O maior golpe fracassado de Istambul começou como briga de torcidas

A cidade ainda se chamava Constantinopla, e viu 30 mil pessoas morrerem após uma confusão em corrida de bigas quase derrubar o imperador Justiniano I

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O Exército tentou, mas a sociedade foi mais forte. Parte das Forças Armadas quis aproveitar a ausência física do presidente Recep Erdogan para tomar o poder na Turquia. A reação contra a ofensiva militar foi imediata, com a população, o presidente que voltou às pressas e até parte da oposição se unindo para evitar uma troca de comando à força no país. Golpes de estados são comuns no país, já ocorreram em 1960, 1971, 1980, 1993 e 1997. Uma tentativa fracassada é mais rara, mas uma delas mudou a história: as Revoltas de Nika.

Veja a história no Outra Cidade

Polícia prende quatro torcedores por 49ers por agressão a seguidor dos Vikings após jogo

Briga ocorreu no estacionamento do estádio Levi’s após o confronto entre San Francisco e Minnesota

A birga de torcedores de San Francisco 49ers e Minnesota Vikings não passou impune. Cinco dias após seguidores dos Niners agredirem um homem que acompanhava o time de Minneapolis, o departamento de polícia do condado de Santa Clara (cidade na região metropolitana de São Francisco onde está localizado o estádio Levi’s) anunciou a prisão de quatro pessoas.

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Os detidos são Félix Chavira, Juan Arias, Eric Martínez e um menor de idade cujo nome não foi divulgado pelas autoridades. Os quatro foram identificados no vídeo da briga (link acima), ocorrida no estacionamento do estádio após a vitória dos 49ers por 20 a 3.

A torcida do San Francisco é considerada uma das mais agressivas e hostis – e às vezes violenta – da NFL. No ano passado, dois irmãos foram presos por agredirem um outro torcedor dos 49ers após uma discussão no banheiro do estádio.

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Dificilmente as autoridades farão algo contra a torcida do Boca. Entenda por que

Gustavo Grabia, maior especialista de barras bravas da imprensa argentina, conta como funciona a relação de poder das barras bravas

A festa, o recibimiento, as músicas e a vibração do estádio são o lado bonito das torcidas argentinas. Mas, no superclássico Boca x River desta quinta, vimos o lado feio. Torcedores boquenses deram um jeito de abrir uma brecha no túnel inflável que supostamente protege os jogadores quando entram no gramado da Bombonera e atiraram alguma substância que queimou a pele de jogadores riverplatenses. O jogo foi suspenso, e a Conmebol ainda não decidiu se será reiniciado em outro dia e local ou se os millonarios serão declarados vencedores. Mas acontecerá algo com a torcida?

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Há motivos para acreditar que não. Apesar de haver imagens de torcedores do Boca agindo de forma suspeita, o histórico não dá motivos de otimismo. Até porque a relação dos barras bravas (torcedores organizados argentinos) com as autoridades é mais do que suspeita. Quem fala muito bem disso é Gustavo Grabia, autor do livro La Doce, sobre a barra do Boca Juniors, e especialista de torcidas no jornal argeentino Olé.

Nós entrevistamos Grabia em junho de 2012, e ele explicou muito bem como a situação é realmente complicada no futebol argentino. Então, vale a pena republicar esse texto. Vejam com atenção para entender muito do que tem acontecido na Argentina e por que dificilmente haverá punições pesadas a boquenses pelos atos desta quinta.

Gustavo Grabia, do Olé, sobre violência de torcidas: “Futebol argentino virou um enorme funeral”
O jornalista Gustavo Grabia em programa de rádio (Divulgação)
O jornalista Gustavo Grabia em programa de rádio (Divulgação)

Por Ubiratan Leal

Onipotentes. As barras bravas argentinas já deixaram de ser apenas torcedores que se organizaram para torcer por seu clube. E fora muito além do que se conhece no Brasil, com brigas entre simpatizantes de equipes rivais. Lá, esses grupos ganharam ramificação criminal, usando a projeção que as arquibancadas de futebol lhes dão para criar toda uma estrutura de delitos que vão do tráfico de drogas ao combate de manifestações políticas contra o partido que os contratar como mercenários.

Quem conta essa história é Gustavo Grabia, repórter do Olé, maior jornal esportivo da Argentina, e autor do livro La Doce (lançado no Brasil pela Panda Books), que revela as atividades da barra brava do Boca Juniors. Segundo ele próprio, o poder dos torcedores se tornou tão grande que parece impossível mudar o cenário.

Na Argentina, as brigas de torcedores rivais diminuíram muito. Qual é a nova cara da violência de torcidas?

Não acontece, mesmo com times do mesmo bairro, como Racing e Independiente. O maior medo do torcedor organizado é perder seu negócio. E como ele perde o negócio? Se briga e morre alguém. Porque, se morre alguém, os políticos determinam que alguém tem de cair no comando da torcida. Tudo bem que colocam outro no lugar, mas alguém acaba caindo. Para manter o negócio, não se pode brigar com outro clube. Quando acontece algo como na morte mais recente, em uma briga dentro da torcida do River, as pessoas pensam “se mataram entre eles, que se matem todos”. Vêem como um problema interno da máfia, a pressão por atitudes oficiais é bem menor.

Até porque mexeria com o orgulho do torcedor cujo barra brava foi morto, mesmo que ele não seja um barra brava, e cobraria mais por atitudes.

Certamente, e é por essas coisas que não acontece mais. Os chefes de torcida se conhecem, fazem negócios juntos. Durante a semana estão juntos em uma ONG de torcedores criada e financiadas pelo governo para agir em favor dele. Os torcedores de Racing e Independiente supostamente se odeiam, mas trabalham juntos para o mesmo político. Como vão brigar no domingo se durante a semana estão juntos nos mesmos delitos? Em Rosário, os líderes das torcidas de Newell’s e Rosario Central são sócios no tráfico de drogas, dominam regiões da cidade. Depois, cada um vai ao estádio fazer seu próprio negócio. Então, eles não brigam para não prejudicar todo o negócio.

O que essa ONG de torcedores financiada pelo governo faz?

Recebe dinheiro para trabalhar pelo partido do governo reprimindo opositores, marchas sindicais. Usaram os torcedores organizados para terceirizar a violência. Por exemplo, na Copa de 2010, o governo recrutou as torcidas organizadas para trabalharem pelo partido dele nas ruas, fazendo atos políticos. Uma situação muito louca. Em troca disso, pagou 232 passagens e hospedagens à África do Sul. Isso foi um escândalo internacional. A polícia sul-africana deportou quase 30 integrantes desse grupo.

