Kaepernick tem a maior sequência de vitórias de um quarterback que nem entrou em campo

Para quem só via os fatos da intertemporada se viraram contra ele, o começo de ano do QB dos 49ers é surpreendentemente positivo

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O Minnesota Vikings é o único time invicto após  temporada 2016 da NFL. Claro, Sam Bradford não perdeu nenhuma de suas quatro partidas. Entre os quarterbacks que também venceram os jogos que disputaram estão Shaun Hill (Vikings) e Tom Brady (New England Patriots), que participaram de apenas uma partida cada. Mas nenhum QB tem vencido tanto neste início de temporada quanto Colin Kaepernick. E ele nem entrou em campo.

O armador do San Francisco 49ers foi anunciado como titular para o duelo contra o Buffalo Bills fora de casa. A escolha do técnico Chip Kelly soa óbvia, considerando que o time não tem conseguido bons resultados com Blaine Gabbert e que Kaepernick, por pior que tenha atuado nos últimos tempos, já foi competitivo um dia.

Ganhar a posição em um time que não dá a menor pinta de que disputará uma vaga nos playoffs (ainda que o Los Angeles Rams esteja na briga nesse momento, o que dá um ar de “tudo pode acontecer” nessa divisão) não parece um grande feito. Ainda mais porque muitos consideravam que Kaepernick realmente teria nova oportunidade após a contratação de Kelly. Mas o retorno, da forma como ocorre, é uma vitória.

Kaepernick foi o grande personagem da pré-temporada da NFL. Sua recusa em ficar em pé durante o hino norte-americano, como protesto à forma como as autoridades dos Estados Unidos tratam os negros, motivou um caso nacional. Vários outros atletas, de diversos esportes, repetiram o gesto. Muita gente importante se posicionou, dos dois lados da polêmica, criando um debate. E era justamente isso o que o quarterback dos 49ers disse que pretendia: criar o debate (afinal, seria muita ingenuidade acreditar que toda a sociedade mudaria só porque ele ficou de joelhos na hora do hino).

Gabbert foi o escolhido como titular nos primeiros jogos, mas perdeu a posição diante da falta de competitividade da equipe californiana. Kaepernick, que já havia tido sucesso ao motivar um debate nacional, acabou recuperando a posição da melhor forma: com torcedores e jornalistas se lembrando de que um dia ele foi bom. Ou seja, ele voltou como alguém desejado e que talvez até tenha apoio das arquibancadas.

É um clima muito diferente de como Kaepernick começou algumas de suas últimas temporadas. Em 2013, teve de lidar com as repercussões (e as expectativas criadas) de um comentário empolgado de Ron Jaworski, analista da ESPN que afirmou que o QB dos 49ers poderia se tornar o melhor da história. No ano seguinte, seu recesso foi ocupado pelas notícias de que teria jogado com contusão no final da temporada anterior. Em 2015, a polêmica foi pior, e extracampo. Ele passou toda a intertemporada afirmando que se preparava para destruir em campo, e acabou fazendo uma brincadeira de mal gosto com uma inundação em Houston.

Todos esses fatos se viraram contra Kaepernick. Alguns o viram como insensível, outros consideraram seu desempenho frustrante diante do potencial. Nesta temporada, a maré virou a seu favor. As polêmicas criadas acabaram indo a seu favor. E, ainda que ele siga tecnicamente mal após seu retorno aos gramados e a liga não veja mais futuro nele, ao menos pode dizer que conseguiu algumas vitórias nesse início de temporada.

‘Missoula’: questões essenciais sobre o estupro

Livro de Jon Krakauer esquadrinha casos de estupro na Universidade de Montana, muitos deles ligados ao time de futebol americano

por Fernanda Reis

Mesmo depois da circulação de um vídeo em que uma adolescente de 16 anos está nua e desacordada enquanto um grupo de homens no Rio de Janeiro diz que ela foi estuprada por mais de 30, o delegado que comandava as investigações afirmou que a polícia não podia “ser leviana de comprar a ideia de estupro coletivo” quando, na verdade, não se sabia realmente o que tinha acontecido. O caso é ilustrativo de como é difícil acusar alguém de estupro — nem um vídeo é suficiente para que a vítima convença o mundo de que está falando a verdade. O caso é da semana passada, no Brasil, mas encontra paralelo nas várias histórias contadas por Jon Krakauer, autor de “Na Natureza Selvagem”, em “Missoula”, livro americano do ano passado lançado há um mês aqui. O tempo passa, o cenário muda, mas as histórias contadas por Krakauer poderiam muito bem estar acontecendo aqui e agora.

 

Colégio deixa temporada do basquete após jogador do time ser estuprado por colegas

Crime foi cometido fez parte de trote de um grupo de veteranos em um calouro

O time da Ooltewah High School estava em Gatlinburg, Tennessee, para a disputa de um torneio de basquete nos dias que antecedem o Natal. Era 22 de dezembro, os jogadores veteranos da equipe do colégio aproveitaram a viagem para realizar o ritual de trote nos novatos do elenco. Uma situação que fugiu do controle, e resultou em um estupro coletivo de um dos garotos.

Como os envolvidos são menores de idade, seus nomes não foram divulgados e a investigação ocorreu em relativo silêncio. A vítima foi hospitalizada e será transferida para outro colégio. Os três responsáveis pela ação foram presos, mas um (que não cometeu o ato em si, “apenas” incentivou e filmou) responderá pelo crime em liberdade.

O caso demorou para ir a público, o que ocorreu nesta semana após a decisão do colégio de retirar sua equipe de toda a temporada do basquete universitário. O motivo alegado foi evitar que o andamento das competições atrapalhassem na investigação.

De acordo com o WRCB, canal regional de Tennessee, trotes são comuns na equipe de Ooltewah há anos. Na viagem do último dia 22, os veteranos teriam aproveitado para bater nos novatos como parte do ritual de iniciação. Um dos jovens não teria gostado e reagiu, sendo punido com o estupro qualificado. Outros três estudantes reclamaram das agressões e suas famílias também prestaram queixa.

