linha de trabalho de Lippi era a mesma, e algumas figuras importantes estiveram no clube por quase todos esse tempo, como Kohler, Peruzzi e Ferrara.

Não era uma Juventus de futebol bonito e cativante, mas era extremamente competitiva. Basta ver a lista de títulos, maior até que a da equipe de Platini do começo da década de 1980, mesmo sendo contemporânea do Milan de Fabio Capello.

Em 1996, conquistou a Liga dos Campeões superando o Ajax, que vencera o torneio de forma invicta na temporada anterior. Aliás, a Juventus de Lippi e o Miland e Capello chegaram a três finais seguidas da Liga dos Campeões, um feito que nenhum outro time europeu conseguiu desde o Bayern de Munique de 1976.

3) Milan 1991-96
Desailly comemora seu gol na final da Liga dos Campeões de 1993/94 em cima do Barcelona
Desailly comemora seu gol na final da Liga dos Campeões de 1993/94 em cima do Barcelona

Time-base: Rossi; Costacurta, Baresi, Maldini e Tassotti; Boban (Evani), Desailly (Rijkaard), Albertini (Donadoni) e Savicevic (Gullit); Massaro (Weah) e Van Basten (Papin)
Técnico: Fabio Capello
Conquistas: 1 Liga dos Campeões, 4 Campeonatos Italianos (2 vices do Mundial)
Grande jogo: Milan 4×0 Barcelona, final da Liga dos Campeões 1993/94

A presença de Fabio Capello e o futebol extremamente pragmático e vencedor era a principal marca do Milan da primeira metade da década de 1990. Mais do que os jogadores. O time conseguiu um título italiano invicto em 1991/92, algo inimaginável considerando o nível técnico da competição na época. Era um time bem objetivo, mas que ainda tinha basicamente o mesmo elenco do período de Arrigo Sacchi, com o trio holandês Van Basten-Gullit-Rijkaard.

Com o passar do tempo, essa formação foi mudando. Os holandeses saíram, mas foram substituídos por grandes nomes, como Savicevic, Weah e Desailly. Apesar de ter perdido duas finais de Liga dos Campeões (para Olympique de Marseille em 1993 e Ajax em 1995) e dois Mundiais de Clubes (para o São Paulo em 1993 e para o Vélez Sarsfield em 1994), conseguiu provar sua capacidade internacional na decisão da Champions de 1993. Fez incontestáveis 4 a 0 no Dream Team do Barcelona.

2) Juventus 1981-86
Paolo Rossi, Platini e Boniek, ataque da Juventus em 1985
Paolo Rossi, Platini e Boniek, ataque da Juventus em 1985

Time-base: Zoff (Tacconi); Gentile, Brio, Scirea e Cabrini; Tardelli, Bonini e Boniek (Michael Laudrup); Bettega (Penzo), Platini e Paolo Rossi
Técnico: Giovanni Trapattoni
Conquistas: 1 Mundial de Clubes, 1 Copa dos Campeões, 1 Recopa, 4 Campeonatos Italianos, 1 Copa da Itália (1 vice da Copa dos Campeões)
Grande jogo: Internazionale 1×2 Juventus, Campeonato Italiano 1983/84

Veja o item “time-base” algumas linhas acima. Era um time assombrosamente forte no papel. Tirando Brio, a defesa é a mesma da Itália campeã mundial de 1982. O meio campo tinha uma outra figura campeã do mundo (Tardelli), um dos melhores jogadores do momento (Boniek) e um meia (Bonini) que teria oportunidades na Azzurra se não fosse o detalhe de fazer questão de defender o seu país de nascimento, San Marino, que na época não tinha seleção. O ataque tinha o melhor jogador do mundo e o artilheiro da última Copa.

A Juventus conquistou quatro títulos italianos em seis anos. Em uma das temporadas em que passou em branco na Serie A conquistou a Copa dos Campeões. Na outra ficou com o vice europeu e o título da Copa da Itália. Foi a primeira grande equipe da Itália desde o final da década de 1960, e que ajudou a impulsionar o nível técnico do Campeonato Italiano como um todo.

1) Milan 1987-91

Time-base: Giovanni Galli; Tassotti, Baresi, Costacurta (Filippo Galli) e Maldini; Evani, Rijkaard, Ancelotti e Donadoni; Gullit e Van Basten
Técnico: Arrigo Sacchi
Conquistas: 2 Mundiais, 2 Copas dos Campeões, 1 Campeonato Italiano
Grande jogo: Napoli 2×3 Milan, Campeonato Italiano 1987/88

Uma equipe fantástica no papel, mas ainda melhor pelo trabalho coletivo. Arrigo Sacchi revolucionou o futebol italiano com um time que atuava de modo compacto, com defesa que saía para aproveitar uma regra de impedimento que era muito mais rigorosa que a atual e que jogava com talento e imaginação no ataque.

O Milan do final da década de 1980 não teve vida fácil no cenário doméstico. Conquistou um título após um duelo espetacular com o Napoli de Maradona em 1988, mas não acompanhou o ritmo da rival Inter em 1989, deixou escapar um título provável para o Napoli após uma derrota inesperada para o quase rebaixado Verona na penúltima rodada em 1990 e perdeu o fôlego contra a Sampdoria em 1991.

