Maior legado paraolímpico seria ver um país com cidades mais acessíveis

Mais que condições de treinamento ou atenção de público, portadores de deficiência precisam de condições de se locomover com autonomia na rua

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Os Jogos Paraolímpicos de 2016 foram bem sucedidos em vários tipos de medição. O público nas arenas chegou a superar um dia dos Jogos Olímpicos, a audiência da TV foi marcante (ao menos na Sportv, pois ficou quase esquecida na TV aberta) e o Brasil teve recorde de medalhas, ainda que não tenha atingido a meta de ficar no quinto lugar no quadro. Mas o sucesso real não apareceu na TV, não subiu ao pódio, não se definiu com a extinção do fogo da pira paraolímpica no Maracanã. Ele se verá nas ruas.

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Tóquio já prepara seu legado para os Jogos Olímpicos de 2020: a energia do hidrogênio

A tecnologia é mais usada em carros, mas a ideia é entrar na rede elétrica do país

A indústria tem investido no desenvolvimento de carros com energia limpa, mas esse mercado ainda sofre um obstáculo: a infraestrutura. O público desses veículos sempre será limitado enquanto houver pouca oferta de locais para reabastecimento. O Japão já tomou a dianteira nos postos de recarga de automóveis elétricos e agora quer fazer o mesmo para os movidos a hidrogênio. Mais que isso, querem usar essa tecnologia para a matriz energética do país. E pretendem usar os Jogos Olímpicos para isso.

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Um mês após o final da Copa, 10 provas de que nada mudou… e 3 motivos de esperança

O legado do Mundial também tem de vir dentro de campo

Schürrle avança pela esquerda e alça a bola. Götze domina e chuta na saída de Romero. Eram os minutos finais da prorrogação no Maracanã e a Alemanha fazia o gol do título na Copa do Mundo. Isso ocorreu em 13 de julho de 2014, um mês atrás. Foi um momento em que o brasileiro se reapaixonou pelo futebol, e viveu esse amor com o ímpeto de um casal que acabou de reatar.

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O problema é que esse novo namoro rapidamente entrou nos vícios que causaram a separação. Em um mês, o futebol brasileiro deu diversas mostras de que não está muito disposto a mudar, como o sujeito que continua deixando a louça acumular na pia achando que a esposa tem obrigação de lavá-la sempre (ou que a louça se lavará sozinha, vai saber).

Então, veja dez provas de que nada mudou no futebol brasileiro nesse mês pós-Copa:

Dunga e Gilmar foram contratados

O Brasil tomou um passeio na Copa, ficou nítida a defasagem coletiva da equipe. Também ficou claro que o País não vive um momento em que seus talentos não são tão salientes como em outras seleções. A solução da CBF? Aposentar Gilmar Rinaldi da carreira de agente de atletas para transformá-lo em coordenador de seleções e recolocar Dunga como técnico da seleção principal.

Clubes pedem novo financiamento de dívidas

Clubes fizeram reunião com o governo para pedir um novo financiamento das dívidas com o governo. Pelo menos, não falaram na criação de uma loteria que usa distintivo de clubes.

STJD mexe na classificação do campeonato

No caso, a notícia pós-Copa é até positiva, mas nos fez lembrar de uma notícia ruim durante a Copa. O Criciúma perdeu três pontos no STJD durante o Mundial, e o tribunal decidiu devolver em segunda instância. A questão não é do lado que está certo, mas o fato de ainda um tribunal alterar a tabela de classificação.

Crac abandona Série C no meio da disputa

Com problemas financeiros, o Crac anunciou nesta terça que não seguirá na disputa da Série C. O clube tem 8 pontos após dez rodadas do torneio e está na zona de rebaixamento para a Série D (mas a apenas cinco da zona de classificação para as quartas de final).

Botafogo atrasa salários

Os jogadores botafoguenses nem têm mais pudor de dizer: estão com vários meses de salários e direitos de imagens atrasados e entram em campo com faixa de protestos contra a situação do clube. Não à toa, o presidente alvinegro Maurício Assumpção foi um dos dirigentes mais ativos no segundo tópico desse texto.