Nenhum adulto (membro da direção da escola ou da comissão técnica da equipe) teria presenciado o caso e, por isso, não são alvo das investigações. No entanto, a família da vítima exige a demissão do técnico Andre Montgomery.

Torcida do Houston invade campo para comemorar título, e apanha dos seguranças

Alguém precisa avisar os seguranças do jogo que invadir gramado para celebrar uma conquista é uma instituição dos esportes universitários

Apenas um título de conferência nos últimos 19 anos, nenhum desde a mudança para a American Atlantic Conference. Apenas três bowls em 35 anos. O Houston Cougars é um time tradicional do futebol americano universitário, mas levantar troféus é um pouco raro. Por isso, a torcida texana tinha motivos de sobra para celebrar a vitória por 24 a 13 sobre o Temple Owls na final da AAC neste sábado.

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Bem, como uma torcida universitária comemora grandes momentos? Sim, invadindo o campo. É assim em todos os esportes, mesmo para clássicos ou grandes vitórias em temporada regular. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de familiaridade com o tema sabe disso, mas parece não ser o caso dos seguranças que a Universidade de Houston contratou para essa decisão.

Os funcionários trataram a celebração como se fosse vandalismo. Resultado: começaram a derrubar torcedores, até agredindo alguns. Claro, não conseguiram nada com isso, apenas receber muitas vaias e ver a universidade encerrar o contrato com a CSC, a empresa de segurança para a qual trabalhavam.

Os EUA têm uma ideia bem simples de como punir torcedor que briga em estádio

Amador Rebollero agrediu outro torcedor após discussão em jogo da NFL e foi julgado como um agressor qualquer

Começa uma discussão no banheiro do estádio Levi’s. Nada incomum, considerando que a torcida do San Francisco 49ers tem fama de ser agressiva e tornar o estádio um ambiente hostil, intimidador para os padrões norte-americanos. Mas dessa vez foi diferente. Sem um motivo claro, um dos torcedores partiu para uma agressão bastante intensa. Foram dois socos, e o segundo deixou a vítima caída no chão, desacordada.

Veja a nota completa no ExtraTime

Torcedor é condenado a cinco anos de prisão por agressão no estádio. Simples, não?

Amador Rebollero agrediu outro torcedor após discussão em jogo dos 49ers e aceitou sua pena

Começa uma discussão no banheiro do estádio Levi’s. Nada incomum, considerando que a torcida do San Francisco 49ers tem fama de ser agressiva e tornar o estádio um ambiente hostil, intimidador para os padrões norte-americanos. Mas dessa vez foi diferente. Sem um motivo claro, um dos torcedores partiu para uma agressão bastante intensa. Foram dois socos, e o segundo deixou a vítima caída no chão, desacordada.

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A briga ocorreu em outubro de 2014, durante partida dos 49ers contra o Kansas City Chiefs. O agressor principal foi Amador Rebollero, que teve ajuda de seu irmão Dario. A vítima não teve o nome divulgado, mas foi levada ao hospital em estado grave e teve de passar por cirurgia para a retirada de parte de seu crânio devido ao inchaço de seu cérebro. A família pediu para não divulgarem novas informações sobre sua condição.

Os Rebolleros foram presos e julgados. Nesta semana, a Justiça condenou Amador a cinco anos de prisão. O agressor não contestou a pena e assumiu sua participação na briga. Dario se diz inocente e será julgado em 31 de agosto.

Os Estados Unidos tem um problema com as práticas de sua Justiça, que criou uma população carcerária desproporcional e atinge com mais rigor as minorias. Mas, nesse caso, chama a atenção como não se levantou em nenhum momento a hipótese de julgar os Rebolleros de forma diferente pelo fato de a briga ter ocorrido em um estádio ao invés da rua. Foi uma agressão, a lei prevê certas medidas para quem agride outro indivíduo e os irmãos foram julgados dessa forma.

Parece simples, mas o futebol brasileiro (e o sul-americano em geral) prefere diferenciar certas agressões pelo local em que ela ocorre.

Atentado de Charleston não foi a uma igreja, mas a um símbolo da luta contra a escravidão

A Emanuel Metodista Episcopal Africana foi a primeira igreja negra do sul dos EUA

Um indivíduo entra armado em uma igreja metodista, acompanha por uma hora uma sessão de um grupo de estudos bíblicos e, repentinamente, sai atirando. Nove pessoas morrem, incluindo o pastor Clementa Pinckney. Um caso que poderia levantar suspeita de motivação religiosa, mas que tem todos os elementos de um crime racial. E uma das principais razões disso é o próprio palco da tragédia.

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A história da Igreja Emanuel Metodista Episcopal Africana de Charleston (Carolina do Sul) está diretamente ligada à luta contra a escravidão no Sul dos Estados Unidos. Até porque sua existência se deve ao fato de que negros queriam ter um local para manifestar sua fé sem entrar em conflito com o desejo de serem livres.

No início do século 19, a escravidão ainda era permitida nos estados do sul dos EUA. A igreja não estava fora do processo, e muitas aceitavam abertamente essa situação. Negros eram proibidos ou tinham de ficar em ambientes separados. Isso motivou a divisão de diversas igrejas, com o surgimento de algumas voltadas especificamente para pastores e fieis negros.

Assim surgiu a Igreja Metodista Episcopal Africana, em 1816 na Filadélfia. Essa igreja, assim como outras da comunidade negra, se tornaram locais para reunião e debate de movimentos contra a discriminação racial e a escravidão. Não demorou para o movimento migrar para o sul, região dos Estados Unidos em que a questão era mais delicada. Em 1818, surgiu a primeira igreja metodista africana do sul, a Igreja Emanuel Metodista Episcopal Africana de Charleston (conhecida como Mãe Emanuel).

