Kaepernick tem a maior sequência de vitórias de um quarterback que nem entrou em campo

Para quem só via os fatos da intertemporada se viraram contra ele, o começo de ano do QB dos 49ers é surpreendentemente positivo

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O Minnesota Vikings é o único time invicto após  temporada 2016 da NFL. Claro, Sam Bradford não perdeu nenhuma de suas quatro partidas. Entre os quarterbacks que também venceram os jogos que disputaram estão Shaun Hill (Vikings) e Tom Brady (New England Patriots), que participaram de apenas uma partida cada. Mas nenhum QB tem vencido tanto neste início de temporada quanto Colin Kaepernick. E ele nem entrou em campo.

O armador do San Francisco 49ers foi anunciado como titular para o duelo contra o Buffalo Bills fora de casa. A escolha do técnico Chip Kelly soa óbvia, considerando que o time não tem conseguido bons resultados com Blaine Gabbert e que Kaepernick, por pior que tenha atuado nos últimos tempos, já foi competitivo um dia.

Ganhar a posição em um time que não dá a menor pinta de que disputará uma vaga nos playoffs (ainda que o Los Angeles Rams esteja na briga nesse momento, o que dá um ar de “tudo pode acontecer” nessa divisão) não parece um grande feito. Ainda mais porque muitos consideravam que Kaepernick realmente teria nova oportunidade após a contratação de Kelly. Mas o retorno, da forma como ocorre, é uma vitória.

Kaepernick foi o grande personagem da pré-temporada da NFL. Sua recusa em ficar em pé durante o hino norte-americano, como protesto à forma como as autoridades dos Estados Unidos tratam os negros, motivou um caso nacional. Vários outros atletas, de diversos esportes, repetiram o gesto. Muita gente importante se posicionou, dos dois lados da polêmica, criando um debate. E era justamente isso o que o quarterback dos 49ers disse que pretendia: criar o debate (afinal, seria muita ingenuidade acreditar que toda a sociedade mudaria só porque ele ficou de joelhos na hora do hino).

Gabbert foi o escolhido como titular nos primeiros jogos, mas perdeu a posição diante da falta de competitividade da equipe californiana. Kaepernick, que já havia tido sucesso ao motivar um debate nacional, acabou recuperando a posição da melhor forma: com torcedores e jornalistas se lembrando de que um dia ele foi bom. Ou seja, ele voltou como alguém desejado e que talvez até tenha apoio das arquibancadas.

É um clima muito diferente de como Kaepernick começou algumas de suas últimas temporadas. Em 2013, teve de lidar com as repercussões (e as expectativas criadas) de um comentário empolgado de Ron Jaworski, analista da ESPN que afirmou que o QB dos 49ers poderia se tornar o melhor da história. No ano seguinte, seu recesso foi ocupado pelas notícias de que teria jogado com contusão no final da temporada anterior. Em 2015, a polêmica foi pior, e extracampo. Ele passou toda a intertemporada afirmando que se preparava para destruir em campo, e acabou fazendo uma brincadeira de mal gosto com uma inundação em Houston.

Todos esses fatos se viraram contra Kaepernick. Alguns o viram como insensível, outros consideraram seu desempenho frustrante diante do potencial. Nesta temporada, a maré virou a seu favor. As polêmicas criadas acabaram indo a seu favor. E, ainda que ele siga tecnicamente mal após seu retorno aos gramados e a liga não veja mais futuro nele, ao menos pode dizer que conseguiu algumas vitórias nesse início de temporada.

Cidade do interior de NY decide manter estranho brasão com branco derrubando um indígena

A imagem não seria um sinal de opressão, mas de um momento de amizade

Whitesboro é uma cidade no interior do estado de Nova York e tem apenas 3,7 mil habitantes. Uma vila que poderia passar despercebida, não fosse pelo bizarro brasão que carrega orgulhosamente, mostrando um branco derrubando um índio. Um símbolo que causa controvérsia, mas que deve ser mantido após aprovação de 74% (157 dos 212 que compareceram) da população em um referendo realizado nesta semana.

