Futebol mambembe: veja como era difícil comprar a camisa do seu time em 1988

As táticas incluíam telefonar para o roupeiro, comprar diretamente dos jogadores depois dos jogos ou até mandar um cheque pelo correio

Às vezes não parece, mas o mundo de hoje é melhor que o do passado em vários aspectos. Não é uma questão do futebol de raiz x futebol moderno, um debate que se desmembra também em arenas x estádios tradicionais, torcedores-clientes x torcedores-torcedores ou autenticidade x marketing. É uma questão que um pouco de profissionalismo e organização é bom, simples assim. E isso pode ser visto em um ato dos mais singelos, como comprar a camisa oficial de seu clube.

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O amigo Humberto Peron, editor da revista Monet, achou uma preciosidade e a publicou em pedaços em seu Twitter. Uma reportagem da revista Placar Mais (nome da Placar no finalzinho dos anos 80) de dezembro de 1988 mostrando o que era preciso fazer para comprar a camisa dos times da Copa União (Campeonato Brasileiro) daquele ano. Era um outro mundo, em que era preciso fazer muito esforço para não comprar uma peça pirata. Confira:

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Placar 1988_venda de camisas

Veja um apanhado das melhores histórias:

– Corinthians: “A chave se chama Miranda, roupeiro do time. Ele vende até por telefone”;

– Cruzeiro: “Como no caso do rival Galo, uma boa pedida é falar com os jogadores do time. Eles têm seis camisas que podem distribuir à vontade”;

– Fluminense: “A Flu-Boutique é a principal revendedora do clube. Também atende aos pedidos por carta. Ou procurando o roupeiro Chimbica”; “Preço: com o roupeiro é mais barato: Cz$ 4 mil. Na loja, sai por Cz$ 10,9 mil a listrada e Cz$ 8,6 mil a branca”;

– Goiás: “Os jogadores mal têm camisas suficientes para utilizar nos jogos. Estão proibidos de trocá-las ou vendê-las no final das partidas”;

– Guarani: “O lateral-esquerdo Élcio é o encarregado das vendas depois dos jogos”;

– Portuguesa: “No Canindé, onde cada jogador tem uma cota de dez camisas para vender, ou escrevendo para o goleiro Waldir Peres, presidente da caixinha”;

– Santa Cruz: “O encarregado das vendas é o lateral-esquerdo Lóti. Ele atende tanto no clube como por carta”;

– Em vários clubes, como Santos, Sport e São Paulo, o melhor jeito era enviar um cheque pelo correio;

– Os números também chamam a atenção. O Corinthians vendia 350 camisas por mês. O Internacional comercializava apenas 90 e o Cruzeiro, só 80.

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Basicamente, não havia sistema de distribuição das camisas para as lojas. Os fabricantes (e, na época, os clubes já tinham fornecedores oficiais) enviavam remessas aos clubes e por lá elas ficavam. Algumas equipes montavam uma lojinha na sede e só. O resto era resolver com os próprios jogadores ou com o roupeiro.

Era um futebol quase mambembe, em um nível que o desconforto causado é muito maior que o ar romântico. Afinal, o estádio com arquibancada de concreto, torcida em pé e ninguém tirando selfie é legal, mas vender a camisa oficial em qualquer loja esportiva da cidade é o mínimo que se espera em 2015.

Atualização às 14h46

Um lado positivo desse universo mambembe. A maioria das camisas custavam cerca de Cz$ 7 mil. Considerando que a Placar Mais custava Cz$ 750, um uniforme oficial era menos de dez vezes o valor de uma revista (sendo que a Placar mais tinha papel de baixa qualidade pra ter um preço mais acessível que as revistas normais da época). Hoje, a Placar custa R$ 13. Ou seja, dá para projetar que as camisas oficiais custavam o equivalente a pouco mais de R$ 100.

Esses são os confrontos das quartas de final da Copa do Brasil

Teremos a reedição de uma final de Campeonato Brasileiro. E é possível dois dérbis locais nas semifinais

Foi só na sorte. Não teve cabeça-de-chave, direcionamento para evitar confrontos de clubes de um mesmo estado, muito menos direcionamento para forçar esses dérbis locais, não teve polêmica vazia com modelo se atrapalhando. A CBF fez, nesta segunda, o sorteio dos confrontos das quartas de final da Copa do Brasil e valeu o que as bolinhas disseram.

Os duelos serão esses (o primeiro time tem o mando de campo no jogo de ida):

São Paulo x Vasco
Figueirense x Santos
Internacional x Palmeiras
Grêmio x Fluminense

Os jogos de ida serão em 23 e 24 de setembro, e os de volta na semana seguinte, em 30 de setembro e 1º de outubro.

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A Final Caipira surgiu como vergonha, mas ajudou a reconstruir o futebol paulista nos anos 90

Parecia um sinal da decadência total de São Paulo, mas indicou os caminhos do renascimento

Podiam ser Guarani, Ponte Preta, Inter de Limeira, São José, XV de Piracicaba, São Bento, Botafogo de Ribeirão Preto ou Ferroviária. Mas eram Bragantino e Novorizontino que entravam em campo naquele 26 de agosto de 1990 para decidir quem era o melhor time de São Paulo. Duas equipes relativamente novatas no estadual. O Leão de Bragança tivera uma rápida passagem na década de 1960 e voltara ao convívio dos grandes apenas em 1989. O Tigre de Novo Horizonte era desconhecido até 1986, quando estreou na primeira divisão.

Por isso, São Paulo não sabia direito o que achar de sua primeira final do interior. Havia um certo orgulho de ver duas equipes de pouca tradição chegarem à decisão estadual, como se isso reforçasse a crença de que a pujança do futebol bandeirante (não há nada mais paulista que colocar “pujança” e “bandeirante” na mesma frase, mesmo sem ser em ano eleitoral) se deve sobretudo à força dos pequenos. Ao mesmo tempo, ficava uma sensação de que os grandes estavam decadentes, um pensamento que fazia todo o sentido há 25 anos.

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Considerando o cenário geral, o Rio havia sido, de longe, o estado mais vencedor no futebol brasileiro nos anos anteriores. Entre 1980 e 89, o Flamengo conquistou o Brasileirão três ou quatro vezes (depende da versão da história que cada um adota) e o mundo, enquanto Vasco e Fluminense levaram um título nacional cada. Além disso, cruzmaltinos e tricolores tiveram momentos especiais no Carioca, os botafoguenses saíram de 21 anos de fila, os banguenses chegaram a uma final nacional e o América ficou entre os quatro melhores do Brasil.