Foi nas competições internacionais que os milanistas estabeleceram um novo patamar de excelência no futebol. Foram duas Copas dos Campeões conquistadas, cosneguindo resultados como 5 a 0 no Real madrid históricod e Hugo Sánchez e Butragueño. Na tentativa do tri, caíram nas quartas de final para o Olympique de Marseille. O time abandonou o gramado quando a energia do estádio Vélodrome caiu e se negou a voltar quando a iluminação foi restabelecida. Aquela eliminação constrangedora, que gerou um ano de punição ao clube pela Uefa, marcou o fim da era Sacchi em Milão.

Bem, fica por aqui o especial sobre e era dourada do Campeonato Italiano, de 1980 a 2000. Caro você queira ver as outras quatro partes, clique aqui. Espero que tenham gostado de acompanhar tanto quanto foi legal de fazer. Abraço, e semana que vem tem um tema novo.

[Especial Itália 80/90] Corrupção, Lei Bosman e concorrência externa transformam, aos poucos, a Serie A em corrida a três

O futebol italiano começou a dar sinais de fragilidades no meio da década de 1990, e foi inevitável que perdesse a hegemonia

Silvio Berlusconi estava no auge no começo da década de 1990. O Milan, que o empresário comprara em 1986 e ainda tentava se recuperar após o escândalo Totonero, se transformara no maior clube do planeta. A pequena TV regional milanesa que comprara em 1978 já era um grande grupo de mídia. Como fundador e líder do partido liberal Forza Italia, conseguiu ser eleito presidente do Conselho de Ministros (como o primeiro ministro é oficialmente chamado na Itália) em 1994.

De repente, as coisas começaram a dar errado. Claro que um sujeito poderoso como ele não cai completamente, ainda mais na Itália, um país com vocação quase brasileira de se dar um jeitinho para as coisas. Mas ele teve momentos mais felizes na sua vida do que janeiro de 1995. Ele acabara de perder o cargo de primeiro ministro por uma mudança nas alianças que o sustentavam. E a Operação Mãos Limpas chegou até seus negócios.

A Fininvest, braço financeiro do grupo de Berlusconi, era alvo das investigações que tentavam descobrir esquemas de corrupção e crimes financeiros envolvendo bancos e a máfia. As práticas do empresário foram observadas com cuidado, e coisas estranhas apareceram.

O mundo do futebol havia estranhado demais quando o Milan contratou o atacante Gianluigi Lentini, revelação do Torino, por US$ 26 milhões. Era um bom jogador, mas esse dinheiro era inimaginável na época. Por exemplo, Roberto Baggio havia trocado a Fiorentina pela Juventus por US$ 17 milhões dois anos antes. E o meia era visto como uma promessa muito maior que Lentini, que se transformara no jogador mais caro da história.

Lentini foi um péssimo investimento. Um ano após ser contratado, durante as férias, quase morreu em um acidente de carro. Perdeu uma temporada quase inteira para se recuperar e nunca mais foi titular do Milan. Após dois anos na reserva, transferiu-se para a Atalanta. A partir daí, iniciou uma turnê por clubes pequenos: Torino, Cosenza, Canelli, Saviglianese, Nicese e Carmagnola, time da sétima divisão onde encerrou a carreira em 2012. Em quatro temporadas com a camisa rossonera, fez 63 jogos e 13 gols.

Por essa transação, Berlusconi foi processado por falsificar fraudulentamente o balanço do Milan em 1993 e 94. Uma parte do valor do negócio teria sido feito por baixo do pano, segundo a promotoria, que depois ainda pediu para estender as investigações para os balanços entre 1991 e 97.

Eram os primeiros sinais de que o futebol italiano não conseguiria se manter no topo por tanto tempo. Se o homem mais poderoso da Itália usava o futebol de forma fraudulenta, é de se imaginar que a liga não era rica e sustentável como os torcedores gostariam.

O Milan do técnico Fabio Capello não dava margem para ninguém. Só a Juventus conseguia impedir um monopólio rossonero na Serie A. Não havia mais aquela sensação de que o Campeonato Italiano tinha vários candidatos a brigar no topo.

Para piorar, o cenário internacional mudou bastante. Em 1995, o belga Jean-Marc Bosman venceu sua ação contra o Liège, que queria impedir sua ida para o Dunkerque. Essa decisão judicial quebrou dois elementos fundamentais para a lógica do mercado de jogadores na época: acabou o passe, e não poderia haver barreiras para jogadores de um país da União Europeia atuar em outro.

No mesmo período, outros concorrentes entraram com força no mercado. A Espanha vivia seu boom econômico pós-1992. Os clubes locais ficaram muito capitalizados, sobretudo depois de Barcelona e Real Madrid realizarem acordos para equacionarem suas dívidas. Na Inglaterra, a criação da Premier League e a elaboração de novos contratos de TV enriqueceu os clubes locais, que se abriram mais para a contratação de jogadores e técnicos estrangeiros.

A própria concorrência interna aumentou. Como jogadores da União Europeia tinham os mesmos direitos dos italianos, os clubes mais ricos não precisavam se limitar a cinco não-italianos (cota de estrangeiros da época, desde que só três deles estivessem em campo). Nada impedia uma equipe de contratar vários franceses, alemães, holandeses ou portugueses.

O mercado de jogadores inflacionou rapidamente. Os pequenos da Itália sentiram o impacto. Eles não tinham mais condições de contratar, como ocorreu entre 1985 e 95, grandes jogadores internacionais. Os que tentaram, fracassaram em campo e levaram enormes prejuízo fora. Os que não tentaram, foram perdendo força.