Então a chance de as autoridades fazerem algo contra os torcedores é pequena.

Para ter uma ideia, o advogado do chefe da torcida do Boca era o advogado do chefe da polícia. E essa pessoa, depois, foi indicada como chefe de segurança do Congresso. O advogado do chefe da torcida tem como cliente a polícia e os partidos políticos! Como as autoridades vão perseguir alguém se compartilham advogados? Essas relações de poder na Argentina nunca vi em lugar algum do mundo. O chefe de segurança da Eurocopa esteve na Argentina ano passado e, quando eu explicava, ele não acreditava. Foi aos estádios para comprovar, e ficou horrorizado. Acha que não dá para consertar. Afinal, se o torcedor organizado tira uma foto com a presidente Cristina Kirchner, por que não teria impunidade?

Foto com a presidente?

Em setembro do ano passado, o San Lorenzo estava lutando para não ser rebaixado. A barra brava foi cobrar os jogadores e o chefe dela agrediu o capitão do time. Não aconteceu nada. Fui investigar e achei fotos dele em um ato político abraçado com a Cristina Kirschner! Com a presidente da República! Então, esse sujeito tem acesso à presidente. Eu sou um jornalista reconhecido e não tenho acesso a ela. Um monte de gente importante e conhecida não tem acesso a ela. Mas esse delinquente tem e tira uma foto ao lado dela. Não significa que ele seja amigo dela, mas, no mínimo, conhece pessoas influentes que conseguem colocá-lo ao lado dela em um ato político. Se esse apoio político não acaba, não há como combater o problema.

Em que nível está esse problema hoje?

Em relação a mortes, foram dez vítimas até agora em 2012. Mas isso são apenas os registros ligados ao futebol. Não estão computados os crimes cometidos por eles em questões políticas ou sindicais. Todos os últimos crimes de violência política ou sindical na Argentina têm barras bravas como responsáveis. São contratados pelos políticos para fazer o trabalho sujo. Também fazem delinquência comum, como narcotráfico. São uma máfia mesmo, com interesses em seus negócios e não mais nos clubes para os quais supostamente torcem. Um dos líderes de La Doce, a torcida do Boca, é torcedor do River Plate. Por quê? Porque essa pessoa viu que na torcida do Boca gira mais dinheiro.

E a torcida do Boca o aceita por quê?

Ele é um delinquente muito perigoso. Esteve em prisões de segurança máxima. Mas tem contatos com o mundo criminal e com políticos. É conveniente para os negócios ter um homem como ele na organização.

As leis argentinas são frouxas nessa questão ou dariam suporte a quem quisesse combater as barras bravas?

Existem as leis, o problema é que não se aplicam a quem precisa. Se você vai a um estádio, tem cinco minutos de loucura e atira algo no árbitro, será levado a uma delegacia. Provavelmente você não será preso, mas deve receber uma pena de ficar longe de estádios por um longo período. Se você fosse de uma torcida organizada, poderia fazer o que quisesse que nunca iriam até você. Antes de vir ao Brasil, o último morto do futebol argentino foi há três semanas, em um jogo do River contra o Boca Unidos, o penúltimo antes da promoção. Assassinaram uma pessoa nas arquibancadas em uma briga nos Borrachos del Tablón [barra brava do River Plate]. Quando a Justiça foi buscar as gravações das câmeras de segurança para identificar os responsáveis, as imagens da briga em si tinham sido apagadas. O médico que fazia o atendimento naquele jogo contou que os líderes da torcida levaram o corpo do rapaz dizendo “olha, aqui tem um que parece que está morrendo” e foram embora. Tudo dentro da torcida do River.

Como uma briga de máfia, em que um irmão manda matar o outro para ser herdeiro nos negócios do pai.

Isso. Os últimos dez mortos no futebol argentino foram em disputas dentro das torcidas.

Que se pode fazer para que as leis sejam aplicadas se eles têm tanto poder com as autoridades?

Não se pode fazer nada se os políticos mais importantes os utilizam. A barra brava do Boca é a maior e mais violenta do país e o governo já a utilizou para a campanha eleitoral de outubro do ano passado. Pagava para que levassem bandeirões com mensagens políticas. Francisco de Narváez, candidato mais importante à província de Buenos Aires, paga a La Doce para exibir um bandeirão escrito “Narváez governador”. Depois disso, eles podem fazer o que quiserem.

Quando fazem isso, vendem espaço publicitário. Um espaço publicitário que seria indiretamente do clube. Ainda que o clube não possa vender publicidade exibida pelos torcedores, o evento é dele e as pessoas veem o jogo pela TV por causa do clube. Os times não têm interesse em  usarem seu poder de mídia para ganharem esse dinheiro, ao invés de deixar com a torcida?

Em princípio, os clubes são sócios das torcidas, que também trabalham para os interesses dos dirigentes.

Como o Mauricio Macri [prefeito de Buenos Aires, ex-presidente do Boca]?

O crescimento da barra brava do Boca foi tremendo quando Mauricio Macri estava na presidência. Ele emprestava o estádio para os barras bravas jogarem bola! Mas não foi só ele. É que o Macri é o personagem mais conhecido que saiu do esporte e ingressou na política.

Se os barras bravas vivem desses negócios extracampo, por que ainda precisam do futebol?

Porque o futebol dá cartaz a eles. Na Argentina, os torcedores organizados são muito populares, têm tratamento de estrelas. O chefe da torcida do Boca e dá tantos autógrafos quanto Riquelme ou Palermo. O futebol retroalimenta a relação deles com os políticos. Porque, se põem uma bandeirão no jogo do Boca, têm enorme visibilidade. Um jogo do Boca tem 30% de audiência, 9 milhões de pessoas. Então a eles é conveniente falar com o chefe da torcida.

Então o futebol ainda representa uma ao parte da receita desse negócio, mesmo com as atividades extracampo?

Representa muito. Sem o futebol, todos os outros negócios ilegais não existiriam. Eles conseguem todos os outros negócios por serem os chefes de torcidas. Eles vendem ingressos, até 5 mil em uma partida. Se um ingresso médio está US$ 12, são US$ 60 mil em um jogo. Eles controlam o trabalho de guardador de carro, de flanelinha. Não sei como é aqui.

Aqui são “profissionais autônomos”.