A situação não parecia tão diferente no primeiro semestre de 1990. O São Paulo, que havia sido vice-campeão brasileiro no ano anterior, foi eliminado na repescagem do Paulistão e caiu no grupo dos times mais fracos para a edição de 1991. O Santos havia sido inócuo. Corinthians e Palmeiras dominaram o campeonato no começo, mas perderam fôlego na reta final. Para piorar, o fim de semana anterior ao da Final Caipira teve a primeira rodada do Brasileirão (sim, o calendário encavalou) com uma hecatombe para os grandes: o Corinthians tomou 3 a 0 do Grêmio, mesmo placar da derrota da Portuguesa para o Fluminense, o São Paulo caiu em casa para o Atlético Mineiro e o Santos perdeu do Náutico nos Aflitos (o Palmeiras teve seu jogo adiado). Os únicos paulistas a pontuarem foram São José (1 a 1 com o Goiás) e a Inter de Limeira (2 a 1 no Bahia).

Tudo isso estava vivo na cabeça dos torcedores quando Bragantino e Novorizontino decidiram o Paulistão de 1990. Duas equipes que fizeram boas campanhas, mas que pareciam estar ali por aproveitar as circunstâncias. Não era bem assim. Na época, o Bragantino até havia mostrado força em 1989 (semifinalista do estadual e campeão da Série B nacional), mas pareciam times do interior como tantos outros: uma reunião de desconhecidos com refugos procurando oportunidade e um ou outro nome realmente promissor. Eram mais que isso.

Juntas, as duas equipes tinham dez jogadores que teriam passagem pela seleção brasileira nos anos seguintes: Paulo Sérgio, Márcio Santos, Odair e Maurício (esse último só foi convocado, não entrou em campo) no Novorizontino e Mauro Silva, Gil Baiano, Mazinho, Sílvio, Robert e João Santos pelo Bragantino. Três deles, Paulo Sérgio, Márcio Santos e Mauro Silva, fariam parte do elenco que levou o Brasil ao tetra na Copa de 1994. No banco, os técnicos Nelsinho Baptista e Vanderlei Luxemburgo tinham a oportunidade de mostrar ao Brasil seu trabalho.

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Ninguém podia adivinhar que tantos nomes da Final Caipira teriam futuro. Por isso, a reação imediata dos grandes foi se organizar (para os padrões da época). Eles ainda aproveitaram a onda de capitalização do futebol brasileiro – entrada de investidores e aumento dos valores pagos pela TV e pelos patrocinadores – para reverter a lógica da década anterior. Entre 1990 e 2008, só houve um Brasileirão (o de 1992) sem nenhum representante de São Paulo entre os dois primeiros colocados.

O curioso é que muito do sucesso paulista passou pelos nomes da decisão interiorana de 1990. Após atingir o fundo do poço naquele Paulistão, o São Paulo fez uma limpeza em seu elenco e deu espaço a garotos. Em uma formação bastante ofensiva, Telê Santana precisou de jogadores que topassem carregar o piano no meio-campo, casos de Pintado, ex-Bragantino, e Luiz Carlos Goiano, ex-Novorizontino. Essa fórmula levou o Tricolor a ganhar quase tudo nos três anos seguintes. O Corinthians foi buscar Nelsinho, técnico do Tigre, para conquistar seu primeiro título nacional já em 1990. O Palmeiras saiu dos 17 anos de fila tendo o comando de Luxemburgo, técnico campeão pelo Bragantino. Até as glórias do Santos tiveram alguma ligação com a final caipira, com o meia Robert participando da campanha do vice brasileiro de 1995 e do título nacional de 2002.

Outros personagens da Final Caipira estão em posição de destaque no futebol pernambucano. Nei, zagueiro do Bragantino, é executivo de futebol do Sport. O goleiro Marcelo, também do Bragantino, é o técnico do Santa Cruz. Franklin, atacante do Alvinegro, inventou a comemoração “Nana, neném” em 1991, fez carreira na Alemanha e é pai de Leonardo Bittencourt, destaque da seleção alemã nas categorias de base.

Esses nomes mostram o enorme legado deixado pela Final Caipira. Por isso, o Bragantino x Novorizontino não deve completar seu 25º aniversário apenas como uma curiosidade. De alguma forma, aqueles dois times deram uma mão na mudança de rumos do futebol paulista – e, por consequência, do brasileiro – na década seguinte.

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O São Paulo mostrou que acredita em si, e deu motivos para a torcida fazer o mesmo

A crença em si próprio fez São Paulo superar seus próprios problemas e ter a melhor atuação na temporada

Poderíamos começar esse texto com considerações táticas sobre como o São Paulo se organizou sem Michel Bastos e Luis Fabiano para ganhar do Cruzeiro. Poderíamos falar dos mais de 66 mil torcedores que foram ao Morumbi e protagonizaram o maior público do Brasil no ano. Poderíamos até falar de Centurión, e como ele já deveria ter mais espaço nesse time. Mas tudo isso é secundário diante de algo maior: a crença.

O maior motivo para a vitória do São Paulo não foi tático ou técnico, foi psicológico. O time continua tendo alguns problemas, como a falta de contundência de Alexandre Pato na hora de finalizar ou a dificuldade de Ganso deslanchar em 2015. A defesa vez ou outra deixa buracos que dão a impressão que o adversário pode chegar ao gol assim que acertar o contra-ataque. Seriam motivos para tirar confiança da equipe, deixá-la mais conservadora, buscando apenas o suficiente para um resultado magro. Não foi o que ocorreu.

O São Paulo jogou com a intensidade e o desprendimento mental de quem via que seu futuro na Libertadores estava em jogo naqueles 90 minutos, como se não houvesse a partida do Mineirão. O time acreditou em suas forças, e essa confiança ajudou a minimizar os problemas que os são-paulinos ainda têm.

Bruno, um dos jogadores mais contestados do elenco, foi um dos destaques, com atuação merecidamente premiada com uma assistência. Centurión às vezes é estabanado, mas é essa impulsividade que faz o argentino um jogador interessante desse grupo, botando fogo no time e na torcida. Souza mostrou um futebol mais parecido com o de 2014, que lhe valeu convocações para a Seleção.

Do outro lado, o Cruzeiro era burocrático. Entrou em campo pensando mais nos 90 minutos do Mineirão do que nos do Morumbi. Em alguns momentos mostrou bom toque de bola e capacidade de articular boas jogadas, mas não sustentava essa postura e rapidamente se deixava acuar.