Flamengo e Grêmio contratam Luxemburgo e Felipão

A falta de renovação não se limita à seleção brasileira. Os clubes continuam no vício de seguir atrás de nomes fáceis, por piores que sejam os históricos recentes deles. Para sair da crise, Flamengo e Grêmio contrataram Vanderlei Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari. Claro que ambos não precisam ir para o ostracismo para o resto da vida, mas a busca imediata pelos nomes de grife impressiona.

Jogador investigado por estelionato

O volante Luiz Antônio, do Flamengo, é suspeito de estelionato e envolvimento com milícia. Em 11 de janeiro, o pai do jogador registrou um roubo de veículo que não ocorreu. O Ford Edge do flamenguista estava com um dos líderes da maior milícia do Rio de Janeiro.

Brigam de torcida antes de clássico

Corintianos e santistas entraram em confronto perto da entrada da torcida visitante da Vila Belmiro antes do clássico do último domingo. Depois, a briga voltou a ocorrer em um hospital onde era atendido um torcedor do Santos.

Jô e Valdívia vão e voltam

A relação entre clubes e jogadores segue esquizofrênica. Valdívia foi negociado com o Al Fujairah, dos Emirados Árabes, e se apresentou. Mas o clube desistiu e o chileno teve de voltar ao Palmeiras. Ou não, pois o meia ficou uns dias de folga na Disney. Jô também deu uma sumida, alegando problemas pessoais, mas a diretoria do Atlético Mineiro disse por alguns dias que desconhecia seu paradeiro.

Média de gols

O Brasileirão tem média de 2,14 gols por partida, a pior desde a adoção dos pontos corridos. A 11ª rodada, a segunda após o retorno da Copa, foi de apenas 1,5. Isso porque a Copa do Mundo que terminou há um mês teve o maior número de gols da história, empatando com a de 1998.

Mas nem tudo está perdido. Há algumas fagulhas que dão esperança de que algo pode melhorar:

A média de público está melhorando

O Brasileirão está com média de público de 14.109. Das últimas oito edições, só a de 2012 teve índice pior. Mas, acredite, a tendência deste momento é de melhoria. Desde o final da Copa do Mundo, apenas em uma rodada (a 11ª) a média foi inferior a 16 mil. Nas duas últimas, mais de 19 mil pessoas pagaram para ver futebol nos estádios. Ainda é pouco para o potencial do Brasil, mas pode indicar um ligeiro crescimento da presença de torcida.

Os cuiabanos estão indo ao estádio

Foram gastos bilhões de reais em estádios para a Copa do Mundo, e as maiores interrogações ficaram em torno das arenas em cidades com pouca tradição futebolística. Cuiabá era citada constantemente, mas até que vem dando boas notícias. Os clubes locais fizeram promoções e campanhas para incentivar o torcedor a ir à Arena Pantanal ver os jogos de Cuiabá (Série C) e Operário de Várzea Grande (D). E a resposta tem sido razoável, com públicos pouco abaixo de 15 mil.

O Bom Senso FC segurou a votação da lei

O Congresso adiou a votação da nova versão da Lei de Responsabilidade do Esporte após pressão do Bom Senso FC. Com mais tempo para o debate, o grupo formado por jogadores tentará incluir no texto uma contrapartida maior dos clubes, como redução no prazo para o pagamento de dívidas.

[Legado] O Brasil virou um país turisticamente maior, mas ainda precisa criar uma política nacional na área

Visitantes conheceram a complexidade do Brasil e gostaram do que viram, e esse momento não pode ser desperdiçado

Flashes, uma colagem de imagens aleatórias que não se juntam para formar um quadro completo. Assim era o Brasil para o mundo. Uma junção de praia, desfile de escola de samba, bundas, futebol, bossa nova e Floresta Amazônica. O que há entre uma e outra coisa fica a cargo da imaginação de cada um. O que o brasileiro come? O que é a arte brasileira? Como é a arquitetura de uma cidade brasileira? Como os brasileiros curtem um bar com os amigos? Que coisas diferentes dá para comprar no Brasil? E como é a balada? E os museus? E a religiosidade? E as diferenças regionais para tudo isso?