Um dos líderes da congregação era Denmark Vesey, um ex-escravo que tinha uma situação privilegiada dentro da comunidade. Sabia ler e falar três idiomas (inglês, francês e espanhol), tendo acesso a muito mais informações que uma pessoa média na época, e havia comprado sua liberdade após ganhar na loteria. No entanto, não conseguiu convencer o dono de sua mulher a vender sua liberdade (e a de seus futuros filhos).

Denmark Vesey, um dos fundadores da Igreja Emanuel Metodista Episcopal Africana de Charleston
Denmark Vesey, um dos fundadores da Igreja Emanuel Metodista Episcopal Africana de Charleston

As autoridades não gostavam da ideia de muitos escravos se reunindo e várias vezes fecharam a igreja. Mas a congregação continuava crescendo e a ideia de lutar pela liberdade ficou mais madura. Inspirado pelos “negros franceses”, como eram chamados os escravos levados a Charleston pelos brancos que fugiam da Revolução Haitiana, Vesey passou a articular uma revolta.

Após dois anos de planejamento, o levante dos escravos estava marcado para 16 de junho de 1822. No entanto, a informação acabou chegando às autoridades, que sufocaram o movimento antes mesmo de seu início. Vesey foi capturado e executado em 2 de julho. A Mãe Emanuel foi incendiada. Sua reconstrução ocorreu apenas em 1835, mas as igrejas negras continuaram proibidas na Carolina do Sul e a congregação só pôde se reunir em seus salões após a Guerra Civil Americana, em 1865.

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O fato de ser a primeira igreja negra do Sul dos EUA tornou a Emanuel Metodista Africana de Charleston um dos símbolos da luta pelos direitos civis na Carolina do Sul. Seu pastor, o Reverendo Clementa Pinckney, foi um dos líderes dos protestos na cidade após a morte de Walter Scott, um operador de empilhadeira negro morto pelo policial Michael Slager em uma ação que foi filmada por um pedestre. Slager foi condenado por assassinato.

Todos esses elementos tornam o pastor e sua igreja em um alvo claro de algum indivíduo que queira atacar a comunidade negra da Carolina do Sul. Ainda mais em 17 de julho, um dia depois do aniversário da revolta mal sucedida de Denmark Vesey. Que a história da Mãe Emanuel inspire a comunidade a seguir seu trabalho. Por mais sério que tenha sido, o ataque de Dylann Roof é pequeno perto de tudo o que a igreja já passou.

Agradecimento ao leitor Fábio Martelozzo Mendes

Jogador dos Falcons é indiciado por matar esse yorkshire terrier com um chute

Atlanta imediatamente dispensou Prince Shembo, que já havia sido acusado de estupro de uma garota na universidade

O noticiário de futebol americano durante as férias da NFL se torna cada vez mais escabroso. Já houve casos de agressão a mulher, agressão a filho e assassinatos. Nesta semana, foi a confirmação da acusação de que um linebacker de 1,85 metro de altura e 115 kg matou o cachorro de sua ex-namorada com um chute.

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O caso ocorreu em 15 de abril em Gwinett, estado da Geórgia. Denicia Williams deixou Dior, um yorkshire terrier, com Prince Shembo, seu namorado e linebacker do Atlanta Falcons. Ao voltar, ela percebeu que o cachorro não estava bem. Ela o levou a um hospital veterinário, onde Dior faleceu. No dia seguinte, Shembo admitiu que matou o cachorro com um chute forte, mas alegou que não pretendia machucá-lo.

Prince Shembo durante o NFL Combine de 2014 (AP Photo/Michael Conroy)
Prince Shembo durante o NFL Combine de 2014 (AP Photo/Michael Conroy)

Williams terminou o relacionamento com o jogador dos Falcons e levou o caso à política. Uma necrópsia confirmou que a morte foi causada por forte pancada. Nesta sexta, a polícia indiciou Shembo por crueldade agraada de animais. Imediatamente, o Atlanta Falcons anunciou a dispensa de Shembo.

Um jogador de 115 kg matar um yorkshire terrier de 3 kg a chute parece uma história escabrosa demais, mas talvez nem seja a pior do currículo de Shembo. Em 2014, antes de ser draftado, o jogador admitiu que havia sido acusado de estupro quatro anos antes, quando ainda defendia a Universidade de Notre Dame. A vítima, Lizzy Seeberg, se suicidou. Sua família acusou a univerisdade de ser negligente nas investigações com medo de perder Shembo.

Dificilmente as autoridades farão algo contra a torcida do Boca. Entenda por que

Gustavo Grabia, maior especialista de barras bravas da imprensa argentina, conta como funciona a relação de poder das barras bravas

A festa, o recibimiento, as músicas e a vibração do estádio são o lado bonito das torcidas argentinas. Mas, no superclássico Boca x River desta quinta, vimos o lado feio. Torcedores boquenses deram um jeito de abrir uma brecha no túnel inflável que supostamente protege os jogadores quando entram no gramado da Bombonera e atiraram alguma substância que queimou a pele de jogadores riverplatenses. O jogo foi suspenso, e a Conmebol ainda não decidiu se será reiniciado em outro dia e local ou se os millonarios serão declarados vencedores. Mas acontecerá algo com a torcida?

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Há motivos para acreditar que não. Apesar de haver imagens de torcedores do Boca agindo de forma suspeita, o histórico não dá motivos de otimismo. Até porque a relação dos barras bravas (torcedores organizados argentinos) com as autoridades é mais do que suspeita. Quem fala muito bem disso é Gustavo Grabia, autor do livro La Doce, sobre a barra do Boca Juniors, e especialista de torcidas no jornal argeentino Olé.

Nós entrevistamos Grabia em junho de 2012, e ele explicou muito bem como a situação é realmente complicada no futebol argentino. Então, vale a pena republicar esse texto. Vejam com atenção para entender muito do que tem acontecido na Argentina e por que dificilmente haverá punições pesadas a boquenses pelos atos desta quinta.