O resultado disso foi uma partida de pressão são-paulina, que provavelmente teria um placar mais elástico se Michel Bastos e Luís Fabiano estivessem em campo, ou se o goleiro cruzeirense Fábio não estivesse. O gol solitário a poucos minutos do final serviram para dar um ar épico e reforçar a insistência tricolor durante o jogo todo, ainda que mostrasse como uma boa atuação do São Paulo quase culminou em um empate que seria bastante preocupante.

De qualquer forma, ficou claro que o time acredita em si próprio, a despeito de seus problemas. Talvez a torcida tenha aprendido a acreditar um pouco também, e isso pode fazer a diferença para esse São Paulo caminhar uma fase a mais ou a menos na Libertadores 2015.

A celebração que dá esperança aos são-paulinos é a mesma que preocupa

Pode representar a virada psicológica do time, mas também mostra que atuação ruim não é falta de vontade

Todos gritavam. O som saía do fígado, da alma. Não era só alegria, era também alívio. Um alívio sincero. Torcedores no Uruguai pulavam nas arquibancadas do modesto estádio Luis Franzini, torcedores em casa acordavam seus familiares de susto com gritos, jogadores pulavam e choravam no gramado. O São Paulo conseguia vencer um time todo desmantelado do Danubio com um gol aos 45 minutos do segundo tempo e afastava um pouco uma eliminação que parecia bastante possível instantes antes.

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A torcida ficar em êxtase e ter dificuldade para dormir nesta quarta é normal. E ela ainda se sentiu satisfeita ao ver como os jogadores tinham sentimento parecido. Com o apito final, muitos caíram no chão comemorando. Eles se importavam com aquile resultado, sentiam o mesmo que o torcedor. Mas, nesse cozidão de sensações que virou os minutos da virada de 15 para 16 de abril, é difícil tirar uma conclusão racional do que os 2 a 1 do Tricolor sobre o Danubio significaram. É a boa e velha história do copo pela metade, cheio e vazio em doses iguais.

Quando ocorre uma vitória cardíaca em jogo importante, a reação imediata é de ver a metade cheia do copo. Afinal, é automático pensar que ver o vexame tão próximo e conseguir evitá-lo no último minuto cria um novo momento psicológico no elenco são-paulino. É um daqueles lances que podem remobilizar o elenco, dar confiança ao time para buscar a classificação e seguir firme no mata-mata.

No entanto, também não se pode esquecer o futebol paupérrimo apresentado em campo. As bolas que foram utilizadas devem ter sido retiradas de maca após a partida, de tanto que elas apanharam dos dois times. Um jogo feio, de equipes apáticas, sem imaginação, sem qualquer sentido coletivo. Um torcedor cínico ou desconfiado poderia perfeitamente acusar os jogadores tricolores de estarem fazendo corpo mole. Mas a comemoração efusiva e sincera no gramado mostram que não havia nada disso. O desempenho era ruim porque eles não estavam conseguindo fazer nada melhor.

Por isso, a comemoração redentora dos jogadores apontam um novo momento para esse São Paulo, mas também acendem o alerta para o modo como dificuldade técnica e tática muitas vezes supera a motivação dos atletas. Ainda não dá para cravar o que se pode tirar para os confrontos decisivos contra Santos e Corinthians. É momento só de o torcedor tricolor se juntar aos jogadores e curtir um pouco esse alívio.

Por que a dura de Gabriela Moreira no torcedor do Palmeiras é importante

Por que a dura da repórter no torcedor é algo necessário em uma sociedade que ainda não entende os efeitos da homofobia

Gabriela Moreira é uma das melhores repórteres esportivas da TV brasileira. E não é uma das melhores repórteres mulheres, é uma das melhores repórteres no geral. Quando fazia parte da equipe carioca da ESPN Brasil, revelou várias irregularidades na organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Ela já merecia reconhecimento do público por isso, mas muita gente só prestou atenção a seu trabalho nesta quarta, por causa da bronca que ela deu em um torcedor do Palmeiras antes do clássico contra o São Paulo, no Allianz Parque. Se você não assistiu à cena, clique no link e veja.

Agora temos mais um bom motivo para reconhecer o seu trabalho. A atitude da repórter foi importante, ainda mais em uma sociedade que tem dificuldade em entender os efeitos de pequenas ações na criação de um ambiente de homofobia muito mais amplo e perigoso. Muita gente não entende qual o problema da “brincadeira” do torcedor palmeirense e talvez esteja praguejando contra a jornalista por moralismo exagerado.

Minutos depois, dentro do Allianz Parque, a torcida verde usou o mesmo adjetivo do entrevistado do vídeo acima sempre que Rogério Ceni ia chutar a bola. Uma atitude que se tornou comum em estádios brasileiros (e que já fez o STJD ameaçar o Corinthians de punição). Uma atitude que pode ter tirado um pouco da alegria de todos os palmeirenses gays que têm motivos para se sentir atingidos e deixaram de ter a felicidade completa de uma vitória contundente contra um grande rival.

Como a Trivela bate nessa tecla há um bom tempo, vamos relembrar um texto nosso, publicado em 13 de março do ano passado, explicando por que a sociedade precisa tomar cuidado com essa homofobia que parece inocente, mas não é.

Por que “bicha” é xingamento?
Manifestação dos torcedores do St. Pauli contra homofobia
Manifestação dos torcedores do St. Pauli contra homofobia

por Leandro Beguoci

Os torcedores do Corinthians que chamaram Rogério Ceni de bicha, sistematicamente, provavelmente não sabem. Mas o ato foi tão ruim para eles quanto para o rival são-paulino.

Houve uma época em que os jogadores do Ajax eram recebidos pelos rivais ao som de vazamentos de gás. Os rivais do time de Amsterdã imitavam o som com a boca e tentavam transformar o estádio numa gigantesca câmara de extermínio, de mentirinha. A razão era simples e horrível. Ao longo dos anos, os judeus holandeses se identificaram com a equipe. Até hoje, alguns dos seus torcedores mais ardorosos, mesmo quando não têm nenhuma relação com o judaísmo, se identificam como “Os Judeus”. Grosso modo, é um equivalente aos fiéis corintianos. Mesmo um torcedor ateu ou agnóstico do time do Parque São Jorge se identifica como fiel – inclusive o que só acredita em Deus ou em alguma energia durante pouquíssimos segundos de uma final de campeonato.