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Os ícones brasileiros são tão fortes que ofuscaram todo o resto durante décadas. E o próprio Brasil não se ajudava, usando e abusando de seus clichês para vender sua imagem. O resultado disso é um país desconhecido no geral, que tem um espaço na indústria mundial de turismo muito menor do que poderia. Em 2013, o Brasil recebeu pouco mais de 6 milhões de turistas estrangeiros. É o quarto país das Américas no ranking, mas muito distante dos 16,6 milhões do Canadá, o terceiro colocado (os dois primeiros são Estados Unidos e México). No global, o Brasil está atrás até do Vietnã.

Um fator claro para isso é a distância da América do Sul em relação aos países de onde partem a maioria dos turistas, Europa, América do Norte e Extremo Oriente. Outros fatores são a falta de infraestrutura adequada, sobretudo pela necessidade de voos até para trechos internos. No entanto, isso não explica como a África do Sul, que tem problemas parecidos, recebe 50% a mais de visitantes internacionais. O Brasil simplesmente não está na lista de prioridades nas férias de muitas pessoas.

Nisso a Copa do Mundo teve um papel importante. Estudos mostram que grandes eventos esportivos não têm um incremento tão alto no número de visitantes, pois muitos turistas torcedores chegam, mas muitos turistas convencionais deixam de vir. Mas isso vale para destinos já tradicionais, como Londres (Olimpíadas 2012), Alemanha (Copa 2006) ou Canadá (Olimpíadas de Inverno de 2010). Para o Brasil, um atrativo como o Mundial muda o cenário.

Segundo a Polícia Federal, o País recebeu 298 mil turistas estrangeiros em junho de 2013. Em junho de 2014, o número subiu para 691,9 mil, aumento de 132%. Com as chegadas de julho, o número de turistas estrangeiros da Copa 2014 passou de 1 milhão, segundo o ministério do Turismo. Segundo pesquisa do Datafolha realizada em seis cidades-sede da Copa, 61% dos 2,2 mil estrangeiros entrevistados estavam no Brasil pela primeira vez. Essas pessoas comeram comida brasileira, interagiram com brasileiros, viram a arquitetura das cidades brasileiras, visitaram igrejas e museus brasileiros, foram a baladas e bares brasileiros. Ou seja, juntaram os pedaços do quebra cabeça, preencheram o retrato do país que era composto apenas por recortes isolados.

Torcedores da Inglaterra cantam e dançam em barco em Manaus (Leandro Beguoci/Trivela)
Torcedores da Inglaterra cantam e dançam em barco em Manaus (Leandro Beguoci/Trivela)

O cenário completo foi positivo. Ainda segundo pesquisa do Datafolha, 95% dos visitantes consultados gostaram da hospitalidade, 84% gostaram das atrações turísticas, 82% da segurança, 76% do transporte aéreo e 69% do transporte urbano. Só o preço dos hotéis (32% aprovaram, 27% reprovaram, 26% acharam regular e 16% não sabiam dizer) e o custo de vida (29% aprovaram, 29% reprovaram, 32% acharam regular e 10% não sabiam responder) que precisam de recuperação ou conselho de classe para passar de ano. O brasileiro ficou bem na fita: simpático para 98%, receptivo para 95% e honesto para 84%. No final, 69% dos entrevistados disseram que gostariam de morar no Brasil.

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Isso é muito mais importante do que discutir se eram turistas holandeses cheios da grana ou mochileiros argentinos que ficaram dormindo em seus trailers. Entrou muito dinheiro, mas a maior parte do dinheiro do turismo da Copa não vem apenas nos gastos diretos, mas na propaganda. São quase 1 milhão de turistas voltando para seus países falando bem do Brasil, contando histórias positivas sobre o que fizeram por aqui. Isso cria mais interesse de seu círculo de relacionamento. Quem tem uma lojinha de bairro conhece bem esse conceito, o da “propaganda boca a boca”.