Gustavo Grabia, do Olé, sobre violência de torcidas: “Futebol argentino virou um enorme funeral”
O jornalista Gustavo Grabia em programa de rádio (Divulgação)
O jornalista Gustavo Grabia em programa de rádio (Divulgação)

Por Ubiratan Leal

Onipotentes. As barras bravas argentinas já deixaram de ser apenas torcedores que se organizaram para torcer por seu clube. E fora muito além do que se conhece no Brasil, com brigas entre simpatizantes de equipes rivais. Lá, esses grupos ganharam ramificação criminal, usando a projeção que as arquibancadas de futebol lhes dão para criar toda uma estrutura de delitos que vão do tráfico de drogas ao combate de manifestações políticas contra o partido que os contratar como mercenários.

Quem conta essa história é Gustavo Grabia, repórter do Olé, maior jornal esportivo da Argentina, e autor do livro La Doce (lançado no Brasil pela Panda Books), que revela as atividades da barra brava do Boca Juniors. Segundo ele próprio, o poder dos torcedores se tornou tão grande que parece impossível mudar o cenário.

Na Argentina, as brigas de torcedores rivais diminuíram muito. Qual é a nova cara da violência de torcidas?

Não acontece, mesmo com times do mesmo bairro, como Racing e Independiente. O maior medo do torcedor organizado é perder seu negócio. E como ele perde o negócio? Se briga e morre alguém. Porque, se morre alguém, os políticos determinam que alguém tem de cair no comando da torcida. Tudo bem que colocam outro no lugar, mas alguém acaba caindo. Para manter o negócio, não se pode brigar com outro clube. Quando acontece algo como na morte mais recente, em uma briga dentro da torcida do River, as pessoas pensam “se mataram entre eles, que se matem todos”. Vêem como um problema interno da máfia, a pressão por atitudes oficiais é bem menor.

Até porque mexeria com o orgulho do torcedor cujo barra brava foi morto, mesmo que ele não seja um barra brava, e cobraria mais por atitudes.

Certamente, e é por essas coisas que não acontece mais. Os chefes de torcida se conhecem, fazem negócios juntos. Durante a semana estão juntos em uma ONG de torcedores criada e financiadas pelo governo para agir em favor dele. Os torcedores de Racing e Independiente supostamente se odeiam, mas trabalham juntos para o mesmo político. Como vão brigar no domingo se durante a semana estão juntos nos mesmos delitos? Em Rosário, os líderes das torcidas de Newell’s e Rosario Central são sócios no tráfico de drogas, dominam regiões da cidade. Depois, cada um vai ao estádio fazer seu próprio negócio. Então, eles não brigam para não prejudicar todo o negócio.

O que essa ONG de torcedores financiada pelo governo faz?

Recebe dinheiro para trabalhar pelo partido do governo reprimindo opositores, marchas sindicais. Usaram os torcedores organizados para terceirizar a violência. Por exemplo, na Copa de 2010, o governo recrutou as torcidas organizadas para trabalharem pelo partido dele nas ruas, fazendo atos políticos. Uma situação muito louca. Em troca disso, pagou 232 passagens e hospedagens à África do Sul. Isso foi um escândalo internacional. A polícia sul-africana deportou quase 30 integrantes desse grupo.

Então a chance de as autoridades fazerem algo contra os torcedores é pequena.

Para ter uma ideia, o advogado do chefe da torcida do Boca era o advogado do chefe da polícia. E essa pessoa, depois, foi indicada como chefe de segurança do Congresso. O advogado do chefe da torcida tem como cliente a polícia e os partidos políticos! Como as autoridades vão perseguir alguém se compartilham advogados? Essas relações de poder na Argentina nunca vi em lugar algum do mundo. O chefe de segurança da Eurocopa esteve na Argentina ano passado e, quando eu explicava, ele não acreditava. Foi aos estádios para comprovar, e ficou horrorizado. Acha que não dá para consertar. Afinal, se o torcedor organizado tira uma foto com a presidente Cristina Kirchner, por que não teria impunidade?

Foto com a presidente?

Em setembro do ano passado, o San Lorenzo estava lutando para não ser rebaixado. A barra brava foi cobrar os jogadores e o chefe dela agrediu o capitão do time. Não aconteceu nada. Fui investigar e achei fotos dele em um ato político abraçado com a Cristina Kirschner! Com a presidente da República! Então, esse sujeito tem acesso à presidente. Eu sou um jornalista reconhecido e não tenho acesso a ela. Um monte de gente importante e conhecida não tem acesso a ela. Mas esse delinquente tem e tira uma foto ao lado dela. Não significa que ele seja amigo dela, mas, no mínimo, conhece pessoas influentes que conseguem colocá-lo ao lado dela em um ato político. Se esse apoio político não acaba, não há como combater o problema.

Em que nível está esse problema hoje?

Em relação a mortes, foram dez vítimas até agora em 2012. Mas isso são apenas os registros ligados ao futebol. Não estão computados os crimes cometidos por eles em questões políticas ou sindicais. Todos os últimos crimes de violência política ou sindical na Argentina têm barras bravas como responsáveis. São contratados pelos políticos para fazer o trabalho sujo. Também fazem delinquência comum, como narcotráfico. São uma máfia mesmo, com interesses em seus negócios e não mais nos clubes para os quais supostamente torcem. Um dos líderes de La Doce, a torcida do Boca, é torcedor do River Plate. Por quê? Porque essa pessoa viu que na torcida do Boca gira mais dinheiro.

E a torcida do Boca o aceita por quê?

Ele é um delinquente muito perigoso. Esteve em prisões de segurança máxima. Mas tem contatos com o mundo criminal e com políticos. É conveniente para os negócios ter um homem como ele na organização.

As leis argentinas são frouxas nessa questão ou dariam suporte a quem quisesse combater as barras bravas?