Nesse momento, times tradicionais que viveram grandes momentos na década de 1980 faliram ou viveram profundos problemas financeiros. Alguns simplesmente não tinham mais como sustentar o nível de investimento. Outros perderam seus mecenas ou seus mecenas fecharam a torneira após as investigações das operações financeiras no futebol. Com isso, equipes como Verona, Sampdoria, Napoli e Torino tiveram queda acentuada ou faliram.

Goleiro Taglialatela, do Napoli, é consolado por Cannavaro após a vitória do Parma por 3 a 1, que rebaixou o time napolitano em 1998 (Reprodução)
Goleiro Taglialatela, do Napoli, é consolado por Cannavaro (torcedor do Napoli na infância) após a vitória do Parma por 3 a 1, que rebaixou o time napolitano em 1998 (Reprodução)

O domínio era de Milan e Juventus, bancados por grandes empresários e capazes de atrair torcida e mídia para manter o poderio econômico. Entre 1997 e 2000, os milanistas tinham nomes como Weah, Maldini, Savicevic, Desailly, Baggio, Boban, Costacurta e Kluivert. A Juve rebatia com Zidane, Del Piero, Deschamps, Vieri, Inzaghi e Davids. Com potencial econômico parecido e craques como Ronaldo, Zanetti, Djorkaeff, Bergomi, Roberto Carlos, Zamorano e Seedorf, a Internazionale nunca conseguia encaixar uma grande temporada para sair da fila que completava dez anos.

Entre os times médios-grandes, os únicos que conseguiam brigar em alguns momentos eram Parma, Roma, Lazio e Fiorentina. Os parmesões não tinham fôlego financeiro para se equiparar aos grandes, mas tinham um bom olho para identificar talentos como Thuram, Crespo, Cannavaro, Buffon e Verón. O lado vermelho da capital tinha Totti, Aldair e Cafu, enquanto que o azul ia de Nedved, Signori, Nesta, Mancini, Mihajlovic e Marcelo Salas. A Fiorentina teve um grande período em 1998/99, com Batistuta, Edmundo, Rui Costa e Toldo.

Era um campeonato com equipes fortes e muitos craques, que ainda brigava por títulos nas competições continentais, mas não tinha mais a supremacia de alguns anos antes em relação aos demais países. Os demais times dependiam de encontrar alguns talentos baratos que lhes dessem competitividade, como a Udinese de 1997/98, que chegou ao terceiro lugar impulsionada pela dupla de ataque Bierhoff-Amoroso.

Obs.: O especial desta semana mostra o período de glória do futebol italiano e está falando da perda dessa hegemonia. Mas que fique claro que o processo não é ruim para os torcedores como um todo. A concentração de forças em uma liga pode ser empolgante para quem acompanha essa liga, mas a graça do futebol fica maior quanto mais clubes e países diferentes forem competitivos.

Mas havia mais problemas por vir. Erros conceituais fizeram os estádios da Copa de 1990 se tornarem antiquados rapidamente. Os projetos eram lindos por fora, mas desconfortáveis ao torcedor na parte de dentro. O público foi caindo lentamente a partir do pico de 33,8 mil em 1991/92 (naquela temporada, a média de Inglaterra e Alemanha era em torno de 21 mil).

Ainda que perdendo o brilho, a época de ouro do Campeonato Italiano durou até a virada do século. Parma (Uefa) e Lazio (Recopa) conquistaram títulos continentais em 1999. Os laziali ainda levaram um scudetto, o segundo de sua história, em 1999/2000. Na temporada seguinte, a Roma deu o bi para a capital, com seu terceiro título italiano.

Roma x Lazio em 2000, com os laziali defendendo o título e os giallorossi prestes a conquistar o seu. Roma era a capital do futebol italiano naquele momento

Mas já eram os últimos suspiros.  A Parmalat, dona e mantenedora do Parma, quebrou após investigação de operações ilegais de sua direção. A Lazio também sofreu problema parecido com a Cirio, grupo de Sergio Cragnotti. A Fiorentina quebrou com os negócios paralelos de Vittorio Cecchi Gori. A Itália entrava no período em que Milan, Juventus e Internazionale se tornavam as únicas equipes capazes de investimentos astronômicos.

Os italianos seguiram fortes internacionalmente devido a esses três clubes, mas a Serie A se transformou em uma liga decadente tecnicamente e defasada conceitualmente. Até dá sinais de recuperação na década de 2010, mas não terá mais aquele domínio em relação ao resto do mundo. Ninguém mais terá. O cenário internacional não permite mais que um país monopolize tanto os talentos e títulos do futebol.

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[Especial Itália 80/90] Milan lidera o bloco italiano que toma a Europa

Entre 1989 e 99, a Itália venceu 11 e teve representante em 17 das 21 finais continentais disputadas

Maradona ajeita a bola. Ele não tem como grande virtude o chute forte e, por isso, precisa caprichar no efeito e na colocação do arremate. Eram 45 minutos do primeiro tempo e aquela era a última chance de ir aos vestiários sem desvantagem no placar. Bem, o camisa 10 não ficou conhecido como “Dios” por seus compatriotas argentinos à toa. Em um toque venenosíssimo, encobriu a barreira e acertou o ângulo direito de Giovanni Galli. O Napoli conseguia um duro empate contra um Milan que parecia maior que o maior jogador do planeta.