Então, lá são controlados pelos barras bravas. Em março, houve um tiroteio muito grande por causa disso. Uma parte da torcida queria essa fatia do negócio e outra parte não queria abrir mão. Trocaram tiros, a poucas quadras de La Bombonera. Isso dá muito dinheiro. Há também as festas com os jogadores. Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde as equipes de fora de Rio e São Paulo têm muita força, as equipes provinciais não são tão fortes na Argentina. Mesmo em Rosário, é provável que o Boca tenha mais torcida que o Central ou o Newell’s. Aí, a barra brava leva jogadores do time a filiais no interior. Digamos, levam Riquelme a Luján, a 200 km de Buenos Aires. Montam um evento para mil pessoas, cobrando ingresso para quem quiser ver, tirar foto e pegar o autógrafo com o ídolo.

Era algo que o clube poderia explorar.

Sim, mas deixa para os barras bravas fazerem. É uma coisa muito grande. Para cada evento desses, faturam US$ 20 mil.

E quanto se pode ganhar com isso?

Mauro Martín, presidente de La Doce, não tem trabalho reconhecido. Já vi suas declarações de imposto de renda e ele alega que é instrutor de boxe em um clube. Ele nunca vai lá. E basta ver o nível de vida que ele tem para perceber que tem algo errado. Ele possui uma picape Honda nova, que custa uns US$ 150 mil na Argentina, um Mini Cooper e uma casa de dois andares, com campo oficial de futebol. Imagina o tamanho do terreno. E diz que é instrutor de boxe ou que trabalha no escritório de seu advogado, que é um dos mais famosos da Argentina.

Ele teria de ser instrutor de boxe do Manny Pacquiao.

Pois é. E ele faz tudo isso e não é pego. Por quê? Bem, ele é casado com a secretária particular do governador de Buenos Aires. O chefe da barra brava do Boca Juniors é casado com a secretária da segunda pessoa mais importante da Argentina. Então, ele pode fazer qualquer coisa que ninguém vai incomodar.

Nas equipes provinciais, acontece a mesma coisa?

Tudo o que eu conto com La Doce ocorre igual em todas as equipes da Argentina. Pelo menos, coisas da mesma natureza. A única diferença é o peso de cada torcida pelo volume que mexe de acordo com o tamanho do clube. Eu sou torcedor do Ferro Carril, um time pequeno que está na segunda divisão. Lá acontece a mesma coisa, mas em menor quantidade porque é uma equipe pequena. O chefe da torcida do Ferro também não tem trabalho, mas, ao invés de uma picape Honda e um Mini Cooper, tem um carro normal. Ao invés de uma casa com dois andares, tem um apartamento de 150 m². Mas a forma de organização é a mesma nos clubes.

Economicamente, a diferença entre o futebol brasileiro e o argentino está aumentando. Quanto o futebol argentino perde por não explorar tudo o que pode por repartir com as barras bravas?

É muito dinheiro que perdem. Mas os dirigentes não têm interesse em mudar. Os clubes são associações civis sem fins lucrativos. Se o clube abre falência, o dirigente vai embora e não é responsabilizado. Fora que eles também ganham uma parcela. É algo conjunto.

Como assim?

Um bom exemplo foi a venda do Higuaín ao Real Madrid. Foi uma operação fraudulenta. O que apareceu no balanço do River Plate foi muito menor do que o pago pelo Real. O Real disse que pagou € 14 milhões, mas o River registrou a entrada de € 9 milhões. O balanço só foi aprovado porque os dirigentes de oposição foram ameaçados de morte pela barra brava. Eles entraram no recinto onde era a votação e ameaçaram de morte se não votassem a favor. Era algo contra o caixa do clube. Os € 5 milhões de diferença entre os valores foram repartidos entre todos, com 10% para os Borrachos del Tablón.

Há barras bravas menores nos clubes, que brigam por “mercado” com as maiores?

Não. Não há concorrência de barras de um mesmo clube. Não é que existe La Doce e “La Fiel de Boca” brigando por espaço como barras bravas do Boca. Há uma só por clube, e os confrontos são por poder e negócios dentro de cada uma.

A polícia também tem participação no esquema das organizadas?

De várias formas. Na temporada passada, naquele jogo em que o River caiu contra o Belgrano, o placar estava empatado. Se terminasse assim, o River caía. No intervalo, os dirigentes e os policiais liberaram o acesso para 12 torcedores conhecidos da organizada do River descessem das arquibancadas, andassem internamente pelos corredores do Monumental de Núñez e chegassem aos vestiários do árbitro, onde o ameaçaram de morte. Se ele não marcasse um pênalti, seria morto. Bem, o pênalti foi marcado, mas o River o desperdiçou e acabou caindo mesmo. Insólito! O incrível é que esses torcedores tiveram apoio dos dirigentes e da chefia da polícia. Tive acesso ao vídeo e se vê claramente como os policiais orientam os torcedores por onde ir para chegar aos vestiários. E não acontece nada quando isso chega à Justiça. Isso aconteceu há um ano e ainda estão discutindo se o tal vídeo é uma prova válida ou não para o caso. E, claro, nada aconteceu com os responsáveis até agora. É conveniente para a polícia que a violência siga.

Conveniente como?

Ela tira vantagem da violência. Há dois anos, houve uma investigação grande que envolveu até a cúpula da divisão de esportes da polícia. Consegui provas de como eles combinavam com os torcedores para criar violência. Porque, se há violência, eles têm argumentos para pedir mais efetivo para a segurança nas partidas, um serviço cobrado dos clubes e da AFA. Cada policial recebe US$ 40 por partida trabalhada. Então, no jogo que teria 300 agentes eles pedem mil, alegando que a partida anterior teve diversos problemas. Mas ficou comprovado que não levam mil policiais. Levam 500 e embolsam o resto. O Congresso tomou a denúncia e demitiu diretores a polícia.

Há grupos políticos ou algum setor da sociedade que se coloquem contra os barras bravas?

Há uma ONG, que se chama “Salvemos al Fútbol”, que trabalha contra a violência no futebol. Mas não tem muito poder. Até organizam mobilizações, mas não são muito populares. Eles levam à Justiça as questões que eu apresento no jornal, mas é um grupo pequeno. Eu já falei que o único jeito de mudar o cenário atual é uma greve de torcedores, ninguém mais ir ao estádio. Se a TV mostrar um Boca x River com estádio vazio, só com mil torcedores organizados de cada lado, os políticos perceberão que está acontecendo algo muito grave. Mas os torcedores dizem que se pode fazer tudo, menos deixar de ir ao estádio. Na Argentina há movimentos de indignação quando morre alguém, mas depois passa.