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Os rivais do Ajax imitavam o som de gás porque, como quase todo mundo sabe, aproximadamente 6 milhões de judeus foram exterminados na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Muitos deles foram envenenados e morreram em câmaras de gás. A Holanda foi um dos países mais afetados pelo extermínio. Antes da invasão alemã e do colaboracionismo de autoridades do país, cerca de 155 mil judeus viviam por lá. Depois da guerra, só restavam 14,3 mil. Muitos foram mortos em Amsterdam. Outros tiveram de enfrentar longas jornadas de trem até os campos de concentração. Uma dessas pessoas foi a menina Anne Frank, cujo diário se tornou um dos testemunhos mais fortes e dolorosos de um período medonho da história. Embora ela fosse alemã, a família vivia na Holanda.

Torcida do Ajax leva bandeiras de Israel ao jogo contra o Maccabi Tel Aviv em Amsterdã, em 2004

Apesar dessa história horrível, ainda hoje alguns rivais do Ajax cantam “Lá vai o trem do Ajax para Auschwitz”, em referência a um dos maiores campos de extermínio da história. E isso acontece mesmo na Holanda, um país liberal e tolerante. Isso mostra que algumas questões continuam mal resolvidas. O antissemitismo, afinal, continua existindo, embora mais tímido.

E isso, claro, não acontece só na Holanda. Porque isso é um padrão: transformar uma das características de uma pessoa em uma ofensa contra essa mesma pessoa. O xingamento , frequentemente repetido, coloca o ofendido em uma posição inferior no mundo. De tanto ouvir frases sobre como os judeus são ruins, algumas pessoas se sentem confortáveis em repetir o som que matou milhões de pessoas para os descendentes dessas mesmas pessoas. O adversário vira inimigo. Ele perde uma porção da humanidade simplesmente porque é diferente de mim. E, ao perder uma parte da humanidade, ele me autoriza a fazer o que eu quiser com ele.

Ou, de uma forma muito esquemática: essa pessoa é judia e torcedora do Ajax. Eu não sou judeu e sou rival do Ajax. Portanto, não ser judeu e não torcer para o Ajax me colocam numa posição melhor, superior. Eu posso subjugá-la, mesmo que seja com palavras. A rivalidade me autoriza a humilhá-la, a fazê-la sofrer. Eu sei que não é tão direto assim. A vida é mais sutil. Talvez quem xingue nem pense nessas coisas, mas o efeito final é o mesmo. Um xingamento é uma humilhação porque o xingamento cria uma escala de diferença. O ofendido se torna inferior ao ofensor. Faça um exercício simples: pense no quanto você se sentiu humilhado quando foi ofendido na escola porque era gordo, porque era magro, porque tinha dente torto. Pense no que você sentiu. Pense em como você se sentiu à parte do restante dos seus colegas. E pense que, de repente, 20, 30 mil pessoas começam a cantar em todos os jogos “gordo nojento, gordo suado, gordo escroto” para ofender um rival do time adversário.

Era preciso fazer essa introdução para falar sobre racismo e homofobia nos estádios do Brasil e da América Latina. Em cada país, a intolerância e o ódio se manifestam de alguma forma. Não nascem do nada. Têm causas, têm raízes que às vezes nem nos damos conta, e acabam ganhando expressão no futebol. O professor Hilário Franco Júnior, no fantástico livro “A Dança dos Deuses”, explicou muito melhor do que eu como a violência, física e verbal nos estádios, mudou ao longo dos anos, seguindo algo nefasto que acontecia do lado de fora dos gramados. Ele também mostra que as coisas mudam, e continuam mudando. Só que, hoje, nós gostamos de dizer que chamar um jogador de bicha sempre foi assim, sempre será assim e nunca mudará. Mas é preciso pensar. Por que bicha é xingamento? Por que algumas pessoas insistem em comparar negros a macacos? O que transformar isso em ofensa diz sobre nós mesmos?

O grito de “bicha, bicha, bicha”, contra o principal jogador da equipe rival, contra o atleta mais controverso do seu adversário, em um estádio lotado, só esquenta ainda mais esse caldo de ódio – mas tão confortável para gente violenta e mesquinha

A comparação entre negros e macacos é mais simples, sem sutilezas. A gente pode não se dar conta disso, mas estamos falando que a outra pessoa é um bicho. Um animal. Pode parecer gozação de bar, pode parecer inofensivo, mas foi exatamente isso, historicamente, que justificou a escravidão e a morte de milhões de pessoas. Afinal, como você escraviza alguém? Rebaixando essa pessoa à condição de coisa, de besta. Nos EUA e no Brasil, isso foi claro. Negro igual a bicho e bicho igual a uma propriedade que eu posso dispor como eu quiser. Mas também aconteceu na África e no Oriente Médio. Para justificar a escravidão de pessoas que viviam no mesmo lugar, às vezes da mesma cor, era preciso transformar essas pessoas em rivais de ódio, em rivais torpes, e puni-los com a perda eterna de liberdade. É preciso tirar dessa pessoa aquilo que a faz igual a mim.

Ao longo dos anos, felizmente, estamos aprendendo que negro não é coisa, não é bicho e tem os mesmos direitos que qualquer outra pessoa. O Brasil até conseguiu dar grandes passos, diminuindo drasticamente o ódio, mas ainda não conseguiu dar igualdade de oportunidades às pessoas. Alguns estudos recentes mostram que descendentes de escravos, sem políticas públicas claras, podem levar décadas para chegar ao que hoje chamamos de classe média alta. Afinal, seus pais, avós e bisavós partiram de menos do que nada. Enquanto não alcançarmos essa igualdade de condições, talvez a gente ainda conviva com casos de racismo abjetos. Porque os negros, enquanto estiverem nos trabalhos mais mal pagos, vão continuar sendo vistos como preguiçosos, indolentes, que não se esforçam suficientemente. Como pessoas, no final das contas, piores do que aquelas pessoas que nós achamos que somos: trabalhadores, esforçados, dedicados. Mas nós partimos de outro lugar. E, infelizmente, a cor da pele foi critério durante muito tempo para contratar alguém ou para promover alguém em uma empresa. A gente gostaria que fosse diferente? Claro que sim. Mas as coisas são como são. Ao tratar o racismo como caso menor, nós compactuamos com uma longa história de sofrimento e humilhação.

Tinga, vítima de racismo na Libertadores deste ano: macaco não é apelido carinhoso. Não mesmo

E então chegamos à homofobia nos estádios. Eu sei que muitas pessoas que brincam com os colegas de arquibancada, chamando uns aos outros de bichas, bichinhas, e aí, seu veado, não vão bater em homossexuais nas ruas. Muitas delas têm parentes gays, amigos gays. E eu sei que justamente por isso muitas ficam ofendidas com a patrulha ostensiva. Por isso é preciso colocar as coisas em perspectiva. Muitas pessoas estão fazendo as coisas sem pensar.