Existem as leis, o problema é que não se aplicam a quem precisa. Se você vai a um estádio, tem cinco minutos de loucura e atira algo no árbitro, será levado a uma delegacia. Provavelmente você não será preso, mas deve receber uma pena de ficar longe de estádios por um longo período. Se você fosse de uma torcida organizada, poderia fazer o que quisesse que nunca iriam até você. Antes de vir ao Brasil, o último morto do futebol argentino foi há três semanas, em um jogo do River contra o Boca Unidos, o penúltimo antes da promoção. Assassinaram uma pessoa nas arquibancadas em uma briga nos Borrachos del Tablón [barra brava do River Plate]. Quando a Justiça foi buscar as gravações das câmeras de segurança para identificar os responsáveis, as imagens da briga em si tinham sido apagadas. O médico que fazia o atendimento naquele jogo contou que os líderes da torcida levaram o corpo do rapaz dizendo “olha, aqui tem um que parece que está morrendo” e foram embora. Tudo dentro da torcida do River.

Como uma briga de máfia, em que um irmão manda matar o outro para ser herdeiro nos negócios do pai.

Isso. Os últimos dez mortos no futebol argentino foram em disputas dentro das torcidas.

Que se pode fazer para que as leis sejam aplicadas se eles têm tanto poder com as autoridades?

Não se pode fazer nada se os políticos mais importantes os utilizam. A barra brava do Boca é a maior e mais violenta do país e o governo já a utilizou para a campanha eleitoral de outubro do ano passado. Pagava para que levassem bandeirões com mensagens políticas. Francisco de Narváez, candidato mais importante à província de Buenos Aires, paga a La Doce para exibir um bandeirão escrito “Narváez governador”. Depois disso, eles podem fazer o que quiserem.

Quando fazem isso, vendem espaço publicitário. Um espaço publicitário que seria indiretamente do clube. Ainda que o clube não possa vender publicidade exibida pelos torcedores, o evento é dele e as pessoas veem o jogo pela TV por causa do clube. Os times não têm interesse em  usarem seu poder de mídia para ganharem esse dinheiro, ao invés de deixar com a torcida?

Em princípio, os clubes são sócios das torcidas, que também trabalham para os interesses dos dirigentes.

Como o Mauricio Macri [prefeito de Buenos Aires, ex-presidente do Boca]?

O crescimento da barra brava do Boca foi tremendo quando Mauricio Macri estava na presidência. Ele emprestava o estádio para os barras bravas jogarem bola! Mas não foi só ele. É que o Macri é o personagem mais conhecido que saiu do esporte e ingressou na política.

Se os barras bravas vivem desses negócios extracampo, por que ainda precisam do futebol?

Porque o futebol dá cartaz a eles. Na Argentina, os torcedores organizados são muito populares, têm tratamento de estrelas. O chefe da torcida do Boca e dá tantos autógrafos quanto Riquelme ou Palermo. O futebol retroalimenta a relação deles com os políticos. Porque, se põem uma bandeirão no jogo do Boca, têm enorme visibilidade. Um jogo do Boca tem 30% de audiência, 9 milhões de pessoas. Então a eles é conveniente falar com o chefe da torcida.

Então o futebol ainda representa uma ao parte da receita desse negócio, mesmo com as atividades extracampo?

Representa muito. Sem o futebol, todos os outros negócios ilegais não existiriam. Eles conseguem todos os outros negócios por serem os chefes de torcidas. Eles vendem ingressos, até 5 mil em uma partida. Se um ingresso médio está US$ 12, são US$ 60 mil em um jogo. Eles controlam o trabalho de guardador de carro, de flanelinha. Não sei como é aqui.

Aqui são “profissionais autônomos”.

Então, lá são controlados pelos barras bravas. Em março, houve um tiroteio muito grande por causa disso. Uma parte da torcida queria essa fatia do negócio e outra parte não queria abrir mão. Trocaram tiros, a poucas quadras de La Bombonera. Isso dá muito dinheiro. Há também as festas com os jogadores. Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde as equipes de fora de Rio e São Paulo têm muita força, as equipes provinciais não são tão fortes na Argentina. Mesmo em Rosário, é provável que o Boca tenha mais torcida que o Central ou o Newell’s. Aí, a barra brava leva jogadores do time a filiais no interior. Digamos, levam Riquelme a Luján, a 200 km de Buenos Aires. Montam um evento para mil pessoas, cobrando ingresso para quem quiser ver, tirar foto e pegar o autógrafo com o ídolo.

Era algo que o clube poderia explorar.

Sim, mas deixa para os barras bravas fazerem. É uma coisa muito grande. Para cada evento desses, faturam US$ 20 mil.

E quanto se pode ganhar com isso?

Mauro Martín, presidente de La Doce, não tem trabalho reconhecido. Já vi suas declarações de imposto de renda e ele alega que é instrutor de boxe em um clube. Ele nunca vai lá. E basta ver o nível de vida que ele tem para perceber que tem algo errado. Ele possui uma picape Honda nova, que custa uns US$ 150 mil na Argentina, um Mini Cooper e uma casa de dois andares, com campo oficial de futebol. Imagina o tamanho do terreno. E diz que é instrutor de boxe ou que trabalha no escritório de seu advogado, que é um dos mais famosos da Argentina.

Ele teria de ser instrutor de boxe do Manny Pacquiao.

Pois é. E ele faz tudo isso e não é pego. Por quê? Bem, ele é casado com a secretária particular do governador de Buenos Aires. O chefe da barra brava do Boca Juniors é casado com a secretária da segunda pessoa mais importante da Argentina. Então, ele pode fazer qualquer coisa que ninguém vai incomodar.

Nas equipes provinciais, acontece a mesma coisa?