O presidente do Independiente entrou em conflito com a barra brava do clube. Foi o único dirigente a tentar fazer isso?

Foi. O Independiente era completamente dominado pela barra brava. Ela tinha o passe dos jogadores, o campo de treino. O chefe da torcida era o diretor da ONG de torcedores que o governo armou. Então, começaram a ganhar muito dinheiro e muito poder. E o Independiente era um desastre sob o controle da organizada. Ninguém queria ir mais lá, era muita violência. Então, o Javier Cantero fez uma campanha dizendo que tiraria a barra se votassem nele e ganhou.

Ele está tendo sucesso?

Mais ou menos. Ele assumiu em dezembro de 2011 e tentou acertar as coisas com a torcida. Em março eu descobri que ele ainda dava alguns benefícios. Até entendo que não dá para cortar tudo pela raiz, mas aí tem de explicar isso a todos. Ele dava muito menos que antes, mas ainda dava algo para mantê-los tranquilos. Quando publiquei a reportagem, ele admitiu publicamente seu erro, disse que acreditava que era uma forma de manter a barra brava controlada e que passaria a combater seriamente a partir dali. E, quando começou a fazer isso, as coisas ficaram piores.

De que forma?

São suspeitas, porque os jogadores negam. Mas, desde que o Cantero cortou todos os benefícios dos barras bravas, a equipe estranhamente começou a perder uma partida atrás da outra. Perguntam aos jogadores se estão sendo ameaçados pela torcida, exigindo que entreguem o jogo para derrubar o presidente. Eles dizem que não, mas não dá para saber se é verdade. Hoje, o time está brigando para não cair. Quando começar a próxima temporada, o Independiente estará em posição de rebaixamento direto pela média de pontos das últimas temporadas. E é o único clube, ao lado do Boca, que nunca caiu para a segunda divisão.

Se os torcedores do Ferro concordassem em fazer uma greve contra a barra brava do clube, você participaria?

Claro! Porque é o que tem de ser feito para que isso fique explicitado. Quando eu escrevi umas matérias sobre a torcida do Ferro, o líder da torcida me perguntou porque eu o atacava: “Eu faço com que não roubem dentro do nosso bairro. Mandamos roubar fora”. Bem, não tem de roubar em lugar nenhum! São padrinhos da máfia, cada um em seu setor. É uma situação cada vez pior, porque a política, ao invés de combatê-los, os incluiu. A pessoa que gerencia o futebol do Ferro é uma figura muito importante do Partido Justicialista [peronista, partido do governo].

Como foi fazer a investigação de tudo isso, para ter acesso?

Tenho uma vantagem, que é trabalhar há 16 anos com esse tema. Conheço todas as partes envolvidas. Eu colaboro muito com a Justiça ou os advogados que trabalham nesse meio. No caso dos barras bravas que invadiram o vestiário do árbitro no River x Belgrano, a polícia só conhecia dois dos 12. Me chamaram para ver as imagens e identificar os demais. Com isso, acabei tendo acesso ao vídeo e tendo os nomes dos envolvidos. Muitas vezes, acabo tendo mais informações das leis supostamente violadas em um processo que os próprios advogados dos torcedores. Quando precisam de uma informação sobre o que está acontecendo, acabam me passando muita coisa também.

Como as pessoas viram seu livro?

Há três públicos diferentes. Um público é o torcedor normal que admira a barra brava. Na Argentina, um dos problemas é que o torcedor que vai ao estádio admira a torcida organizada e só repudia quando há violência forte. Aí, diz “não, não quero mais”. Depois, passa um tempo, eles voltam a dizer que a torcida é necessária, porque organizam a festa, as bandeiras. Esse público é muito importante e há muitos boquenses que dizem que “hoje, somos os únicos com um livro sobre sua torcida organizada”.

Viram seu livro como prova da grandeza do Boca?

Isso. Cada vez que o Boca é campeão, sai uma revista. E, agora, sai um livro sobre a torcida. Eles encaram La Doce como um livro sobre a história deles próprios, e não é. É sobre o grupo mafioso.

E quais os outros dois públicos do livro?

Outro tipo é o torcedor comum que repudia a torcida organizada. E dizem que o livro comprova o que eles sempre disseram: são máfias e é preciso eliminá-las. Até porque as relações das torcidas organizadas mostram como são as relações corruptas na Argentina como um todo. E há o grupo de barras bravas. No início, foi um pouco complicada a relação. Quando saiu o livro, reclamaram que haviam me dito coisas, contado os crimes que cometem, sem saber que sairia um livro sobre isso. Mas, depois, ficam orgulhosos porque saíram um livro sobre eles, com fotos deles. Então, sentem como reconhecimento.

Os barras bravas chegaram a ameaçá-lo?

Sim, mas eu trabalho no Grupo Clarín, o maior da Argentina. Ele tem muito poder. Quando há um problema sério, isso ajuda. E nunca tive um problema grave com os barras bravas. Se eles reclamam, eu digo que vou processá-los pelas ameaças e passa. O problema é quando houve investigações que esbarraram na polícia, no caso da fraude nos efetivos utilizados para fazer segurança nas partidas. E eu tenho mais medo da polícia do que dos barras bravas. Aí tive ameaças sérias.

O que fizeram?

Invadiram minha conta de e-mail, me telefonaram dizendo que horas eu deixava meus filhos na escola. No segundo dia em que isso aconteceu, fui falar com o presidente do Clarín. Ele ligou para o diretor geral da polícia e contou o que acontecia comigo. Disse que, se acontecesse algo comigo no dia seguinte, essa história seria a capa do jornal, com ataques diretos à cúpula da polícia. Não aconteceu mais nada. Mas isso só aconteceu porque trabalho no Clarín. Se trabalhasse em um veículo menor, não teria esse suporte.

Os barras bravas o conhecem. Por que contam os crimes que cometem?

Porque gostam de aparecer no jornal. Gostam de se mostrar. Outro dia, houve um julgamento contra várias figuras importantes de La Doce. Quando terminou o julgamento, 500 barras bravas fecharam a rua, no centro de Buenos Aires, para comemorar. Rafael Di Zeo, chefe de La Doce e barra brava mais popular da Argentina, se mostrava para fotos. Depois, me deu uma entrevista exclusiva porque eu cubro esse assunto sempre. Ele ainda ficou me perguntando se ia aparecer na capa do jornal! Não queria página interna.