Aquela partida colocava mais coisa na mesa que os dois pontos. O Napoli liderava o Campeonato Italiano 1987/88 desde as primeiras rodadas, mas sofria com a arrancada do Milan de Van Basten, Gullit, Baresi e Arrigo Sacchi. Ainda mais porque ninguém esquecia o jogo do primeiro turno, em que os milanistas enfiaram 4 a 1. Uma vitória rossonera no estádio San Paolo tiraria a liderança dos napolitanos a duas rodadas do final do campeonato.

O time azul vivia a febre maradoniana. O argentino chegara à Itália em 1984, mas o resto do time era fraco demais para ele fazer alguma coisa sozinho. O cenário foi mudando aos poucos, e o próprio Maradona cresceu. A parceria do craque com o time do Napoli e a cidade de Nápoles se tornou na grande notícia do futebol italiano desde que os problemas físicos acabaram com a carreira de Platini e a Juventus não conseguiu mais se manter no topo.

Os napolitanos conseguiram seu primeiro título nacional em 1986/87. Foi a primeira vez que o Sul conquistava a Itália (ou a segunda, se contarmos o Cagliari de 1970). E, com Careca, Carnevale, Giordano (o mesmo do Totonero de 1980) e Ferrara fazendo companhia a El Diez, dava para acreditar que o Napoli dominaria a Serie A ao menos até o final da década.

O problema é que apareceu o Milan, quase que do nada. A base italiana da equipe era muito boa, com Franco Baresi, Maldini, Giovanni e Filippo Galli, Donadoni, Massaro e Virdis. Mas era um time sem sal, até porque a dupla estrangeira (Hateley e Wilkins) não ajudava. Com a saída dos ingleses, os milanistas tinham a oportunidade de ganhar uma nova cara.

A oportunidade foi bem aproveitada. O técnico Arrigo Sacchi chegou com a ideia de criar um time ofensivo, que jogava de modo dinâmico, compacto, com muita troca de posições. E nada melhor para estabelecer essa cultura de jogo do que contratar holandeses. O empresário Silvio Berlusconi, dono do clube, colocou a mão no bolso e Milão via a chegada de Ruud Gullit e Marco van Basten. Não apenas Milão. O Brasil também, porque esta foi a temporada em que a Bandeirantes começou as transmissões do Campeonato Italiano aos domingos, algo que se manteve até 1993.

O começo de temporada foi um pouco atribulado. O novo Milan sofria para impor seu jogo em casa, ainda mais porque Van Basten estava lesionado. Dos cinco primeiros jogos no San Siro, venceu apenas os frágeis Avellino e Ascoli, empatou com o Torino e perdeu para Fiorentina e Roma (esta última por decisão da Justiça após confusão criada pela torcida). Até que veio a partida contra o Napoli, os 4 a 1 do primeiro turno. O Milan passou Roma e Sampdoria e assumiu a segunda posição.

Depois daquela goleada, os milanistas embalaram, Gullit recebeu a Bola de Ouro da France Football (Maradona não concorria porque o prêmio era apenas para jogadores europeus) e o campeonato passou a viver a expectativa de uma corrida em que o líder vai perdendo o fôlego e talvez não segure o segundo colocado. A oportunidade rossonera de assumir a ponta apareceu na antepenúltima rodada, no reencontro contra os napolitanos no San Paolo.

O jogo foi simbólico. Na Itália, foi chamado de “final do mundial”, tamanha era a importância que aquele encontro recebeu. Uma semana antes do jogo, Maradona deu entrevista dizendo que não queria ver uma bandeira milanista nas arquibancadas (“quero uma final mundial toda azul”). Ele sabe que estava em suas costas a responsabilidade de segurar o Milan.

Virdis abriu o marcador, mas Maradona empatou em cobrança de falta, no último lance do primeiro tempo. O argentino manteve o Napoli vivo, mas não por tanto tempo. A superioridade coletiva rossonera ficou nítida após o intervalo. Virdis e Van Basten deixaram o placar em 3 a 1 e nem o gol de cabeça de Careca deu forças aos napolitanos para uma reação no final.

A partir daquele jogo, o Milan de Arrigo Sacchi passou a ditar o ritmo do futebol italiano. E os outros times muitas vezes conseguiam acompanhar. A Itália estava nos preparativos finais para organizar a Copa de 1990, os estádios começavam a ficar prontos e a média de público explodia. Não faltava dinheiro para evitar o domínio completo e irrestrito do time rubro-negro.

A Internazionale, com a dupla alemã-ocidental Matthäus e Brehme, o argentino Ramón Díaz e jogadores italianos de destaque como Zenga, Bergomi, Ferri, Serena e Berti, fez uma campanha brilhante na temporada 1988/89. Aproveitou-se de uma má fase do Milan, que ficou virtualmente fora do campeonato ao marcar apenas quatro pontos entre a 6ª e a 12ª rodadas, para abocanhar o título (o último nerazzurro no século 20).