Tudo o que eu conto com La Doce ocorre igual em todas as equipes da Argentina. Pelo menos, coisas da mesma natureza. A única diferença é o peso de cada torcida pelo volume que mexe de acordo com o tamanho do clube. Eu sou torcedor do Ferro Carril, um time pequeno que está na segunda divisão. Lá acontece a mesma coisa, mas em menor quantidade porque é uma equipe pequena. O chefe da torcida do Ferro também não tem trabalho, mas, ao invés de uma picape Honda e um Mini Cooper, tem um carro normal. Ao invés de uma casa com dois andares, tem um apartamento de 150 m². Mas a forma de organização é a mesma nos clubes.

Economicamente, a diferença entre o futebol brasileiro e o argentino está aumentando. Quanto o futebol argentino perde por não explorar tudo o que pode por repartir com as barras bravas?

É muito dinheiro que perdem. Mas os dirigentes não têm interesse em mudar. Os clubes são associações civis sem fins lucrativos. Se o clube abre falência, o dirigente vai embora e não é responsabilizado. Fora que eles também ganham uma parcela. É algo conjunto.

Como assim?

Um bom exemplo foi a venda do Higuaín ao Real Madrid. Foi uma operação fraudulenta. O que apareceu no balanço do River Plate foi muito menor do que o pago pelo Real. O Real disse que pagou € 14 milhões, mas o River registrou a entrada de € 9 milhões. O balanço só foi aprovado porque os dirigentes de oposição foram ameaçados de morte pela barra brava. Eles entraram no recinto onde era a votação e ameaçaram de morte se não votassem a favor. Era algo contra o caixa do clube. Os € 5 milhões de diferença entre os valores foram repartidos entre todos, com 10% para os Borrachos del Tablón.

Há barras bravas menores nos clubes, que brigam por “mercado” com as maiores?

Não. Não há concorrência de barras de um mesmo clube. Não é que existe La Doce e “La Fiel de Boca” brigando por espaço como barras bravas do Boca. Há uma só por clube, e os confrontos são por poder e negócios dentro de cada uma.

A polícia também tem participação no esquema das organizadas?

De várias formas. Na temporada passada, naquele jogo em que o River caiu contra o Belgrano, o placar estava empatado. Se terminasse assim, o River caía. No intervalo, os dirigentes e os policiais liberaram o acesso para 12 torcedores conhecidos da organizada do River descessem das arquibancadas, andassem internamente pelos corredores do Monumental de Núñez e chegassem aos vestiários do árbitro, onde o ameaçaram de morte. Se ele não marcasse um pênalti, seria morto. Bem, o pênalti foi marcado, mas o River o desperdiçou e acabou caindo mesmo. Insólito! O incrível é que esses torcedores tiveram apoio dos dirigentes e da chefia da polícia. Tive acesso ao vídeo e se vê claramente como os policiais orientam os torcedores por onde ir para chegar aos vestiários. E não acontece nada quando isso chega à Justiça. Isso aconteceu há um ano e ainda estão discutindo se o tal vídeo é uma prova válida ou não para o caso. E, claro, nada aconteceu com os responsáveis até agora. É conveniente para a polícia que a violência siga.

Conveniente como?

Ela tira vantagem da violência. Há dois anos, houve uma investigação grande que envolveu até a cúpula da divisão de esportes da polícia. Consegui provas de como eles combinavam com os torcedores para criar violência. Porque, se há violência, eles têm argumentos para pedir mais efetivo para a segurança nas partidas, um serviço cobrado dos clubes e da AFA. Cada policial recebe US$ 40 por partida trabalhada. Então, no jogo que teria 300 agentes eles pedem mil, alegando que a partida anterior teve diversos problemas. Mas ficou comprovado que não levam mil policiais. Levam 500 e embolsam o resto. O Congresso tomou a denúncia e demitiu diretores a polícia.

Há grupos políticos ou algum setor da sociedade que se coloquem contra os barras bravas?

Há uma ONG, que se chama “Salvemos al Fútbol”, que trabalha contra a violência no futebol. Mas não tem muito poder. Até organizam mobilizações, mas não são muito populares. Eles levam à Justiça as questões que eu apresento no jornal, mas é um grupo pequeno. Eu já falei que o único jeito de mudar o cenário atual é uma greve de torcedores, ninguém mais ir ao estádio. Se a TV mostrar um Boca x River com estádio vazio, só com mil torcedores organizados de cada lado, os políticos perceberão que está acontecendo algo muito grave. Mas os torcedores dizem que se pode fazer tudo, menos deixar de ir ao estádio. Na Argentina há movimentos de indignação quando morre alguém, mas depois passa.

O presidente do Independiente entrou em conflito com a barra brava do clube. Foi o único dirigente a tentar fazer isso?

Foi. O Independiente era completamente dominado pela barra brava. Ela tinha o passe dos jogadores, o campo de treino. O chefe da torcida era o diretor da ONG de torcedores que o governo armou. Então, começaram a ganhar muito dinheiro e muito poder. E o Independiente era um desastre sob o controle da organizada. Ninguém queria ir mais lá, era muita violência. Então, o Javier Cantero fez uma campanha dizendo que tiraria a barra se votassem nele e ganhou.

Ele está tendo sucesso?

Mais ou menos. Ele assumiu em dezembro de 2011 e tentou acertar as coisas com a torcida. Em março eu descobri que ele ainda dava alguns benefícios. Até entendo que não dá para cortar tudo pela raiz, mas aí tem de explicar isso a todos. Ele dava muito menos que antes, mas ainda dava algo para mantê-los tranquilos. Quando publiquei a reportagem, ele admitiu publicamente seu erro, disse que acreditava que era uma forma de manter a barra brava controlada e que passaria a combater seriamente a partir dali. E, quando começou a fazer isso, as coisas ficaram piores.

De que forma?

São suspeitas, porque os jogadores negam. Mas, desde que o Cantero cortou todos os benefícios dos barras bravas, a equipe estranhamente começou a perder uma partida atrás da outra. Perguntam aos jogadores se estão sendo ameaçados pela torcida, exigindo que entreguem o jogo para derrubar o presidente. Eles dizem que não, mas não dá para saber se é verdade. Hoje, o time está brigando para não cair. Quando começar a próxima temporada, o Independiente estará em posição de rebaixamento direto pela média de pontos das últimas temporadas. E é o único clube, ao lado do Boca, que nunca caiu para a segunda divisão.