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O argumento para a manutenção do símbolo é a justificativa oficial da imagem. O município foi fundado por Hugh White, que chegou ao território dos índios Oneida. Com o tempo, ele teria ganhado a confiança do chefe da tribo, que o desafiou para uma luta como sinal de amizade. White venceu, ganhando o respeito definitivo dos nativos para permanecer na região.

A imagem da luta foi a adotada como um símbolo de como a cidade acabou crescendo, mas a controvérsia vem de longe. O símbolo da cidade original mostrava White com as mãos no pescoço do indígena, como se o enforcasse. Em 1977, a prefeitura aceitou adaptar o desenho, colocando as mãos do fundador no ombro do nativo. Ainda assim, o brasão continua sendo visto como o retrato de opressão dos colonizadores sobre os índios.

De acordo com o último censo, 97,7% da população de Whitesboro se identifica como branca, 0,5% é negra, 0,3% é de origem asiática e apenas 0,03% (um indivíduo) é indígena.

Símbolo do município de Whitesboro
Símbolo do município de Whitesboro

Quatro textos para entender a relação entre esportes americanos e a comunidade negra

Uma seleção especial para esse Dia da Consciência Negra

O Dia da Consciência Negra ainda não é feriado nacional, mas centenas de cidades e alguns estados inteiros pararam nesta sexta aqui no Brasil. Nada mais justo para reforçar a importância histórica e cultural que os negros tiveram na sociedade brasileira, além de permitir um momento de reflexão sobre como esse papel nem sempre (em alguns casos, quase nunca) é valorizado ou reconhecido.

Nos Estados Unidos há elementos em que a situação é melhor que a brasileira, e outros em que é pior, pelas características específicas de cada país. Ainda assim, dá para dizer que existem semelhanças que podem ser usadas pelos brasileiros como inspiração ou alerta.

As ligas esportivas dos EUA são um campo farto de temas ligados à relação racional, e o ExtraTime trata disso com constância. Para o Dia da Consciência Negra aqui no Brasil, separamos alguns textos que mostram como os afro-americanos tiveram papel fundamental na construção desses esportes que tanto crescem entre o público brasileiro.

A esquecida história da quebra da barreira racial na NFL

É impossível imaginar o futebol americano sem atletas negros, e muito disso se deve a quatro pioneiros, lá na década de 1940

Fala-se tanto de Jackie Robinson porque nem todos entenderam seu legado

Dois dias após se celebrar a figura que representa o fim da intolerência no esporte, houve quem reclamasse de homenagens a Boston

O vídeo da NBA para homenagear Martin Luther King é de arrepiar

Cenas de basquete misturadas com o discurso “Eu Tenho um Sonho”? Claro, oras

PK Subban e a história dos negros na NHL

Esporte majoritariamente branco, o hóquei no gelo também contabiliza pioneiros e heróis de origem africana

Clique aqui para ver todos os textos do ExtraTime que teve o racismo ou atritos raciais como tema

Após ataques a Paris, é bom lembrar o que Kareem Abdul-Jabbar tem a dizer sobre terroristas

Comentários feitos após o ataque ao jornal Charlie Hebdo continuam válidos

Paris foi atacada violentamente pelo Estado Islâmico. O atentado levanta mais uma vez a discussão sobre as relações Ocidente e Oriente, islamismo e Europa. Já surgiram vozes acusando todo os muçulmanos ou os refugiados que deixaram a Síria e o Iraque justamente para fugir do que o EI tem feito em sua terra natal.

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Nessa hora, é importante lembrar o que Kareem Abdul-Jabbar, um dos maiores jogadores da história da NBA e muçulmano, tem a dizer sobre grupos terroristas e a religião de verdade. Os comentários foram feitos após o ataque ao jornal francês Charlie Hebdo e foram publicados pelo Extratime na época, mas continuam válidos.

Abdul-Jabbar: “Quando o KKK queima uma cruz, ninguém tem de dizer que não é ato cristão”
Kareem Abdul-Jabbar durante visita ao Brasil em 2012 (AP Photo/Victor R. Caivano)
Kareem Abdul-Jabbar durante visita ao Brasil em 2012 (AP Photo/Victor R. Caivano)

O Ocidente tem dificuldade de entender o islamismo. Aliás, só de tentar explicar o comportamento de uma religião com 1,3 bilhão de fieis por meio de uma única definição já indica como se sabe pouco do que pensam e fazem os seguidores do Islã. Por isso, acontecimentos como o ataque do Charlie Hebdo acabam se tornando um gancho para que se exponha, mais uma vez, o quão complexo é o cenário. E, nesse contexto, vale a pena ouvir o que Kareem Abdul-Jabbar tem a dizer.