O Napoli com Maradona, Careca, Alemão, Ferrara e um jovem Zola conseguiu seu segundo scudetto em 1989/90. Em 1990/91, foi a vez da Sampdoria conquistar a Itália. Depois de anos de boas campanhas, a equipe de Cerezo, Vialli, Mancini, Pagliuca, Lombardo e Mikhaijlichenko finalmente devolveu o título para Gênova. Nesta mesma temporada, Maradona foi pego no exame antidoping após uma partida contra o Bari. A partida marcou a despedida do craque dos gramados italianos e ainda o fim do grande Napoli.

O nível técnico como um todo era alto. Quase todos os grandes jogadores do mundo estavam na Itália. Como as vagas para estrangeiros eram limitadas, muitos acabavam em times pequenos, alguns até na segunda divisão. Era o caso de dois jogadores da seleção brasileira, Müller (Torino) e João Paulo (Bari), e do atacante Dezotti (Cremonese), titular da Argentina na abertura do Mundial da Itália.

Há vários modos de medir o nível de atração do futebol italiano naquela época. Da seleção alemã-ocidental campeã mundial em 1990, cinco titulares atuavam na Serie A: Matthäus, Klinsmann e Brehme (Internazionale), Völler e Berthold (Roma). Dos seis restantes, três foram para a Itália logo após a Copa: Kohler e Reuter (Juventus) e Hässler (Roma). Os reservas Möller (Juventus) e Riedle (Lazio) também seguiram os passos.

Klinsmann faz um gol de voleio pela Inter
Klinsmann faz um gol de voleio pela Inter

A Argentina vice-campeã mundial tinha sete jogadores na Itália: Maradona (Napoli), Caniggia (Atalanta), Balbo e Sensini (Udinese), Troglio (Lazio), Dezotti (Cremonese) e Lorenzo (Bari). A Azzurra terceira colocada na Copa só tinha jogadores em seu país, claro. A Inglaterra, quarta colocada, não tinha nenhum “italiano”. Não tinha no Mundial, pois Gascoigne (Lazio) e Platt (Bari), as duas revelações da equipe, foram para o Mediterrâneo.

E assim seguiu. Alguns dos principais jogadores das principais seleções do mundo tinham haviam estado, estavam ou estariam em breve na Serie A. O Brasil era o exemplo mais claro. Dez dos 22 convocados de Sebastião Lazaroni para a Copa de 1990 tiveram passagem pela Itália: Taffarel (Parma e Reggiana), Dunga (Pisa e Fiorentina), Alemão e Careca (Napoli), Müller (Torino), Silas (Cesena), Aldair e Renato Gaúcho (Roma), Mazinho (Lecce) e Branco (Brescia e Genoa).

A revista inglesa World Soccer criou, em 1982, o prêmio de melhor jogador do mundo, eleitos pelos leitores, na maioria ingleses. Nas 14 primeiras edições, apenas em uma (Papin, do Olympique de Marseille em 1991) o vencedor não atuava na Itália. Ainda assim, foi atuar no ano seguinte ao prêmio. Mas vamos mais fundo. Dos 14 segundos colocados, nove eram da Serie A. Dos 14 terceiros, oito estavam no Campeonato Italiano. Nesse mesmo período (1982-95), clubes italianos tiveram 11 das 14 Bolas de Ouro da France Football, sete dos segundos lugares e seis dos terceiros.

Essa capacidade de atrair craques teve resultado nas competições internacionais. O Milan perdeu para Inter, Napoli e Sampdoria os títulos nacionais entre 1989 e 1991, mas aproveitou esse tempo para dominar o mundo. O supertime de Arrigo Sacchi foi bicampeão europeu e bi mundial em 1989 e 90. No caminho, meteu 5 a 0 no Real Madrid de Hugo Sánchez, Butragueño e Schuster que estava no meio de sua série de cinco títulos espanhóis seguidos. Um dos melhores times que o Real já teve, de acordo com seus próprios torcedores.

Não havia adversários aos rossoneri. Em 1988 e 89, o time teve os três primeiros colocados na Bola de Ouro da France Football entre Gullit, Van Basten, Baresi e Rijkaard, contratado em 1988. A equipe era tão espetacular, tão vencedora e jogava um futebol tão dinâmico e fluido que, em 2013, foi eleita pela inglesa FourFourTwo como o segundo melhor time de clube da história. Apenas o Ajax de Cruyff ficou à frente.

Sacchi trocou o Milan pela seleção italiana em 1991, logo após o clube perder a hegemonia europeia de forma constrangedora. Após empatar em casa com o Olympique de Marseille, os milanistas perdiam por 1 a 0 na França. A luz do estádio Vélodrome caiu, mas o time italiano se negou a voltar a campo assim que a iluminação foi restabelecida. A Uefa puniu os rossoneri por um ano em competições europeias.

A saída de Sacchi abriu o caminho para Fabio Capello. O ex-meia do próprio Milan refaz a equipe. A base do jogo era muito menos bonita, e muito mais pragmática. Uma equipe sólida, confiável, constante, praticamente imbatível. Os milanistas foram campeões italianos invictos em 1991/92. Acabaram caindo na temporada seguinte, mas ficaram 58 rodadas sem perder. A série foi quebrada no San Siro, uma derrota por 1 a 0 contra o Parma, gol de falta do colombiano Asprilla.

Com Capello, o Milan teve seu segundo grandes esquadrão dessa época de ouro do futebol italiano. Foram quatro títulos nacionais em cinco anos. Além disso, a equipe chegou a três finais da Liga dos Campeões no período. Perdeu duas, para Olympique de Marseille em 1993 e para o Ajax em 1995. Mas a única vitória foi mais que simbólica.