Aqui no Brasil, muita gente acredita que a festa na arquibancada faz o torcedor comum ter alguma simpatia pelas organizadas, mas a violência é importante para atrair novos membros, sobretudo os mais jovens que querem alguma adrenalina e poder. Na Argentina, ser reconhecido como um criminoso que está acima do bem e do mal ajuda também a ter seguidores?

Sim, claro. Há muita gente que vêem nesses barras bravas exemplos de pessoas que começaram de baixo e estão ali no topo. Aí, imaginam que podem conseguir o mesmo. De qualquer modo, a festa no estádio também é importante porque transforma a questão da torcida em “folclore do futebol”, como se diz lá na Argentina. Mas eu acho que nenhum folclore pode ser admitido se uma pessoa morre por violência. E já foram 268 mortos. Não é festa nenhuma, é um funeral enorme.

Esse mapa mostra como Yankees (e Red Sox um pouco) têm as torcidas mais nacionais da MLB

Facebook mostra que equipe tem mais seguidores em cada condado de Estados Unidos e de uma parte do Canadá

A temporada da MLB está para começar, e os norte-americanos terão seu passatempo preferido para o verão de volta. Para ver que time terá a preferência em cada parte do país, o Facebook montou um mapa mostrando qual a franquia com mais seguidores em cada condado dos Estados Unidos. O resultado é bem interessante.

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O resultado não tem valor científico, pois nem todo torcedor segue seu time, algumas pessoas seguem mais de uma equipe e o desenho ignora os times que ficam em segundo ou terceiro lugar em várias regiões (por exemplo, o alcance dos Dodgers parece muito menor do que realmente é). Além disso, a indicação é por área de cada condado, não mostrando quais são mais populosas e, portanto, mais importantes como mercado.

De qualquer forma, o resultado final dá um retrato que serve de referência para muita coisa. Alguns pontos interessantes:

Obs.: ninguém tem obrigação de conhecer os estados norte-americanos. Então, aqui um mapa para ajudar.

– A área das Montanhas Rochosas são as mais misturadas. Idaho e Montana têm condados torcendo por cinco times diferentes. Além dos dois, apenas Louisiana, Novo México e Nebraska têm a mesma diversidade;

– O New York Yankees é claramente o time de mais penetração nacional, sendo o clube mais seguido em várias regiões distantes de Nova York. Domina Louisiana, Virgínia, Novo México e Montana, além de ter perto de metade dos territórios de Flórida, Idaho, Utah e Carolina do Norte;

– O Boston Red Sox também aparece como preferido em lugares distantes de sua sede (agora dá para entender por que a ESPN norte-americana transmite tantos jogos dos dois times?), sobretudo Idaho, Utah e Montana;

– New York Mets e Oakland Athletics não têm o domínio de nenhum condado, mesmo em torno de suas sedes (bairro de Queens e Oakland);

– O Toronto Blue Jays praticamente monopoliza o Canadá. Perde de Yankees e Red Sox em alguns condados no Leste e para o Detroit Tigers em Windsor (cidade que faz fronteira com Detroit), mas não dá margem para outros times que têm influência em território canadense, Minnesota Twins e Seattle Mariners;

– Não há dúvidas que o Houston Astros é o time de Houston, mas o Texas Rangers não é apenas o time de Dallas, mas de todo o estado;

– O San Francisco Giants parece dominar o Havaí, mas é uma impressão errônea. O time californiano é majoritário em quase todas as ilhas, mas perde dos Yankees justamente na que mais importa, Oahu, onde está 70% da população havaiana;

– Do mesmo jeito, Yankees e Red Sox parecem dividir com o Seattle Mariners a preferência das pessoas do Alasca. Não é verdade. As áreas dominadas pela dupla do Nordeste são as menos populosas do estado. Dos nove condados ou regiões com mais de 10 mil habitantes, oito estão dominadas pelos Mariners (os Yankees vencem em Bethel, no sudoeste do estado);

– O Sul é quase todo dos Braves, incluindo o noroeste da Flórida;

– O Chicago White Sox perde do Chicago Cubs no geral, mas até domina um território razoável na região metropolitana.

Além de destruir patrimônio histórico, torcida do Feyenoord tira sarro e ameaça romanistas

Ultras holandeses apresentam camiseta esquentando (em um péssimo sentido) o clima antes do jogo contra a Roma pela Liga Europa

O clima não deve estar legal nesta quinta em Roterdã. Uma semana após a torcida do Feyenoord entrar em confronto com a polícia de Roma e danificar a histórica Fonte da Barcaça, é a vez de os ultras romanistas devolverem a visita. E a expectativa é que ela seja igualmente hostil, eventualmente transformando algum ponto importante da segunda maior cidade holandesa em alvo como uma forma de vingança.

Hora de alguém dar um sinal de paz e evitar mais problemas. Mas não espere isso da torcida do Feyenoord. Ao invés de assumir a bobagem que fizeram na capital italiana, alguns ultras holandeses resolveram intensificar a provocação e criaram a camiseta abaixo.

Camiseta de torcedores do Feyenoord ironizando romanistas e a fonte depredada
Camiseta de torcedores do Feyenoord ironizando romanistas e a fonte depredada

O “Je suis fountain” é uma óbvia referência ao “Je suis Charlie” que se espalhou pela Europa após os assassinatos dos chargistas do jornal francês Charlie Hebdo. Mas os torcedores deixaram claro que a demonstração de solidariedade era irônica, e completaram: “Só brincadeira. Vejo vocês na quinta, suas escórias esfaqueadoras da Roma”. A menção a facas se deve à fama que os ultras romanistas têm na Europa de apunhalarem os torcedores visitantes.

É, a coisa não vai ser fácil em Roterdã.

Esqueça o estereótipo: Chelsea e PSG têm torcida de verdade, e já tiveram problemas por isso

Dois clubes são marcados pelos mecenas atuais, mas já foram famosos pela violência de seus torcedores

Narrativas simples são atraentes. Elas permitem desenhar facilmente um retrato, e se apegar a eles é fácil, mesmo que estejam longe da realidade. O duelo entre Paris Saint-Germain e Chelsea, que abre as oitavas de final da Champions League, é um exemplo bom. Para muitos, é o confronto entre dois clubes que só viraram força europeia por causa do dinheiro de milionários excêntricos e contam com uma torcida recente, pouco autêntica e que só foi atrás dos times azuis por causa dos títulos recentes.