Por isso, são extremamente nocivas declarações como as de George Irmes, presidente da seção fluminense da Associação Brasileira de Agência de Viagens. “O que aconteceu no Terreirão é a coisa mais degradante. Aquelas barracas de R$ 10 das Lojas Americanas, e aqueles argentinos sentados nas cadeirinhas de R$ 5 da Magal… É chocante. Vou ser sincero com vocês. Sou agente de viagens há 50 anos e não quero turista assim. A Espanha proibiu a entrada desse tipo de turista, porque esses caras não gastam dinheiro. Fico triste por estarmos cercados de primos pobres”, comentou, referindo-se aos argentinos que vieram acampar no Rio de Janeiro para estar na cidade da final da Copa.

Os ônibus e caminhões precisam recarregar as energias, e são muitos cabos pelo chão (Foto: Felipe Lobo/Trivela)
Argentinos acampados em São Paulo. Os ônibus e caminhões precisam recarregar as energias, e são muitos cabos pelo chão (Foto: Felipe Lobo/Trivela)

Além de preconceituosa e elitista, a declaração é contraproducente para sua indústria. Os grandes destinos turísticos vivem de atrair visitantes das mais diversas classes sociais, pensamentos políticos, orientação sexual, faixas etárias e religião. O Brasil precisa se preparar em infraestrutura – e, pela declaração de Irmes, em mentalidade – para receber turistas de todos esses tipos.

Aí começa o grande desafio do turismo brasileiro. O boom do setor com a Copa vem por inércia, é algo que vem no pacote quando se organiza o torneio. A questão é manter a boa imagem deixada e fazer que as boas impressões de quem veio ao Brasil seja mantida e disseminada no futuro. Porque viajar é desejo. Todos têm uma lista de países que deseja conhecer (eu tenho a minha, você tem a sua) e poucos conseguem riscar todos os itens dessa relação até o fim da vida. O desafio é estar presente nessas listas, estar na cabeça das pessoas, fazer parte do imaginário delas. Nem todo mundo consegue realizar o sonho de ir a Paris, mas a capital francesa está na lista de desejos de tanta gente que algumas pessoas colocam esse plano em prática, o que é suficiente para torná-la a cidade mais visitada do mundo.

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A promoção turística brasileira precisa mudar. Já houve melhoras nos últimos anos, quando aumentaram as campanhas contra o turismo sexual. Mas não é esse o único problema. O Brasil ainda não sabe completamente o que é fazer turismo, nem sabe o que tem em suas mãos.

Visitei duas vezes Belo Horizonte no último ano. Em ambas, ouvi de vários mineiros o mesmíssimo comentário: “O que você veio fazer? Não tem nada para fazer em ‘Belzonte’”. A resposta foi sempre a mesma: “Tem mais do que você imagina. O problema é que vocês mineiros que não sabem vender o que têm”. A capital mineira tem culinária de primeira, vida noturna, cidades históricas e Gruta da Lapinha a um bate-volta de distância, obras de Oscar Niemeyer em torno da Pampulha, Inhotim e Parque Estadual Serra do Rola Moça. É atração suficiente para ocupar um turista de cinco dias a uma semana com tranquilidade. Mas é preciso mostrar isso, valorizar isso e, principalmente, facilitar o acesso a isso.

A mesma lógica vale para outras cidades. A vida cultural e cosmopolita de São Paulo, o urbanismo de Curitiba, as particularidades regionais de Porto Alegre, a música das capitais nordestinas (cada uma tem a sua), a gastronomia amazônica de Manaus. Em diversos momentos, a indústria do turismo no Brasil age como se um visitante se interessasse apenas por beleza natural, praia e, com boa vontade, um centro histórico com construções coloniais. O País tem muito mais a oferecer, e os estrangeiros só terão fascínio por essas coisas quando o próprio brasileiro tiver.

Entrar na cabeça das pessoas é difícil, e o Brasil conseguiu com a boa repercussão da Copa entre os turistas. Agora, é preciso manter esse embalo, para crescer ainda mais. Porque não adianta nada um mês de bonança se a indústria turística brasileira voltar ao patamar em que estava antes.