Na temporada 1993/94, o Barcelona de Johann Cruyff parecia a única equipe europeia – até porque o São Paulo de Telê havia vencido o Milan no Mundial – capaz de encarar os milanistas. Os catalães haviam sido campeões europeus em 1992, mas o Milan era tido como o melhor do continente no ano seguinte (apesar da derrota para o Olympique na decisão). Era o tira-teima entre o time ofensivo e artístico de Romário, Stoichkov, Koeman, Zubizarreta e Guardiola contra o defensivismo italiano, que já não tinha o trio holandês para recorrer.

Como muitos dos confrontos em que se rotula um lado de 100% arte e o outro de 100% pragmatismo, os estereótipos falharam. Desailly, Boban, Massaro e Savicevic  tiveram atuações fabulosas, e o Milan venceu por incontestáveis 4 a 0. A equipe de Capello conquistava a Liga dos Campeões com apenas dois gols sofridos.

Mas a Serie A estava tão forte que todo mundo conseguia algo nas competições da Uefa. Entre 1989 e 98, a Itália só ficou de fora da final da Copa/Liga dos Campeões uma vez (1991, Estrela Vermelha x Olympique de Marseille). Entre 1989 e 94, quatro das seis decisões da Recopa tinham um clube italiano. Na Copa da Uefa, onde os times médios de cada país se enfrentam, o domínio era maior: dez as 11 finais entre 1989 e 99 tiveram presença italiana, sendo que em 1990, 1991, 1995 e 1998 a final reuniu dois times do país.

Não dá para dizer que era um campeonato de dois ou três times fortes. Nesse período, Milan, Juventus, Internazionale, Roma, Sampdoria, Parma, Lazio, Napoli, Fiorentina e Torino chegaram a decisões continentais. Dez times, mais da metade do campeonato (a Serie A tinha 18 clubes na época). E tudo isso considerando que, até metade da década de 1990, a Liga dos Campeões tinha apenas um ou dois representantes de cada país, dificultando muito mais a manutenção de um retrospecto desse.

Nas sete temporadas entre 1988/89 e 1994/95, o Campeonato Italiano foi a liga que marcou mais pontos no coeficiente da Uefa em seis. Apenas em 1990/91 que ficou em segundo lugar. Ainda assim, por pouco. A Inglaterra se beneficiou do fato de ter apenas dois participantes (o Liverpool estava suspenso de competições internacionais e não representou o país na Copa dos Campeões) e um deles (Manchester United na Recopa) ter ficado com o título. Desse modo, a média de pontos dos ingleses foi para o alto. Ainda assim, bateu a Itália por alguns décimos: 12,5 x 12,125.

Para se ter uma ideia de como é difícil ser a liga com melhor coeficiente na Uefa por tantos anos, a Inglaterra nunca conseguiu dois anos seguidos como maior pontuadora neste século, mesmo sendo a liga mais competitiva da Europa nesse período.

No meio de tantas notícias boas, surgiam alguns sinais perigosos. Em 1991, o resultado positivo no exame antidoping de Maradona fez o mundo saber de algo que já corria pelas vielas napolitanas: o craque argentino estava dominado pelo vício, e o crime organizado não estava alheio ao sucesso do futebol italiano. Outras notícias suspeitas foram aparecendo, como a contratação do atacante Gianluigi Lentini, revelação do Torino, por US$ 26 milhões, um valor altíssimo mesmo para o Milan.

A bolha econômica do futebol italiano começou a estourar. Foi um processo gradual, que somou a quebra de alguns donos de clubes, sobretudo os pequenos e médios, com a descoberta de corrupção e lavagem de dinheiro na operação de outros. Esse princípio de crise se uniu ao boom econômico da Espanha e aos primeiros efeitos econômicos da criação da Premier League na Inglaterra para minar o domínio italiano na Europa a partir da metade da década de 1990. Mas isso é história para esta quinta.

Sinal da força da Itália: a Folha de São Paulo, nas segundas, informava os resultados da Serie B no fim de semana
Sinal da força da Itália: a Folha de São Paulo, nas segundas, informava os resultados da Serie B no fim de semana

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[Especial Itália 80/90] Um verdureiro, um escândalo, uma crise, e a Itália começa a dominar o mundo

Do maior escândalo de sua história, a Serie A encontrou forças para crescer 50 anos em 5

Massimo Cruciani era um produtor de frutas e verduras em Roma. Sua ligação com o futebol era nula, exceto pelo fato de ser um torcedor como milhões de italianos. Natural que o esporte virasse assunto de suas conversas. Foi assim que ficou amigo de um de seus clientes, Alvaro Trinca, dono do restaurante La Lampara. O local era frequentado por jogadores da Lazio, que se juntaram ao bate papo. E, de repente, algumas informações supostamente confidenciais começaram a circular.

Os atletas convenceram Trinca e Cruciani a apostarem em uma loteria esportiva clandestina. Os dois recebiam dos laziali algumas dicas de que resultados ocorreriam, mas nem sempre os jogadores davam a indicação correta. O fornecedor de hortifruti e o dono do restaurante começaram a perder dinheiro, até que uma hora ficaram de saco cheio. Resolveram explodir tudo. Em 1º de março de 1980, Cruciani entrou com um processo na Procuradoria da República, denunciando a existência de um esquema de manipulação de resultados para alimentar uma loteria ilegal.