Muitos de nós estamos acostumados a usar homossexualidade como xingamento, por muitas e muitas razões históricas que não caberiam neste texto. Enfim. Isso é tão natural, tão rotineiro, que nem nos damos conta de que estamos repetindo, como se fosse banal, o mesmo esquema que autoriza holandeses antissemitas a imitar uma câmara de gás ou racistas a insistir em bestializar os negros. Estamos transformando uma característica de uma pessoa em ofensa. Estamos dizendo que ser gay é uma coisa tão ruim que chega a ofender e machucar mesmo quem não é gay. Mas, sinceramente: qual é o problema em ser gay?

Nós não sabemos ao certo por que algumas pessoas são gays. Também não sabemos por que algumas pessoas são negras. Ou por que algumas pessoas são canhotas. Nós não sabemos um monte de coisas, mas aprendemos a odiar algumas delas s sabe-se lá por qual razão. Canhotos, por exemplo, foram estigmatizados durante décadas e apanhavam até aprender a escrever com a mão direita. Ser canhoto, na lenda popular, significava ser influenciado pelo demônio. E isso atingia ricos e pobres. O rei George VI, da Inglaterra, é um dos canhotos que apanharam e sofreram até que aprendessem a escrever apenas com a mão direita. O ódio surge por razões difíceis de explicar.

Só que as pessoas são o que são. Desde que isso não mate outra pessoa, não viole aquilo que se costumou chamar de direitos fundamentais, não há nada que possamos fazer. Ser gay, ser negro ou ser canhoto são fatos da vida. São características que não violam o direito de outras pessoas. Um assassino pode te tirar a vida. O que um gay tira de você? Nada. A pessoa é o que é e ninguém tem nada a ver com o que ela faz ou deixa de fazer.

Ao usar gay como xingamento em um estádio, nós estamos fazendo aquilo que não gostamos que seja feito conosco. Estamos dizendo, mesmo sem perceber, sem nos darmos conta, que as pessoas gays são inferiores. Não gostamos de ser patrulhados, intimidados ou ofendidos. Mas estamos patrulhando, intimidando e ofendendo pessoas iguais a nós ao transformar homossexualidade em xingamento. Isso não faz parte da graça do futebol. Isso só mostra sobre o quanto não pensamos nas consequências das nossas palavras e das nossas ações. Nós agimos sem refletir e nos comportamos como uma manada descontrolada, que não pensa nas consequências das suas ações.

Portanto, quando uma torcida imensamente popular, como a do Corinthians, repete como um mantra “bicha, bicha, bicha” em um estádio, ela está reforçando a ideia de que ser gay é ruim. Uma torcida que luta contra preconceitos, que passou anos tendo de escutar “silêncio na favela”, está reproduzindo em outra torcida a violência que costumava sofrer. E isso não é engraçado. Isso não é parte do esporte. E, um dia, pode se voltar contra os próprios corintianos. Contra qualquer pessoa, na verdade.

Estamos transformando uma característica de uma pessoa em ofensa. Estamos dizendo que ser gay é uma coisa tão ruim que chega a ofender e machucar mesmo quem não é gay. Mas, sinceramente: qual é o problema em ser gay?

Não é de hoje que a torcida do Corinthians diz “vai pra cima delas, Timão”. Isso já era ofensivo, mas diluído num “delas” maroto. Mas, ao chamar o goleiro rival de bicha, sistematicamente, usando a palavra que muitos intolerantes usam contra as suas vítimas, a torcida do Corinthians, mesmo sem se dar conta disso, está dizendo que gays são inimigos, são adversários. Os torcedores do Corinthians que fizeram isso talvez não saibam, mas estão dando combustível para intolerantes e malucos de toda espécie. Afinal, essas pessoas não precisam de muita coisa para fazer barbaridades. Elas só precisam ter certeza de que isso não é recriminado ou não terá consequências. Até na civilizada Suécia acontece. Um torcedor do Malmö, militante contra a homofobia nos estádios, foi morto por defender direitos iguais para heterossexuais e homossexuais.  Já no Brasil, infelizmente, há muitos e muitos casos de violências contra gays. As pessoas apanham nas ruas e são surradas com lâmpadas, como os jornais vêm reportando faz algum tempo.

Portanto, o grito de “bicha, bicha, bicha”, contra o principal jogador da equipe rival, contra o atleta mais controverso do seu adversário, em um estádio lotado, só esquenta ainda mais esse caldo de ódio – mas tão confortável para gente violenta e mesquinha.

A única maneira de mudar essa situação é parar de dizer que gays são piores do que heterossexuais. Não há solução intermediária. É parar de repetir que ser gay é ser ruim. Foi assim que diminuíram os espancamentos e linchamentos de negros. Primeiro, a sociedade conteve as ofensas. Depois, passou a dizer: pare de ofender porque as suas ofensas têm consequências. Nos casos mais graves, passou a criminalizar as ofensas. Foi assim que a Europa conteve o antissemitismo, com leis e medidas contra a intolerância. Mas até a Europa está profundamente atrasada no combate ao racismo e à homofobia, como mostra a faixa bizarra que a torcida do Bayern de Munique estendeu na Alemanha.

Mas leis, a gente sabe, não bastam por si. É preciso que as nossas atitudes mudem, especialmente nos lugares em que essas atitudes podem fazer alguma diferença. Landon Donovan, capitão do Los Angeles Galaxy e principal ídolo do futebol nos EUA, deu um exemplo fantástico e acolheu Robbie Rogers, gay e seu colega de equipe. O futebol é importante demais para a nossa vida, no Brasil. Ele não pode ser tratado como uma parte distante, separada da sociedade. O futebol é encantador porque ele resume, em 90 minutos, as tensões e alegrias de uma vida inteira. O futebol é um amplificador daquilo que acontece nos lugares mais profundos da sociedade e o estádio, uma amostra do que aceitamos e recriminamos. Mas o futebol não precisa ser só uma caixa que reproduz o que acontece fora dele. O futebol pode ser uma ferramenta para a mudança.

cartaz-anti-homofobia

Durante muito tempo, ser italiano significava ser sujo. Ser nordestino, vagabundo. Argentino, objeto de botinadas. Porém, os estádios colocaram, lado a lado, agressores e agredidos. Os agressores passaram a ter de aplaudir os agredidos, como aconteceu com os jogadores nordestinos. A aversão de brasileiros a argentinos começou a diminuir quando os gringos começaram a jogar aqui e a mostrar paixão pelos times que amamos. Não é o bastante, longe disso, mas os campos deram passos importantes nas últimas décadas. Os torcedores provaram que não eram reféns do ódio de alguns retranqueiros sociais. Na Alemanha, a torcida do St. Pauli deu um exemplo fantástico em abril de 2013. Levou para as arquibancadas a faixa “Futebol é tudo, até gay”. O St. Pauli foi o primeiro clube que se notícia a ter um presidente que saiu do armário, Cornelius Littmann.