Se os torcedores do Ferro concordassem em fazer uma greve contra a barra brava do clube, você participaria?

Claro! Porque é o que tem de ser feito para que isso fique explicitado. Quando eu escrevi umas matérias sobre a torcida do Ferro, o líder da torcida me perguntou porque eu o atacava: “Eu faço com que não roubem dentro do nosso bairro. Mandamos roubar fora”. Bem, não tem de roubar em lugar nenhum! São padrinhos da máfia, cada um em seu setor. É uma situação cada vez pior, porque a política, ao invés de combatê-los, os incluiu. A pessoa que gerencia o futebol do Ferro é uma figura muito importante do Partido Justicialista [peronista, partido do governo].

Como foi fazer a investigação de tudo isso, para ter acesso?

Tenho uma vantagem, que é trabalhar há 16 anos com esse tema. Conheço todas as partes envolvidas. Eu colaboro muito com a Justiça ou os advogados que trabalham nesse meio. No caso dos barras bravas que invadiram o vestiário do árbitro no River x Belgrano, a polícia só conhecia dois dos 12. Me chamaram para ver as imagens e identificar os demais. Com isso, acabei tendo acesso ao vídeo e tendo os nomes dos envolvidos. Muitas vezes, acabo tendo mais informações das leis supostamente violadas em um processo que os próprios advogados dos torcedores. Quando precisam de uma informação sobre o que está acontecendo, acabam me passando muita coisa também.

Como as pessoas viram seu livro?

Há três públicos diferentes. Um público é o torcedor normal que admira a barra brava. Na Argentina, um dos problemas é que o torcedor que vai ao estádio admira a torcida organizada e só repudia quando há violência forte. Aí, diz “não, não quero mais”. Depois, passa um tempo, eles voltam a dizer que a torcida é necessária, porque organizam a festa, as bandeiras. Esse público é muito importante e há muitos boquenses que dizem que “hoje, somos os únicos com um livro sobre sua torcida organizada”.

Viram seu livro como prova da grandeza do Boca?

Isso. Cada vez que o Boca é campeão, sai uma revista. E, agora, sai um livro sobre a torcida. Eles encaram La Doce como um livro sobre a história deles próprios, e não é. É sobre o grupo mafioso.

E quais os outros dois públicos do livro?

Outro tipo é o torcedor comum que repudia a torcida organizada. E dizem que o livro comprova o que eles sempre disseram: são máfias e é preciso eliminá-las. Até porque as relações das torcidas organizadas mostram como são as relações corruptas na Argentina como um todo. E há o grupo de barras bravas. No início, foi um pouco complicada a relação. Quando saiu o livro, reclamaram que haviam me dito coisas, contado os crimes que cometem, sem saber que sairia um livro sobre isso. Mas, depois, ficam orgulhosos porque saíram um livro sobre eles, com fotos deles. Então, sentem como reconhecimento.

Os barras bravas chegaram a ameaçá-lo?

Sim, mas eu trabalho no Grupo Clarín, o maior da Argentina. Ele tem muito poder. Quando há um problema sério, isso ajuda. E nunca tive um problema grave com os barras bravas. Se eles reclamam, eu digo que vou processá-los pelas ameaças e passa. O problema é quando houve investigações que esbarraram na polícia, no caso da fraude nos efetivos utilizados para fazer segurança nas partidas. E eu tenho mais medo da polícia do que dos barras bravas. Aí tive ameaças sérias.

O que fizeram?

Invadiram minha conta de e-mail, me telefonaram dizendo que horas eu deixava meus filhos na escola. No segundo dia em que isso aconteceu, fui falar com o presidente do Clarín. Ele ligou para o diretor geral da polícia e contou o que acontecia comigo. Disse que, se acontecesse algo comigo no dia seguinte, essa história seria a capa do jornal, com ataques diretos à cúpula da polícia. Não aconteceu mais nada. Mas isso só aconteceu porque trabalho no Clarín. Se trabalhasse em um veículo menor, não teria esse suporte.

Os barras bravas o conhecem. Por que contam os crimes que cometem?

Porque gostam de aparecer no jornal. Gostam de se mostrar. Outro dia, houve um julgamento contra várias figuras importantes de La Doce. Quando terminou o julgamento, 500 barras bravas fecharam a rua, no centro de Buenos Aires, para comemorar. Rafael Di Zeo, chefe de La Doce e barra brava mais popular da Argentina, se mostrava para fotos. Depois, me deu uma entrevista exclusiva porque eu cubro esse assunto sempre. Ele ainda ficou me perguntando se ia aparecer na capa do jornal! Não queria página interna.

Aqui no Brasil, muita gente acredita que a festa na arquibancada faz o torcedor comum ter alguma simpatia pelas organizadas, mas a violência é importante para atrair novos membros, sobretudo os mais jovens que querem alguma adrenalina e poder. Na Argentina, ser reconhecido como um criminoso que está acima do bem e do mal ajuda também a ter seguidores?

Sim, claro. Há muita gente que vêem nesses barras bravas exemplos de pessoas que começaram de baixo e estão ali no topo. Aí, imaginam que podem conseguir o mesmo. De qualquer modo, a festa no estádio também é importante porque transforma a questão da torcida em “folclore do futebol”, como se diz lá na Argentina. Mas eu acho que nenhum folclore pode ser admitido se uma pessoa morre por violência. E já foram 268 mortos. Não é festa nenhuma, é um funeral enorme.