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Bem, tente falar que os seguidores de Chelsea e PSG são “modinha” para os policiais londrinos e parisienses, sobretudo os das décadas de 1980. Mais que as fortunas de mecenas recentes, o que une a história desses clubes é a mistura de torcedores fanáticos de origens diferentes, e como isso ajudou a criar uma cultura de violência que virou referência (negativa) em seus países. Tanto que o confronto entre as equipes nas quartas de final da Champions já foi marcado por brigas nas ruas.

O atual líder do Campeonato Inglês é um dos times que mais sofre com a rotulação. No Brasil, há até quem diga que o clube era um São Caetano antes da chegada de Roman Abramovich. Não precisa ser um historiador de futebol britânico para saber que se trata de uma bobagem monumental, mas mesmo a imagem de “time de burgueses” que o Chelsea carrega não é inteiramente verdadeira.

De fato, o Chelsea tem esse nome devido ao sofisticado bairro londrino que fica próximo a Stamford Bridge. No entanto, o clube sempre foi um dos mais tradicionais de Londres – durante décadas, brigou com West Ham pelo posto de terceiro principal time de Londres, atrás de Arsenal e Tottenham – e acabou atraindo torcedores de várias áreas do sul da capital inglesa, incluindo regiões operárias como Battersea (famosa pela usina termelétrica que virou capa do álbum Animals do Pink Floyd) e Hammersmith.

Dessa mistura surgiu a Chelsea Headhunters, uma firm (espécie de torcida organizada comum na Inglaterra nas décadas de 1970 e 80) conhecida pela postura racista e violência. Ao lado dos grupos de West Ham e Millwall, estava entre as três torcidas mais temidas do futebol londrino. Além disso, os Headhunters ainda tinham aliança com outras organizações europeias com a mesma ideologia política, como as firms de Cardiff City e Rangers e os ultras de Lazio e Verona (da parceria das firms de Chelsea e Rangers surgiu o Glasgow Smile, também conhecido como Chelsea Smile. Se quiser ver como é, vai ao Google por sua conta e risco. Não vou linkar aqui porque é um negócio muito macabro).

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A torcida causava tantos problemas que Ken Bates, dono do clube, chegou a propor a construção de uma grade elétrica para impedir a invasão do gramado em Stamford Bridge. Claro que a ideia não foi para frente, e as ações dos Headhunters só tiveram redução significativa após as diversas medidas do governo e da liga inglesa para combater a violência nos estádios.

Medidas das autoridades também foram necessárias ao sul do Canal da Mancha. Durante anos, o Paris Saint-Germain e as autoridades francesas não sabiam como controlar o impulso dos torcedores fanáticos do principal clube parisiense.

A história é até estranha. Fundado em 1970 para ser o grande clube de Paris após a crise tirar do caminho várias equipes tradicionais, como Racing, Stade Français e Red Star, o PSG não tinha muitos torcedores. Soava como um time artificial, que não era realmente a preferência dos locais. A direção resolveu criar promoções de ingressos mais baratos, e funcionou. A população da periferia, com menos poder aquisitivo, teve condições de ir aos jogos, e uma cultura de torcida rapidamente se desenvolveu.

O problema foi o resultado disso. Grupos de extrema-direita formaram o Boulogne Boys, torcida com inspiração nas firms inglesas. Atos de violência se espalharam pelos jogos do PSG em Paris e pelo interior, sempre com um caráter de racismo e intolerância contra outras regiões do país. Em 2008, um membro dos Boulogne foi morto por um policial que tentava defender um torcedor do Hapoel Tel-Aviv que era atacado antes de uma partida da Copa da Uefa.

Até seguidores do PSG sofriam, e passaram a fugir do Parque dos Príncipes. Para combater esse domínio dos Boulogne Boys, o clube incentivou outro grupo importante de torcedores, os imigrantes da periferia de Paris, a formarem um contra-grupo. Assim surgiram os Supras Auteuil e os Tigris Mystic. A química entre as novas torcidas e a já estabelecida foi horrível desde o início, pois elas representavam tudo o que a anterior contestava.

Para a polícia francesa, mais difícil que proteger as torcidas visitantes dos ataques das organizadas do PSG era proteger uma organizada do PSG da outra. Houve vários ataques dos Boulogne Boys contra os Supras ou os Tigris, sempre com reações na mesma intensidade. Um líder dos Boulogne chegou a ser assassinado pelos Supras antes de uma partida contra o Olympique de Marseille (maior rival do PSG, o que já tornava aquela encontro como de alto risco).

A morte do líder do Boulogne marcou a dissolução do Supras Auteuil pela polícia francesa. A torcida de extrema-direita também não sobreviveu, sendo extinta após exibir faixas chamando os torcedors do Lens de “vagabundos pedófilos e incestuosos”.

As torcidas violentas de Chelsea e Paris Saint-Germain acabaram devido a seus próprios atos, mas os dois clubes foram para o extremo oposto nas arquibancadas, ainda mais depois da pasteurização causada pelas novas leis e pelo dinheiro milionário que chegou. Mas os clubes sabem que é preciso recuperar um pouco da paixão que se perdeu.

Os londrinos criaram a campanha Back to the Shed, incentivando um grupo de torcedores a recuperar o clima de Stamford Bridge pré-Premier League. Os parisienses lançaram a “Tous PSG”, que acabou com todas as organizadas do clube em favor de uma cultura antiviolência. Os grupos foram readmitidos posteriormente, mas sem resquícios dos Boulogne Boys e os Supras Auteuil.

Excluir torcida visitante é mais uma prova de como autoridades não gostam de lidar com pessoas

Para eles, entender seres humanos é uma coisa que dá trabalho demais

Pessoas são complexas. Pessoas pensam de forma diferente. Pessoas agem de formas diferentes. Pessoas têm sentimentos, nobres e ignóbeis. Pessoas têm expectativas e ambições diante das coisas que as cercam. Pessoas não são uma massa amorfa que pode ser controlada ou contida como água em represa ou plantas em um vaso. As autoridades brasileiras, em todos os níveis, não entendem isso. Continuam tratando pessoas como se trata gado, construindo barreiras e colocando um capataz para orientar onde todo rebanho deve ir. E o mais recente caso de proibição de torcida visitante em clássico só reforça isso.