Porém, ainda falta muito para que o futebol se torne, como ele gostaria de ser, um ambiente em que qualquer um pode ser o que quiser. Afinal, uma das coisas que distinguem o futebol de outros esportes é que um Baixinho pode ser um dos maiores artilheiros da história do Brasil e um gordinho, o destaque do último Campeonato Brasileiro. Falta um passo, um passo decisivo. Falta eliminar completamente a violência contra gays e negros. Afinal, quando eles falam, não é para pedir privilégios. Eles querem ser tratados exatamente igual a você. Quando um gay se manifesta, ele ou ela não está pedindo mais direitos. Está pedindo os mesmos direitos que você tem: andar tranquilamente pelas ruas sem correr o risco de apanhar porque está de mãos dadas com a pessoa que ama. Um negro não está pedindo privilégios. Ele quer apenas o direito de não ser julgado pela cor da pele. Ou, no Brasil do começo do século 20, não ser obrigado a passar pó de arroz no rosto para ser aceito como branco.

Combater o preconceito, no final das contas, é uma maneira de contribuir para que o futebol e a sociedade melhorem. Preconceito, afinal, é uma porta escancarada para a violência. Hoje, é contra gays. Amanhã pode ser contra qualquer outra pessoa, por qualquer outra característica. Os judeus, por exemplo, eram muito bem integrados à Alemanha antes do nazismo. A França, embora com um longo passado antissemita, teve um primeiro-ministro judeu antes de colaborar com Hitler na Segunda Guerra. As coisas mudam para pior, infelizmente. Claro, é muito difícil acabar completamente contra o preconceito, é claro. Mas é possível estar atento quando ele aparece e agir a tempo para estancá-lo. É o mesmo movimento do grande craque que sabe se antecipar ao movimento do marcador, driblar o oponente e marcar um baita de um golaço.

Nós, torcedores, somos melhores do que o preconceito. Os retranqueiros sociais não podem vencer esse jogo.

Como o São Paulo venceu o São Paulo nesta quarta no Morumbi

O futebol em si esteve longe do ideal, mas o time soube ganhar. Às vezes, é o suficiente

Há momentos de vencer bonito, e há momentos de vencer, apenas vencer. A partida contra o San Lorenzo no Morumbi se encaixava na segunda categoria para o São Paulo. E, para conseguir esses três pontos, os são-paulinos tiveram de aprender a superar seus próprios fantasmas.

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Foi um jogo de pressão tricolor durante quase todo o tempo, mas foi um jogo em que o torcedor teve motivo para ficar inseguro. A equipe ainda não deslanchou. Com Paulo Henrique Ganso sem conseguir ser o homem que cria a jogada diferente, que quebra a defesa adversária, o ataque do São Paulo se torna previsível e, portanto, fácil de anular. Ainda assim, o Tricolor conseguiu mandar duas bolas na trave e fazer um gol que foi mal anulado.

E aí era o momento de os fantasmas aparecerem. O primeiro fantasma era a falta de conexão da torcida com seu time. Afinal, o futebol não vem agradando nesse começo de temporada e a diretoria em nada ajudou ao estabelecer ingressos caros e com sistema de compra online problemático. Apenas 26 mil torcedores estavam no Morumbi e não seria surpreendente se a imagem de muitos lugares vazios com as vaias dos lugares ocupados desestabilizassem o pessoal em campo. Mas isso não aconteceu. A torcida empurrou até o fim, e não se tornou mais um obstáculo aos jogadores.

A equipe ajudou. Os dois grandes jogos do São Paulo em 2015 foram problemáticos. Uma derrota contundente para o Corinthians em Itaquera e uma inexplicável (em casa, com um a mais o segundo tempo quase inteiro) para o mesmo adversário no Morumbi deixaram marcas. Na primeira, a impotência de uma equipe que não conseguiu criar espaços pelo meio. Na segunda, um time que lutou bastante, mas não conseguiu fazer nada além de dar chuveirinhos na área.

O San Lorenzo se encastelou em seu campo e não tinha velocidade para criar contra-ataques perigosos (houve apenas um, muito mal finalizado por Barrientos). Os são-paulinos teriam de propor o jogo, mas qual estratégia seguir: a que fracassou no primeiro jogo contra o Corinthians ou a que fracassou no segundo? O São Paulo transcendeu isso. Na verdade, fez a melhor escolhe: não importa a estratégia, o que importa é não se traumatizar com o primeiro revés que aparecesse. Bola na trave? Continua tentando. Outra bola na trave? Tenta mais um pouco. Gol mal anulado? Sinal de que dá para fazer gol.

Foi assim que o São Paulo achou o espaço. Aos 44 minutos do segundo tempo, Michel Bastos virou o jogo para acionar Carlinhos na esquerda. O lateral teve tempo para se ajeitar e fazer o cruzamento. Barrientos ficou parado e não acompanhou Michel Bastos, que se projetou atrás da marcação argentina e ficou livre para tocar de cabeça.

Não foi uma vitória bonita, não redimiu o São Paulo de seus problemas táticos e técnicos. Mas foi a vitória necessária de um time que soube superar os obstáculos que ele próprio vinha criando.

Pegamos a tabela do Brasileirão, e apontamos os jogos mais interessantes

Ainda não sabemos como estarão os times e nem as datas exatas, mas algumas coisas já dá para imaginar

O Campeonato Brasileiro é uma maratona. São 38 rodadas, em uma história que se conta aos poucos e que pode se tornar cansativa em alguns momentos. Mas é o grande torneio do nosso futebol, e não há como não sentir uma ponta de empolgação quando sai a tabela da competição. Afinal, fica a lembrança de que nem todo jogo precisa ser modorrento como os desses longos estaduais.

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A tabela é longa (veja aqui) e a maioria dos torcedores estará preocupada com o seu clube. Para quem quiser um panorama mais geral, demos uma estudada rodada a rodada para identificar dez momentos potencialmente interessantes. Não sabemos como os clubes estarão em maio (muito menos em novembro), não sabemos se os clubes estarão priorizando o Brasileirão naquele momento e nem sabemos qual a data exata de cada partida, mas há situações que já se pode prever.