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O ídolo do Los Angeles Lakers é mais do que “apenas” o maior pontuador da história da NBA. Abdul-Jabbar é formado em história na UCLA e, desde que encerrou a carreira, se tornou uma figura importante para falar de diversas causas, como a situação da comunidade negra e dos muçulmanos nos Estados Unidos. Era óbvio que ele se manifestaria sobre o que ocorreu em Paris nos últimos dias.

O ex-jogador escreveu um texto no site da revista Time. Selecionamos os trechos mais importantes, que seguem abaixo. O artigo completo, em inglês, está neste link. Confiram, pois vale a pena.

Islamismo

“Outro ato horrendo de terrorismo ocorreu e pessoas como eu, que estão na agenda dos jornalistas na categoria de ‘Muçulmanos Celebridades’ são procuradas para veementemente condenar, deslegitimar e explicar – mais uma vez – como esses atos bárbaros não estão relacionados ao Islã. Para mim, religião – não importa qual – é sobre pessoas querendo viver de forma humilde e moral para criar uma comunidade harmoniosa e promover tolerância e amizade com as pessoas de fora dessa comunidade religiosa. As regras de qualquer religião deveriam estar a serviço dessa meta. O Islã que eu aprendi e pratico faz isso.”

Interesses econômicos

“A violência cometida em nome da religião nunca é sobre a religião. É, em última instância, sobre dinheiro. (…) Esqueça os idiotas que cometem esses atos, eles não são nada além de drones controlados à distância por outros. Ao invés de sinais de rádio, seus pilotos usam dogmas selecionados para manipular suas ações. Eles pervertem o Alcorão por meio da omissão e da falsa interpretação.

(…) Quando alguém observa o interesse real desses ataques terroristas, claramente eles não são para mudar nosso comportamento. Os ataques às Torres Gêmeas não forçaram os EUA a adotarem o Islã. A condenação de Salman Rushdie não evitou a publicação de ‘Versos Satânicos’. (…) Os ataques em Paris, como muitos outros, não visavam mudar o comportamento do Ocidente, mas sim entrar arrogantemente em uma sala, se espreguiçar e esperar o surgimento de alguns suspiros de admiração. No caso, os suspiros são mais recrutas e mais doações para manter sua organização viva. Elas têm de provar sempre que são mais relevantes que o grupo terrorista concorrente. É apenas negócio.”

O Islã no debate

“Sabendo que os ataques terroristas não são sobre religião, chegamos a um ponto em que podemos parar de colocar o Islã dentro das discussões. Sei que não estamos lá ainda porque a maioria da população Ocidental não entende o islamismo. Todo o que veem são decapitações brutais, sequestros de meninas, massacres sangrentos de crianças em escolas e esses tiros. Naturalmente, eles ficam com medo quando ouvem a palavra ‘Islã’ ou veem alguém com alguma roupa tradicional muçulmana.

(…) Quando o Ku Klux Klan queima uma cruz no jardim da casa de uma família negra, cristãos importantes não são chamados para explicar como esses não são atos realmente cristãos. A maioria das pessoas percebeu que o KKK não representa os ensinamentos cristãos. É isso o que eu e outros muçulmanos tanto esperamos: o dia em que esses atos terroristas em nome do Profeta Maomé ou dos ensinamentos de Alá forem instantaneamente reconhecidos como criminosos disfarçados de muçulmanos.”

Comunidade indígena do Quebec propõe um novo distintivo para os Blackhawks

O símbolo causa desconforto por estereotipar a imagem dos nativo-americanos

O movimento da comunidade indígena contra a forma como ela própria é retratada no esporte é amplo. O Washington Redskins é o alvo mais recorrente, pela repercussão maior da NFL sobre as outras ligas e por usar um termo racista. Mas alguns símbolos estereotipados, comuns em outras equipes, também causam desconforto. E, por isso, a Assembleia das Primeiras Nações de Quebec e Labrador deram seu pitaco em como o Chicago Blackhawks vende sua imagem.