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A medida não é nova. Já ocorreu em Minas Gerais para alguns Cruzeiro x Atlético e esteve perto de se repetir em Porto Alegre nos Gre-Nais do último Brasileirão. Em todos esses casos, as brigas entre torcidas eram tratadas como algo inevitável. Afinal, para as cabeças mandantes do Brasil, povo é bicho, é um animal selvagem, que necessariamente buscará a matança como predadores na savana.

Extrapolando os limites do futebol, são as mesmas cabeças que acham que segurança pública se faz tirando gente das ruas, encastelando todos em suas casas e deixando as cidades mais vazias que no filme “Eu Sou a Lenda”. Praças onde as pessoas podem se encontrar são vistas como estorvos, só servem para atrapalhar a construção de mais um condomínio. Vida em comunidade, para eles, é trocar mensagens no Facebook. Lazer de fim de semana é enviar memes para os amigos. Xavecar é dar um like no perfil de alguém no Tinder.

E quando as pessoas insistem em ir para a rua? Basta ver as reações violentas às primeiras manifestações que ocorreram no Brasil nos últimos tempos. É muita gente agindo como pessoas agem, e dá uma preguiça danada entender o que aquele povo todo quer. Mas a tentativa de contenção foi fracassada, e o povo inteiro foi para a rua protestar contra todos os governos brasileiros, e isso não fez das capitais brasileiras lugares piores.

Centro de Nova York em "Eu Sou a Lenda"
Centro de Nova York em “Eu Sou a Lenda”

Aliás, Junho de 2013 é um bom exemplo do como a sociedade funciona. O ser humano é complexo, sobretudo quando age em grupos. É capaz das coisas mais sensacionais, mas também é responsável por atos de enorme estupidez. Atos como o de agredir e até matar outro ser humano por causa da preferência futebolística.

Quem já foi a estádio de futebol, já botou o traseiro na arquibancada e já conversou com torcedores, sabe que aquele ambiente agressivo pode transformar personalidades normalmente pacatas. Sabe também que as brigas têm uma função dentro da dinâmica das organizadas, e é esse ponto que precisa ser atacado. Tanto que apenas nove das 275 mortes relacionadas a futebol no Brasil ocorreram em estádios (ótimo levantamento de Rodrigo Vessoni, no Lance).

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Estudar as organizadas, investigar, acabar com os elementos que dão força a elas e punir quem cometer crime. É preciso entender a complexidade dos indivíduos que fazem parte desses grupos e que atitudes teriam reais efeitos sobre eles. Depois, cria planos com meses de antecipação, já prevendo que atitudes serão adotadas para cada estádio, para cada clássico.

Por exemplo, em duas semanas teremos Corinthians x São Paulo em Itaquera. Se Ministério Público, Polícia Militar, Federação Paulista e clubes só fizeram o plano de segurança para Palmeiras x Corinthians quatro dias antes do clássico, como será nesse jogo pela Libertadores? Afinal, será quarta-feira de cinzas e as organizadas podem fazer o esquenta desde a manhã. Esse jogo já deveria estar todo estudado pelas autoridades desde o sorteio da Libertadores, realizado em 2 de dezembro.

Mas isso tudo dá trabalho. Mais fácil para as autoridades (polícia, poder judiciário, cartolas e até jornalistas, nos níveis municipais, estaduais e federal) continuar tratando torcedor de futebol como rebanho. Vendendo ao público a ideia de que a violência é inevitável, o que serve apenas para criar uma sensação exagerada de medo. E ter uma população amedrontada é a melhor forma de controlá-la, de fazer o desmando que bem entender.

Forçar as pessoas a ficarem em suas casas não mudará nada. Não é um jeito de depurar as torcidas, de criar um ambiente em que o torcedor pacífico prevaleça sobre o violento. É justamente o oposto: aliena o torcedor pacífico do futebol, e entrega o esporte de bandeja aos violentos.

O futebol precisa de gente, as cidades precisam de gente. Gente que conheça e respeite o espaço do outro, gente que interaja, gente que troque experiências, gente que pratique esporte e tire sarro do time do outro. É assim no mundo todo, e qualquer brasileiro mais abastado fica babando com a suposta “civilidade” quando viaja e conhece metrópoles dinâmicas, com pessoas diferentes trocando ideias sem problemas. Elogiam cidades como Nova York, Londres, Paris e até Buenos Aires como se americanos, ingleses, franceses e argentinos fossem menos selvagens que os brasileiros. A diferença muitas vezes está na forma como o poder público trata cada um. Nós tivemos um presidente que dizia preferir o cheiro de cavalo ao do povo.

Enquanto as autoridades continuarem tratando as pessoas (das mais ricas às mais pobres) como se fossem bicho, elas não criarão as condições para que as pessoas ajam de forma mais coletiva e comunitária. Desse modo, impedir que clássicos tenham torcidas do clube visitante não é uma falência do futebol brasileiro. É uma falência do poder público, e como ele continua sem saber o que está sendo gerido.

Torcedores do United são presos por briga com sujeitos fantasiados de Wally

Confusão ocorreu em março de 2013, mas polícia divulgou o vídeo surreal apenas nesta semana

Admita, você nunca imaginou que leria uma frase como a do título acima. E o pior é que ela não é resultado da imaginação fértil de algum redator ou um subproduto de conversas nonsense no final de um happy hour. Isso realmente aconteceu: torcedores do Manchester United exageraram na cerveja após um jogo contra o Norwich City e acabaram brigando com um grupo de indivíduos fantasiados de Wally, personagem do livro “Onde Está Wally?”.

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A confusão ocorreu em março de 2013, mas apenas nesta semana a polícia divulgou suas imagens. Os torcedores (John Eyre, 46 anos, seus filhos Jack, 22, e Rhys, 17, e um amigo, Ross Hunter, também 17) viram várias pessoas vestidas de Wally para uma despedida de solteiro na esteira rolante de uma estação de trem e começaram a provocar. Os Wallies acabaram reagindo, e a confusão cresceu.

Houve alguns empurrões, socos e até uma paulada na cabeça de um dos Wallies. A polícia prendeu os quatro torcedores do Manchester United e um dos Wallies, mas converteu a detenção em multa, serviços comunitários, suspensão da entrada em estádios de futebol por 2 anos e, no caso de Rhys e Ross, reabilitação.