Esqueça o estereótipo: Chelsea e PSG têm torcida de verdade, e já tiveram problemas por isso

Dois clubes são marcados pelos mecenas atuais, mas já foram famosos pela violência de seus torcedores

Narrativas simples são atraentes. Elas permitem desenhar facilmente um retrato, e se apegar a eles é fácil, mesmo que estejam longe da realidade. O duelo entre Paris Saint-Germain e Chelsea, que abre as oitavas de final da Champions League, é um exemplo bom. Para muitos, é o confronto entre dois clubes que só viraram força europeia por causa do dinheiro de milionários excêntricos e contam com uma torcida recente, pouco autêntica e que só foi atrás dos times azuis por causa dos títulos recentes.

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Bem, tente falar que os seguidores de Chelsea e PSG são “modinha” para os policiais londrinos e parisienses, sobretudo os das décadas de 1980. Mais que as fortunas de mecenas recentes, o que une a história desses clubes é a mistura de torcedores fanáticos de origens diferentes, e como isso ajudou a criar uma cultura de violência que virou referência (negativa) em seus países. Tanto que o confronto entre as equipes nas quartas de final da Champions já foi marcado por brigas nas ruas.

O atual líder do Campeonato Inglês é um dos times que mais sofre com a rotulação. No Brasil, há até quem diga que o clube era um São Caetano antes da chegada de Roman Abramovich. Não precisa ser um historiador de futebol britânico para saber que se trata de uma bobagem monumental, mas mesmo a imagem de “time de burgueses” que o Chelsea carrega não é inteiramente verdadeira.

De fato, o Chelsea tem esse nome devido ao sofisticado bairro londrino que fica próximo a Stamford Bridge. No entanto, o clube sempre foi um dos mais tradicionais de Londres – durante décadas, brigou com West Ham pelo posto de terceiro principal time de Londres, atrás de Arsenal e Tottenham – e acabou atraindo torcedores de várias áreas do sul da capital inglesa, incluindo regiões operárias como Battersea (famosa pela usina termelétrica que virou capa do álbum Animals do Pink Floyd) e Hammersmith.

Dessa mistura surgiu a Chelsea Headhunters, uma firm (espécie de torcida organizada comum na Inglaterra nas décadas de 1970 e 80) conhecida pela postura racista e violência. Ao lado dos grupos de West Ham e Millwall, estava entre as três torcidas mais temidas do futebol londrino. Além disso, os Headhunters ainda tinham aliança com outras organizações europeias com a mesma ideologia política, como as firms de Cardiff City e Rangers e os ultras de Lazio e Verona (da parceria das firms de Chelsea e Rangers surgiu o Glasgow Smile, também conhecido como Chelsea Smile. Se quiser ver como é, vai ao Google por sua conta e risco. Não vou linkar aqui porque é um negócio muito macabro).

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A torcida causava tantos problemas que Ken Bates, dono do clube, chegou a propor a construção de uma grade elétrica para impedir a invasão do gramado em Stamford Bridge. Claro que a ideia não foi para frente, e as ações dos Headhunters só tiveram redução significativa após as diversas medidas do governo e da liga inglesa para combater a violência nos estádios.

Medidas das autoridades também foram necessárias ao sul do Canal da Mancha. Durante anos, o Paris Saint-Germain e as autoridades francesas não sabiam como controlar o impulso dos torcedores fanáticos do principal clube parisiense.

A história é até estranha. Fundado em 1970 para ser o grande clube de Paris após a crise tirar do caminho várias equipes tradicionais, como Racing, Stade Français e Red Star, o PSG não tinha muitos torcedores. Soava como um time artificial, que não era realmente a preferência dos locais. A direção resolveu criar promoções de ingressos mais baratos, e funcionou. A população da periferia, com menos poder aquisitivo, teve condições de ir aos jogos, e uma cultura de torcida rapidamente se desenvolveu.

O problema foi o resultado disso. Grupos de extrema-direita formaram o Boulogne Boys, torcida com inspiração nas firms inglesas. Atos de violência se espalharam pelos jogos do PSG em Paris e pelo interior, sempre com um caráter de racismo e intolerância contra outras regiões do país. Em 2008, um membro dos Boulogne foi morto por um policial que tentava defender um torcedor do Hapoel Tel-Aviv que era atacado antes de uma partida da Copa da Uefa.

Até seguidores do PSG sofriam, e passaram a fugir do Parque dos Príncipes. Para combater esse domínio dos Boulogne Boys, o clube incentivou outro grupo importante de torcedores, os imigrantes da periferia de Paris, a formarem um contra-grupo. Assim surgiram os Supras Auteuil e os Tigris Mystic. A química entre as novas torcidas e a já estabelecida foi horrível desde o início, pois elas representavam tudo o que a anterior contestava.

Para a polícia francesa, mais difícil que proteger as torcidas visitantes dos ataques das organizadas do PSG era proteger uma organizada do PSG da outra. Houve vários ataques dos Boulogne Boys contra os Supras ou os Tigris, sempre com reações na mesma intensidade. Um líder dos Boulogne chegou a ser assassinado pelos Supras antes de uma partida contra o Olympique de Marseille (maior rival do PSG, o que já tornava aquela encontro como de alto risco).

A morte do líder do Boulogne marcou a dissolução do Supras Auteuil pela polícia francesa. A torcida de extrema-direita também não sobreviveu, sendo extinta após exibir faixas chamando os torcedors do Lens de “vagabundos pedófilos e incestuosos”.

As torcidas violentas de Chelsea e Paris Saint-Germain acabaram devido a seus próprios atos, mas os dois clubes foram para o extremo oposto nas arquibancadas, ainda mais depois da pasteurização causada pelas novas leis e pelo dinheiro milionário que chegou. Mas os clubes sabem que é preciso recuperar um pouco da paixão que se perdeu.

Os londrinos criaram a campanha Back to the Shed, incentivando um grupo de torcedores a recuperar o clima de Stamford Bridge pré-Premier League. Os parisienses lançaram a “Tous PSG”, que acabou com todas as organizadas do clube em favor de uma cultura antiviolência. Os grupos foram readmitidos posteriormente, mas sem resquícios dos Boulogne Boys e os Supras Auteuil.