As investigações foram rápidas. Em 23 de março, 12 jogadores foram presos ainda no campo e outros cinco receberam ordem para depor assim que suas partidas pela rodada do Campeonato Italiano terminaram. Entre os envolvidos estavam jogadores com passagem pela Azzurra como Paolo Rossi (Perugia), Bruno Giordano (Lazio) e Enrico Albertosi (Milan e goleiro da Itália na final da Copa de 1970).

No final, a Comissão Disciplinar da liga distribuiu punições pesadas. Milan e Lazio foram rebaixados para a Serie B, Avellino, Bologna e Perugia começaram a temporada 1980/81 com cinco pontos a menos e 22 jogadores receberam suspensões de três meses a banimento do esporte (caso de Albertosi). Rossi, uma das grandes figuras da seleção italiana para a Eurocopa de 1980 e a Copa de 1982, pegou três anos de gancho.

Bruno Giordano e Paolo Rossi na capa da Guerin Sportivo
Bruno Giordano e Paolo Rossi na capa da Guerin Sportivo

O clima ficou péssimo. O público não acreditava mais no futebol como um todo e isso afetou a campanha da Azzurra na Eurocopa, organizada justamente na Itália. A seleção da casa venceu apenas um jogo e ficou em segundo lugar no Grupo B, atrás da Bélgica. Naquele ano, só o campeão de cada grupo seguia no torneio e os italianos foram para a disputa de terceiro lugar com a Tchecoslováquia. Perderam por 9 a 8 nos pênaltis, depois de 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação.

A esse cenário se somava a péssima situação dos clubes locais nas copas europeias. A Serie A era a décima colocada no ranking de ligas da Uefa (atrás até da Alemanha Oriental), e tinha apenas duas vagas na Copa da Uefa. Era preciso tomar medidas rápidas para recuperar a credibilidade da Serie A. Por pressão de clubes, imprensa e torcedores, a Federação Italiana decidiu reabrir as fronteiras futebolísticas. Para a temporada 1980/81, cada clube poderia ter um estrangeiro. Em 1982/83, poderiam ter dois.

Quem tinha dinheiro foi buscar jogador consagrado. A Juventus contratou o irlandês Liam Brady estrela do Arsenal. A Internazionale comprou Herbert Prohaska, destaque da seleção austríaca. A Roma reforçou-se com Falcão, fundamental para tornar o clube da capital no grande opositor da Juve na primeira metade dos anos 80. O Napoli foi atrás de Ruud Krol, veterano da Holanda vice-campeã mundial em 1974 e 78. A Fiorentina investiu em Daniel Bertoni, campeão do mundo com a Argentina em 1978.

Os clubes médios e pequenos tentaram jogadores financeiramente mais acessíveis. Três apostaram em brasileiros: Avellino (Juary, ex-Santos, um dos Meninos da Vila de 1978), Bologna (Eneas, ídolo da Portuguesa) e Pistoiese (Luís Silvio, destaque do Marília campeão da Copa São Paulo de 1979 que teve rápidas passagens por Palmeiras e Ponte Preta antes de ir à Itália).

Ações de marketing

Em 1979, o futebol italiano tentou mudar sua cara para se modernizar. Não o fez em campo, mas fora. Vários clubes lançaram novos distintivos, tentando passar uma imagem renovada. Esses escudos por si só mudaram pouco, mas se tornaram indiretamente símbolos da época de ouro do Campeonato Italiano. Mas os torcedores não gostaram da novidade, e os times voltaram aos distintivos originais no final dos anos 80 e começo dos 90.

Escudos versão anos 80 de Juventus, Roma, Milan, Fiorentina, Internazionale, Verona, Lazio e Torino
Escudos versão anos 80 de Juventus, Roma, Milan, Fiorentina, Internazionale, Verona, Lazio e Torino

O primeiro campeonato foi fundamental para mostrar que havia futuro para o Campeonato Italiano. Foi um torneio empolgante, e que ainda apresentou ao torcedor a possibilidade de times de fora do Norte lutarem pelo título. Até a antepenúltima rodada, Juventus, Roma e Napoli estavam separados por apenas dois pontos. Na penúltima rodada, os bianconeri venceram os napolitanos no San Paolo e tiraram os sulistas da disputa. Mas a briga com os romanos só se resolveu na última rodada, quando o time de Turim venceu a Fiorentina e manteve a ponta.

A empolgação dos italianos com o futebol voltou. As autoridades perdoaram parte das punições do escândalo de 1980. Além de ver algumas estrelas de volta a campo, o público teve uma nova temporada interessante, e também teve um protagonista que fugia do dualismo Milão-Turim. A Fiorentina de Antognoni, Giovanni Galli, Graziani, Vierchowod e Massaro encarou a Juventus de Zoff, Gentile, Scirea, Cabrini, Tardelli e Rossi. Os dois times chegaram à última rodada empatados, e a Juve só assegurou o título porque os florentinos empataram com o Cagliari. A temporada ainda terminou com um novo rebaixamento do Milan, campeão da Serie B que não se estruturou e caiu em campo.

Do mesmo jeito que o modo passional dos italianos agirem atrapalhou nas decisões erradas de fechar o mercado a estrangeiros, ele ajudou ao fazer que a empolgação rapidamente mudasse o rumo que o campeonato nacional tomava. O embalo só aumentou em julho de 1982, quando a Itália foi campeã mundial com uma equipe que tinha a Juventus como base.