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Quem tem mais torcida, Real Madrid ou Barcelona? Essa pesquisa responde

Dados também mostram que equipes que batem os gigantes e dominam as paixões em suas regiões

A rivalidade entre Real Madrid e Barcelona muitas vezes é tida como a maior do mundo. Talvez não seja em relação às manifestações de ódio entre eles, mas provavelmente é em relação à relevância das equipes e da importância que os duelos têm. Mas, nesse clássico que domina as atenções na Espanha, quem tem mais torcida? Bem, o Centro de Investigaciones Sociológicas, órgão de pesquisas sociais da Espanha, fez uma pesquisa e respondeu.

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Em número de torcedores, a supremacia do Real Madrid é marcante. Os merengues têm 38% dos torcedores espanhóis, contra 25% do Barcelona. O terceiro colocado é o distante Atlético de Madrid, com 6%. A quarta posição é dividida entre equipes de apelo regional: Athletic Bilbao, Valencia e Betis, todos com 3%.

No entanto, o mais interessante da pesquisa é como ela separou os torcedores pelas 40 províncias do país. O Real tem a maior maior torcida em 21 províncias (incluindo Albacete, La Rioja e Ilhas Baleares, onde está empatado com o Barça) e é segundo em 16 (incluindo Barcelona, onde há 16% de madridistas). Só em três províncias o Real fica na terceira posição. O Barcelona é o maioral em apenas 8 províncias (incluindo as três em que empata com o Real). Em 19 está na segunda posição e fica em terceiro ou abaixo em 17 áreas (incluindo Madri, com apenas 8%).

O curioso é que o Atlético, terceiro time de mais torcida, não é o primeiro em nenhum lugar. Fica em segundo em seis regiões e em terceiro em outras três. As equipes que conseguem deixar para trás a dupla de gigantes são forças regionais: Valencia (Valência), Athletic Bilbao (Biscaia), Betis (Sevilla), Real Sociedad (Gipuzkoa), Osasuna (Navarra), Zaragoza (Zaragoza), Deportivo de La Coruña (A Coruña), Celta (Pontevedra), Racing de Santander (Cantábria), Sporting de Gijón (Astúrias),Valladolid (Valladolid) e Las Palmas (Las Palmas).

Veja abaixo o mapa interativo que compara as torcidas de Real Madrid e Barcelona. Para ver mais detalhes do estudo do CIS (em espanhol, mas vale a pena) clique aqui (detalhamento) e aqui (mapa interativo).

Mapa compara as torcidas de Real Madrid (tons de azul) e Barcelona (tons de grená). As áreas empatadas estão em cinza
Mapa compara as torcidas de Real Madrid (tons de azul) e Barcelona (tons de grená). As áreas empatadas estão em cinza

Quem comemorou morte de Fernandão poderia aprender com esses exemplos

A rivalidade é uma das coisas mais importantes do futebol, mas não a única

A arquibancada embrutece. Ganhar para ter o direito de tirar sarro na segunda se torna tão importante que muita gente esquece as coisas mais básicas. Por exemplo, respeitar pessoas que morreram ou momentos emocionalmente sensíveis e importantes do adversário. Uma realidade que um grupo de gremistas nos fez lembrar ao cantar “Fernandão morreu” antes do Gre-Nal deste domingo.

Obs.: a cena já é horrível por si só, mas ficou apenas pior quando a viúva do jogador relatou que estava no estádio com seus filhos, justamente no Dia dos Pais.

Não foram todos os tricolores que entraram na cantoria, nem foi a única vez em que isso ocorreu. Alguns rubro-negros cantaram “uh, vai morrer!” enquanto Ricardo Gomes tinha um AVC durante Flamengo x Vasco em 2011. Torcedores do ADO Den Haag imitam o som de câmaras de gás em jogos contra o Ajax devido à origem judaica do clube de Amsterdã. Ultras da Juventus levaram faixas para brincar com o acidente de Superga no último dérbi contra o Torino.

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Mas nem sempre é assim, ainda bem. Ser rival não significa que você precisa se desumanizar em nome da gozação. Há diversos exemplos, mas pegamos três relativamente recentes e conhecidos.

Real Madrid presta homenagens a Tito Vilanova

Por mais que a rivalidade entre Real Madrid e Barcelona tenha se acirrado nos últimos anos (sim, ela está pior do que era), houve momentos de cortesia e respeito. Quando Abidal se afastou do Barcelona, o Real entrou em campo vestindo camisas com as frases “Ánimo, Abidal” e “Get well soon, Abidal”. Quando o Tito Vilanova deixou o comando blaugrana, foi a vez do “Ánimo, Tito” aparecer. E, com a morte do técnico, a torcida merengue respeitou o minuto de silêncio no Santiago Bernabéu, aplaudindo o rival ao final da homenagem.

Atleticanos apoiam Tinga no clássico mineiro

A estreia do Cruzeiro na Libertadores foi das piores. O placar foi negativo (derrota por 2 a 1 para o Real Garcilaso), mas a tristeza foi ofuscada pela indignação de ver a torcida peruana imitar macacos sempre que Tinga pegava na bola. Dias depois, a Raposa enfrentou o Atlético Mineiro no Independência. E a torcida alvinegra fez um ótimo papel, levando faixas em solidariedade ao jogador cruzeirense (foto acima). O que não diminuiu em nada a rivalidade, viva em frases como “Racismo eu não desejo ao meu pior inimigo” e no canto “Tinga, vai se foder, mas no racismo nós estamos com você”.

A solidariedade do Everton após Hillsborough

O momento mais traumático da história do Liverpool foi a semifinal da FA Cup de 1989, em que 96 torcedores morreram em um superlotado estádio de Hillsborough. As autoridades culparam a torcida vermelha pela tragédia, uma forma de esconder o papel de sua própria incompetência. Os torcedores do Everton estiveram ao lado dos rivais o tempo todo, prestando homenagem e ajudando na pressão por novas investigações e justiça, o que acabou ocorrendo apenas nesta década.

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Se tudo isso pode parecer muito distante, gremistas e colorados poderiam se lembrar do que seus próprios clubes já fizeram nos últimos tempos. No dia do centenário tricolor, em 2003, o Internacional divulgou uma carta parabenizando o irmão mais velho pela data. Uma atitude que o Grêmio retribuiu seis anos depois, quando o rival soprou 100 velinhas (veja a troca de cartas aqui). E até no caso Fernandão isso já foi visto, com torcedores azuis indo ao Beira-Rio para se juntar às homenagens ao ídolo colorado no dia de sua morte.

É possível ser razoável sem deixar de ser rival.