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Ghislain Picard, diretor da entidade, afirmou nesta sexta que apoiaria a ideia de troca do distintivo do time pelo desenho criado por Mike Ivall. Nele, o cocar é mantido, mas o rosto do indígena seria trocado por um gavião (“Blackhawks” significa “gavião negro”). Curiosamente, esse desenho não é novo. Foi criado em 2007 e Ivall vendeu ao Maplesoft Hawks, um time de hóquei infantil de Ottawa.

Distintivo proposto pela Assembleia das Primeiras Nações de Quebec e Labrador para o Chicago Blackhawks (Divulgação)
Distintivo proposto pela Assembleia das Primeiras Nações de Quebec e Labrador para o Chicago Blackhawks (Divulgação)

O Chicago recebeu o apelido “Black Hawks” (as palavras só foram unidas em 1986) de um de seus primeiros donos, Frederic McLaughlin. O empresário havia lutado na Primeira Guerra Mundial, servindo na Divisão Gavião Negro. O batalhão recebeu esse nome em homenagem ao chefe sauk que liderou seu povo em uma guerra contra o governo norte-americano em 1832.

Ao contrário do que ocorre com os Redskins, o desconforto dos indígenas com os Blackhawks é como símbolo, que reforça o estereótipo em torno dos nativo-americanos. É o mesmo motivo que tem motivado protestos contra o Chefe Wahoo, símbolo do Cleveland Indians que tem sido discretamente colocado de lado pela franquia, e contra o Chefe Noc-A-Homa, ex-mascote do Atlanta Braves.

Redskins usam o argumento mais estúpido do universo para defender seu nome

Clube basicamente admite que tem um nome pejorativo com a comunidade indígena

A briga do Washington Redskins para manter seu nome começa a ganhar capítulos de comédia pastelão. Nesta semana, o clube entrou na Justiça pelo direito de registrar comercialmente a marca “Redskins” (“pele-vermelha”), um termo que causa polêmica pela conotação racista que tem para os indígenas americanos.

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Primeiro, um pouco de contexto. O poder público não pode forçar a franquia a mudar de nome, por mais que seja essa a vontade. Por isso, o que o governo federal fez foi vetar o registro da marca “redskins”. A atitude tira o valor comercial do nome, o que seria um incentivo para o Washington adotar um outro mascote (leia mais sobre isso aqui).

Para rebater esse argumento, os Redskins adotaram o argumento mais estúpido possível. O clube lista uma série de empresas que puderam registrar nomes com conotação racista, sexista ou que tenha um nível grande de agressividade com algum grupo social. Casos da cerveja “Dumb Blonde” (“Loira Idiota”), do café “Big Titty Blend Coffee” (“Café Grandes Seios”), das grifes de roupas “Take Yo Panties Off” (“Tirando Suas Calcinhas”) e “Dengerous Negro” (“Negro Perigoso”), da confeitaria “Baked by a Negro” (“Feito por um Negro”), das bandas “Reformed Whores” (“Prostitutas Reformadas”) e “Nappy Roots” (algo como “Raízes Pixaim”, com uso proposital do “pixaim” para retratar o tom do termo), do tempero “Gringo Style Salsa” (“Salsa Estilo Gringo”) e de uma série de sites pornôs com referências a prostitutas, milfs e adolescentes no nome.

A linha de raciocínio do departamento jurídico dos Redskins é fácil de entender. E tem algum sentido. Afinal, o simples fato de ter um nome agressivo a algumas pessoas não impediu que outras empresas registrassem suas marcas. Mas qualquer aprofundamento no pensamento já mostra alguns problemas básicos, que deveriam derrubar essa ideia ainda na reunião de diretores do Washington:

1) O clube citou várias companhias, sem se atentar ao fato de que algumas delas usam os termos agressivos como forma de protesto contra discriminação, caso das bandas Reformed Whores (formada por mulheres) e Nappy Roots (formada por negros), ou mesmo para chamar a atenção a alguma causa, como o Big Titty Blend Coffee, que adotou esse nome porque destina US$ 1 de cada venda para a pesquisa ao combate do câncer de mama;

