O legado da Copa 2018 deveria ser o combate ao racismo na Rússia, mas esse trabalho está atrasado

De que adianta os estádios estarem com obras adiantadas se as instituições ainda fazem vistas grossas à intolerância?

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“Uh uh uh uh uh uh uh”. O som é inconfundível e qualquer pessoa que conheça um pouco o padrão de comportamento de torcedores extremistas da Europa sabe do que se trata. É a suposta imitação do som de um macaco, tanto que ele só é emitido pelos ultras quando um jogador negro – normalmente do time visitante, ainda que até os do mandante já foram alvo – pega na bola ou está próximo da jogada. Foi assim com Emmanuel Frimpong durante a partida de seu time, o Ufa, contra o Spartak em Moscou pelo Campeonato Russo neste fim de semana.

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O ganense estava em uma jogada perto da bandeira de escanteio quando a torcida moscovita disparou os insultos. O jogador não se aguentou e fez um gesto obsceno, esguido de um xingamento. Frimpong foi expulso em uma atitude para lá de discutível. Árbitros são orientados a não deixarem jogadores atacarem torcedores, mas era bastante plausível interpretar o caso como fora do convencional.

Mas o problema maior, incrivelmente, não é o cartão vermelho a Frimpong. É como as instituições que organizam o futebol russo ajudam a alimentar o comportamento racista dos torcedores. O ganense foi suspenso por dois jogos pelo gesto, o que já é bem discutível, mas ficou pior.

Ficou pior porque ele foi o único. Frimpong até disse ter aceitado sua punição, mas o fato de ele ser o único não é aceitável. A Federação Russa abriu investigação sobre o caso, e os resultados foram anunciados nesta quinta. Segundo o chefe do comitê disciplinar da entidade, Artur Grigoryants, não houve nenhum problema na atitude da torcida do Spartak. “O delegado do jogo não notou nenhuma violação disciplinar pelos torcedores do Spartak em direção a Frimpong. Não houve racismo e não temos motivos para impor alguma sanção disciplinar contra o Spartak. Frimpong foi suspenso por dois jogos pelo gesto ofensivo que ele fez para as arquibancadas.”

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Se não encontraram evidência, foi por falta de procurar. Bastaria colocar “Frimpong Spartak” na busca do YouTube para encontrar o vídeo acima (e vários outros, diga-se) e ter toda a prova que precisa para entender o que aconteceu. Como definiu Frimpong, o resultado das “investigações” é “mais que uma piada”.

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O racismo é um problema antigo no futebol russo, mas o momento é particularmente delicado porque o país está a três anos de receber uma Copa do Mundo. E, se há um legado que o maior evento esportivo do planeta pode deixar no maior país do planeta, é criar uma cultura de integração racial nos estádios e na sociedade em geral. Por isso, as autoridades da Rússia deveriam mostrar-se enérgicas com essa questão, até como forma de expor a todos que tem tomado alguma atitude contra esse comportamento crônico. Mas preferiram fazer vista grossa, e até a Fifa teve de se manifestar, pedindo explicações à federação russa por que Frimpong foi suspenso.

Mas, aparentemente, combater o racismo é secundário para os mandachuvas do futebol russo. Uma pena, porque esse legado social seria muito mais enriquecedor e duradouro do que estar com várias obras de estádios adiantadas.