Confira, e anote na agenda:

9 e 10 maio: Clássicos de saída

O Brasileirão chega chutando a porta, com três duelos entre clubes dos mais vitoriosos do país: São Paulo x Flamengo, Palmeiras x Atlético Mineiro e Cruzeiro x Corinthians. Além disso, há um interessante Atlético Paranaense x Internacional programado para a Arena da Baixada. Ufa, os estaduais já ficaram para trás!

30 e 31 de maio: Alívio para os caçulas

Dos quatro times que subiram da Série B de 2014, três deles terão pedreiras nas rodadas iniciais. O Joinville pega Fluminense, Palmeiras e São Paulo, a Ponte Preta enfrenta Grêmio, São Paulo e Cruzeiro, e o Avaí joga contra Santos, Internacional e Flamengo. Não seria surpreendente se os três fizessem poucos pontos nas rodadas iniciais e chegassem à quarta, quando enfrentarão Atlético Paranaense em casa (Joinville), Chapecoense em casa (Ponte) e Coritiba fora (Avaí), precisando desesperadamente de uma vitória.

Obs.: o Vasco também é caçula, mas terá uma tabela supostamente menos áspera no começo: Goiás, Figueirense e Inter

31 de maio: Primeiros clássicos

Domingão para agitar as duas maiores cidades do país: Corinthians x Palmeiras e Flamengo x Fluminense. Serão os primeiros clássicos estaduais do campeonato, e com ingredientes extras. Por exemplo, caso corintianos e palmeirenses não voltem a se enfrentar no Paulista, o duelo pode valer o empate no retrospecto histórico entre os clubes (os alviverdes têm uma vitória a mais).

Fred e Chicão se agarram no Fla-Flu do Brasileirão de 2014 (Jorge Rodrigues/Eleven)
Fred e Chicão se agarram no Fla-Flu do Brasileirão de 2014 (Jorge Rodrigues/Eleven)

6 ou 7 de junho: Reencontro perigoso

Atlético Paranaense x Vasco têm encontro programado para Curitiba. Será o primeiro duelo entre as duas equipes desde a última rodada do Brasileirão de 2013, quando as duas torcidas protagonizaram uma das brigas mais impressionantes dentro de um estádio brasileiro. A polícia paranaense terá muito trabalho.

RELEMBRE: A rodada que terminou aos 17 do primeiro tempo

10 de junho a 4 de julho: Desfalques para a Copa América

Serão cinco rodadas (da sétima à 11ª) da Série A durante a disputa da Copa América. Vários jogadores selecionáveis poderão ser chamados e desfalcar seus clubes, casos de Gil, Elias, Guerrero e Romero (Corinthians), Dedé, Mena e De Arrascaeta (Cruzeiro), Valdívia (Palmeiras), Aránguiz (Internacional), Robinho e Valencia (Santos), Julio dos Santos e Martín Silva (Vasco), Diego Cavallieri (Fluminense), Erazo (Grêmio) e Victor (Atlético Mineiro). Isso sem considerar jogadores que podem ganhar espaço na seleção brasileira ou na de seus países nos primeiros meses de 2015. As ausências podem ser decisivas, pois estão programadas partidas bastante importantes nesse período: Corinthians x Internacional, Palmeiras x Fluminense, Vasco x Cruzeiro e Atlético Mineiro x Santos (sétima rodada), Santos x Corinthians, Flamengo x Atlético Mineiro, Grêmio x Palmeiras, Atlético Paranaense x Coritiba (oitava), Palmeiras x São Paulo, Vasco x Flamengo e Internacional x Santos (nona), Fluminense x Santos, Grêmio x Cruzeiro, Atlético Paranaense x São Paulo, Sport x Internacional (décima) e São Paulo x Fluminense, Santos x Grêmio e Internacional x Atlético Mineiro (11ª).

13 ou 14 de junho: Aranha reencontra a torcida gremista

As atenções da imprensa estarão na Copa América, e Aranha provavelmente será reserva do Palmeiras. Tudo isso pode diminuir um pouco o impacto midiático desse reencontro, mas certamente será um dos assuntos da semana.

8 ou 9 de agosto: Clássico das faixas, ou da ressaca

A 17ª rodada será a primeira do Brasileirão após o jogo de volta da final da Libertadores. Se Corinthians, Internacional ou São Paulo chegarem à decisão continental, poderão curar a ressaca da comemoração do título (ou da depressão da derrota) contra um rival. Alvinegros e tricolores paulistas se encontram no Morumbi, enquanto que o Colorado terá de ir à Arena do Grêmio para mais um Gre-Nal.

19 ou 20 de setembro: Revanche do melhor jogo de 2014

Atlético Mineiro e Flamengo se enfrentam em Belo Horizonte. Uma das maiores rivalidades interestaduais do Brasil ganhou uma nova força após as semifinais da Copa do Brasil de 2014, quando o Rubro-Negro fez 2 a 0 no Maracanã e perdeu por 4 a 1 de virada no Mineirão, em uma das vitórias mais memoráveis do Galo nos últimos tempos (e olha que não faltaram vitórias memoráveis na trajetória recente do Atlético).

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18 ou 19 de novembro: Internacional vai a Chapecó

Enfrentar a Chapecoense em Santa Catarina não foi uma boa ideia para o Inter em 2014, e retornar ao Índio Condá será a oportunidade de apagar um pouco a imagem do 5 a 0 do último Brasileirão. Mas a questão desse reencontro não é apenas uma suposta necessidade de revanche do Colorado, mas da possível necessidade de se fazer resultado. Nenhum time terá uma reta final potencialmente tão dura quanto o Inter, que enfrentará Grêmio, Fluminense e Cruzeiro nas últimas três rodadas. Dependendo de como o clube estiver no campeonato, vencer a Chapecoense fora de casa será fundamental.

6 de dezembro: A rodada final

O campeonato será encerrado em uma rodada relativamente morna. Só dois jogos chamam a atenção pela tradição do confronto: Internacional x Cruzeiro e Flamengo x Palmeiras. De qualquer forma, há possíveis coincidências históricas: Cruzeiro dando o troco de 1975 no Inter, Goiás x São Paulo fazendo o tira-teima (o São Paulo ganhou o título de 2008 sobre o Goiás fora de casa e perdeu o de 2009 ao cair no Serra Dourada na penúltima rodada), Sport buscando outro título nacional contra um time campineiro (enfrenta a Ponte Preta no Moisés Lucarelli), Santos e Atlético Paranaense ressuscitando a rivalidade de 2004 e Figueirense tentando se vingar da final da Copa do Brasil de 2007 contra o Fluminense.