2) O processo dos Redskins coloca o clube no mesmo patamar de várias empresas pequenas, como se uma grande corporação, de repercussão nacional, não tivesse uma responsabilidade maior com certas questões;

3) E, o principal: ao colocar o nome “Redskins” ao lado de um monte de nomes claramente agressivos, a diretoria simplesmente admite que “redskins” é um nome racista. Durante toda a polêmica sobre o nome, a franquia argumentava que se tratava de uma homenagem e que muitos indígenas não se incomodavam com esse nome. Pode até ser, é uma linha de argumentação. Mas, ao usar um monte de empresas com nomes preconceituosos como modo de dizer que eles têm o direito a adorarem o “redskins”, a direção reconhece que o apelido da equipe também é preconceituoso. Como se dissessem: “tudo bem, temos um nome racista. Mas um monte de gente tem e vocês deixam”.

A questão, nesse caso, não é se os Redskins têm ou não o direito de usar seu nome. É simplesmente a estupidez dos dirigentes para defenderem sua causa.

 

O legado da Copa 2018 deveria ser o combate ao racismo na Rússia, mas esse trabalho está atrasado

De que adianta os estádios estarem com obras adiantadas se as instituições ainda fazem vistas grossas à intolerância?

“Uh uh uh uh uh uh uh”. O som é inconfundível e qualquer pessoa que conheça um pouco o padrão de comportamento de torcedores extremistas da Europa sabe do que se trata. É a suposta imitação do som de um macaco, tanto que ele só é emitido pelos ultras quando um jogador negro – normalmente do time visitante, ainda que até os do mandante já foram alvo – pega na bola ou está próximo da jogada. Foi assim com Emmanuel Frimpong durante a partida de seu time, o Ufa, contra o Spartak em Moscou pelo Campeonato Russo neste fim de semana.

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O ganense estava em uma jogada perto da bandeira de escanteio quando a torcida moscovita disparou os insultos. O jogador não se aguentou e fez um gesto obsceno, esguido de um xingamento. Frimpong foi expulso em uma atitude para lá de discutível. Árbitros são orientados a não deixarem jogadores atacarem torcedores, mas era bastante plausível interpretar o caso como fora do convencional.

Mas o problema maior, incrivelmente, não é o cartão vermelho a Frimpong. É como as instituições que organizam o futebol russo ajudam a alimentar o comportamento racista dos torcedores. O ganense foi suspenso por dois jogos pelo gesto, o que já é bem discutível, mas ficou pior.

Ficou pior porque ele foi o único. Frimpong até disse ter aceitado sua punição, mas o fato de ele ser o único não é aceitável. A Federação Russa abriu investigação sobre o caso, e os resultados foram anunciados nesta quinta. Segundo o chefe do comitê disciplinar da entidade, Artur Grigoryants, não houve nenhum problema na atitude da torcida do Spartak. “O delegado do jogo não notou nenhuma violação disciplinar pelos torcedores do Spartak em direção a Frimpong. Não houve racismo e não temos motivos para impor alguma sanção disciplinar contra o Spartak. Frimpong foi suspenso por dois jogos pelo gesto ofensivo que ele fez para as arquibancadas.”

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Se não encontraram evidência, foi por falta de procurar. Bastaria colocar “Frimpong Spartak” na busca do YouTube para encontrar o vídeo acima (e vários outros, diga-se) e ter toda a prova que precisa para entender o que aconteceu. Como definiu Frimpong, o resultado das “investigações” é “mais que uma piada”.

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O racismo é um problema antigo no futebol russo, mas o momento é particularmente delicado porque o país está a três anos de receber uma Copa do Mundo. E, se há um legado que o maior evento esportivo do planeta pode deixar no maior país do planeta, é criar uma cultura de integração racial nos estádios e na sociedade em geral. Por isso, as autoridades da Rússia deveriam mostrar-se enérgicas com essa questão, até como forma de expor a todos que tem tomado alguma atitude contra esse comportamento crônico. Mas preferiram fazer vista grossa, e até a Fifa teve de se manifestar, pedindo explicações à federação russa por que Frimpong foi suspenso.