Logo após a Copa do Mundo, houve a abertura da segunda vaga de estrangeiro para cada equipe. Uma nova leva de jogadores chegou, com destaques para os argentinos Daniel Passarella (Fiorentina) e Ramón Díaz (Napoli), o francês Michel Platini (Juventus), os poloneses Zbigniew Boniek (Juventus) e Wladislaw Zmuda (Verona), os brasileiros Dirceu (Verona) e Edinho (Udinese, que no ano seguinte ainda tiraria Zico do Flamengo), o alemão-ocidental Hansi Müller (Internazionale) e o inglês Trevor Francis (Sampdoria).

Um dos grandes duelos entre Juventus e Roma, um 2 a 2 no primeiro turno da temporada 1983/84. Atenção para o gol de Pruzzo que empatou a partida nos acréscimos

A relevância internacional voltou rapidamente. Em 1982/83, a Juventus foi até a decisão da Copa dos Campeões, vencida pelo Hamburg. Na temporada seguinte, a Roma chegou até a final, disputada no estádio Olímpico, e caiu nos pênaltis para o Liverpool em um desempenho marcante do goleiro Bruce Grobbelaar.

Estava tudo pronto para o Campeonato Italiano se recolocar como a grande liga nacional da Europa. Em maio, o Comitê Executivo da Fifa elegeu a Itália como sede da Copa de 1990, vencendo a União Soviética por 11 a 5. Isso incentivou ainda mais os clubes a se reforçarem, pois a empolgação do público já era grande e haveria investimentos na modernização ou construção de estádios.

O mercado ficou ainda mais agitado. Os clubes pequenos e médios também entraram na jogada. O Napoli, clube de gastos medianos e nenhum scudetto, surpreendeu ao contratar Maradona, astro do Barcelona. Quase todos os grandes jogadores do mundo estavam na Serie A, e ainda surgiam jogadores italianos muito promissores para suceder a geração campeã de 82. Platini? Estava na Itália. Rummenigge? Estava na Itália. Maradona, Boniek, Passarella? Também. E a base da espetacular seleção brasileira de 1982? Sim, seis jogadores no Italianão.

Olha só as estrelas que estavam em gramados italianos na temporada 1984/85:

Ascoli: Dirceu (Brasil);
Atalanta: Strömberg (Suécia) e Donadoni (Itália);
Avellino: Ramón Díaz (Argentina);
Como: Hansi Müller (Alemanha Ocidental);
Cremonese: Zmuda (Polônia);
Fiorentina: Sócrates (Brasil), Passarella (Argentina), Galli, Gentile e Massaro (Itália);
Internazionale: Rummenigge (Alemanha Ocidental), Brady (Irlanda), Giuseppe Baresi, Altobelli, Bergomi, Collovatti e Zenga (Itália);
Juventus: Platini (França), Boniek (Polônia), Scirea, Cabrini, Rossi e Tardelli (Itália);
Lazio: Michael Laudrup (Dinamarca) e Giordano (Itália);
Milan: Hataley e Wilkins (Inglaterra), Virdis, Filippo Galli, Franco Baresi, Maldini e Tassotti (Itália);
Napoli: Maradona (Argentina);
Roma: Falcão e Cerezo (Brasil), Ancelotti, Graziani, Giannini e Bruno Conti (Itália);
Sampdoria: Souness (Escócia), Francis (Inglaterra), Mancini, Vialli e Vierchowod (Itália);
Torino: Júnior (Brasil), Schachner (Áustria) e Serena (Itália);
Udinese: Zico e Edinho (Brasil) e Carnevale (Itália);
Verona: Briegel (Alemanha Ocidental), Elkjaer (Dinamarca), Fanna e Galderisi (Itália).

A empolgação com esse Supercampeonato Italiano era tão grande que chegou ao Brasil. Com mais da metade da Seleção em campo, a Globo decidiu transmitir o torneio nas manhãs de domingo. Veja a chamada abaixo:

A emissora não deu sorte: Zico e Falcão voltaram ao Brasil no meio da temporada, Sócrates foi mal e a disputa do título não foi tão emocionante. Em um torneio em que os melhores jogadores do mundo se espalhavam pelos clubes, ganhou um que não chamava tanto a atenção. O Verona perdeu apenas dois jogos, liderou da primeira à última rodada, em uma campanha tão surpreendente que ficou conhecida como “Il Verona del Miracolo”.

Apesar da surpresa no Campeonato Italiano, o domínio europeu começava a voltar. A Juventus conquistou a Recopa em 1983/84 e a Copa dos Campeões em 1984/85. No ranking de campeonatos da Uefa, a Itália pulou de 12º lugar em 1982 (atrás até da Suíça) para 2º em 1985 (superada apenas pela Inglaterra). Uma situação que não demoraria a mudar.

A decisão da Copa dos Campeões de 1985 ficou marcada pela morte de 39 torcedores da Juventus em uma confusão causada pelos seguidores do Liverpool. A Inglaterra foi suspensa de competições continentais, o que iniciou uma decadência dos clubes britânicos e abriu ainda mais espaço para a Itália se tornar hegemônica na Europa.

No capítulo desta quarta, o auge do Campeonato Italiano.

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