O são-paulino achava que tudo estava dando errado, até que esse gol fez tudo dar certo

E pensar que algumas cornetas tricolores já temiam um tropeço contra o Danubio

O torcedor do São Paulo tem fama de ser blasé, variando entre a arrogância nos bons momentos e a desconexão nos maus. Mas o são-paulino sabe também ser corneteiro, e teve corneta soando para todo lado na capital paulista nos últimos sete dias. Parecia que a conjunção astral era negativa ao time do Morumbi.

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Veja só o que aconteceu nos últimos dias:

1) Time perde de forma contundente para o maior rival;
2) Derrota por 2 a 0 é tratada como a pior da história do futebol desde o 7 a 1, revelando tudo o que há de errado no clube;
3) O Danubio vencia o San Lorenzo, resultado ótimo para o São Paulo, até tomar a virada com dois gols nos minutos finais;
4) Surgem notícias de atrito entre Muricy Ramalho e Carlos Miguel Aidar;
5) Clube coloca preços caros para os ingressos da partida contra o Danubio;
6) O sistema pifa, e o São Paulo tem problema para fazer a venda online dos ingressos:
7) Torcida tem de ir às bilheterias do Morumbi para comprar os ingressos, mas lá também há problemas no sistema;
8) Cai uma chuva de encher o Cantareira (OK, nem tanto), deixando o trânsito um horror para quem ia ao Morumbi, e encharcando quem lá estava para a compra na bilheteria.

Todo corneteiro interpreta essa sequência de eventos como o sinal definitivo que uma derrota trágica contra um time mais fraco está à espera. Ou, no mínimo, como o acúmulo de azares justificava o temor por mais um tropeço. Uma sensação que, no caso são-paulino, demorou apenas quatro minutos. Foi o tempo necessário para Reinaldo fazer boa jogada pela esquerda e cruzar para Alexandre Pato fazer esse golaço.

Esse voleio definiu os rumos da partida, tirando um elefante das costas do São Paulo. Assim, o time venceu com naturalidade um jogo que acabou sendo até chato pela facilidade com que saiu o 4 a 0. Não serviu para expiar todos os problemas enfrentados pelo clube nos últimos dias (a derrota para o Corinthians ainda é sentida, e os erros na venda de ingressos precisam ser corrigidos), mas talvez tenha mostrado aos torcedores que o desespero era um pouco precoce.

Como o trabalho de Elias explica a vitória do Corinthians sobre o São Paulo

O volante era o termômetro do meio-campo, ditava a hora de voltar e de avançar, dava o bote e finalizava

O São Paulo estava assustado. O Corinthians já vencia por 2 a 0 na primeira rodada da fase de grupos da Libertadores e criava oportunidades para ampliar. Rogério Ceni tinha a bola nas mãos para sair jogando após quase se enrolar em um chute sem ângulo e aparentemente despretensioso de Renato Augusto. Ele vê Michel Bastos livre na entrada da área e rola a bola. O que era uma saída de bola tranquila vira mais problema: Elias aparece do nada, rouba a bola e quase Danilo amplia a vantagem alvinegra. Eram 40 minutos do segundo tempo.

GUIA: Veja tudo sobre a fase de grupos da Libertadores


O lance está aos 4:00 desse vídeo. Veja como Elias aparece do nada para dar o bote

Essa jogada retrata bem um elemento fundamental da merecida vitória corintiana na abertura do Grupo 2 da Libertadores. Elias divide com Jádson o protagonismo do jogo, mas é inegável o quanto seus movimentos ditam o ritmo de sua equipe e em torno disso se desenhou a estratégia de Tite para o clássico.

O Corinthians desse início de 2015 tem uma diferença fundamental em relação às equipes de 2013 (do próprio Tite) e 2014 (comandada por Mano Menezes): é um time que desenha sua troca de passes em triangulações. Um jogador recebe a bola, outros dois se apresentam de alguma forma. As tabelas saem com naturalidade e o jogo se torna mais profundo do que o toque de bola muitas vezes preguiçoso e arrastado que marcou o time nas temporadas anteriores.

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Muricy Ramalho percebeu essa mudança, e desenhou o São Paulo pensando nisso. Deixou o meio-campo com três jogadores mais recuados, congestionando o setor de armação alvinegro e quebrando as triangulações. Isso funcionou em certa medida, tanto que o Corinthians criou uma oportunidade com Fábio Santos com 30 segundos e depois foram dez minutos de nada de interessante acontecendo em campo.

Elias quebrou isso. Em uma bola mais esticada, a defesa tricolor ainda não estava posicionada e foi possível criar espaços. Tabelou com Danilo e se projetou, já imaginando que Jádson estava lá para completar a triangulação. O lançamento veio preciso, e o toque de primeira abriu o marcador.

Depois disso, o Corinthians murchou, de forma até preocupante. Recuou e não conseguia sair. Defendia-se muito bem, com linhas bem compactadas que tiravam todo o espaço de criação são-paulino. No entanto, o que sobrava de inoperância no ataque do São Paulo sobrava em marcação. Os corintianos não conseguiam sair jogando, abusavam dos chutões da defesa e a partida ficou muito feia.

Nesse momento, a melhor opção do Corinthians era forçar o erro do adversário. Os tricolores trocavam passes inoperantes na defesa, mas, de tempos em tempos, Elias aparecia feito um raio para dar o bote na saída de bola. Não teve sucesso no primeiro tempo, mas deu o tom da estratégia que se tornou dominante no segundo.

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O Corinthians variava a marcação recuada com rápida pressão em cima dos defensores são-paulinos. A partir daí, os alvinegros recuperaram o domínio da partida no intervalo e construíram a merecida vitória. O segundo gol surgiu de uma jogada assim. No caso, quem saiu para o bote foi Emerson, e Elias foi quem se projetou, atraindo a marcação no meio e abrindo espaço para Jadson na direita.

Foi uma jogada faltosa de Emerson, não há dúvidas, mas a dinâmica da partida indicava que o segundo gol poderia sair a qualquer momento em uma jogada naquelas características. O São Paulo não conseguia criar perigo para empatar, e depois do gol de Jadson continuou não criando perigo.

Essa variação corintiana entre dar o espaço e apertar rapidamente a marcação matou o time de Muricy. E Elias é quem comandava esse movimento, mesmo aos 40 minutos do segundo tempo, quando o jogo já parecia ganho.