Mas, aparentemente, combater o racismo é secundário para os mandachuvas do futebol russo. Uma pena, porque esse legado social seria muito mais enriquecedor e duradouro do que estar com várias obras de estádios adiantadas.

Ofereceram três bandeiras neutras em troca de uma confederada, mas ninguém aceitou

Torcedor da Nascar podia levar uma bandeira americana, uma de seu piloto favorito e uma do autódromo de Kentucky

Será longa a batalha da Nascar contra a bandeira confederada. Na esteira do massacre em uma igreja metodista africana em Charleston, Carolina do Sul, a categoria havia pedido para seus torcedores não levarem bandeiras confederadas aos autódromos. Não funcionou, e várias foram vistas em Sonoma e Daytona, as provas mais recentes do calendário. A estratégia para a Quacker State 400, em Kentucky, foi outra, e também não funcionou.

VEJA TAMBÉM: Entenda como surgiu o acidente mais espetacular da Nascar em 2015 e como o piloto saiu ileso

A administração do Kentucky Speedway surpreendeu ao pedir para os torcedores levarem bandeiras confederadas para a prova disputada no último sábado. No entanto, eles não queriam criar uma grande reunião de apoiadores do símbolo sulista na Guerra Civil Americana. O objetivo era fazer uma troca: a Nascar trocaria cada bandeira confederada por uma bandeira americana, uma do piloto favorito do torcedor e uma do autódromo.

A ideia é interessante, e criou uma atitude mais positiva em torno da eliminação da bandeira das corridas. No entanto, ninguém apareceu para fazer a troca. Apenas levaram para expor o símbolo confederado e reforçar a ideia de que não consideram esse um símbolo racista.

Será uma luta difícil, mas não dá para criticar a Nascar. Tomar uma atitude muito forte, como proibição, contra a bandeira confederada pode criar um clamor pelo símbolo e acabar tendo efeito contrário, fazendo com que mais torcedores se apeguem a ele. Defendê-lo vai contra a política – também acertada – de se mostrar uma categoria mais ambpla, aberta a diferentes grupos sociais.

A lição que Jackie Robinson deixou para todo o esporte (e a sociedade) dos EUA

Como todo 15 de abril, os jogadores da liga só usarão a camisa 42. Nada mais justo

Quinze de abril é sempre a mesma coisa. O número 42, aposentado de todas as equipes da MLB, tem um renascimento. E em grande estilo. Todos os jogadores da liga usam 42, como se todos fossem, por um dia, Jackie Robinson. Nada mais justo.

O shirtstop e segunda base do Brooklyn Dodgers ficou marcado como o primeiro jogador negro das grandes ligas. Ele abriu as portas para milhares de outros aparecerem, e não apenas no beisebol. Mas sua importância não se deve apenas ao fato de ele ter sido o primeiro. Ele foi um grande jogador, estreante do ano em 1946, MVP da Liga Nacional em 1949, seis vezes escolhido para o Jogo das Estrelas e campeão da World Series em 1955. Robinson não deixou margem alguma para qualquer racista que defendesse a superioridade de uma raça sobre outra.

Para marcar esse dia, vamos recapitular alguns textos que publicamos sobre esse ícone do esporte. Abaixo, alguns links rápidos. Em seguida, um texto sobre seu legado, e como ele foi atacado em outro acontecimento de um 15 de abril, o atentado da Maratona de Boston.

LEIA MAIS:
– Como Jackie Robinson ajuda a entender o caso Aranha
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– No Martin Luther King Day, é essencial lembrar a contribuição do beisebol para o Movimento dos Direitos Civis
– Por que o beisebol precisa reconquistar os centros das grandes cidades
– A esquecida história da quebra da barreira racial na NFL

Fala-se tanto de Jackie Robinson porque nem todos entenderam seu legado

por João Lima

“Não estou preocupado se você gosta ou não gosta de mim. Tudo que peço é que me respeite como um ser humano.” Sim, essa é mais uma coluna sobre Jackie Robinson. Por quê? Porque ele merece. E porque precisamos refletir algumas coisas que vão além do beisebol. A MLB dedica todo 15 de abril (é o “Jackie Robinson Day”, em que todos os jogadores usam o número que ele usava, o 42) ao primeiro negro a vestir uma camisa de um time profissional que não participasse da chamada “Negro League”. Robinson quebrou barreiras pelo que fez, pela luta que teve e, acima de tudo, pela coragem.

Talvez não se valorize o dia como ele deva. Talvez seja comum pensar que é só mais uma homenagem a mais um jogador. Deve ser essa era das redes sociais, que tornam tudo mais fácil e mais momentâneo. Mas não é bem assim. Ian Desmond, do Washington Nationals, nos ajuda a ter uma ideia melhor da importância da data: “É uma honra usar o número dele, mesmo que eu não mereça. Quando eu o coloco, significa algo para mim. Não é simplesmente usar porque colocaram no meu armário no vestiário. Quando eu uso, tem um significado muito grande para mim.”

Robinson, negro, filho de agricultores e pobre, tinha tudo para dar errado na vida. Pelo simples fato de ter nascido de uma cor “diferente” (da cor dos que estavam/estão no poder, pelo menos). Conseguiu cursar uma boa faculdade e jogou todos os esportes que você imaginar. Poderia ser o suficiente para ser considerado um vencedor na vida. Mas ele foi além.

Depois de servir no exército e jogar nas ligas para os negros, Robinson foi chamado para a MLB e aí começou sua fase iconoclasta. Sofreu preconceito dentro do próprio time e, ao redor da liga, nem se fala. Em atletas como Stan Musial encontrou defensores e pessoas de mentalidade justa e digna. Revolucionou a liga. Quanto a números, prêmios e jogos, foi estreante do ano, melhor jogador da Liga Nacional dois anos depois, ajudou a levar o Brooklyn Dodgers a seu primeiro título.

Mas, no fim das contas, o que aprendemos com Jackie? É ótimo homenagear uma figura importantíssima para qualquer esporte americano. Mas que tal por em prática um pouco do que ele fez enquanto vivo?

No mesmo dia que se comemorava o Jackie Robinson Day, a cidade de Boston sofria um atentado bizarro. Alguém querendo chamar atenção? Um novo grupo querendo crescer na bizarra “indústria do terror”? Ainda não se sabe. Mas nós vimos que a explosão de uma bomba levou a vida de uma criança de 8 anos. Oito anos.

Mas então me aparece o New York Yankees homenageando o maior rival: o Boston Red Sox. O time toca Sweet Caroline, música mais que representativa para os torcedores meias-vermelhas no Yankee Stadium (clique aqui e veja). Atitude nobre. Atitude de apoio e de se encher os olhos de orgulho. Mas nem todo mundo achou isso. Cansei de perceber torcedores Yankees achando absurdo e que isso nunca deveria acontecer (e tenho certeza que não é exclusividade de time aqui. Qualquer outra rivalidade teria os mesmos argumentos babacas por parte de alguns torcedores).

Como assim? Estamos comemorando o Jackie Robinson Day na mesma semana que o pessoal não consegue tolerar uma música em homenagem ao maior rival? Em que mundo estamos?

Nosso país passa por um momento em que qualquer notícia a respeito da diversidade vira tema de briga em redes sociais, cria novas inimizades e mais ódio. O respeito, que Jackie tanto pedia, parece não existir mais. Talvez estejamos fazendo muito pouco por ele. Ainda não vi nenhum atleta do beisebol assumir ser homossexual. Certamente são vários. Mas eles não têm coragem, claro o mundo respira intolerância e ódio.

Isso tudo mais de meio século depois de Jackie ter nos presenteado com sua capacidade incrível de lutar. E ele está, certamente, vendo tudo de algum lugar. E torcendo para que você mude. Porque ele mudou muita coisa, mas não pôde fazer tudo sozinho.

Enquanto autoridades fingirem que não veem o racismo, não adianta Elias prestar queixa contra González

As instituições têm os elementos para tomar as atitudes necessárias, mas preferem expor a vítima até ela se tornar vilã

Jogadores do Corinthians e do Danubio discutem. O assunto está quente, e pela reação de Elias no meio do bolo, dá para imaginar do que se trata. O empurra-empurra segue por um minuto sem que ninguém apareça para evitar uma confusão maior. Quando os ânimos esfriam, o volante do Corinthians se direciona ao árbitro e conta que foi chamado de “macaco”. O árbitro Diego Haro diz que não viu, e continua se preocupando mais com o jogador uruguaio que está sendo colocado na maca.

VEJA MAIS: Por que chamar negro de macaco é racismo?

A atitude do juiz diz muito sobre o porquê de casos de injúria racial serem tão recorrentes no futebol. O peruano foi mal durante toda a partida, muitas vezes por interpretar erradamente as jogadas ou não ter a coragem de tomar atitudes mais duras no aspecto disciplinar. Mas, no caso da ofensa de Cristián González a Elias, ele faz questão de não estar por perto da confusão, acabou não vendo o que ocorreu, não fez força para se inteirar após ser informado e já tem a desculpa perfeita para lavar as mãos em sua súmula.

Haro errou, mas não está sozinho. Ele é apenas o elemento final de um sistema covarde  que é feito para não se combater o racismo em campo. O delegado da Conmebol, por exemplo, tentou mostrar surpresa ao “descobrir” por meio de jornalistas brasileiros que “macaco” é um xingamento racista no Brasil (o atacante Guerrero, quando soube dessa reação do dirigente, afirmou que “macaco é xingamento em qualquer lugar”). Roberto de Andrade, presidente do Corinthians, disse que o clube deixou na mão de Elias a decisão de prestar queixa contra González e aceitava a ideia de que “o que acontece em campo fica no campo”.

É um círculo já comum. As autoridades civis podem fazer algum barulho se forem acionadas, mas no final acabarão liberando o jogador. Os clubes convenientemente largam a decisão sobre a ida à delegacia na mão do atleta ofendido, como se eles não tivessem responsabilidade em dar suporte se um funcionário foi ofendido. As federações fingem que não veem nada e usam a burocracia para justificar a falta de atitude quando há alguma pressão.

ABSURDO: Em Minas, goleiro é chamado de macaco pela torcida e ainda é expulso

Esse cenário ocorre em vários casos de racismo, sobretudo no futebol internacional. A Uefa costuma punir esse tipo de situação com multas, geralmente em valores perfeitamente acessíveis a quem cometeu o crime. A Conmebol não foi diferente. Por exemplo, o Real Garcilaso foi multado em apenas R$ 12 mil e uma bronca (“se fizer de novo, vou tirar mando de campo, entendeu?”) pelo xingamento generalizado ao cruzeirense Tinga no ano passado.

Nesse aspecto, algumas punições que ocorreram no Brasil foram surpreendentemente duras. O Grêmio foi eliminado na Copa do Brasil e o Esportivo de Bento Gonçalves foi rebaixado no Gauchão por perda de pontos decorrentes de xingamentos racistas de torcedores. E é esse tipo de medida que realmente pode ter efeito.

Dentro desse universo em que todos parecem se mobilizar para fazer vista grossa ao racismo, a vítima se torna a parte mais frágil. Ir à delegacia é a atitude correta, mas é sempre uma decisão colocada como individual. O atleta ofendido se vê obrigado a lutar sozinho por uma causa que todos deveriam defender. Isso o deixa exposto, e muitas vezes comprar a briga se volta contra ele. A torcida pode reforçar o discurso racista quando quiser atacá-lo (só lembrar como Aranha sofreu ataques racistas de alguns santistas quando foi ao Palmeiras). A imprensa pode usar o caso para criar uma imagem de mártir ou de líder de uma causa que talvez o jogador não queira para si. As entidades podem ficar incomodadas prejudicar o clube ou o próprio atleta no decorrer da competição.

Por isso, discutir se Elias acerta ou não ao ir à delegacia é algo menor. Ele deveria prestar a queixa contra González e reforçar a luta contra o racismo, mas é difícil condenar alguém que está em posição tão fragilizada. Até porque não é preciso um boletim de ocorrência ou uma frase a mais na súmula do árbitro para que se saiba o que ocorreu. As imagens estão aí, e as instituições podem perfeitamente tomar as atitudes necessárias sem obrigar a vítima a se expor. Então, que tomem.

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